Loveless

36 Capítulo 36 - ♫ Dear ♪


"A sua voz ecoa dentro da minha cabeça
E ainda consegue mexer com o meu coração
Dentro das minhas memórias você está sempre
Sorrindo gentilmente
Naquele dia, enquanto voltávamos para casa
Nós rimos e ficamos de mãos dadas
Eu pensei que aquele tempo iria
Durar para sempre"

~~~~~X~~~~~X~~~~~

Em um lugar bastante afastado do reino, onde não havia residências ou mercados, e que estaria completamente deserto se não fosse pela prisão repleta de soldados que guardavam os criminosos mais famosos do lugar e, próximo à ela, um hospital onde estavam internadas as pessoas consideradas insanas, uma rara visitante apareceu neste último local.


Ela conversou por um instante com uma atendente, que lhe informou os dias corretos de visita, os horários e quanto tempo ela poderia ficar lá, e logo depois um guarda conduziu a visitante até um quarto mais afastado, no fim de um corredor todo branco. O guarda avisou que ela só poderia ficar durante vinte minutos, e que, se tivesse qualquer problema ou se o paciente ficasse agressivo, era só ela chamar que o guarda estaria do lado de fora. Ele destrancou os cadeados e abriu a porta, dando espaço para a moça entrar, fechando a porta logo em seguida.


Dentro do pequeno cômodo, que tinha as paredes inteiramente brancas, havia apenas uma cama pequena, com lençóis, travesseiros e uma coberta dobrada em um canto, todos brancos como a neve, e nela estava sentado um homem com roupas simples, também brancas. Como sua pele tinha se tornado extremamente pálida devido ao longo tempo em que passara trancado ali, sem ver a luz do sol, tudo naquele quarto pareceria inteiramente branco, exceto pelos cabelos azulados e despenteados do paciente. Ao ouvir o barulho da ponta, ergueu minimamente os olhos, também azuis como safira e um tanto inexpressivos, e falou ao reconhecer a visitante:


— A senhorita de novo, Viscondessa de Vert? Quase todos os dias a senhorita tem aparecido por aqui...
— Boa tarde, Kaito-kun — Miku sorriu para ele, ignorando o comentário do homem — Será que eu posso me sentar ao seu lado?
— Suponho que sim... — ele baixou o rosto novamente e chegou para o lado,dando espaço para a garota sentar — Então, o que veio fazer aqui dessa vez?
— Não é óbvio? Vim ver como você está, é claro
— Eu estou trancado em um hospício há nem sei mais quanto tempo, como acha que eu estou? — ele falou com sarcasmo na voz e, sem dar tempo para a garota responder, continuou — A senhorita vai acabar prejudicando sua reputação se continuar me visitando com tanta frequência, Viscondessa... eu fui considerado louco, e por isso estou trancado aqui, esqueceu?
— Não se preocupe, ninguém sabe que eu venho até aqui — Miku respondeu calmamente — Além do mais, eu já tenho fama por todo o reino de ser irritante e escandalosa... acho que um pouco de loucura não faria tão mal assim — ela acrescentou, rindo
— Por que continua me visitando afinal? — ele indagou, encarando-a nos olhos pela primeira vez — Sabe que eu tenho uma péssima fama. Provavelmente sou a pessoa com a pior reputação em todo o reino. Sabe que a maioria das pessoas me consideram um monstro, e com razão. A senhorita sabe as coisas que eu fiz, e porque vim parar aqui, todo o reino sabe disso. Mesmo assim, por que ainda insiste em me visitar, Viscondessa?
— Porque... apesar disso tudo, você quase se tornou meu noivo quando éramos pequenos — dessa vez foi a vez de Miku desviar os olhos dele e abaixar o rosto numa tentativa de esconder o leve rubor que se apossava dele — Você foi a pessoa que chegou mais perto de se tornar meu futuro marido. Isso só não aconteceu porque nossos pais discutiram no final, e desistiram do noivado, mas... se eles não tivessem brigado, eu... p-poderia ser sua noiva agora
— Isso aconteceu há muito tempo, Viscondessa, quando ainda éramos crianças. Já faz mais de dez anos, e muita coisa aconteceu com nós dois depois disso. Meus pais morreram, e depois, os seus... a senhorita se tornou a melhor amiga do Duque de Pourpre, e eu me apossei de um dos gêmeos Kagamine, e fiz aquelas coisas todas... até que vim parar aqui. Por que a senhorita ainda insiste nessa história?
