Loveless
11 Capítulo 11 - ♫ Brilliant Diamond ♪
"A única coisa para a qual eu não posso dar forma
Você cintila mais brilhante do que um diamante
Mas seus braços são tão quebradiços e frágeis.
Eu vou, eu vou... proteger...!
Sua pele, seu cabelo, seu peito, seus olhos
Eu vou suportar a dor no meu coração
E estender minha mão para você"
~~~~~X~~~~~X~~~~~
Na manhã seguinte, Gakupo foi até a casa de Rin, numa tentativa de acabar de vez com todas aquelas suspeitas de tantas pessoas sobre suas verdadeiras intenções de ter comprado Len no leilão. Mas parece que não seria tão fácil como o Duque queria.
— Mas por que não, Rin-chan?! — o homem exclamava inconformado
— Eu realmente sinto muito Vossa Excelência — a loira respondeu, parecendo sincera — Mas não possuo todo o dinheiro para pagar ao senhor ainda, e gostaria de contar a verdade ao Len apenas quando eu puder libertá-lo de uma vez. Sem falar que... ele deve estar morrendo de raiva de mim depois do que passou por minha causa... eu tenho medo da reação dele se souber disso
— Eu já te falei, não foi? Aquele garoto não parece ser capaz de sentir nada há muito tempo — Gakupo lembrou — Por isso não há possibilidade de ele te odiar se ele se tornou desprovido de emoções. Além do mais, foi ele mesmo quem sugeriu trocar de lugar com você pra te proteger, não foi? Então, se é assim, não há porque ele ter raiva de você
— M-Mas... e-ele pode ter se arrependido da troca... — Rin murmurou, temerosa
— Ele nunca me pareceu arrependido — o Duque respondeu — Além do mais, isso já está começando a me causar problemas também. Não apenas minha noiva Luka, como até o próprio Len, andam pensando que eu comprei ele para... ahn... p-pelo mesmo motivo pelo qual o Conde o acolheu
— O que?! Mas isso é impossível, o senhor é um dos homens mais decentes que eu conheço! — a garota exclamou incrédula
— Fico feliz que alguém ainda pense assim, mas parece que a Luka e o Len não têm a mesma opinião que você. E eu aposto como eles não são os únicos
— Mas eu... pensei que o senhor não gostava da sua noiva... — Rin lembrou
— É verdade, não gosto. Mas nem por isso quero que ela pense que sou algum cafajeste aproveitador de garotinhos! — o mais velho rebateu — Se não quer que eu conte a verdade ao seu irmão, então é melhor reunir um milhão de yenes, e rápido, pra poder comprar o garoto de volta e eu ficar livre disso. Quanto você juntou até agora?
— Cinquenta mil
— Só isso?! — o homem exclamou, pondo-se de pé — É muito pouco Rin-chan, ainda faltam 950000 mil yenes! Desse jeito vai levar uma eternidade até você juntar o dinheiro todo!
— E-Eu sinto muito... — a garota gaguejou nervosa — Vendi a maior parte das minhas jóias pra conseguir o dinheiro, mas só consegui esse valor até agora... n-não posso vender muitos dos meus pertences ou meus pais podem acabar dando falta deles e descobrindo sobre isso... e-eu realmente lamento que esteja demorando tanto, Vossa Excelência, mas vou pagar cada centavo que devo ao senhor, eu juro!!
— Não precisa falar assim, Rin-chan... eu sei que você está se esforçando pra conseguir o dinheiro — Gakupo suspirou, tentando se acalmar. Sabia que não havia como uma garota de 14 anos arranjar tanto dinheiro de uma só vez, e entendia o lado dela, mas aquilo não resolvia sua situação — O problema é que isso pode acabar me prejudicando. Pode levar o tempo que precisar pra juntar o dinheiro, mas se você ao menos me deixasse contar a verdade...
— Não!! — a loira interrompeu, colocando-se de pé também — P-Por favor, não. Tentarei dar um jeito de juntar o dinheiro o mais depressa possível... mas por favor, não conte a verdade ao Len. Eu... gostaria de falar com ele pessoalmente sobre isso um dia... m-mas ainda não me sinto preparada pra isso. Se eu ouvir alguém falando sobre essas... c-coisas ruins sobre o senhor, prometo que vou desmentir na hora. Mas, por favor, me dê mais algum tempo, Vossa Excelência!
— Aff... como eu poderia dizer "não" pra esse rostinho fofo? — Gakupo suspirou outra vez, derrotado. Rin parecia estar à beira das lágrimas, e realmente não lhe agradava a idéia de fazer uma garota chorar. Porém, acima de tudo, o rosto dela... era idêntico ao rosto de Len. E ele não seria capaz de deixar aquele rosto triste — Está bem, Rin-chan, te darei mais um tempo. Mas faça o favor de se apressar, ouviu?
