Love me Harder
9 Capítulo 9 - Juventude?
Notas iniciais
Love me Harder / Capítulo 9 – Juventude?
— Garota eu te amo, foi por isso que não respondeu as minhas perguntas no telefone ontem?
— Nós não transamos se é isso o que está pensando.
O semblante de Sthella minguou.
— Eu te odeio, como você me perde uma oportunidade dessas?
— Nós estávamos bêbados, ele principalmente-
— Sim! – Ela se descabelou – Não tinha melhor momento, melhor justificativa!
— Ótima maneira de se começar alguma coisa – Ironizei e ela revirou os olhos enquanto segurava nos meus ombros.
— Manu, vou te contar uma coisa que talvez ninguém tenha te contado antes – Ela fez uma pausa com os olhos fechados e respirou fundo – As vezes sexo, é só sexo.
— Vai se ferrar.
— Muito bem – Ela se encaminhou até a cozinha encarando o liquidificador com horror – Agora é cientificamente comprovado que você nasceu trouxa, e que todos os meus esforços ao longo dos anos foram jogados fora, você não aprendeu nada.
Eu suspirei.
— De quem é a vez de ligar? – Ela gritou enquanto abria a geladeira.
Eu gelei, por que eu tinha sido tão idiota? Eu não podia pensar antes de fazer as coisas? Tendo ele me ligado ontem, agora seria a minha vez. Eu tinha que ligar, não só por esse acordo entre troca de interesses, como depois de eu ter feito a baboseira de contar sobre meu estado emocional no ensino médio.
Era como se eu tivesse me confessado para o diabo.
— É a minha – Eu resmunguei. Quanto tempo eu ainda podia demorar pra ligar sem parecer desinteresse e que desse pra ele esquecer tudo o que eu tinha dito?
— Pelo menos isso – Ela surgiu com meu ultimo Danone – Assim vocês podem marcar com calma, pra algum lugar realmente divertido. Você podia chama-lo pra aquela boate no fim da 12 que eu já cansei de te convidar.
— Eu acho boate uma palavra tão feia.
— Não começa, chame do que quiser. Boate, balada, rave, puteiro. O importante é você largar de ser otaria e ligar pra ele.
— Certo mamãe eu não vou me esquecer disso pode ter certeza. Você está de carro?
Ela concordou.
— Ótimo porque hoje eu vou cozinhar.
Abrir um restaurante não tinha sido uma tarefa fácil. Não há muitas faculdades com a opção de gastronomia, e menos ainda aquelas com vontade. Encontrei uma no fim do mundo com um curso de só dois anos, o que me custou fazer vários cursos em diversas áreas da gastronomia pra apresentar um curriculum decente.
Trabalhar na cozinha é um ambiente que não admite erros, como ser um cirurgião. Você tem que saber que carne mal passada não é carne crua, e que carne bem passada não é carne queimada.
Você tem que saber fazer um prato limpo, decente, gostoso. Um prato que agrade não só o próprio paladar, como o de outras 30 pessoas no mínimo, com a lembrança constante de que gosto, cada um tem o seu.
Penei pra guardar dinheiro, era como se só pelo fato de eu estar economizando mil coisas a mais surgissem precisando que eu comprasse algo. E trabalhar nas cozinhas de outras pessoas exigia uma paciência que até então eu não sabia que tinha.
Sthella me ajudou a comprar o terreno. Era uma padaria abandonada, cheia de vidro quebrado e pichações na parede, limpamos tudo e demos inicio a um trabalho árduo.
A melhor parte era cortar, descer a faca com rapidez sobre os alimentos, dividindo-os em pedaços precisos, leva-los ao fogo e observar a mudança de estado, e fazer isso pelo resto da tarde esvaziou minha cabeça.
Eu sabia que tinha que ligar, mas era como Sthella tinha dito, eu sabia ser bem idiota quando não queria. Só que eu não conseguia parar de pensar que parte de mim tinha achado certo falar sobre o ensino médio, que parte de mim achou que de alguma maneira aquilo ia se transformar em uma coisa boa.
Eu deixei uma semana passar. Uma semana inteira. Sthella sabia que eu estava fugindo mas manteve-se calada enquanto em não tocava no assunto, e agradeci ela mentalmente por isso. Na sexta feira a noite quando Sthella e Duda saíram pra farrear eu finalmente encarei o celular por mais de dez minutos.
Ele não me trataria mal é claro, tudo o que eu imaginava era na maior parte, paranoia minha. Então como as coisas podiam ser tão difíceis?
