Love is blue
4 Capítulo 4 - Adeus, San Francisco.
Notas iniciais
Capítulo 4 – Adeus, San Francisco.
O tempo, às vezes, pode ser seu pior inimigo, especialmente quando desejamos que ele passe rápido e nos leve diretamente para o momento almejado. Sara e Grissom estavam sendo assombrados pelo fantasma da ansiedade, devido o rápido passeio que fariam mais tarde. Estavam levemente entorpecidos por um formigamento muito parecido com a felicidade, mas um pouco mais quente do que isso. Não era realmente um encontro, com qualquer tipo de segunda intenção. Apenas se sentiam contentes por compartilharem de companhias mutuamente agradáveis.
Já o clima dava sinais de querer mudar a qualquer momento. De um lado da cidade estava extremamente ensolarado e sem nuvens, enquanto na parte norte era possível ver a formação de pesadas nuvens cinzas se aproximando gradativamente. Um vento gelado soprava pelas ruas, como quem sussurra um segredo aos ouvidos de alguém. Para os habitantes da cidade, tal mudança não era motivo para descontentamento, mas oportunidade de aproveitar um dia com menos suor, e mais brisas frescas.
Sara caminhou tranquilamente até o auditório, pronta para encerrar seu último dia de conferência. Havia falado com seu amigo Robert na hora do almoço, comentando sobre como estava aproveitando tudo que estava sendo passado em cada palestra. Quanto mais pensamos saber sobre os mistérios do mundo, vem alguém e te mostra que ainda existe muito para ser descoberto e aprendido. E Sara era uma ótima aluna.
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— Estão todos prontos para nosso último dia juntos?
Um forte burburinho se instalou em todo auditório. Várias foram as frases identificadas em tom de descontentamento pelo fim daquela semana de conferência. Os fiéis acompanhantes de Gilbert Grissom com certeza haviam aproveitado todas as palestras e não estavam prontos para terminarem com elas.
— Acho que podemos começar – continuou ele, sorrindo contido por perceber a boa impressão que conseguira deixar. Rapidamente, olhou com o canto dos olhos para uma espectadora em especial, podendo encontrar seus olhos fixos nele.
Desviou.
— Então vamos lá...
O tempo voou. Porque como já fora atestado por toda as pessoas um pouquinho mais atentas, o tempo fluía de acordo com sua experiência. Quanto mais queremos que um momento dure, mais ele parece escorrer por entre os nossos dedos e passar ligeiro. Enquanto ao desejarmos que ele seja rápido para levar logo coisas embora, ou quem sabe trazer para junto de nós, o tempo acaba por andar em passadas lentas, sem pressa de correr.
Sara manteve seu papel de melhor aluna, fazendo sempre observações importantes e perspicazes, chamando a atenção de todos os presentes, especialmente do palestrante. Nada mais sedutor para Grissom do que uma mulher inteligente. E naquele momento, ela era uma fonte de interesse muito eficaz em lhe provocar sorrisos e revirar seu estômago.
— Espero que todos tenham aproveitado ao máximo esses cinco dias que passamos juntos, muito obrigado pela companhia e paciência de todos.
Em algum lugar ao meio das cadeiras do auditório, alguém iniciou uma salva de palmas, que foi sendo seguida por todos os outros que ali estavam. Logo o barulho foi diminuindo, e o que antes era uma sala abarrotada de pessoas, foi se tornando cada vez mais vazia. Várias foram as pessoas que foram até Grissom para lhe cumprimentar e conversar um pouco mais. Sara apenas observou de longe, pensando se deveria ou não se aproximar. Do seu lugar, observando toda a movimentação, olhou para o perito uma última vez, e encontrou seus olhos fixos nela, mesmo que conversando com outra pessoa. Ela sorriu e lhe acenou discretamente, ignorando a as reviravoltas que seu estômago dava.
(...)
— Uma legião de fãs, eim? – Sara alfinetou Grissom, após quase uma hora esperando todas as pessoas o deixarem ir embora.
— Pena eu estar interessado apenas na sua atenção.
Sara tentou conter um sorriso, contraindo os lábios em um pequeno bico – Ah é? Bom, agora ela é todinha sua.
Grissom sorriu de lado, dando uma pequena piscadela para mulher.
— Eu só preciso passar no hotel para deixar essas coisas – apontou para sua mochila e livros.
— Primeira parada, hotel do Sr. Grissom.
(...)
Sara ficou esperando do lado de fora, enquanto Grissom subiu até seu quarto para deixar suas coisas. Percebeu que a recepcionista do hotel não parava de encará-la. “Será que tem alguma coisa errada no meu rosto?” Sara pensou, sem entender bem os olhares da mulher.