— Porque... apesar de tudo isso que você falou ser verdade, não foi culpa sua o que aconteceu
— O que?! — Kaito a encarou boquiaberto, e deixou escapar uma risada azeda — Eu violentei uma criança. Não uma, mas várias vezes. Verdade que, inicialmente, eu queria a menina Rin, mas... como os irmãos trocaram de lugar no último instante, eu me conformei com a idéia e fiquei com o garoto. Eu abusei daquele menino várias e várias vezes, e estraguei a vida de uma pessoa que não tinha nada a ver com meus problemas. Todos diziam isso, e agora, até mesmo eu consigo perceber que é verdade. Como eu posso não ser culpado?!
— B-Bem, é que... a-apesar de tudo o que você falou ser verdade... — ela se encolheu, corando furiosamente ao ouvir Kaito confessando seus crimes, e respirou fundo antes de continuar — Essas c-coisas que você fez foi porque... você já estava louco quando isso aconteceu. Quando te conheci, há doze anos atrás, você era um menino quieto e reservado, mas, quando conhecia bem alguém, se soltava mais e passava a demonstrar o seu lado mais gentil e protetor. Você sempre foi muito carinhoso e amável, apenas um pouco reservado. Foram nossos pais que decidiram aquele nosso noivado, sem nem nos consultar sobre isso... nós nem sequer nos conhecíamos na época. Passamos então a visitar um ao outro, e eles nos deixavam sozinhos pra brincar enquanto os adultos conversavam sobre a proposta de casamento do lado de dentro da mansão. Nós não nos conhecíamos na época, mas, com o tempo, acabamos nos acostumando com a idéia. E, eu não sei você, mas... e-eu fiquei feliz por me tornar sua noiva. Mas então, houve aquele desentendimento entre os meus pais e os seus, e eles cancelaram o noivado, também sem nos consultar ou perguntar nossa opinião sobre o assunto. Por sermos apenas crianças, eles nos tratavam como marionetes, éramos apenas bonequinhos que eles controlavam, sem o direito de opinar nem decidir nada. Quando nos acostumamos com a idéia de casar quando crescêssemos, eles nos afastaram... sendo que foram eles mesmo que inventaram essa história de casamento... e nós não vimos mais. Depois daquilo, a primeira vez que te vi... acho que foi durante uma festa de aniversário, da Marquesa de Rose, se não me engano. Como ela ainda era pequena, haviam muitas crianças na festa. Vi você lá, em um canto mais afastado, com uma expressão séria e meio sombria no rosto... e tentei ir cumprimentá-lo, mas meus pais não deixaram. Disseram que não era pra eu falar mais com você. Essa situação se repetiu algumas vezes.. até que, alguns anos depois, quando cresci o suficiente para poder comparecer às festas sociais sozinha, sem a presença dos meus pais, eu pude enfim conversar com você de novo. Percebi que você sempre afastava as pessoas, e evitava os que tentavam se aproximar de você... mas comigo era diferente. Você sempre aceitou falar comigo, e conversávamos bastante, sobre todo o tipo de coisa... de vez em quando você até dava risada do que eu falava! Eu gostava de ver o seu sorriso... então sempre falei todo o tipo de coisa absurda e engraçada, pra te fazer sorrir. Mas então... algum tempo depois, você parou de comparecer às festas sociais, e eu não pude mais te ver. Mais tarde, seus pais faleceram, e eu pensei em ir ver como você estava, mas... pouco tempo depois teve aquele incêndio terrível que acabou com a família Kagamine, e deixou os pequenos gêmeos órfãos... soube que eles seriam adotados por pessoas diferentes, e que você ficaria com um deles. Primeiro, pensei que você estava fazendo uma boa ação, aceitando cuidar de uma criança órfã, mas... depois começaram aqueles boatos sobre suas verdadeiras intenções ao aceitar aquela "adoção". E então eu tive certeza... de que você tinha perdido sua sanidade. Você já devia estar louco há muito tempo na verdade, mas ainda conseguia disfarçar essa loucura... tão bem que nem eu