Talvez se eu ligasse e desligasse aquilo contasse como uma ligação, e então todo o peso sairia das minhas costas e partiria da dele. Passar o dedo pelo telefone verde foi sacrifício. O telefone tocou, uma, duas, três vezes, e quando decidi ter feito minha parte ele atendeu.
— Alô?
Eu senti minha garganta fechar. Você precisa crescer Manu.
— Sua vez. – Eu resmunguei desligando em seguida.
Senti minha cabeça ficar menos pesada. Talvez eu fosse a caça de algum filme pra ver antes de ir dormir.
O telefone começou a tocar e eu não acreditei. Por que? Por que? Sthella com todas as certezas me enterraria viva se soubesse. Foi com a respiração falha e sentindo o nervosismo tomar posse dos meus ossos que eu atendi.
Ele gargalhou alto e descontraído.
Foi como um anestésico. Sabe aquela pessoa que você conhece a uma eternidade e na maioria das vezes em que algo engraçado é contado ela só da um sorriso largo, ou balança a cabeça sorrindo sem produzir som algum? Sabe o que é escuta-la rir de verdade, e descobrir que ela é capaz de produzir um dos sons mais gostosos no mundo de se ouvir?
Foi como eu me senti sentada sozinha no sofá da minha sala escutando ele rir.
Maldito seja.
— Isso foi trapaça – Ele conseguiu resmungar mais calmo, o som veio abafado, ele não estava sozinho.
— Não foi não.
Foi sim.
— Achei que tinha se esquecido de mim.
Quem dera.
— Eu tive uma semana agitada.
— Eu também – Ele suspirou – Dois plantões seguidos, trabalhei dois dias inteiros porque teve um surto de meningite em uma escola do outro lado da cidade.
Ele me fez me sentir pequena.
— Tive muitos pratos pra fazer na quarta – Eu fiz uma pausa – Quarta tem promoção.
Soube que ele deu aquele sorriso.
— Bom saber que as coisas estão indo bem. O que está fazendo?
Afundando minha vida social e emocional em casa.
— Nada, acho que vou assistir um filme.
— Topa fugir?
Eu ri, talvez pela primeira vez em dias. Ele não podia sair por ai falando desse jeito, as pessoas iriam sequestra-lo, abusar dele.
— A minha mente foi até a lua e voltou.
Ele riu gostosamente outra vez.
— Eu sou o médico, e a mente suja é a sua, algo de errado não está certo Boaventura. Passo na sua casa em meia hora.
Ele desligou.
Sabe quando algo muito empolgante e eletrizante acontece mas você leva um tempo pra absorver e querer fazer parte? E então você percebe que pela sua lerdeza perdeu preciosos segundos que poderiam ser aproveitados?
Aquela pessoa sou eu.
Tinha algum significado subtendido no modo como dissera meu sobrenome, não era o sarcasmo de querer chamar a minha atenção, ele se referia a algo que ele sabia sobre mim e eu não. Como se me chamasse assim com frequência perto das outras pessoas.
Ele sabia da minha existência enquanto estudávamos juntos? Quer dizer que eu não tinha passado totalmente por despercebida? Era natural que eu, Sthella, Duda e mais outros dois da nossa rodinha déssemos apelidos para aqueles com quem não conversávamos.
Facilitava o jogo das brincadeiras, e dificultava saberem que estavam falando deles.
Betinho Dantas falava sobre mim na roda de amigos fazendo questão de me chamar por Boaventura?
A ideia subiu como um choque pelas minhas pernas e eu corri tropeçando as pressas até meu quarto arreganhando as portas do guarda roupa e me perguntando como aprenderia a me vestir numa saidinha surpresa sem os conselhos sábios de Sthella e a perturbação constante de Duda.
Pensei em ligar pra elas e contar sobre a loucura que estava prestes a fazer, mas aquilo me tomaria um tempo que eu não tinha. Eu tinha de me virar sozinha. Depois de revirar a infinidade de camisetas joguei os últimos dois vestidos que tinha para ocasiões inexistentes sobre a cama.
Como as meninas faziam aquilo parecer tão fácil?
Tive a sensação de que O Jogo da Sedução de Sthella ainda não tinha acabado, o que queria dizer que eu não poderia ousar demais, como não poderia me retrair demais.
