Loveless
29 Capítulo 29 - ♫ Immoral Memories ♪
"A cena que via antes está morta e envelhecida
Enquanto olho para o tedioso céu,
Não posso fazer nada a não ser suspirar mais e mais
Serei esmagado pela solidão e enlouquecerei
Não tive direito nem às memórias, verdades e mentiras
Afogado em meus pensamentos, o tempo passa cruelmente
Sem ao menos saber porque estou aqui
Apenas derretendo um coração partido em pedaços sem sentimentos"
~~~~~X~~~~~X~~~~~
Na manhã seguinte, Len despertou bem mais tarde do que o habitual, acordando apenas por causa dos raios de sol e do canto dos pássaros que entravam pela janela aberta. A primeira coisa que percebeu foi que o lugar onde estava deitado era muito mais macio e confortável do que o habitual. A segunda coisa que percebeu foi Gakupo, sentado em uma cadeira ao seu lado, cochilando. Olhou em volta, notando então que não se encontrava no quarto/cela onde viveu durante os anos em que morou com Kaito, como no sonho que ele havia tido, e nem em seu pequeno quarto na mansão de Gakupo, e sim no enorme cômodo que servia de quarto para o Duque.
— Mestre Gakupo...? — Len chamou com a voz baixa e sonolenta, e o maior imediatamente despertou
— Len... L-Len! Finalmente você acordou! — Gakupo exclamou, acordando bruscamente, e arregalando os orbes arroxeados ao ver que loiro tinha enfim aberto os olhos
— Sim... que horas são? — o mais novo indagou
— Ahn... não faço idéia — Gakupo confessou, esfregando os olhos com as costas da mão para despertar mais rápido — Porém... m-mais importante do que isso, você está bem? Não está machucado, está??
— Não... eu estou bem. Só um pouco sonolento ainda, eu acho — Len respondeu, ainda meio entorpecido por causa do brusco ataque da noite anterior que Kaito havia realizado para fazê-lo perder a consciência — Etto... por que eu estou na sua cama...?
— Ah, por nada... é que fiquei preocupado em te deixar sozinho no seu quarto depois do que aconteceu ontem, então te trouxe pra cá... — Gakupo começou a falar distraidamente, porém logo interrompeu-se, temendo que o loiro interpretasse mal a ação dele, como geralmente fazia — Ah! M-Mas não comece a pensar em bobagens, ouviu bem?! Eu não fiz nada... e-embaraçoso ou imoral com você enquanto dormia, eu juro!!
— Eu sei disso — Len respondeu prontamente, sem encará-lo — Não está doendo, então sei que nada assim aconteceu. Além do mais, o senhor... q-quero dizer, "você"... não é o tipo de pessoa que se aproveitaria de alguém enquanto a pessoa está dormindo, Gakupo-san
— Que bom... a-ainda bem que sabe disso, porque eu não mesmo esse tipo de homem, ouviu?! — ele deixou escapar um suspiro de alívio, mas tentou disfarçar, virando o rosto para o lado, de mau-humor. Porém, sua preocupação com o loiro ainda era bem maior do que sua irritação ou embaraço, então logo acrescentou — E você... se lembra do que aconteceu ontem à noite?
