Love me Harder
3 Capítulo 3 - Dr. Dantas
Love me Harder / Capítulo 3 – Dr. Dantas
— Por Deus, me tire daqui – Eu coloquei a mão no rosto, sentindo minha cabeça latejar. O caminho até o banco do passageiro havia sido um total sacrifício para o meu lado sóbrio. Sthella apenas suspirou, sabia o quanto ela estava insatisfeita com o meu comportamento naquela noite, mas que deixaria o sermão sobre eu precisar ser mais sociável e agradável para a manhã seguinte, onde eu estaria com a cabeça melhor para absorver as palavras dela.
Pelo menos era o que ela achava.
Eu me assustei quando dedos bateram no vidro, chamando a atenção de nós duas. Eu procurei o botão, incapaz de abaixar a cabeça para olhar e não encontrei, Sthella bufou, usando os de seu lado para descer o vidro.
O sorriso dele era radiante, o rosto tão perto que cheguei a me perguntar se realmente havia uma porta ali no meio.
— Eu vim na moto de Carlos, e ele enlouquece quando está em cima dela durante a madrugada e eu não estou a fim de morrer hoje. Eu pensei em pedir carona para Duda, mas ela parecia louca para fugir de qualquer um.
Pensei em pedir carona para Duda.
Os homens não pensavam em pedir favores para Duda, eles simplesmente se aproximavam porque era mais do que evidente o jeito de piranha contida que ela era. Então a frase reverberou na minha mente, me fazendo rever todos os meus conceitos sobre ele, se ele era o tipo de homem que gostava de mulheres como Duda era melhor eu me afastar.
— Sem problemas – Sthella sorriu ao meu lado, se esticando para abrir a porta de trás, ignorando meu resmungo.
— Deixa – Eu a segurei – Ele fica na frente, eu vou pra trás.
Sem dar chance de ela retrucar, me ameaçando se eu vomitasse no bando de trás, me ameaçando se eu apagasse no banco de trás, ou simplesmente ficasse mais chata, eu destranquei a porta do meu lado, abrindo o suficiente para que eu descesse e ficando de pé mais rápido do que eu imaginava. Eu me desequilibrei, pressionada contra o carro ele colocou as mãos em meus ombros, os olhos brilhando em divertimento.
— Você está bem?
Eu pisquei atordoada, o perfume dele era forte, toxico. Infectando-me como uma doença grave, noz moscada e pimenta, me provocando arrepios e uma onda de calor que não me via capaz de explicar.
— Estou – Tateei a porta fria atrás de mim, caçando a bendita da maçaneta. Notando o meu esforço desnecessário ele esticou um dos braços para abri-la, o corpo quente perto demais do meu, eu segurei a respiração tentando manter o resto do meu juízo. Ele se afastou a diferença de temperatura de quente para frio me provocando calafrios. Eu dei meia volta, antes que eu esticasse o braço para fechar a porta depois de ter sentado ele já a batera.
— Vou ficar devendo uma pra vocês – Ele riu e Sthella deu a partida. Eu fechei os olhos jogando a cabeça para trás, tentando limpar os pensamentos sujos que me vieram à cabeça. – Vocês moram juntas?
— Não – Sthella foi quem respondeu, depois de certamente ter visto o meu estado deplorável através do retrovisor – Manu também está de carona – Ela suspirou – Ela se recusa a comprar um carro, mesmo tempo condições de ter pelo menos dois na garagem.
— Um e meio – Eu retruquei.
Ele abafou o riso.
— O que seria um carro e meio?
Eu me inclinei para frente, apoiando os braços nos dois bancos, minha cabeça protestou pelo movimento rápido, no entanto eu ignorei.
— Um carro bom, e um carro antigo, que por ser antigo tem pelo menos metade das coisas que eu bom teria, o que faz dele um meio carro. — Sthella fechou os olhos em descrença, ela não se conformava com minha filosofia. – Mas eu não quero ter carro, porque prefiro bicicletas.
— Ela quer é ser atropelada isso sim.
— Não, nós da bicicleta temos muito mais vantagens que vocês de carro – Eu dei de ombros.
— Só se for para chegar atrasado.
— Eu prefiro andar a pé – Ele comentou, fazendo com que nós duas nos calássemos enquanto ele tinha um sorriso de canto – Está certo que talvez eu me atrase mais do que as duas, mas eu gosto de andar.
— Você gosta de andar ou só é influência de anos de medicina?
— Manu-.
Ele riu.
— Tudo bem, a maioria das pessoas suspeita de qualquer coisa que eu digo querendo logo já usar como “opinião de médico”, mas eu só sou médico quando estou dentro do hospital ou do meu consultório – Ele virou o rosto para me olhar – Fora dele, eu sou eu mesmo.
Fui obrigada a segurar a respiração outra vez. O olhar dele desceu até a minha boca antes de desviar, interrompido por Sthella.