Aquilo era doentio! Que ser humano em sã consciência era capaz de se arrumar em tão pouco tempo, com tanta pressão sobre a cabeça, e ainda agradar as pessoas a sua volta? Como as mulheres podiam gostar tanto de encontros?
Encontro? Não aquilo não era um encontro.
Isso não é um encontro Manu, vocês são dois conhecidos saindo casualmente numa sexta feira a noite.
Foi num ato insano que coloquei o vestido azul marinho rodado aberto nas costas e acelerei o passo até o banheiro. Agradeci a Deus na frente do espelho que chifon não precisava passar.
Eu não tinha tempo pra fazer alguma coisa com o cabelo, então o deixei do jeito que estava, e passei tudo dentro do aceitável no rosto. Eu escutei as batidas na porta e minhas mãos congelaram sobre a pia.
Meu Deus. O que eu estava fazendo?
Minha parte irracional foi quem me fez caminhar, respirar fundo e dizer que estava tudo certo enquanto abria a porta. Ele estava de costas e abriu um sorriso largo quanto se pôs de frente, os olhos me analisando com calma.
Muito bem, ele usava uma calça escura, uma camisa jeans de botão com as mangas enroladas nos cotovelos.
Ele tinha uma rosa, um lobo e uma caveira mexicana no braço. Conseguir distinguir os desenhos me passou uma sensação boa.
— Você foi rápida.
— Não gosto de deixar as pessoas me esperando.
— Legal.
Ele destravou o carro e saiu na frente, eu me preocupei em trancar a porta e deixar o telefone em casa, assim Sthella não me mandaria mensagens que me desconcentrasse.
O ar dentro do carro dele era tóxico como da ultima vez.
O que estava acontecendo? Que espécie de pessoa eu tinha me tornado? Saindo daquela maneira em cima da hora, sem avisar ninguém. Eu tinha me tornado as mulheres que eu criticava?
— Aonde nós vamos?
— Tenho um amigo que está dando uma festa, eu não iria, mas agora tenho companhia. – Dirigia com tranquilidade.
— Eu conheço esse amigo? – A essa altura, sabendo o olhar que Sthella tinha sobre Carlos Eduardo, eu queria manter distância.
— Não, mas posso apresenta-los se estiver interessada.
Eu consegui ouvir todos os sentidos subtendidos.
— E vai ser na casa dele, como vai ser?
— Acho que ele alugou um salão, algo do tipo. – Deu de ombros.
Não foi difícil achar o lugar, cheguei até a pensar que ele sabia onde estávamos. Não teve nenhuma recepção porque o lugar estava mais do que lotado, ele segurou na minha mão para passar pelas pessoas, indo em direção ao bar.
Eu provavelmente estava sorrindo como uma tonta.
Betinho Dantas estava segurando na minha mão em publico.
Não escutei o que ele pediu, mas os shots foram colocados na nossa frente com rapidez.
— Ao trabalho pesado e a vida de solteiro.
Eu segurei o copo.
— Saúde.
E o virei de uma vez.
Alcool não é uma coisa que você se adapta, pelo menos pra mim, nunca foi. As pessoas bebiam e riam com tranquilidade como se fosse a melhor coisa do mundo, como se fosse comer chocolate menstruada, como se fosse satisfazer um desejo de grávida, como aquele momento que a dor de garganta passa e você suspira de alivio torcendo pra nunca mais pegar gripe na vida.
No entanto por algum motivo alienígena, o álcool me queimava o peito, rasgando a garganta, descendo até o estomago devagar, e depois subindo a minha cabeça com rapidez, me fazendo perguntar para mim mesma, o porquê eu ainda insistia em beber.
— Não venho a lugares como esse desde a faculdade. – Ele tentou se colocar acima do som, o que era impossível, mas eu estava atenta a cada detalhe de seu rosto porque não é todo dia que se tem um homem desses tão perto.
— Eu já não posso dizer o mesmo. – Viramos outra.
Sthella e Duda procuravam manter o ritmo de festas depois que saíram da faculdade, acabei indo no embalo, mas não era mais uma coisa tão acessível. Era como o se o tempo fizesse questão de jogar na nossa cara que a fase estudante a base de festas tinha acabado, tínhamos trabalhos e responsabilidades constantes pra nos atormentar.
— Por que não me ligou antes? – Viramos outro conjunto de copos.
Eu deixei os ombros caírem. Eu teria mesmo que me explicar? A história parecia longa demais pra ser dita em voz alta, ele não poderia simplesmente usar os poderes dele pra ler minha mente?
— Não sei – Pareceu a resposta certa a dar.