mesma tinha percebido. Até que, na noite em que você invadiu a mansão do Gakupo-san e tentou sequestrar o Len-kun, foi considerado louco de vez e ficou preso aqui — ela concluiu, erguendo a cabeça e finalmente encarando-o — O que estou tentando dizer é que... uma pessoa louca não pode ser responsabilizada pelos seus atos. Você perdeu sua sanidade há muito tempo... provavelmente na época em que nossos pais nos separaram. Foi enlouquecendo aos poucos, bem lentamente... até que um dia, sua mente não aguentou mais, e você perdeu o juízo de vez. E, se você não estava em seu juízo perfeito, então não é culpado de nada
— Acho que a senhorita é a única que consegue enxergar esse ponto de vista, Viscondessa — Kaito respondeu sem emoção na voz — Se acredita mesmo nisso, então por favor, vá dizer isso ao juíz para que eu possa sair logo daqui. Se bem que... depois de todas as atrocidades que eu cometi, talvez mereça mesmo ficar preso nesse lugar
— Já disse que você não tem culpa de nada — ela o encarou nos olhos e, em um impulso, segurou a mão dele entre as suas, tentando demonstrar que estava certa de sua afirmação — Você estava louco, então não pode ser responsabilizado por nada. E eu falei com o médico que está cuidando de você... parece que você enfim está recuperando seu juízo normal. Se continuar progredindo assim, em breve poderá sair daqui
— Mesmo que eles me deixem sair desse hospício, acho que me mandariam pra cadeia depois de tudo o que eu fiz... — ele comentou, desviando os olhos dela e parecendo dar pouca importância ao assunto — A senhorita realmente deveria parar de visitar um criminoso louco feito eu, Viscondessa
— Ano nee, Kaito-kun... quando você começou a realizar aqueles leilões, e acabou vendendo também o Len-kun, a irmã dele foi me pedir para comprá-lo, para que o garoto não fosse parar nas mãos de alguma pessoa inescrupulosa — Miku contou, mudando repentinamente de assunto — Eu queria poder comprá-lo, para ajudar a Rin-chan, que se sentia muito culpada pelo que aconteceu com o irmão dela, e ajudar também o garoto. Mas, eu... na época, estava sendo investigada pelo Príncipe e a Princesa de Blanc... e, no final da investigação, eu fui proibida de participar de qualquer leilão que você realizasse, e até mesmo de ver você. Sabe porque eles me proibiram de chegar perto de você?
— Nem faço idéia... — Kaito admitiu — Mas, para aqueles dois terem tomado essa decisão, deve ter sido algo sério. Dizem que aqueles irmãos são imbatíveis quando investigam uma pessoa. Curiosamente, parece que o Príncipe é o pior, mesmo sendo só um moleque... cheguei até a pensar que, cedo ou tarde, eles apareceriam na porta da minha mansão para fazer perguntas sobre o Len, mas eles nunca vieram... acho que foi porque, na mesma época, eles estavam resolvendo os problemas causados pelo incêndio que matou os pais dos gêmeos, e destruiu boa parte da região, então acabaram me deixando de lado. Mas, o que eles poderiam ter contra a senhorita?!
— Eles me proibiram de vê-lo porque... p-perceberam que eu ainda nutria sentimentos por você, mesmo depois de termos desmanchado nosso noivado — Miku confessou num sussurro, abaixando o rosto até que a franja o escondesse quase por completo — E, como você já tinha uma má fama na época... eles não queriam que houvesse mais uma pessoa da nobreza com uma reputação ruim, por isso me proibiram de me aproximar de você. Parece que te consideravam uma espécie de "maçã podre", que poderia contaminar qualquer um que se aproximasse, ou coisa assim
— Viscondessa... — Kaito chamou após vários segundos em silêncio, com o queixo caído, tamanho foi o choque ao escutar aquilo — Isso... é verdade?
— Nee, Kaito-kun... pode me fazer um favor? — ela respondeu a pergunta dele com outra pergunta, ignorando a indagação do homem — Será que pode voltar a me chamar pelo meu nome? Como quando éramos crianças...
