Loveless
21 Capítulo 21 - ♫ Karakuri Burst ♪
"O que causou todo o mau
Não pode escapar, sabia disso?
Te perseguirei até o fim do mundo
Eu não deixarei sobrar nem poeira
Vou destruir, vou destruir!
Eu vou matar cada um
Atividades destrutivas são intermináveis
Suma , suma, suma todo o mau"
~~~~~X~~~~~X~~~~~
Na noite em que ocorreu o incêndio que destruiu o circo, Len ficara vários minutos chorando desolado nos braços de Gakupo, e só depois que o loiro enfim conseguiu se recompor, os dois retornaram para a mansão. Na manhã seguinte, Len parecia ter retornado ao normal, ou, pelo menos, o que era normal para ele. Continuava com seu jeito meio lento e o rosto inexpressivo de sempre, embora ainda parecesse meio abatido. Gakupo ainda estava bastante preocupado com ele, e passara a manhã inteira tentando pensar em um jeito de falar com o loiro sobre aquilo de modo que não o magoasse nem o deixasse triste novamente, e que ao mesmo ele entendesse logo aonde ele queria chegar, quando uma inesperada visita apareceu:
— Bom dia... eu vim ver o Duque de Poupre. Ele está? — uma moça de cabelos curtos e esverdeados indagou quando Len atendeu a porta
— Sim... a senhorita é...?
— Ah, eu me chamo Gumi — ela apressou-se à dizer
— Eu sei quem a senhorita é — Len respondeu — É a moça do circo de ontem, não é?
— Ah sim, você estava lá... sim, sou eu mesma — ela confirmou forçando um sorriso. Ainda estava bastante abalada com o incêndio da noite anterior, mas esforçava-se para parecer bem, apenas para manter as aparências
— Então, entre por favor, Gumi-sama. Eu vou chamar o Mestre Gakupo — o mais novo a conduziu até a sala de estar, fez um gesto para que ela se sentasse, e seguiu pelo corredor sozinho, desaparecendo em uma curva. Segundos depois, retornou, com Gakupo em seu encalço
— Gumi-san, que surpresa! — Gakupo exclamou, parecendo realmente chocado em vê-la em sua casa — Depois do que aconteceu ontem, pensei que não a veria nem tão cedo... você está bem?
— Mais ou menos... só tive alguns arranhões, mas, como pode ver, consegui escapar com vida — ela respondeu com um sorriso triste. Realmente, haviam alguns arranhões nas mãos e um fino corte em uma de suas bochechas, mas nada muito grave — Porém, infelizmente, nem todos tiveram a mesma sorte que eu... a maioria das pessoas que faziam parte da trupe morreram, e ainda restam alguns feridos... pouca gente conseguiu escapar ileso. Sem falar que, parece que alguns dos espectadores também acabaram morrendo... foi uma verdadeira tragédia o que aconteceu
— Eu sinto muito, Gumi-san... deve ter sido terrível pra você perder seus companheiros desse jeito, em um acidente tão terrível — Gakupo lamentou, sem saber muito bem o que dizer
— Com certeza foi terrível, mas... — ela fez uma pausa, e olhou para Len de esguelha, que ainda os observava em silêncio em um canto da sala — Bem... V-Vossa Excelência, pra falar a verdade, o motivo de eu ter vindo aqui hoje é porque preciso lhe dizer algo muito importante, então... s-será que o senhor se importaria se conversássemos à sós?
— Hã? — Gakupo piscou, confuso, e só alguns segundos depois percebeu que ela estava falando de Len — Ah... é claro, tudo bem. Len, poderia trazer um pouco de chá pra nós, por favor? E biscoitos também
— Claro... como quiser, Mestre — Len respondeu prontamente, e se dirigiu à cozinha, andando mais lentamente do que o normal, já que realmente gostaria de ouvir por que raios aquela garota tinha ido visitar Gakupo. Quando o loiro desapareceu de vista, ela continuou
— Perdoe-me por isso, Vossa Excelência, mas creio que seria realente problemático se eu falasse na frente dele...
— Não se preocupe — ele se apressou a dizer — Então? O que você queria tanto me dizer que não podia falar na frente do Len?
— Bom... a verdade é que, por mais terrível que tenha sido aquele incêndio... ele, infelizmente, não foi um acidente
— Como assim?