— Então, para que lado?
Ele voltou a olhar para frente, se afastando outra vez enquanto indicava as ruas, eu recuei o corpo também, me encolhendo no banco, surpresa com a descarga de eletricidade que passara pelo meu corpo. Como ele faz isso? Ele tem consciência do efeito que causa nas pessoas? Ou será que é tudo de propósito.
O silêncio absorveu o carro, o som do motor e da rua quase vazia a nossa volta sendo a única coisa a se escutar. Paramos em frente ao um portão grande de ferro pintado de marrom, a entrada de pessoas logo ao lado, e depois, o vidro escuro que provavelmente daria na sala do porteiro. Encarei a extensão do muro quando não vi prédio algum.
Meu Deus, ele mora em um residencial fechado. Sthella deve ter disfarçado a mesma surpresa que eu tinha, pois pareceu natural para ela deixa-lo ali, eu morava na casa que herdara de minha mãe, que herdara da avó dela, onde todas nós havíamos morado, em um bairro antigo, onde a maioria tinha pelo menos, mais de 40 anos., enquanto Sthella tinha um apartamento pequeno no oitavo andar perto do centro.
Aquela parte da cidade não nos era conhecida.
— Obrigado mais uma vez pela carona – Ele abriu a porta do carro, revezando olhares entre nós duas – Vocês sabem voltar?
Que cretino. Quem ele pensava que era? Achava que éramos alguma dupla de pobretonas incapaz de se guiar de volta para nossos barracos através da parte rica da cidade? Sthella abriu a boca para dizer que não, estava escuro e nenhuma de nós sabia se quer se estávamos na mão certa, ou correndo o risco de outro carro passar por cima, mas eu a interrompi, meu ego ferido falando mais alto.
— Claro – Eu abri um sorriso torto – Pode deixar.
Ele concordou, talvez aliviado, talvez feliz por saber que não éramos tão da ralé quanto ele pensava que éramos. Quando ele se afastou, acenando para a janela escura, a porta se destrancando e sumindo depois do portão Sthella me deu um beliscão forte no braço.
— Ai! – Eu me contrai na direção contraria – Isso doeu!
— Você sabe pra que lado ir agora espertona? Porque eu não sou daqui vossa realeza.
— Ele falou como se fossemos dois bichos do mato! – Eu pulei para o banco da frente, talvez as constantes horas sem dormir estivessem levando o efeito do álcool embora – Eu não ia deixar passar!
— E o que vamos fazer agora? Estacionar e esperar amanhecer pra pedir informação? Eu não tenho condições de comprar outro carro se formos assaltadas! – As vezes Sthella pensava em tudo.
— Não vamos ser assaltadas, é só pegar o mesmo caminho de onde viemos, está tarde não tem ninguém nas ruas.
— Os radares continuam nos postes inteligência – Ela bateu no volante com raiva – Aposto que você não vai querer pagar minhas multas!
— Nós vamos dar um jeito!
— Vamos o cacete, você vai descer lá, e chama-lo de volta.
— Sthella eu não-
— Agora!
Eu desci do carro a contra gosto, tudo bem, talvez eu tivesse me precipitado, quando me aproximei do portão procurei por alguma campainha, mas antes que eu encontrasse, um homem saiu de algum lugar mais a frente. Devia ter uns dois metros de altura, ele era enorme, negro, usava uma farda preta dificultando mais ainda que eu o visse, no breu que era aquele lugar.
Lendo meus pensamentos, quando ele chegou mais perto do portão, puxou alguma cordinha no canto, jogando uma luz fraca sobre nós dois. Eu engoli em seco.
— Boa noite – Minha voz estava tremula, e ele apenas acenou com a cabeça – Eu e minha amiga acabamos de trazer o Dr. Dantas e esquecemos de pedir a ele o caminho de volta, então será que o senhor poderia chama-lo pra nós?
A sombra de um sorriso passou pelo rosto dele, como se já soubesse de tudo aquilo ou tivesse visto aquela mesma cena milhares de vezes, ele destrancou o portão, abrindo espaço para que eu passasse. Eu olhei uma ultima vez para o carro, esperando que Sthella não tivesse caído no sono com a minha demora e estivesse ciente de tudo o que estava acontecendo, pedi licença e dei uns dois passos a frente, ele fechou o portão e eu olhei para cima para poder vê-lo.
Ok, na luz ele não era tão sombrio assim.
— Infelizmente Dona eu não posso largar o meu posto e meu parceiro está doente hoje – A voz dele era grave, mas via-se que ele estava tentando ser gentil – O interfone não está funcionando, e só vou deixar ir até a casa dele por ele ter decido de seu carro, mas realmente espero que isso não se repita – Ele estava me dando uma bronca? – Você vai seguir essa rua – Ele virou-se apontando no meio das casas luxuosas, vai virar na terceira a direita, e vai ser a quinta casa do seu lado esquerdo.