— Ahn... n-não sei se é uma boa idéia... — ele murmurou incerto, ainda atordoado com aquela sequência de informações
— Por favor — ela pediu, voltando a encará-lo — Eu não gosto quando você me chama de "Senhorita Viscondessa", faz parecer que nem somos próximos um do outro! Eu quase me tornei sua noiva, então... me chame pelo meu nome outra vez. Como naquela época...
— Miku-chan... — ele falou baixinho, estranhando como aquele termo soava diferente com sua voz já amadurecida — Você deveria escutar o que a Princesa e o Príncipe disseram, Miku-chan. Você é uma garota doce e alegre, merece alguém melhor do que eu. Você tinha razão, eu sou um louco... enlouqueci há muitos anos, tantos que nem me lembro mais quando foi. Você merece alguém bom e respeitável, que cuide bem de você e te trate com carinho e respeito... não deveria ficar com uma "maçã podre" como eu
— Eu não quero ninguém que seja considerado bom e respeitável só porque tem um título de nobreza ou boa reputação... eu quero você. Desde aquela época, há doze anos atrás, eu sempre quis... apenas você — ela apoiou a cabeça no ombro dele e ergueu os olhos verdes para encará-lo — Nee, Kaito-kun... você não gosta mais de mim?
— Ahn... e-eu... — ele gaguejou nervoso, ofegando com a súbita aproximação da garota — E-Eu, bem... n-não é como te odiasse nem nada assim... eu não tenho nada contra você. Pelo contrário, você é a pessoa mais divertida e alegre que já conheci. A pessoa mais gentil e animada que eu já vi na vida
— Eu tenho sido assim desde aquela época. E, mesmo depois de tudo o que aconteceu ao longo dos anos... é como se eu visse dois "Kaito-kuns", sabe — ela falou, gesticulando com as mãos numa tentativa de explicar melhor o que dizia — O primeiro é aquele menino gentil e reservado que eu conheci na infância. Um garoto que, apesar de ser meio fechado e não falar muito de seus sentimentos, no fundo era muito amável e bondoso com todos que conhecia. E o segundo é o rapaz que perdeu sua sanidade depois que nossos pais cancelaram o noivado e nos separaram. O Kaito-kun que estou vendo agora é o primeiro.... eu sempre continuei enxergando em você aquele garoto gentil e bondoso de quando nos conhecemos, Kaito-kun. Eu me apaixonei por você naquela época, sem nem mesmo perceber... e, até hoje, meus sentimentos não mudaram. Agora que você já recuperou quase todo o seu juízo perfeito, me responda, Kaito-kun: Você ainda gosta de mim? Ou... aquele sentimento não existe mais dentro de você?
— Eu... depois que nosso noivado foi cancelado, eu fiquei absolutamente furioso — Kaito confessou, desviando os olhos dos dela e abaixando a cabeça — Discuti com meus pais várias vezes sobre isso, e até tentei fugir de casa algumas vezes, só pra poder te ver escondido, mas no final os guardas sempre me encontravam e me trancavam de volta no meu quarto. Culpei meus pais por isso, e também os seus. Todo esse ódio, rancor e frustração, foram se acumulando ao longo dos anos... e, quando meus pais faleceram, como eu era o único herdeiro, tomei o título de Conde de Bleu para mim, e o poder me subiu à cabeça. Pensei em tentar te ver naquela época, mas seus pais ainda eram vivos, e certamente não permitiriam que nos víssemos. Um vazio profundo foi tomando conta do meu peito, por causa dessa vontade louca de querer te ver, sem poder... eu estava desesperado para preencher aquele vazio e acabar com a dor no meu coração, tão desesperado que acabei me esquecendo do meu objetivo inicial, de recuperar você. Só conseguia pensar em acabar com aquela angústia insuportável e preencher aquele vazio, com o que quer que fosse... até que, nessa mesma época, aconteceu o incêndio que matou os pais dos gêmeos Kagamine. Na mesma hora, vi a solução para todos os meus problemas ali... eu usaria a menina Rin para preencher esse vazio, não importa como. Quando descobri que os irmãos tinham trocado de lugar, fiquei furioso, é claro... minha dor e frustração só aumentaram quando descobri a farsa, e descontei tudo no gêmeo que tinha em mãos, o Len. Perdi de vez a cabeça e gastei muito dinheiro para saciar meus desejos insanos e tentar acabar de vez com aquela