Loveless
1 Capítulo 1 - ♫ Be My Sacrifice ♪
"Minhas mãos estão atadas.
Nódoas negras estão saindo delas, não estão?
A temperatura desvanece, a paisagem muda.
O ódio está aumentando, por isso, seja meu sacrifício.
Aqui em pé, eu rodo essas palavras.
Silenciosamente, o mundo desaparece,
Ainda que haja uma luz de esperança dentro da escuridão"
~~~~~X~~~~~X~~~~~
Em uma época muito distante, quando Reis e Rainhas ainda reinavam sobre esta terra, um terrível incêndio atingiu o reino Jaune, tirando a vida do Baronete e de sua esposa que lá reinavam, bem como da maioria dos criados e de alguns aldeões. Felizmente, o jovem casal de gêmeos, filhos do Baronete, sobreviveu, entretanto, ainda eram jovens demais para assumir o lugar do pai, então foi decidido que o melhor seria que as crianças fossem adotados por algum outro nobre, e quando atingissem a maioridade, assumiriam o lugar de seu falecido pai. O primeiro a se candidatar para esta nobre tarefa foi o Conde do reino de Bleu, Shion Kaito, entretanto havia um empecilho: Ele queria ter a guarda apenas da menina órfã, e não dos dois irmãos.
Depois de muita discussão, lhe foi permitido que ele adotasse apenas a garota, já que o Barão das terras vizinhas tinha manifestado interesse em adotar o garoto órfão, assim nenhum dos dois irmãos ficaria sem um lar. No entanto, os gêmeos seriam separados.
E no dia em que ambas as adoções seriam realizadas, em uma sala vazia exceto pelos dois órfãos, os dois irmãos se despediam, ou pelo menos assim deveria ser.
— Mas que loucura é essa que você está me dizendo, Len?!
— Pare de fazer escândalo e me escute Onee-chan! — o gêmeo mais novo sibilou — Nunca parou pra se perguntar porque o Conde Kaito queria adotar apenas você?
— Claro que já, me perguntei isso centenas de vezes... mas não faço a menor idéia do porquê disso — a garota respondeu, cabisbaixa — Acho até estranho ele querer justo à mim, que sou uma garota, ao invés de você... quero dizer, quando crescer e casar, terei o sobrenome do meu futuro marido, então nem sequer posso herdar o sobrenome dele e dar continuidade ao Clã...
— Exatamente! — o garoto à interrompeu — Rin-oneechan, eu acho que o Conde não está preocupado em ter um herdeiro. Acho que ele escolheu você porque... b-bem... — ele corou um pouco, mas se esforçou para continuar — Justamente por você ser... uma garota. Acho que o Conde não está procurando uma filha adotiva, está querendo é outra coisa
— Ehh... L-Len, você está insinuando que...?!
— Não estou insinuando nada, estou é afirmando mesmo — o gêmeo mais novo à interrompeu de novo — Pelo menos é isso o que eu acho. E se você for com ele... e minhas suspeitas estiverem corretas... você é a minha única irmã, eu não quero que algo assim aconteça com você! Principalmente quando eu não vou poder estar ao seu lado pra te proteger!
— Então... foi por isso que você disse aquilo...
— Exato. Vamos trocar de lugar, Rin-oneechan — o garoto propôs — Você usará minhas roupas, e eu vestirei as suas. Assim você será adotada pelo Barão, e poderá ter uma vida normal... e eu irei pra casa do Conde
— Não... Len, não! — Rin exasperou-se — S-Se isso for mesmo verdade, então você...!