— Sim... quero dizer, mais ou menos — Len murmurou, pensativo — Ontem eu fui até o jardim admirar a lua cheia, e me distraí, lembrando de como Rin-oneechan e eu costumávamos fazer isso quando éramos crianças. Então, ele... o Conde Kaito apareceu do nada, e começou a falar as coisas estranhas de sempre... e tentou me levar embora com ele. E-Eu tentei me desvencilhar dele e fugir, mas... ele era maior e mais forte do que eu, então não consegui escapar... então... e-ele fez alguma coisa com meu pescoço, e... acho que desmaiei... não me lembro de mais anda depois disso
— E ele... não se aproveitou de você, ou... t-te tocou em lugares estranhos, nem nada assim? — Gakupo indagou, temendo a resposta
— Ele... m-me abraçou, e... m-me mordeu aqui... — ele tocou a orelha que Kaito havia mordiscado na noite anterior, sentindo seus ombros tremerem — Mas não fez mais nada além disso... pelo menos não que eu me lembre
— Entendo — Gakupo murmurou, tentando controlar a raiva e o ciúme que o invadiam ao ouvir isso — Bem... depois disso, uma das empregadas viu que o Conde estava tentando te sequestrar e me avisou. Eu mandei que ela chamasse reforços, e fui atrás de você — o Duque contou — Felizmente, te encontrei antes que o Conde conseguisse sair dos terrenos da mansão. Nós discutimos e, por fim, ele pareceu enlouquecer ainda mais... puxou uma faca do bolso e tentou... bem... tentou acabar com você, mas logo mudou de idéia, e tentou me matar. Felizmente, os reforços chegaram bem nessa hora e o impediram. O Conde Kaito está preso agora, por invasão de domicílio, tentativa de sequestro e de assassinato. Os guardas que o levaram me devolveram você e eu o trouxe pra cá... você ficou inconsciente esse tempo todo, e só agora despertou
— Ele... tentou te matar...? — Len repetiu, curiosamente só se atendo à esse fato — Isso foi muito perigoso... por que você foi atrás de mim sozinho? Devia ter chamado os guardas da mansão ou coisa assim!
— Eu estava tão nervoso na hora, e desesperado pra recuperar você, que nem me lembrei disso, eu acho — Gakupo respondeu, sorrindo meio sem jeito — Afinal, você... é a pessoa que eu amo... eu não poderia depender de guardas para te salvarem e cuidarem da sua segurança. Senti que precisaria fazer isso eu mesmo
— Mas... você é um Duque, um nobre importante, e nem sequer possui herdeiros — Len continuou — Se alguma coisa acontecesse com você...
— Não importa — o mais velho interrompeu — Naquela hora, a única coisa que me preocupava era recuperar você em segurança, então... isso realmente não importa
— Mas, se algo lhe acontecese... o que seria e mim sem você?! — Len exclamou, milagrosamente alteando um pouco a voz, e segurando as mãos de Gakupo com força — Se algo te acontecesse... acho que eu não suportaria...
— Se algo de ruim acontecesse comigo, a dívida que Rin-chan possui comigo acabaria, e você apenas voltaria a viver com sua irmã, eu acho — Gakupo respondeu, meio incerto
— Mas... não seria a mesma coisa... — o loiro murmurou, sem nem saber porque pensava assim
— Bem, suponho que não — Gakupo respondeu evasivamente, tentando não criar falsas esperanças ao ouvir aquilo — B-Bom, de qualquer forma... hoje de manhã, os guardas que levaram o Conde preso me mandaram uma mensagem. Parece que ele de fato enlouqueceu com essa obsessão por você, então ele não está mais apenas preso, e foi levado para um hospício. Ele está internado lá agora, e parece que não vai sair nem tão cedo. Isto é, se é que ele vai sair de lá algum dia — Gakupo contou, torcendo interiormente para que Kaito passasse o resto de seus dias trancado lá — Ainda assim, eu aumentei o número de guardas da mansão e dobrei a segurança, só por precaução. Achei que seria suficiente se você apenas não saísse nas ruas, no entanto, mesmo com você estando apenas no jardim, ele conseguiu entrar e tentou sequestrar você... então, acho que seria melhor se você não andasse mais sozinho pela casa, principalmente se for até o jardim, só por segunça, entendeu?
— Sim, pode deixar — o menor assentiu
— Ótimo — Gakupo deixou escapar outro suspiro de alívio — Também prometi recompensar a criada que me avisou sobre o seu sequestro, mas... sinceramente não sei como fazer isso. Alguma idéia?