dor no meu peito, que, não importava quantas vezes eu me aproveitasse dele, a dor nunca sumia. É claro que não sumia... porque não era ele que eu queria. Eu arrumei um substituto para o que eu queria de verdade, mas... não era o Len, e nem a Rin que eu realmente queria afinal. Mas não percebi isso na época... e fiquei desesperado para recuperar a única pessoa que conseguia me fazer esquecer dos meus problemas por algum tempo, que era o Len, e tentei sequestrá-lo... mas, como você sabe, não deu certo, e eu vim parar aqui. É tão irônico... eu critiquei tanto os meus pais, e até os seus, por terem nos separado anos atrás e ignorado nossos sentimentos apenas porque éramos crianças... mas eu acabei fazendo a mesma cosia que eles. Ignorei o que aquele menino queria ou deixava de querer, os sentimentos dele, apenas para poder satisfazer meus próprios caprichos, tentar amenizar de alguma forma a dor que eu sentia... eu acabei me tornando igual ao meu pai no fim das contas. Não importava o que eu fizesse com aquele garoto, nunca parecia ser o suficiente para acabar com o meu sofrimento... é claro que não adiantava, ele era apenas um substituto para o que eu realmente desejava. Não era o Len que eu queria de verdade, nem a Rin... eu desejei um substituto para preencher o vazio no meu peito, mas ninguém poderia substituir a pessoa que eu realmente desejava ter do meu lado. Era você... sempre foi você, e eu fui um idiota louco por não ter percebido antes
— Kaito-kun... você não foi um idiota. Tinha perdido sua sanidade mental e por isso não tinha consciência dos seus atos, eu já te falei — Miku lhe disse, o mais calmamente que pôde, embora sua voz tremesse de emoção e seu coração batesse feito louco. Acariciou o outro lado do rosto dele, com uma das bochechas ainda encostada na dele — Mas, você enfim se lembrou do que realmente desejava. E nem os meus pais e nem os seus estão mais aqui agora... então, quando você receber alta, nós poderemos finalmente ficar juntos, como nossos pais desejavam no começo
— Não... eu não posso fazer isso, Miku-chan. Eu já te disse, você merece alguém melhor do que eu — ele respondeu sem encará-la — Eu arruinei a vida de várias pessoas, e destruí o futuro de uma criança inocente... devo ter feito você sofrer bastante também com as coisas que eu fazia... eu sou uma pessoa sem salvação, e todos que ficam perto de mim sofrem. Não quero acabar corrompendo você também... não você
— Kaito-kun, eu já não te falei? — ela segurou o queixo dele com a ponta dos dedos e o obrigou a encará-la nos olhos. Como suas bochechas ainda estavam encostadas, seus lábios estavam à centímetros de distância agora — Eu já tenho fama de ser uma pessoa escandalosa, irritante e sem noção. O reino inteiro sabe disso. Acha que alguém iria querer uma garota barulhenta e atrevida feito eu? É claro que não! E, mesmo se alguém quisesse, isso não me faria feliz. O único que eu quero é você... afinal, só um louco mesmo pra conseguir aturar uma garota irritante e escandalosa feito eu! — ela concluiu, dando uma piscadela. Kaito não pôde evitar de rir daquela afirmação, que, de algum estranho modo, até que fazia sentido
— Talvez... você tenha razão, Miku-chan — ele concordou por fim e, terminando de vez com a pouca distância que os separava, a beijou.


A Viscondessa sentiu seu corpo inteiro estremecer com aquele pequeno toque, seu coração disparando feito louco, e fechou os olhos para apreciar melhor aquela sensação. Desejava aquilo há tanto tempo... sonhou com isso tantas vezes que chegou a pensar que continuaria sendo sempre apenas um sonho, e que nunca se tornaria realidade. Mas aquilo estava realmente acontecendo agora, ali, naquele exato momento. Sentiu Kaito apoiar uma das mãos em seu ombro, enquanto deslizava a outa até a cintura, abraçando-a delicadamente, como se ela fosse uma frágil boneca de porcelana, que poderia quebrar a qualquer momento. Pelos boatos que ela ouvira sobre o que ele fazia com Len, achou que ele seria mais atrevido e agressivo, mas estava sendo tão cuidadoso e delicado agora... aquele era o lado gentil e protetor de Kaito, que apenas ela conhecia.