— O Conde não poderá fazer nenhuma dessas coisas comigo. Eu sou um garoto afinal — seu irmão lembrou, certo de que esse fato tornaria impossível de que coisas assim acontecessem
— Mas... i-isso nunca daria, certo, Len... e se alguém descobrir?! — Rin exclamou, tentando se agarrar à qualquer argumento para poder rejeitar esse plano louco
— Somos gêmeos — ele lembrou — Meu rosto é igual ao seu rosto. Temos a mesma cor de cabelos, a mesma cor de olhos... nosso cabelo é até do mesmo tamanho, a única diferença é que o meu está sempre preso enquanto o seu está solto! Ninguém vai suspeitar de nada. Eu irei pra casa do Conde Kaito no seu lugar e, se minhas suspeitas estiverem erradas, então basta fingirmos que foi apenas uma travessura de criança e destrocarmos depois
— Mas, Len... se você for no meu lugar, e descobrirem... ou até se as suas suspeitas estiverem certas e no final o Conde... err... n-não conseguir o que ele quer pelo fato de você ser um garoto... quando o Conde descobrir, vai ficar furioso! E vai querer descontar a fúria dele em você!
— Não importa. Eu sou um garoto, eu aguento. Só não quero que a minha única irmã passe por uma coisa dessas — ele enxugou uma lágrima solitária dos olhos da irmã antes mesmo que ela rolasse pelo seu rosto, e em seguida segurou as mãos dela entre as suas — Eu sou o único homem restante na família, então é minha obrigação te proteger de quem for. Não se preocupe com nada, Rin-oneechan... eu serei seu sacrifício.
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** Cinco anos depois **
No reino Pourpre, na casa do Duque, ele agora tomava chá, nem tão tranquilamente quanto gostaria, pois estava, mais uma vez, sendo interrogado por sua amiga de infância, a Viscondessa de Vert:
— Hoje você vai me contar a verdade, Gakupo-san! Não vou embora até você me contar tudinho, nos mínimos detalhes!
— Pela última vez, Miku-san, realmente não aconteceu nada demais no encontro de ontem. Assim como nos encontros anteriores, exatamente da mesma forma como você sempre me pergunta — o rapaz de cabelos arroxeados respondeu, cansado de ter que responder à uma mesma pergunta várias vezes — Por que ainda insiste nisso?
— Como assim "por que", ela é a sua noiva afinal! — a garota de cabelos esverdeados exclamou impaciente — Vocês estão noivos há mais de dez anos, como é possível que nunca tenha acontecido nada?!
— Por um simples e óbvio motivo: Nós nos odiamos — o rapaz lhe lembrou, de cara amarrada — Não queria nem ter que me casar com a Marquesa de Rose pra ínicio de conversa, esse casamento foi arranjado há muito tempo por nossos pais, mas ambos estão mortos agora, como você bem sabe, então não faz sentido dar continuidade à isso
— Mas... mas... mas isso não é justo!! — a garota exclamou, fazendo manha, tentando desesperadamente se agarrar à algum argumento válido — Essa foi uma decisão tomada pela geração anterior, vocês devem respeitá-la, não podem simplesmente desistir disso assim!
— Eu posso e eu vou, você vai ver. A Marquesa concorda comigo quanto à anulação do noivado — o homem contou — Na verdade acho que a única coisa na qual ela concorda comigo... mas o fato é que não vou me casar com ela e pronto!
— Não casa de jeito nenhum? — Miku perguntou com os olhos chorosos
— Nem que o mar seque, nem que os porcos criem asas, e nem que os gêmeos Kagamine sejam reunidos novamente! Não, e ponto final!
— Awnnnn... que pena, vocês formariam um casal tão fofo... — a garota choramingou cabisbaixa — Mas, isso que você falou agora... acha mesmo que é tão impossível assim os gêmeos Kagamine se reunirem novamente, Gakupo-san? — ela resolveu mudar de assunto antes que o Duque acabasse expulsando ela da casa dele. De novo
— Claro que é impossível — o homem afirmou — Aqueles irmãos foram separados há cinco anos, quando os pais biológicos deles morreram naquele incêndio terrível. Cada um foi adotado por uma pessoa diferente, e nunca mais se viram desde então
— "Foram adotados", sei... — Miku repetiu, com sarcasmo na voz — Rin-chan até que foi mesmo adotada, mas o menino...
— O irmão dela recebeu um destino terrível e cruel ao usurpar o lugar da irmã. É triste o que aconteceu com ele, mas infelizmente ele está nas mãos do Conde agora, e não há nada nem ninguém que possa livrá-lo disso
— Será mesmo? — Miku discordou — O Conde decaiu nos últimos anos, mais precisamente, desde que adotou o irmão da Rin-chan... parece que o garoto tem levado o Conde à loucura, e também, à falência
— E daí?