— Obrigada – Eu dei um passo e fui barrada.
— Posso confiar?
Ele estava sugerindo que eu era algum tipo de ladra?
— Pode.
Balançando a cabeça em afirmação eu comecei a caminhar em passos rápidos e firmes, louca para sair logo daquele lugar. Passei por casas com luzes acesas, a cortina fechada impedindo minha curiosidade. Quando me vi parada na frente da casa dele quis sair correndo, improvisar um caminho para Sthella e jogar toda a culpa nele. Ou talvez só correr até o porteiro assustador e perguntar a ele mesmo.
Isso! Era perfeito, eu não precisaria falar com ele, dispensar toda a formalidade de não querer entrar e aceitar um copo d’água. Para o meu desgosto a porta se abriu antes mesmo de eu dar meia volta e talvez ele tenha entrado no mesmo estado de choque que eu. Ele estava com uma calça de algodão, preta, sem camisa, e um sanito cheio em uma das mãos.
Todas as tatuagens a mostra. Desenhos que subiam pelos braços e terminavam nos ombros. Algo escrito em arabe embaixo do mamilo direito, e algum desenho geeometrico no quadril que ia até onde eu não podia ver.
Ótimo, logo quando ele esta pra por o lixo para fora, muito bem, ótima hora pra se aparecer na casa de alguém, ele provavelmente só ia fazer isso antes de ir dormir, daquele jeito.
Ele meneou a cabeça, a surpresa entre nós dois quase palpável, eu fechei os olhos em um suspiro quando ele voltou a abafar o riso, caminhando na minha direção ele desviou de mim no último segundo indo até a cesta, jogando o saco sobre a mesma e fazendo o caminho de volta.
— Então – Ele parou do meu lado, também encarando a porta aberta, a luz iluminando o caminho a nossa frente. – Você quer entrar? Aceitar um copo d’água, ou um café?
Ou você talvez.
— Não – Neguei com mais rapidez do que se me acusassem de matar alguém, virando-me para olha-lo. Dos ombros para cima Manu, dos ombros para cima.— É que talvez eu tenha me precipitado sobre saber o caminho de volta.
Ele sorriu, balançando a cabeça em negação.
— Vamos – Convidou-me apara entrar, tomando a frente – Eu vou por uma camiseta e depois conversamos.
Muito obrigado.
Eu fechei a porta atrás de mim e fiquei estática ali mesmo, a sala de estar dele era pelo menos, duas vezes maior que a minha. Talvez ele estivesse sendo gentil quando perguntou sobre minha teoria de um carro e meio.
Voltando de sabe se lá onde, com a mesma calça, chinelo e uma camiseta cinza ele abriu a porta da rua outra vez, dando vez para que eu fosse primeiro, apagando as luzes e seguindo-me logo em seguida.
— Eu te acompanho até o carro – Justificou-se antes que eu começasse a perguntar – Explico o caminho para Sthella , porque talvez você não se lembre até chegarmos lá a julgar o modo como bebeu hoje.
Eu abri a boca para retrucar mas me calei, queria dizer a ele que eu não estava mais bêbada e totalmente ciente de que ele estava me julgando por beber, retrucar dizendo que eu podia muito bem guardar a informação e depois explicar para Sthella, mas reconsiderei. Revendo como os pensamentos pervertidos tomaram a minha mente alguns minutos atrás talvez eu ainda estivesse bêbada.
Não vi o porteiro quando chegamos ao portão, mas ele destrancou-se sozinho mesmo assim, caminhamos até o carro, a porta do passageiro abrindo momentos antes dele se esticar para abrir para mim.
— Vocês demoraram uma eternidade – Ela resmungou, o olhar que só eu conhecia me perguntando se havíamos transado.
— Ele mora longe – Foi a minha palavra final, ele deu a volta no carro, Sthella abaixou o livro dela e ele explicou pelo menos uns três caminhos diferentes. Se fossemos voltar para o restaurante, se fossemos para o centro, se fossemos pegar a pista.
Sthella agradeceu com uma felicidade mais do que evidente, ele concordou com um sorriso brincalhão e se despediu uma última vez. Foi só depois de ter virado a esquina que Sthella abriu aquela boca grande pra jogar suas suposições.
— Nós não transamos.
— Mas que merda Manu! – Ela revirou os olhos – Vocês tiveram mais que tempo, qual é, ele veio até aqui de pijama, eu podia jurar que pelo menos-
— Não transamos, eu já disse, demorei porque ele mora longe nesse lugar enorme.
— Você pelo menos viu o quarto dele? Vocês nem se pegaram?
Eu passei a mão pelo rosto, eu estava transpirando.
— Não Sthella, eu mal pisei na sala dele direito, ele estava colocando o lixo para fora quando eu apareci.
— Você é muito lerda mesmo.
— Obrigada.
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