Ele fez uma careta como se repreendesse uma criança de chupar os dedos.
— Vou perdoa-la dessa vez, mas não vou admitir uma segunda. – Virou a quarta sozinho – Achei que tinha se esquecido de mim.
Quem dera.
— Não é fácil esquecer as pessoas que dormem sem camisa no sofá da minha sala.
Ele sorriu.
— Eu conclui que não tinha problema, porque achei que fosse acordar primeiro.
Acordar primeiro pra se mandar, sem sombra de duvida.
— Por que você queria acordar primeiro? – Eu fui pra quarta e ele pra sexta – Mesmo bêbado você já estava planejando ir embora?
Ele franziu o cenho.
— O que quer dizer?
— Você sabe o que eu quero dizer. – Eu tinha o alcançado.
Ele estreitou os olhos sobre mim, como se eu tivesse mudado o assunto de política para o preço do tomate. Como se fosse capaz de me desvendar, como se olhando nos meus olhos eu diria todos os meus segredos.
— Acha que eu teria partido sem me despedir? – Ele balançou a cabeça confuso, como se ainda que tivesse me perguntado fosse o mais improvável dos acontecimentos.
— É o que qualquer outro cara teria feito.
Ele se mostrou ofendido, dando um passo para trás e não se desculpando quando esbarrou em outro cara, tinha os olhos mais escuros, perturbadores.
— Não sou qualquer outro cara Boaventura.
Ótimo, agora ele me odiava.
— O que teria feito você ficar? – Eu sabia que o álcool já tinha subido minha cabeça mais do que deveria.
Ele ficou surpreso, umedecendo os lábios achando que eu tinha feito algum tipo de pergunta retórica e trazendo o corpo de volta a tona como se demarcasse território.
— Você está me tirando?
Eu bufei virando provavelmente o décimo copo. Como ele podia ser estupidamente lindo e ainda assim tão lerdo pra tanta coisa? Eu tinha dito que era apaixonada por ele no tempo que estudamos juntos e tudo o que ele conseguia fazer era agir como se aquilo não tivesse sido nada?
Eu me virei para dar as costas, procurar algum lugar pra respirar onde o oxigênio não estivesse contaminado por tequila, perfume barato, ou indícios da passagem de Dr. Dantas pela terra. Ele segurou no meu braço antes que eu pudesse realmente me afastar.
— Você tem uma tatuagem nas costas.
Aquela era a última coisa que eu achei que ouviria, eu teria me virado se ele não tivesse prendido as mãos nos meus ombros e me obrigado a permanecer de costas.
— Você nunca disse que tinha uma tatuagem.
— Você nunca perguntou. – Você precisa anunciar que fez um desenho definitivo na pele quando conhece ou reencontra alguém?
Ele escorregou o dedo pelas fases da lua que eu tinha na coluna e então o mundo inteiro pareceu pegar fogo. Eu me virei no susto, querendo voltar no passado e perguntar pra mim mesma o que tinha me feito escolher o vestido aberto nas costas.
Ele tinha aquele sorriso no rosto.
— Você nunca me pareceu do tipo que faria tatuagens. Achei que você considerava coisa de “gente perdida”.
A história estava se repetindo ou era impressão minha?
— Cada uma delas tem uma história – Eu murmurei atordoada – Qual delas você quer primeiro?
— Espera – Ele balançou a cabeça rodando o braço na minha cintura, eu não tinha mais por onde fugir – Tem mais de uma?
— Não tantas quanto você com certeza.
Ele permanecia com os olhos atentos sobre mim, a suspeita de um sorriso no rosto, como se descobrisse a cura para câncer e ainda assim não acreditasse.
— Devemos começar por ordem cronológica ou por lembranças mais agradáveis?
O ar sumiu dos meus pulmões, ele viu, e o mundo todo girou.
— Não sei, por que não escolhe uma? Aquela que você gostar mais.
Ele sorriu, larga e esplendorosamente.
— Esse é um jogo injusto Manu – Ele firmou mais a mão na minha cintura, os dedos abusando da pele exposta — Eu precisaria ver todas pra me decidir, e não posso rasgar seu vestido no meio de tanta gente.
Eu vi meu nervosismo se desfazer no ar quando eu gargalhei alto, ainda abafada pela musica. Ele se manteve sorrindo, em deleite.
Eu sei que não era a reação mais apropriada, que tanto Sthella quando Duda teriam mantido o flerte e sairem dali ganhadoras, mas paqueras não eram o meu forte.