— Daí que, de tanto comprar acessórios e apetrechos supérfluos para satisfazer seus... ahn... — ela fez uma pausa, tentando escolher a palavra certa, e corou um pouco enquanto pensava — S-Seus desejos mundanos, digamos assim... bem, o Conde realmente gastou muito dinheiro com isso, tanto que ultimamente tem vendido seus pertences mais caros em leilões para poder manter aquela mansão enorme dele. E, no leilão de amanhã...
Antes que Miku terminasse a frase, as portas da sala se abriram com certa violência, e por elas entrou uma jovem garota de quatorze anos, trajando um longo vestido amarelo com babados brancos, olhos azuis brilhantes e os cabelos loiro curtos, na altura dos ombros, exatamente como estava há cinco anos atrás, quando foi separada de seu único irmão. Ela falou:
— Graças aos céus que o senhor está aqui, Vossa Excelência! Eu preciso muito falar com o senhor! — Rin exclamou, esbaforida, esquecendo-se completamente da boa educação que recebera. Uma criada vinha correndo nervosa atrás dela, por ter deixado uma visitante entrar assim de repente sem ser anunciada, mas Gakupo fez um gesto silencioso dizendo que estava tudo bem e a criada se retirou
— É bom te ver também, Rin-chan — Gakupo falou calmamente — Diga-me, que assunto tão importante à traz aqui? Deve ser muito urgente para a senhorita entrar assim na minha sala sem nem ao menos dar bom tarde
— É realmente urgentíssimo! — Rin concordou, sem perceber o sarcasmo na voz dele — Vossa Excelência, o senhor sabe sobre a situação atual do Conde Kaito, e sobre os leilões que ele tem feito ultimamente, não sabe?
— Sim! Acabei de contar pra ele! — Miku se intrometeu
— Ah, que bom! — Rin exclamou — Vou direto ao ponto então: Ultimamente, o Conde não tem leiloado apenas objetos de valor, ele tem vendido algumas de suas criadas mais jovens e bonitas afim de conseguir muito dinheiro em pouco tempo pra se reerguer... e hoje foi anunciado que... n-no próximo leilão, ele pretende vender o meu irmão
— Ele está leiloando pessoas?! — Gakupo exclamou, sem dar a devida importância á última frase da garota — Isso é completamente ultrajante! Como ele tem coragem de vender pessoas como se fossem objetos?!
— Sim, sim, é horrível, eu concordo... mas o fato é que, a próxima pessoa a ser vendida será o meu irmão! — Rin repetiu — Tem todo o tipo de gente nesses leilões, então eu tenho medo de que o Len vá parar nas mãos de algum outro homem sem escrúpulos, como o Conde, ou de alguém ainda pior... e-eu pedi ao meu pai adotivo, o Barão, para que o comprasse e adotasse o Len, mas... ele afirma que, depois que tudo que meu irmão passou, ele não é mais digno de ser um nobre... sem falar que ele não possui dinheiro suficiente pra isso, o preço desses criados vendidos em leilões é extremamente alto e meu pai é apenas um Barão afinal, então ele se recusa a atender meu pedido — ela abaixou a cabeça e fez uma pausa, tentando manter a voz firme. Seus ombros tremiam — Por isso... por isso eu vim aqui falar com o senhor. Vossa Excelência, por favor... por favor, compre o Len nesse leilão!
Gakupo sentiu o queixo despencar diante desse pedido absurdo. Os olhos roxos quase saltaram das órbitas, e ele não sabia nem por onde começar a falar de tão insana que era essa idéia.
— Tem alguma noção do que está me pedindo, Rin-chan? — o homem perguntou por fim — Você está me pedindo pra comprar uma pessoa
— Sim! — ela afirmou
— O seu irmão
— Exatamente!