A morena viu quando Grissom saiu pelo elevador e veio caminhando alegre até o local que se encontrava sentada esperando por ele. Foi então que seus olhos atentos de perita perceberam que a tal recepcionista praticamente o engoliu com os olhos, totalmente atenta a presença do homem.
— Vamos?
— Tenho a impressão que a recepcionista quer ser convidada para o nosso passeio – ela não pode evitar de falar.
Grissom olhou para ela de forma confusa, arqueando as sobrancelhas desentendido. Deu de ombros.
— Não consigo dividir minha atenção com mais de uma pessoa.
Sara riu.
— Se nos apressarmos vamos conseguir chegar até a ponte antes que o sol se ponha.
— Então acho melhor nos apressarmos.
(...)
Grissom e Sara percorreram um longo caminho até chegarem a ponte Golden Gate. Caminho esse que talvez fosse um pequeno presságio sobre um futuro não tão simples e rápido de se viver. A conversa era leve, sobre nada íntimo demais, porém não tão superficial que fosse entediante. Os sorrisos vinham fáceis e por qualquer comentário, e mesmo que o tempo estivesse dando indícios de uma tempestade, nenhum dos dois pareceu se importar.
Chegaram até um longo espaço gramado, cheio de árvores e bancos. Daquele lugar podiam ver a ponte bem de perto, e ao mesmo tempo apreciar os últimos raios de sol sumindo atrás de pesadas nuvens de chuva.
— Você vem sempre aqui? – Grissom perguntou, após se sentarem em um dos bancos de frente para a ponto no horizonte.
— Nem sempre, gostaria de vir mais vezes – Sara encarava fixamente o horizonte, tendo em seus olhos o reflexo dos últimos raios de sol — Mas as vezes, após um caso difícil, eu gosto de me sentar aqui e não pensar em nada.
Ela se virou rapidamente para ele e sorriu, voltando seus olhos para o horizonte.
— Entendo – Grissom pensou sobre todas as vezes que andou de montanha russa após um caso difícil.
— Qual tal tirarmos uma foto?
— Foto? – ele não era um grande fã de fotos.
— Sim! – Sara disse animada, levantando-se – Uma lembrança de San Francisco.
— Mas como –
Sara retirou de sua bolsa uma pequena máquina de fotos instantâneas, Grissom se calou divertido.
— Certo.
— Como você gostaria que ela fosse? – Sara olhava atenta para a ponte, pensando no melhor ângulo – que tal você ficar de pé bem aqui onde estou, para que eu possa pegar a ponte atrás de você?
Grissom se levantou, indo para o lado de Sara.
— Você não vai tirar comigo?
Ela franziu o cenho, não esperando o convite — Pensei que quisesse aparecer sozinho.
— De forma alguma – Grissom sorriu para ela, olhando-a bem no fundo dos olhos – Além de San Francisco eu gostaria de uma lembrança sua também.
— Ahm... – a mulher ficou desconcertada, mas contraindo os lábios com vontade de sorrir – Okay, vamos lá.
Sara virou a câmera na mão de forma que ela pudesse apontar a câmera para eles mesmos.
— Espero que isso funcione – ela murmurou.
Grissom passou o braço por suas costas, segurando-a em um meio abraço, mantendo-os bastante próximos. Sara fingiu não se abalar com o gesto, e disse:
— Sorria, Dr. Grissom!
Pronto. A foto havia sido tirada.
Grissom a soltou do abraço.
— Deixe-me ver.
Uma pequena folha de papel foi saindo bem devagar da câmera de Sara, e aos poucos a imagem nela contida foi ficando mais nítida, mostrando um homem e uma mulher muito sorridentes com uma ponte ao fundo.
— Bom, parece que não sou boa em tirar fotos apenas de pessoas mortas – brincou.
— Ficou ótima.
Grissom pegou a foto da mão de Sara, e ficou olhando feliz para a imagem.
— Tive uma ideia.
Grissom olhou curioso para a mulher, que mexia mais uma vez em sua bolsa, até encontrar uma caneta. Ela pegou a foto de volta e anotou algo em seu verso, entregando novamente para Grissom.
— Caso você volte e queira marcar uma outra caminhada.
Grissom viu um número de celular escrito com letras finas atrás da foto.
— Obrigada – foi tudo o que conseguiu dizer.
— Enfim... Você deve estar cansado.