— O incêndio de ontem, que acabou com a vida da maior parte de meus companheiros, e de alguns habitantes deste reino, foi causado de propósito — Gumi revelou — Enquanto os palhaços estavam apresentando seu número, eu estava parada de pé no canto do palco, aguardando para anunciar a próxima atração, e vi um dos homens da platéia descer furtivamente e ficar parado de pé em um canto mais afastado e escuro, onde ninguém poderia vê-lo. Realmente nenhum dos demais espectadores pareceu notá-lo, já que estavam todos entretidos com o show dos palhaços, mas eu, que estava no palco, pude vê-lo muito bem. O homem sabotou o equipamento que o engolidor de fogo deveria usar em sua apresentação, aumentando deliberadamente sua potência, o que causou uma quantidade de fogo muito maior do que a produzida normalmente, fazendo com que o engolidor de fogo literalmente pegasse chamas. Ele entrou em pânico com isso, é claro, e começou a correr de um lado para o outro, desesperado, o que só fez o fogo se alastrar mais depressa, provocando o incêndio
— Gumi-san... se o que você está dizendo é verdade, então esse homem deve ser levado às autoridades imediatamente! Ele é um assassino, e matou várias pessoas ontem á noite! — Gakupo exclamou alarmado — Quem era o homem afinal? Acha que poderia reconhecê-lo?
— Com certeza posso reconhecê-lo, mas não creio que isso seja necessário, eu sei perfeitamente quem ele era... ele é o Conde de Bleu
— O que...?! — Gakupo pôs-se de pé, chocado.
Não podia acreditar no que a garota estava lhe dizendo... então o causador da morte de todas aquelas pessoas era Kaito?! Ele sabia que o Conde nunca foi uma pessoa íntegra, mas... daí a ser um assassino? Seria verdade mesmo?!
Nesse momento, Len retornou à sala, trazendo uma bandeja com um bule de chá, duas xícaras, um açucareiro e um prato com biscoitos caseiros. Olhou de Gakupo para Gumi, estranhando o silêncio dos dois, e levemente curioso sobre do que eles estariam falando antes dele entrar. Depositou com cuidado a bandeja na mesa, fez uma mesura e se retirou, voltando para a cozinha.
— Vossa Excelência — Gumi chamou depois que o loiro saiu, despertando o Duque de seus pensamentos — Aquele garoto que acabou de trazer o chá... ele é o mesmo menino que foi "adotado" pelo Conde de Bleu alguns anos atrás, não é?
— Ah... s-sim, é ele mesmo — Gakupo confirmou, ainda meio perdido em seus pensamentos
— Eu estava nas redondezas, durante a turnê de uma apresentação de dança quando aconteceu aquele incêndio terrível que acabou com o Clã Kagamine, e quando as duas únicas crianças sobreviventes foram adotadas por famílias diferentes. E... b-bem, acabei ouvindo os comentários sobre as verdadeiras intenções do Conde ao se apoderar da guarda daquela criança. Não me interessa saber como foi que aquele garoto conseguiu escapar das mãos do Conde e acabou vindo trabalhar aqui na sua mansão, mas... eu creio que o Conde de Bleu fez aquilo numa tentativa de causar uma confusão para distrair as várias pessoas presentes, e assim, pegar o garoto de volta pra ele. Acredito que minha teoria esteja correta, até porque... bem... — ela fez uma pausa, parecendo repentinamente embaraçada com alguma coisa — Etto... b-bem, enquanto eu fugia e corria pra longe do incêndio, avistei aquele garoto ao longe, e vi ele junto com o Conde. Eles estavam meio longe, e talvez eu tenha me enganado, mas.... me pareceu que o Conde de Bleu estava tentando levá-lo com ele. Depois, vi o senhor chegando, e afastando o garoto dele... então concluí que o menino ficaria bem, e fui embora
— Entendo... infelizmente, creio que você esteja coberta de razão, Gumi-san — Gakupo suspirou pesadamente, voltando a se sentar. Serviu-se de um pouco de chá, e fez um gesto para que ela fizesse o mesmo. A garota hesitou um pouco, mas pegou um biscoito, dando uma mordida — O Conde de fato queria levar o Len embora, ele mesmo confirmou isso. Mas, nunca imaginei que ele chegaria ao ponto de provocar um incêndio, e tirar a vida de tantas pessoas apenas como uma distração para roubá-lo de volta... isso é completamente revoltante! E um crime gravíssimo também, aquele homem precisa ser preso!
