Love vs Revenge
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Eu passei a não gostar tanto assim da biblioteca da escola, não pisava mais lá. Duas semanas haviam se passado e eu não via Rebecca pela escola, estava tudo calmo demais. Eu estava reagindo bem, tão bem, que demorou até Alice ficar sabendo.
Chegando na sala me deparei com Alice radiante.
– Oi!! Meu amor! Me da um abraço! — Ela se levantou ligeiramente e foi até a porta me abraçar. Eu fiquei paralisado com o susto.
Ela estava usando uma saia rosa e uma blusa com a sua banda favorita, Paramore.
– Qual o motivo da felicidade? — Perguntei sem humor.
– Nada... Hoje é um dia lindo, e tem a festa da Emily parte II. A I foi tão produtiva que encomendaram a II. — Na hora minha expressão mudou.
– Não vou.
– Por que?! — Perguntou alterando a voz. – Você não foi na I e também não vai na II¿ Estou começando a achar que você está depressivo.
– Não estou depressivo. Estou ótimo. — Me dirigi até a mesa no fundo da sala e sentei. Alice veio atrás.
– Mas a Rebecca foi convidada. – Sorriu. Senti um tom irônico na voz de Alice.
– E o que eu tenho a ver com isso?
– Achei que você fosse para ficar com a sua namorada, certo? — Alice parecia me testar, ela só não sabia que eu era bom com testes.
– Não estou mais com a Rebecca. — Falei normalmente como se ela não tivesse vasculhado minha vida. Estava nos olhos dela.
– Como assim?! Vocês estavam juntos até ontem.
– Ontem, hoje é um novo dia, Alice. E você já sabia não precisa fingir que está surpresa. — No exato momento que disse, Alice corou.
– Como você sabe? — Perguntou sem graça.
– Ninguém aparece na escola as sete da manhã de uma sexta feira chuvosa com um sorriso no rosto. — Respondi, frio.
– Ah não ser que o amigo dessa pessoa tenha tomado a atitude certa e se largou uma âncora que o puxava para baixo. – Disse, enquanto gesticulava com as mãos. — E quer saber¿ Você merece coisa melhor. Aquela vad...
– Alice – a interrompi. — Para. Esquece isso, eu não me importo. Sério, não quero mais ouvir o nome dela. Espero que você me respeite.
– Claro. — Soltou o ar. — Desculpa, vamos esquecer isso. — Virou para a frente.
– Obrigado pela força, você é a melhor amiga que alguém como eu poderia ter. — Coloquei minha mão no ombro dela.
– Valeu.
Em um dos meus dias exaustivos eu li sobre amores que vão e vem. Li sobre superação e uma nova vida. Eu queria muito mudar minha vida, mudar a rotina, fazer algo novo. Mas onde passava lembrava dela, em todo lugar que eu pisava me recordava dos meus momentos mais marcantes ao lado da Rebecca. Apesar de agir de forma normal, meus pensamentos não estavam querendo se adaptar ao novo rumo que minha vida tomara.
Refeitório
– Vai fazer o que hoje? — Perguntou Alice enquanto devorava o sanduíche de peito de peru.
– Vou ficar até tarde no trabalho. Preciso ler para distrair a mente. — Olhava de um lado para o outro a procura do Luke que sumira em meio a multidão.
– Não vai comer? — Perguntou Alice aprontando para a minha bandeja ainda intocável.
– Não. Pode mandar ver. — Sorri.
– Licença. Hoje não comi.
– To percebendo. — Ri.
– Eu to gorda ? — Perguntou desconfiada.
– Não. — Fui sincero.
– Para de graça Ethan! É sério.
– Estou falando sério, você está ótima assim.
– As vezes você parece feliz, mas as vezes você parece tão distante, seus pensamentos voam e você se deixa levar, como uma folha seca em meio ao vento forte. Se ao menos você desabafasse.
Me virei para ela e disse:
– Nem eu mesmo me compreendo. Não posso exigir isso de você, eu tenho que saber quem eu sou e o que eu quero, só aí, que eu vou poder desabafar com você.
Alice parecia chateada depois que eu falara sobre não conseguir desabafar com ela. Eu realmente não conseguia fazer isso com ninguém.
[...]
A aula do dia acabara, eu tinha que correr para o trabalho.
– Tchau gente. Até. — Acenei para Luke e Alice que ficavam para trás. — E se comportem na festa.
– Pode deixar — gritou Luke.
– Vamos ficar comportados. — Disse Alice irônica.
Entrei no quarteirão depois de duas quadras onde ficava meu velho carro Ford Eco Sport preto e saí as pressas para chegar a tempo na Biblioteca.
Chegado até o balcão de recepcionista, encontrei o Sr. Mason enrolado com os livros novos que chegara.
– Cheguei Sr. Mason. — Me aproximei do balcão.
– Até que enfim! Venha para cá, chegaram esses livros e eu não sei em qual prateleira colocar. — Ele parecia estar enlouquecido com aquela montanha de livros.