— Hãn... o senhor podia dar uns dias de folga pra ela... ou lhe dar dinheiro pra ela fazer compras, e comprar umas roupas novas pra ela, ou coisa parecida... as garotas gostam dessas coisas, eu acho — Len sugeriu, lembrando-se de como Rin adorava sair para comprar vestidos novos
— É, parece uma boa idéia... embora eu ache que ainda não é o suficiente — o Duque confessou — Se ela não tivesse me avisado sobre você, eu não teria conseguido te recuperar à tempo afinal
— Desculpe, é o melhor em que consigo pensar — Len murmurou — Pergunte à ela o que ela quer então
— É, acho que posso fazer isso — o mais velho concluiu — Ah, sim, e mais uma coisa: Os guardas que prenderam o Conde ontem à noite também me informaram que revistaram a casa dele hoje cedo, e encontraram provas das... ahn, das coisas que ele fazia com você, o que o torna ainda mais culpado... mas, ainda haviam alguns pertences seus... eles ainda estão terminando de revistar o lugar, mas disseram que podíanos ir lá buscar suas coisas, se você quiser, é claro
— Não acho que tenha nada meu lá que eu queira recuper... — Len interrompeu-se subitamente, lembrando de uma coisa — Não, espere... tem uma coisa sim. Mas... não quero voltar lá sozinho...
— É claro que você não vai sozinho, eu irei com você — Gakupo falou como se aquilo fosse mais do que óbvio — Mas é melhor você comer alguma coisa primeiro. Iremos assim que você tomar café da manhã.
Assim, Len logo levantou-se e, enquanto ele comia, Gakupo agradeceu à empregada que tinha avisado sobre o sequestro do loiro. Ele falou primeiro o que Len tinha lhe sugerido, sobre lhe dar alguns dias de folga e deixar ela ir fazer compras, e perguntou se ela queria alguma outra coisa, mas a mulher ficou tão feliz com isso que só faltou abraçar Gakupo de tanta alegria, de modo que acabou sendo recompensada com uma semana inteira de folga e uma boa quantia em dinheiro para comprar o que ela quisesse.
Len terminou depressa seu café da manhã, e então ele foi junto com Gakupo até a mansão onde Kaito morava.
O lugar estava deserto agora, e nenhum dos criados do Conde se encontravam na mansão. Haviam apenas alguns guardas na entrada, os mesmos que prenderam Kaito na noite anterior e que imediatamente deixaram que Gakupo e Len entrassem. Haviam alguns outros guardas no interior do lugar, revistando os outros cômodos da casa, e várias placas escrito "Entrada Proibida" com letras garrafais em algumas das portas. Um dos guardas no interior da mansão disse que os pertences de Len estavam no quarto/cela onde o loiro costumava ficar aprisionado e deixou que os dois entrassem lá, deixando-os sozinhos em seguida.
Não haviam muitas coisas lá. Em um canto do cômodo estavam alguns objetos estranhos amontoados, como um chicote, algemas, máscaras espalhafatosas, algumas capas, dentre outros tipos de coisas do estilo sadomasoquista, para os quais Len evitou olhar. Do outro lado havia uma cama pequena e dura, com correntes presas à parede bem ao lado dela. Em cima da cama, havia uma pilha de roupas, todas contendo saias e vestidos de todos os tipos, tamanhos e cores. Ao seu lado, estava a roupa mais infantil que havia ali. Um pequeno vestido todo amarelo com mangas bufantes e babados rosas exagerados por se tratarem de um vestido de criança, e um laço branco para ser usado como enfeite de cabelo. Era o vestido que na verdade pertencia à Rin, e que Len usava quando tinha chegado lá, ainda disfarçado como menina e fingindo ser sua irmã gêmea. O loiro caminhou lentamente até o lugar onde havia ficado preso durante anos, com a cabeça baixa, de modo que a franja lhe cobrisse olhos, de forma que Gakupo não podia ver a expressão no rosto dele. Tocou de leve o infantil vestido que pertencia á sua irmã, e murmurou:
— Suponho que era disso que o guarda estava falando... essa era a roupa que eu usava quando cheguei aqui, quando ainda fingia ser a Rin-oneechan — ele contou, sem encarar o Duque, que o observava preocupado — Mas, isso foi há cinco anos atrás... essas roupas estão pequenas demais agora. Não servem mais na Rin-oneechan, muito menos em mim — ele concluiu, dando as costas à pilha de roupas, e se dirigindo à outra extremidade do quarto, em um canto vazio, oposto à parede onde estava a pequena pilha de objetos sadomasoquistas. Não havia nada lá além de poeira e algumas teias de aranha na parede, mas Len se ajoelhou naquele canto, e colocou as mãos no chão, como se pegasse alguma coisa invisível — Foi aqui... bem nesse lugar, onde eu joguei meus sentimentos fora — ele murmurou tão baixo que Gakupo teve que se aproximar mais para ouvir — Não estou mais preso ao Conde, então... talvez não seja má idéia pegá-los de volta — ele fechou as duas mãos em conha, como que recolhendo alguma coisa frágil e delicada do chão, que Gakupo não podia ver, e levou as mãos ao peito, deixando-as encostadas ali por algum tempo. Passados alguns minutos, ele se colocou de pé, finalmente parecendo se dar conta de onde estava e do que estava acontecendo ao seu redor.