— Concordo com Vossa Excelência, porém, infelizmente, acredito que seja bem difícil fazê-lo. Não há prova nenhuma de que o Conde de Bleu foi o culpado pelo incêndio afinal — a garota respondeu tristemente, terminando de comer o biscoito
— Como assim não há provas?! Talvez, não provas concretas, mas há testemunhas! Você mesma acabou de dizer que viu ele fazendo isso! — o Duque exclamou, apontando para a garota diante dele
— Vossa Excelência... creio que não tenha compreendido a situação. Eu sei o que vi, e sei que é a verdade, mas... francamente, se eu o denunciasse às autoridades, o senhor realmente acha que algum juíz acreditaria na palavra de uma mera artista de rua do que na palavra de um Conde? Ele certamente negaria tudo, e talvez até desse um jeito de distorcer a história. Seria a palavra de um membro da nobreza contra a de uma mera viajante sem título algum, e uma mulher. Um Conde importante como ele jamais seria preso por causa disso, e eu muito provavelmente, acabaria ou presa ou morta por difamação contra um nobre ou coisa parecida. Eu fui a única que viu aquilo acontecer, já perguntei aos outros sobreviventes da trupe sobre isso, e nenhum deles viu como o incêndio começou. Se mais alguém além de mim viu isso, morreu no incêndio, o que não nos adianta de nada. Creio que, por mais injusto que seja, o Conde de Bleu acabará escapando impune de tudo isso
— Não.... não pode ser! — Gakupo levantou-se novamente, inconformado. Não podia acreditar que Kaito tinha causado toda aquela tragédia e escaparia impune disso... porém, por mais indignação que sentisse naquele momento, no fundo sabia que Gumi tinha razão. Entre um nobre e uma artista de rua, ninguém acreditaria na mulher afinal — Aquele homem é um monstro! Essa não é nem a primeira barbaridade que ele faz, o Conde já cometeu várias atrocidades antes! Como o que ele fez com o Len, por exemplo! Ele abusou daquele garoto durante cinco anos e ninguém fez nada, e agora matou esse monte de gente inocente apenas para poder ter o Len de volta e voltar a se aproveitar dele... ele precisa ser preso imediatamente!! — ele gritou, completamente inconformado, andando de um lado para o outro nervosamente — Não acredito que ele vai escapar impune outra vez... isso é tão injusto!!
— Vossa Excelência... o motivo de eu estar contando isso ao senhor é porque, simplesmente, fiquei preocupada que o menino fosse levado pelo Conde novamente e acabasse sofrendo nas mãos dele de novo — Gumi confessou, com uma xícara de chá nas mãos — Se o Conde de Bleu causou aquele incêndio apenas para tê-lo de volta, então tenha certeza de que ele não vai parar por aí. Ele vai tentar de novo, e não vai parar até conseguir ter aquele garoto de volta, ou até alguém conseguir detê-lo. Como já expliquei ao senhor, por mais que eu queira, não posso denunciá-lo, já que ninguém acreditaria em mim, e eu acabaria sendo punida por fazer tal acusação à um nobre. Mas, já que o senhor acreditou nas minhas palavras, e concorda comigo... então é melhor que se prepare — ela avisou, séria — Ao que parece, o senhor é o novo Mestre daquele garoto agora... talvez... t-talvez muito mais do que apenas "Mestre" dele...
— O que? — Gakupo parou de andar de um lado para o outro e virou-se bruscamente para ela, interrompendo-a — O que está insinuando??
— Err... etto... m-mil perdões se eu estiver enganada, mas... bem.. — ela largou a xícara e torceu as mãos, entre nervosa, embaraçada e assustada — B-Bem, como eu disse anteriormente, vi quando o senhor afastou o garoto do Conde... e vi também quando ele o abraçou. R-Realmente peço mil desculpas se eu estiver interpretando mal o que vi, mas... me pareceu... q-que vocês se g-gostam...
— Gumi-san... — Gakupo começou a falar em choque, mas foi interrompido
— Por favor, peço mil desculpas se eu tiver entendido mal! — ela se apressou a dizer, pondo-se de pé, e fazendo uma longa reverência — Mas, sinceramente, não quero saber se isto é ou não verdade, não é da minha conta afinal. Porém, se eu estiver correta... então é melhor que o senhor se prepare, e depressa, e que proteja a pessoa que o senhor gosta... porque, se o Conde provocou aquela tragédia apenas para ter o garoto de volta, então pode ter certeza de que ele não vai desistir até conseguir o que quer, e vai tentar levá-lo embora novamente. E, se eu estiver enganada... bem, peço desculpas novamente pelo equívoco, mas creio que o senhor deva se preparar para protegê-lo assim mesmo... afinal, o senhor é o Mestre dele agora, não é?