— Ótimo – ele estendeu mais dois copos – Bom saber que eu também tenho esse poder.
Eu me contive tentando imaginar o quão vermelha eu estava.
— Que poder?
— De fazê-la rir de verdade – Respondeu como se fosse obvio.
Minhas bochechas continuaram a queimar.
— Vamos aproveitar um pouco esse lugar, porque se não podíamos ter bebido a gasolina do carro em casa. – Ele voltou a segurar na minha mão me levando para o meio de outras pessoas.
A música estava mais alta, mais constante, o ritmo das pessoas a nossa volta não tinha sentido, eram corpos se mexendo por livre e espontânea vontade sem uma coreografia especifica. Agradeci ao álcool por me manter ali, porque foi através dele que mantive os olhos abertos enquanto dançava.
Normalmente eu preferia tê-lo fechados, tentaria ignorar a presença de outras pessoas e pensaria só na musica e em mim, mas dessa vez era diferente.
Eu queria saber onde estava, queria que ele me visse, que prestasse atenção em mim e queria ter certeza de que estava fazendo isso.
Sabia que não era nenhuma excelente dançarina, e com certeza não era meu ponto alto de dotes da natureza, mas esvaziei a mente pra mover o corpo junto com a música. Ele riu, dançou, e manteve-se abraçado a mim uma porção de vezes.
Eu vi as horas piscarem como minutos no relógio e conclui que só poderia estar quebrado. Foi numa ultima juntada perto das três da manhã que obrigou nossos corpos pararem.
— Como você faz isso?
— Faço o que?
— Enfeitiça as pessoas. – Colou a boca a minha orelha – Sabe quantos caras eu já tive que despistar até agora?
— Uns dois, ou três?
Ele riu e depois me beijou.
Betinho Dantas me beijou, por iniciativa própria, depois de eu ter me declarado pra ele.
Era como deveria ser, os lábios pressionados contra os meus, abertos de vez em quando para se manterem ali. Eu enrolei os braços em seu pescoço para trazê-lo para mais perto e ele veio sem demora.
Suas mãos desceram de forma rápida, como se já tivessem feito aquele mesmo percurso milhares de vezes. Eu arfei, adorando as sensações que me causava, vendo o ar sumir, sentindo latejar por entre as pernas.
A boca quente dele desceu grudada ao meu pescoço, lambendo e mordiscando cada centímetro de pele, como brasas por onde passava enquanto os dedos ardilosos brincavam com a bainha da saia do vestido.
Ele expirou de forma pesada quando ergueu o rosto, os braços permaneciam firmes a minha cintura.
— Eu não quero soltar você, de certa forma eu estou bem acomodado onde estou.
Seus olhos brilharam em divertimento apesar da agitação a volta.
— Como você consegue? – Perguntei curiosa.
— O quê? – A pergunta veio inocente.
— Revezar entre essas duas pessoas, o medico sempre certinho e quieto e o cara extrovertido que não para de sorrir.
Lançou aquele sorriso e tudo o que fez foi dar de ombros.
— Sei lá, continuo sendo eu mesmo – Foi a única resposta que conseguiu bolar.
Eu levei a mão o seu rosto, num toque suave sentindo o toque áspero da barba por fazer debaixo dos dedos.
— Acho que estou sonhando – Sussurrei, o álcool certamente tinha me afetado mais do que de costume. Ele colou o rosto ao meu.
As luzes piscavam e giravam a nossa volta, a música ainda em volume estrondoso e tudo o que eu via dele era flashes.
O flash mais bonito que eu já vira.
Respirei fundo, o perfume dele estava em toda parte, e eu quis ficar por ali, sem me preocupar com mais nada.
— Deixe eu acorda-la – O halito quente me fez cócegas no rosto, ele mordiscou o canto da boca, lambendo os lábios em seguida.
— Você pode tentar – Fiz pouco caso – Mas eu não prometo nada.
Ele voltou a sorrir, sugando meu lábio inferior com força.
— Você tem gosto de laranja – Comentou baixinho, ciente de que eu estava arrepiada com toda aquela proximidade – Como isso é possível?
Dei de ombros.
— Deve ter sido algo que eu comi.
— Deus espero que não, quero que tenha esse sabor sempre que beijar você – Praticamente podia escuta-lo ronronar enquanto fazia questão de permanecer colado. Sentia meu peito aquecer, e Deus, parecia que estava derretendo por dentro.
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