— H-Hai! Muito obrigada, de verdade, Vossa Excelência! — um sorriso iluminou o rosto de Rin, embora seus olhos ainda estivessem marejados.
Vendo que sua visita não tinha obtido os resultados desejados, Gakupo se retirou, pensando se haveria algum outro jeito de tirar aquelas suspeitas de cima dele sem precisar contar sobre seu acordo com Rin. Porém, antes que chegasse a alguma outra conclusão, sua mente teve a atenção desviada para a pessoa diante dele. Do outro lado da rua, em uma carruagem estacionada e no momento sem o cocheiro, encontrava-se ninguém mais ninguém menos do que o antigo dono de Len, o Conde Shion Kaito. Gakupo paralisou diante daquele homem, dividido entre a vontade de socá-lo por todas as crueldades que tinha feito Len sofrer, seguir a educação que deveria demonstrar como um nobre e apenas cumprimentá-lo, ou passar direto e fingir que não o viu, mas antes que pudesse se decidir, Kaito virou o rosto na direção da janela e o viu. Piscou, surpreso também, porém logo abriu um cordial sorriso, que pretendia ser simpático, mas que estava cheio de sarcasmo.
— Ora, se não é o Duque de Pourpre. Há quanto tempo não o vejo, Vossa Excelência — Kaito cumprimentou, como se fosse um velho amigo. Ele e Gakupo nunca se falaram muito, e o Duque nunca foi muito com a cara dele, mas ainda era obrigado a pelo menos cumprimentá-lo, e o via de vez em quando em festas sociais, ainda que o Conde não andasse comparecendo à elas ultimamente
— Bom dia, Vossa Graça — Gakupo respondeu, tentando forçar um sorriso — Realmente faz tempo. Como tem passado?
— Com alguns probleminhas, como deve saber... mas estou me recuperando aos poucos — Kaito alargou o sorriso, parecendo confiante demais pra alguém que estava praticamente falido — Mas parece que faz uma eternidade desde que não o vejo! Desde o leilão, se não me engano, não é?
— Precisamente — o outro confirmou
— Ah, então é isso... parece que faz uma eternidade porque não o vi mais depois daquela noite — Kaito concluiu, falando mais consigo mesmo do que com o Duque — E como ele está? Foi Vossa Excelência que comprou o Len naquela noite, se bem me lembro
— Ele está exatamente como naquela noite... com o mesmo rosto inexpressivo, incapaz de demonstrar qualquer emoção ou vontade própria — o mais alto respondeu, infelizmente sendo sincero dessa vez
— Bom saber, deu muito trabalho para fazê-lo parar de apresentar resistência, sabe — Kaito comentou, como se estivesse falando de um cachorro que estava treinando ou coisa parecida — E então? Tem se divertido com ele? — ele encarou o maior, arqueando uma sobrancelha, seu sorriso sarcástico tornando-se repentinamente indecente
— Não sei o que o senhor pensa que significa "se divertir", mas eu não fiz com ele as mesmas coisas que Vossa Graça fazia, se é o que quer saber. O Len tem realizado apenas tarefas domésticas e trabalha como meu mordomo agora, é só isso — Gakupo respondeu irritado, tentando conter a vontade de quebrar o nariz daquele homem horrível
— Ah, sério?! — o Conde pareceu realmente surpreso — Que desperdício, ter uma coisinha fofa como aquela em suas mãos e nem "brincar" com ele... bem, mas é melhor assim. É bom saber que ele não será tocado por nenhuma outra pessoa enquanto estiver longe de mim
— "Enquanto estiver"? — Gakupo repetiu, erguendo uma sobrancelha
— Isso mesmo. Eu vou me reerguer e recuperar minha fortuna, e quando fizer isso, saiba que vou comprá-lo de volta, Duque — Kaito respondeu, com um perigoso brilho nos olhos
— Lamento frustrar seus planos, mas eu não pretendo vender o Len de volta para o senhor. Receio que terá que encontrar um novo passatempo, Vossa Graça, porque aquele garoto não vai voltar para as suas mãos — Gakupo respondeu, cerrando os punhos com força, lutando pra controlar a raiva e indignação que sentia ao ouvir aquelas palavras
— É, eu realmente pensei em fazer isso — Kaito admitiu com uma tranquilidade impressionante, ignorando as palavras de Gakupo. Olhou então para a mansão da qual Gakupo tinha acabado de sair, o lugar onde agora Rin morava — Essa mansão... é onde a irmã dele está vivendo agora, não é? Sabe, o meu objetivo inicial era realmente ficar com a menina Rin... mas o Len foi esperto e sugeriu aquela troca no último instante, tirando a irmã dele das minhas mãos
— Eu sei disso. Todas as pessoas no reino conhecem essa história, na verdade — Gakupo lembrou
— Pois é. Depois que perdi o Len, o meu acordo com ele de não tocar na irmã dele enquanto ele pudesse tomar o lugar dela e me satisfazer se desfez, então eu pensei em procurar a menina para substituí-lo. Mas, como pensei, não é tão fácil botar as mãos na filha de um Barão afinal. E, mesmo que eu conseguisse... ela não é o Len — Kaito suspirou, seu sorriso de desfazendo — Acabei perdendo a vontade de ter a Rin depois dos cinco anos que passei com o irmão dela. Por isso, já vou lhe avisando, senhor Duque: Vá se preparado e faça o seu preço, porque eu vou comprar o Len de volta, não importa o quanto custar!