— Sim... obrigado pelo aviso, Gumi-san — Gakupo agradeceu depois de vários segundos em silêncio
— Imagine... se não posso denunciar o homem que matou a maior parte de meus companheiros, queria apenas garantir que ao menos aquele menino não voltasse para as mãos de alguém tão cruel — ela respondeu, sorrindo fracamente — Mas, sobre o que eu disse antes...
— Ah, aquilo... b-bem, na verdade...
— Por favor, não me dê explicações! Realmente não me interessa saber se isso é ou não verdade! — ela exclamou nervosa, tampando os ouvidos com as mãos. Ainda estava um tanto abalada, e parecia temer acabar testemunhando algum outro fato de importante gravidade. Acalmou-se depois de alguns segundos, e depois de destampar os ouvidos, continuou — Etto... s-sendo verdade ou não, o fato é que... enquanto eu vinha pra cá, ouvi algumas pessoas nas ruas conversando... e parece que não fui a única que viu quando o garoto o abraçou. E algumas pessoas estão comentando coisas desagradáveis sobre o senhor... parece que começou a surgir um boato de que o senhor... bem... e-está fazendo com ele a mesma c-coisa que o Conde fazia antes... ou algo assim. Então... eu sugiro que o senhor tome mais cuidado, e... bem, realmente não posso fazer nada quanto à isso, mas achei que o senhor deveria saber
— Entendo... — Gakupo murmurou depois de alguns minutos — Muito obrigado pelo aviso, Gumi-san. De verdade
— Imagine... — ela sussurrou, parecendo terrivelmente embaraçada em ter que falar de um assunto tão delicado e constrangedor — Então, bem... a-acho que vou andando agora. Preciso ajudar a cuidar dos feridos que sobreviveram ao incêndio
— Você ainda vai ficar na cidade?
— Só por mais alguns dias... até que os feridos tenham se recuperado o suficiente para podermos viajar — ela respondeu, um pouco mais calma — Depois disso, daremos continuidade à viagem, e seguiremos para o Reino de Blanc
— Ah, tenho certeza de que Sua Majestade apreciará muito o espetáculo de vocês — Gakupo forçou um sorriso, tanto por educação quanto para tentar acalmá-la e reconfortá-la de alguma forma — Mais uma vez, muito obrigado pelo aviso. E pode deixar que tomarei todas as providências necessárias pra que isso não aconteça de novo
— Fico feliz em ouvir isso — ela sorriu fracamente — Então, até breve, Vossa Excelência.
Ela vez mais uma reverência, e partiu logo depois. Gakupo retornou lentamente até o sofá e sentou-se, perdido em pensamentos. Se Gumi estava correta, então a situação era realmente preocupante. Se Kaito chegou ao cúmulo de assassinar tantas pessoas inocentes, não descansaria até conseguir pôr as mãos em Len de novo. E, ainda por cima, mais pessoas viram quando Len o abraçou... ele tinha certeza de que Gumi não contara e nem pretendia contar sobre isso para ninguém, já que ela parecia apavorada demais para contar o que quer que fosse para outra pessoa, temendo acabar sendo punida por fazer acusações tão graves contra um nobre. Não podia culpá-la, a garota era de fato uma artista famosa, mas não possuía nenhum título de nobreza, era natural que estivesse mais preocupada em salvar o próprio pescoço. Ainda estava revoltado que outras pessoas tivessem visto quando Len o abraçou, mas que não tenham notado que Kaito foi o causador do incêndio, Gakupo tentava pensar em um modo de negar aquilo... mas não lhe ocorria absolutamente nada. Se começasse a correr pelo reino o boato de que ele estava abusando de Len, como Kaito fazia antes, não seria ruim apenas para sua reputação, mas poderia também acabar causando sua prisão, já que, tecnicamente, ele tinha uma noiva. Ele passou o resto do dia tentando, sem sucesso, arranjar uma solução para aqueles preocupantes problemas trazidos por Gumi, e ficou tão preocupado pensando nisso, que se esqueceu de falar com Len sobre o que ocorreu na noite passada.
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