– Espera. Deixa que eu organizo.
A Biblioteca Magic World foi fundada pelo pai do Sr. Mason com o intuito de deixar mais exposto a leitura para as pessoas da cidade, ele dizia que a leitura é o portal para um mundo mágico, por isso o nome. Eu sempre fui fascinado por livros e quando surgiu essa proposta eu fui na mesma hora, consegui por sorte uma vaga de administrador dos livros, mas como o Sr. Mason não tem mais trabalhadores eu fico como o faz tudo.
– Tenho uma grande novidade! — De repente o velhinho se animou.
– E qual é? — Perguntei ansioso.
– Hoje vou entrevistar um funcionário que deseja trabalhar aqui. O nome dele é Taylor Parker. Veio de longe, fora da cidade.
– Isso é bom Sr. Boa sorte. — Fiquei feliz por Mason.
– Ele vai trabalhar com você, ele como administrador dos livros e você com os arquivos e catálogos.
– Mas eu pensei que os turnos seriam diferentes. O senhor não está precisando abrir de manhã?
– Sim, mas ele precisa aprender algumas coisas com você. Assim que ele aprender, eu passo ele para manhã.
– Ah sim. — Nós não sabíamos como era o cara, mas ele já estava contratado.
As horas se passaram sem que eu percebesse. Encostado no balcão, lia um conto de terror (sempre tive fascínio por terror e suspense). Até que uma pessoa toca a campainha da mesa sem que eu percebesse sua entrada.
– Oi. — Ao olhar para frente depois de um susto vi que era um jovem. Alto, branco, de olhos castanhos escuros e cabelos castanhos também escuros e bem bagunçado (senti que não era o único a não ligar para cabelos alinhados), tinha grossas sombrancelhas que mais pareciam estar feitas e bochechas rosadas com um rosto livre de espinhas. Usava uma jaqueta de couro preto e uma calça preta. Parecia ter vinte anos, mas seu rosto o denunciava, tão jovem quanto eu. Seu rosto quadrado esboçava uma expressão de vergonha e até senti um pedido de desculpas sair entre dentes.
– Olá, o Sr. Mason está? — Perguntou.
– Não, ele saiu faz uma hora. — Disse.
– Ah. — Resmungou levando suas mãos acima da cabeça. — Eu tinha uma entrevista para agora.
Ele era o funcionário já contratado. Nunca desconfiaria, seu jeito playboy e descolado não parecia ser bem o perfil dele. Estava mais para modelo ou algo relacionado a exposição de beleza física.
– Eu posso tentar ligar.
– Por favor. — Pediu.
– Aguarde ali no banco por favor. — O menino foi até o banco e se sentou enquanto eu ligava para o Sr. Mason.
Chamando...
– Alô.
– Sr. Manson, o menino da entrevista chegou.
– Peça para ele esperar. Estou com problemas com o carro.
– Ta. Vou avisar. Tchau. — O senhor Mason não parecia feliz novamente. — Ou. É... Ele pediu para você esperar um pouco, se importa? — Perguntei do balcão.
– Não, tudo bem.
O menino parecia calmo, sereno. Seus olhos fixavam no chão enquanto mexia com seus pés entrelaçados.
19:00
Já havia passado muito da hora. Alguma coisa acontecera com o senhor Mason. Eu já me sentia desconfortável enquanto lia, passei longos minutos em uma saia justa com um menino que eu mal conhecia, ele me olhava de cinco em cinco minutos com cara de quem não se importava com a demora, sua paciência me deixava incomodado. Cantarolava com um fone no ouvido, tinha um bom gosto musical.
Telefone toca...
– Sr. Mason, o que houve?! — Perguntei preocupado.
– Não vai dar para eu ir fazer a entrevista com o Taylor. Peça que volte amanhã. — Disse estressado.
– Mas Mason, ele está esperando à uma hora. Não tem como o senhor vir mesmo? — Insisti.
– Não Ethan. Mas tive uma idéia. Você pode fazer essa entrevista. Você sabe sobre tudo. Faça isso.
– Não. Não posso. — Enquanto falava ao telefone o menino me encarava me deixando mais pressionado ainda.
– Pode sim. Faça isso por mim ou eu nunca vou ter mais funcionários. Tchau.
– Sr. Mas...
Eu não sabia por onde começar e o que falar. Que seriedade tem quando alguém de dezoito anos entrevista alguém da mesma idade? Eu pretendia ajudar o Sr. Mason, só não sabia como.
Me levantei da cadeira e disse:
– A entrevista vai começar. Taylor? Não é?
– Sim. Mas onde está o Sr. Mason? — Perguntou. Meu rosto corou na hora, eu não sabia como fazer aquilo, nunca conversei com quem não conhecia.
– É... O Sr. Mason, ele teve um imprevisto e pediu que eu desenvolvesse uma entrevista. Você aceita? — Perguntei sem graça.
– Sim. Tudo bem. — Ele não parecia nada empolgado.