Kaito começou a aprofundar o beijo, muito lentamente e com cuidado, temendo ir longe demais e pronto para recuar ao menor sinal de rejeição dela, mas não houve nenhum. Ao invés disso, sentiu a garota atirar os braços ao redor do pescoço dele, abraçando-o, como em um gesto silencioso de que ele poderia prosseguir. Ele a abraçou com um pouco mais de força, porém ao mesmo tempo com cuidado, querendo apenas aproximar mais seus corpos. E o vazio que sentia há tanto tempo em seu coração pareceu finalmente desaparecer. Seu peito começou a ser preenchido lentamente por um sentimento quente e aconchegante, que ele não sabia definir muito bem o que era, mas que conseguiu enfim acabar de vez com o buraco negro que se apossara de seu coração há tantos anos, como se esse vazio nunca tivesse existido. Percebeu então que a garota tinha começado a ofegar e, concluindo que ela já devia estar ficando sem ar, soltou-a, meio que contra sua vontade.


— Está tudo bem, Miku-chan? — ele perguntou, preocupado, enquanto a garota ainda arquejava, tentando repor o oxigênio em seus pulmões
— E-Está sim... — ela respondeu depois de alguns segundos, ainda ofegante — É só que... e-eu não estou... acostumada com isso
— Entendo... é, imagino que não — Kaito deixou escapar um pequeno sorriso ao ver que ela parecia bem — Então... está mesmo tudo bem pra você? Ficar com alguém... assim, como eu?
— Acha que eu veria algum problema nisso depois de me dar ao trabalho de vir até aqui, Kaito-kun?! — ela respondeu a pergunta dele com outra pergunta, com o fôlego finalmente recuperado, e com uma expressão de quem está dando uma bronca em uma criança que fez alguma pergunta idiota, o que arrancou uma risadinha dele. Logo depois, a porta do quarto se abriu, sobressaltando os dois, e o guarda que trouxera Miku até ali falou
— Vinte minutos, senhorita. Precisa sair agora
— Certo, eu já estou indo — Miku respondeu, achando que aqueles foram os vinte minutos mais rápidos de sua vida — Eu voltarei outro dia, Kaito-kun. Me espere ansiosamente, ouviu?! — ela piscou para o Conde, que sorriu em resposta, e seguiu o guarda em direção à saída.

Notas finais
Etto... bem, eu imagino que a maioria de vocês devem star me odiando agora e com vontade de matar por ter escrito esse capítulo... mas, lembre-se de que, seu morrer, vocês vão ficar sem saber o final da história, hein! Certo, agora deixando isso de lado, esse capítulo foi sobre a Miku mesmo, pra mostrar o motivo do sumiço dela, e também a razão de ela ter sido investigada pelo Piko e a Haku, como algumas pessoas tinham me perguntado. Ah sim, lembram que eu tinha feito uma enquete sobre qual fim vocês queriam que o Kaito tivesse? Bom, aqui está o resultado da enquete (que eu deveria ter postado no capítulo passado, aliás, mas acabei esquecendo //apanha): Uma pessoa desejou que o Kaito tivesse um fim trágico e morresse pelas mãos do Gakupo; Uma pessoa quis que o Kaito fugisse do hospício, sequestrasse e abusasse do Len de novo; Duas pessoas quiseram que o Len e as outras pessoas que já sofreram nas mãos dele tivessem o direito de decidir o que aconteceria com o Kaito; Seis pessoas quiseram que a Miku curasse o Kaito de alguma forma e ficasse com ele no final. Como essa opção foi a que teve mais votos, acredito que deva ter alguns leitores felizes, pelo menos... e está aí o motivo desse capítulo, viu, foi a vontade da maioria dos leitores, não é culpa minha! u__ú Não me matem, por favor o__o Eu gostei principalmente das duas últimas opiniões das pessoas e, como opinião pessoal, só tenho uma coisa a dizer: O médico que está cuidando do Kaito é MUITO FODA!! Sério, precisamos de mais médicos incríveis assim no país em que vivemos u__u Bem, vou ficar por aqui antes que acabe escrevendo um texto nessas notas finais. Deixem reviews e façam uma autora feliz! *o*