— Então eu vou aproveitar para lhe dar o meu aviso também, Vossa Graça: Trate de arranjar outro passatempo, porque eu não vou vender aquele menino de volta para o senhor, nem que me ofereça todos os seus bens em troca! — Gakupo respondeu, encarando-o do alto, os orbes roxos brilhando de fúria e determinação, que também podiam ser vistas nos olhos azuis de Kaito. O Conde pareceu ficar realmente furioso ao ouvir aquilo, e já ia sair da carruagem, parecendo disposto até a brigar com ele (coisa que Gakupo adoraria, já que estava louco de vontade de bater em Kaito), quando seu cocheiro retornou antes mesmo que ele abrisse a porta, trazendo duas sacolas de compras nas mãos
— Perdão pela demora, Mestre Kaito, mas o mercado estava lotado — o homem desculpou-se, fazendo uma breve reverência. Em seguida notou Gakupo parado ao lado da carruagem — Ora, se não é Vossa Excelência, o Duque Gakupo! Muito bom dia, é uma honra revê-lo, senhor! — ele se curvou para Gakupo também, sorrindo, alheio à tensão entre os dois nobres. Era um homem idoso e gentil, e não parecia ter conhecimento do monstro que era seu Mestre
— Sim... bom dia — o Duque respondeu, forçando um sorriso, não querendo descontar sua raiva no pobre idoso que não tinha culpa do Mestre que tinha — Vá me desculpar, mas eu preciso ir andando. Até mais, Vossa Graça — Gakupo saiu andando com pressa antes mesmo que Kaito pudesse responder. Alguns segundos depois ele olhou para trás à tempo de ver o cocheiro subindo na carruagem e atiçando os cavalos, que correram na direção contrária.
Gakupo suspirou, mais irritado do que já se sentiu em toda a vida. Como aquele homem tinha a coragem de dizer tais coisas?! Falar na cara dele que pretendia comprar Len de volta para continuar abusando do coitado... como ele conseguia dizer coisas tão horrendas com aquele sorriso cínico estampado na cara, como se não fosse nada de mais?! Gakupo nunca entendeu o modo de pensar do Conde, e também nunca simpatizou muito com ele, e não era agora que ia começar a fazer isso. Na verdade aquela conversa só o fez sentir um profundo ódio pelo Conde de Bleu. Como ele poderia entregar Len para uma pessoa sem coração como essa, que tinha acabado de admitir que pretendia fazer as mesmas atrocidades de antes com o garoto?! Len já era naturalmente frágil e indefeso, e tinha uma aparência tão delicada, como Kaito podia ter coragem de fazer mal à alguém como ele?! E pior, ele ainda tinha confessado que pretendera se apossar de Rin para substituí-lo. Era uma verdadeira sorte que a garota tivesse sido adotada por um nobre, tornando difícil a aproximação com ela, mas talvez fosse melhor Gakupo avisar o Barão sobre isso, pra que nada de mal acontecesse com a garota também. O Duque ainda estava morrendo de raiva, o que não permitia que ele pensasse com clareza, mas a única coisa da qual tinha certeza era que não podia vender Len de volta para Kaito de jeito nenhum. Não... era mais do que isso. Ele não podia vender Len de volta pra Kaito, não apenas por ele ser um cafajeste, mas também porque já tinha prometido vendê-lo para Rin, mas... no fundo, ele também não queria ter que vendê-lo para a garota. Sabia que desde o início teria que vender Len de volta para a irmã, mas tinha se acostumado tanto com a presença do garoto que não podia mais imaginar seus dias sem ele. Não conseguia nem saber como tinha conseguido viver até hoje sem Len. Era tão triste ver um garoto tão jovem com ele tão sem vida, sem vontade própria, sem sentimentos nem esperanças para o futuro, que Gakupo queria poder fazer alguma coisa por ele. Queria poder devolver os sentimentos perdidos de Len, poder ajudá-lo... queria protegê-lo. Sim, era isso... ele queria poder proteger Len de tudo e de todos, para que nenhuma pessoa sem escrúpulos como Kaito pudesse fazer mal à ele. Mas, porque o Duque tinha esse desejo tão forte de proteger alguém que era apenas seu mordomo... Gakupo ainda não sabia.
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