– Vamos até aquela sala. — Apontei para a sala dos fundos, fechei as portas da biblioteca pois não havia ninguém para tomar conta enquanto eu fazia a entrevista e caminhei com Taylor até a sala de reuniões do Sr. Mason.
Ficar envergonhado era algo natural para mim, geralmente eu não precisava falar, sempre respeitaram o meu espaço, e eu agradeço por isso. Quando o Sr. Mason disse que eu trabalharia com o público eu entrei em transe. Se não fosse as condições do meu pai, eu não pensaria duas vezes em desistir, mas estávamos precisando muito e eu preciso guardar dinheiro para a faculdade. Eu precisava esquecer os meus problemas pessoais e começar a pensar mais no meu pai, comecei a me adaptar e até conversei com alguns compradores (pelo menos eles só falavam de coisas que eu gostava e entendo, como, livros). A biblioteca estava esquecida pelo povo, eu não sabia como o Sr. Manson mantinha aquilo tudo, na maioria das vezes era só eu e uma grande sala entulhada de aventuras. Tinha virado um habito ler e pouco falar, mas era um habito que não me ajudara muito agora que preciso desenvolver uma entrevista com esse novo candidato contratado.
– Você está bem? — Perguntou Taylor sentado à poltrona enquanto eu estava encostado na mesa do Sr. Mason tentando achar uma forma de começar aquela entrevista.
– Estou bem, só espera eu me concentrar um pouco. — Falei inibido.
Taylor parecia muito calmo, seu olhar frio me observava, um olhar submisso. Ele parecia ter medo de mim.
– O que você sabe sobre livros? — Perguntei querendo adiantar algumas das perguntas idiotas que estavam em minha mente.
– Tudo. — Respondeu.
– Pode desenvolver? — Perguntei fazendo gestos com as mãos para me sentir mais a vontade.
– Já li de tudo, de grandes clássicos como 'O grande gatsby', 'Romeu e Julieta', 'Anne Frank' ...
– Bom. Tem cultura.
– Obrigado. — Riu tímido. — Mas também já li terror, suspense, romance. — Se soltou.
– Qual é seu tipo de leitura favorito? — Perguntei.
– Romance. — Respondeu. — E você?
– Terror, ficção e gosto também de romance. — Ri. — Então vamos lá, vamos falar de habilidade. Já trabalhou com livros ou algo do tipo?
Taylor parecia mais adaptado ao local, eu estava ainda tímido, mas um pouco melhor que antes. A sala estava fechada e cheia de livros no chão, nas estantes e prateleiras.
– Nunca trabalhei. Voltei para a casa da minha mãe, eu morava em Nova York, eu não precisava trabalhar. Meu pai é dono de uma grande empresa de sabonetes líquido e pode acreditar, ele ganha muito bem. — Sussurrou. — Mas com a minha mãe não será a mesma coisa, eu preciso se um trabalho. — Me pareceu convincente.
– Porque veio para o Norte da Califórnia? — Não sei se estava sendo invasivo ou se aquilo fazia parte da entrevista.
– Porque eu não queria mais viver com o meu pai. Ele não era e nunca vai ser um exemplo a seguir para mim. — Sua expressão mudou ao falar do pai, parecia mais ríspido.
– Mas seu pai é um grande empresário, como você disse. Porque não seria um exemplo? — Perguntei sem querer.
– Acho que isso não faz parte da entrevista. — Foi sutil.
– Sim. Claro. Desculpa, acho que não preciso de mais nada, só dos seus documentos e sua carteira para tirar xérox.
– Claro. Aqui está. — Taylor estava com um envelope dentro da sua jaqueta de couro.
Me levantei e tirei xérox de todos os documentos e depois guardei na gaveta do Sr. Mason. Nos levantamos e fomos até a sala principal.
– Então? — Disse o menino.
– Então o quê? — Perguntei confuso.
– Eu passei na entrevista? — Perguntou.
– Ah. Não sei, isso é com o Sr. Mason. — Fui até o balcão pegar meu celular.
– Mas você acha que eu passei? — Perguntou.
– Sim. Acho que você foi bem. E eu? Como fui? — Perguntei. Já que seriamos colegas de trabalho, seria bom começar dali.
– Você ficou bem tímido, estava quase entrando em uma daquelas gavetas, mas foi bem. — Pelo tom da voz ele parecia sincero.
– Ah... — Na mesma hora eu voltei a ser o Ethan idiota e voltei à bancada. — Ob-Obrigado.
– Não fica assim. Se eu começar a trabalhar aqui, você vai me ver todos os dias. Uma hora isso acaba. — Sorriu.
– Mas isso não significa que a minha timidez notória irá acabar. — Retruquei.
– Não. — Se aproximou do balcão. — Isso significa que você vai olhar tanto para mim que não vai ver mais motivos para a timidez.
– Exato. — Ri.
– Taylor. — Estendeu sua mão para me cumprimentar.
– Ethan. — Apertei sua mão.
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