Ele estava de volta ao lugar onde passara os piores anos de sua curta vida. O lugar escuro e frio onde tinha sofrido o verdadeiro inferno, onde tinha perdido sua inocência e sua sanidade. O lugar onde, em uma ato de desespero, abdicou de seus próprios sentimentos numa tentativa de não sofrer mais. As memórias cruéis daquele lugar horrível pareceram voltar todas de uma vez, como em um furioso e devastador turbilhão, invadindo sua mente e seu coração que antes estava vazio. Ele ainda se lembrava de tudo quando perdera seus sentimentos, mas aquelas lembranças pareciam milhões de vezes piores agora. Sentiu uma lágrima solitária escorrer pelo seu rosto, seguida por outra derramado pelo outro olho e, antes que percebesse, estava aos prantos, gritando e chorando como uma criancinha indefesa.
— Len...! — Gakupo correu até ele assim que viu o estado em que o garoto se encontrava e o abraçou com força, tentando acalmá-lo. Para sua surpresa, o loiro retribuiu seu abraço rapidamente, afundando o rosto no peito do maior e segurando suas roupas o mais forte que podia com as mãos trêmulas — O que aconteceu...? Você está bem?? — ele indagou preocupado, embora fosse óbvio que o garoto estava muito longe de estar bem
— Esse lugar... a-as lembranças desse lugar... a-as c-c-coisas que aconteceram aqui, o q-que e-ele fez comigo... e-está tudo voltando... — Len gaguejou fracamente, com a voz embargada, o rosto ainda enterrado no peito do Duque — O lugar onde eu mais sofri... o-onde eu perdi meus s-sentimentos... é c-como se eles estivessem voltando... e-eu não sei o q-que estou s-sentindo, parece que está tudo misturado, mas... m-meu peito d-dói... é como se meu coração tivesse voltado a b-bater, mas não é como q-quando estou com você... é horrível e cruel... isso dói... d-dói muito, Gakupo-san!!
— Calma, calma, está tudo bem agora.... eu não vou deixar ele pegar você de novo, eu prometo — Gakupo ergueu uma das mãos e começou a afagar os cabelos loiros do mais novo, tentando consolá-lo, e, enquanto o abraçava com força com a outra mão — Esse lugar não faz bem pra você... e você já pegou o que queria de volta, não é? — ele perguntou, e Len balançou minimamente a cabeça, em sinal de afirmação — Certo, então não há mais motivos pra ficarmos nesse lugar horrível. Anda, vamos embora daqui — ele guiou Len para fora do quarto e da mansão, e os guardas surpreenderam-se em ver aquele garoto, antes tão inexpressivo, agora aos prantos e gritando como uma criança desamparada, mas concluíram que devia ter sido muito doloroso voltar ao lugar onde passara os piores anos de sua vida até mesmo para alguém sem emoções como ele afinal. Gakupo e Len adentraram a carruagem e, enquanto o condutor os levava de volta para a mansão do Duque, o mais novo passou a viagem inteira agarrado ao braço do maior, com Gakupo afagando gentilmente seus cabelos, e Len foi parando de gritar e de chorar aos poucos, embora ainda derramasse uma ou outra lágrima silenciosa de vez em quando. Ainda estava muito atordoado com tudo aquilo, mas conseguiu concluir que, para bem ou para o mal, ele enfim conseguira recuperar seus sentimentos perdidos de volta.
Fale com o autor