— Não sei se eu pareço algum tipo de maníaco com hobbies estranhos para a senhorita, mas o fato é que eu abomino a idéia de comprar, vender ou trocar pessoas. Não interessa se a pessoa é homem ou mulher, criança ou adulto, nobre ou plebeu, pessoas são pessoas, e não podem ser vendidas ou compradas! Então não me peça para fazer algo tão hediondo quanto isso!
— M-Mas Excelência — Rin se encolheu diante do grito dele, os olhos marejados de lágrimas — E-Eu não tenho mais pra quem pedir isso... pedi à maioria dos nobres que conheço, acredite. Pode perguntar aos outros pra confirmar se quiser. E o fato é que nenhum deles possui dinheiro suficiente pra algo assim, ou se recusam a me ajudar
— É verdade, Gakupo-san — Miku afirmou, ficando repentinamente séria — Rin-chan me pediu a mesma coisa hoje de manhã, e eu até que gostaria de ajudá-la, mas... infelizmente sou apenas uma Viscondessa, e uma mulher, não posso me dar ao luxo de sair por aí comprando pessoas
— Eu vim pedir isso ao senhor porque sei que possui status e dinheiro mais que suficiente para fazer algo assim... mas, principalmente, porque o senhor é um dos poucos homens de bom coração que conheço — Rin afirmou — Se o Len pudesse ficar na sua casa, mesmo que não fosse como um filho adotivo e sim como um criado ou coisa assim, eu sei que o senhor jamais faria mal à ele. Ele é o meu único irmão e arriscou a vida quando éramos apenas crianças pra me salvar... eu me culpo todos os dias pelo que aconteceu com ele. Era eu quem deveria estar lá na casa daquele Conde horrível, e não ele! Eu queria poder fazer algo para retribuir o que ele fez por mim, mas infelizmente isso é tudo o que eu posso fazer, então... então, por favor, Excelência... me ajude!!
— Rin-chan...
— Por favor!! — ela gritou de novo antes mesmo que ele concluísse a frase, chegando ao ponto de se ajoelhar diante dele — Eu vou pagar cada centavo que o senhor vai gastar no leilão, eu prometo! Venderei todas as minhas jóias e vestidos, passarei o resto da minha vida juntando o dinheiro pra isso se for preciso, mas eu prometo pagar ao senhor! Então me ajude!!
— Escuta, eu...
— Por favor senhor Duque!!
Miku recomeçou a dar seus gritinhos histéricos, apoiando a mais nova e insistindo para que Gakupo concordasse. Ele não gostava dessa idéia, mas tinha realmente compadecido da pobre garota. isso sem falar que os gritos da Viscondessa eram realmente irritantes, e ele faria qualquer coisa para fazê-la calar a boca.
— Está bem! — ele exclamou por fim, ainda meio contrariado — Levante-se Rin-chan, não é certo uma dama se ajoelhar assim. E por favor, pare de gritar, Miku-san, está me deixando louco! Se isso é assim tão importante... então eu compro aquele menino no leilão. Satisfeitas agora?!
Os rostos de ambas se iluminaram com um brilhante sorriso, e por um momento Gakupo pensou que elas iam pular em cima dele de tanta empolgação, mas elas apenas se abraçaram, pulando e comemorando aos gritos.
— Você vai realmente me pagar por isso, ouviu bem, Rin-chan? — Gakupo falou mais sério — Lembre-se de que a liberdade do seu irmão depende disso. Enquanto não me devolver até o último centavo, o garoto ficará aqui, na minha casa
— Sim! Dou minha palavra ao senhor! — Rin exclamou, forçando-se a ficar séria também — Obrigada, senhor Duque... não sei nem como agradecer ao senhor, obrigada, de verdade!
— Pode começar juntando dinheiro para pagar pela liberdade do seu irmão — ele falou de cara amarrada, e a loira assentiu. Gakupo ainda não gostava nadinha dessa idéia, mas tinha concordado afinal, e não podia voltar atrás com sua palavra. Tentou se conformar, pensando que talvez fosse bom ter mais um criado na casa, embora não fosse realmente necessário. Além do mais, não custava nada ajudar os outros de vez em quando... nunca se sabe o que o destino pode lhe dar como recompensa por isso afinal.
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