— Na verdade não – Grissom percebeu a mudança de assunto – Sou do turno da noite, estou acostumado com longas jornadas de trabalho.
— Uma semana de luz na sua vida?
— Com certeza.
O sol já havia desaparecido, e tudo que restava era um pequeno feixe de luz no horizonte. O vendo continuava soprando como quem quer revelar algum segredo. Mas era um som reconfortante, preenchendo o silêncio confortável de Grissom e Sara. Uma caminhada pelas ruas de San Francisco após uma longa semana de estudos era tudo que eles precisavam.
— Parece que vai chover.
Grissom olhou distraidamente para o céu, seus olhos extremamente azuis reluzindo na escuridão que emanava da noite – Um pouco mais de luz e umidade.
— Las Vegas, sempre um inferno na terra.
— Em mais aspectos do que deveria.
Novamente o vento soprou, mas dessa vez mais forte e gelado, zumbindo mais alto. Sara fechou os braços pelo próprio corpo, em um movimento quase inconsciente. Grissom olhou para ela, e em um gesto automático, passou os braços por cima de seus ombros, tentando aquecê-la.
— Acho melhor voltarmos rápido, tenho a impressão que vai começar a chover.
Sara ficou em silêncio. Lançou um olha agradecida para Grissom pelo gesto gentil em protegê-la do frio. Mas ao mesmo tempo ficou sem saber como agir. Caminharam por alguns minutos em silêncio, ignorando ainda estarem abraçados. Quando estavam próximos a universidade novamente, puderam sentir pequenas gotas de chuva começarem a cair do céu.
— Você está com fome? Talvez devêssemos arriscar um jantar... – Grissom sugeriu rapidamente, olhando para frente sem encontrar os olhos de Sara, ignorando que continuava abraçando-a.
— Vamos arriscar o mesmo restaurante?
E como quem responde sem palavras, começaram a caminhar mais rápidos pelas ruas rumo ao restaurante lotado de dias antes.
(...)
Foi como uma permissão. Ao entrarem no restaurante, começou a cair uma fina chuva do céu. Aquilo era incomum – tal mudança de clima. Em uma cidade sempre quente, chover repentinamente, junto de rajadas de vento frio, só poderia ser o marco de um dia especial. Mas poucos pareciam ser aqueles a se aventurarem fora de casa em tal situação, já que o restaurante que costumava estar sempre tão cheio de gente, estava quase completamente vazio, não fosse por Grissom e Sara, e mais três mesas ocupadas.
— Parece que estamos com sorte.
E assim foi a noite. Recheada com sorrisos discretos, trocas de olhares, uma conversa solta.
— Saio amanhã, as sete – Grissom respondeu suavemente, logo após pedirem a conta da noite.
— Mais um motivo para não demorarmos.
— Foi um ótimo jantar.
A vida pode nos surpreender sempre. Nunca sabemos quem está para sair, ou entrar. E naquele instante, eles começaram a fazer parte da história um do outro. E mesmo que sem muitas palavras, ou conhecerem sobre a história um do outro, Grissom encontrou em Sara alguém em quem poderia confiar.
— Que tal enfrentarmos algumas gotinhas de água? – Sara se encontrava em pé, próxima a porta de saída do restaurante, encarando o céu nublado e sentindo um vento frio lhe cortar o rosto – Não parece que vai parar tão cedo...
— Você tem razão... – os olhos de Grissom perscrutaram a noite, refletindo seu azul tão denso como o céu – Vamos? – ele lhe estendeu o braço, lançando um sorriso convidativo.
Saíram caminhando rapidamente, de braços dados, e sorriso no rosto. Uma noite daquelas, era pra ser lembrada depois.
— Amanhã já tenho trabalho me esperando.
— Quem sabe um dia você não vem trabalhar comigo.
A morena olhou para Grissom de forma interrogativa.
Ele deu de ombros – Nunca sabemos quando pode surgir uma vaga... E conhecendo seu trabalho...
— Não conhece meu trabalho.
— Mas agora conheço você, e acredito ser o suficiente.
Sara ficou em silêncio, tentando imaginar como seria viver em Vegas.
— O que você acha? – insistiu ele.
— Eu adoraria – sorriu feliz.
Ficaram em silêncio o resto do caminho, enfrentando algumas gotas de chuva que lentamente iam encharcando suas roupas. Não tinha como as coisas ficarem melhor, teria?
Chegaram ao apartamento de Sara, e se esconderam embaixo de um toldo que ficava logo na entrada. Ainda de braços dados, se olharam profundamente. Os olhos de Grissom estavam quase negros, as pupilas muito dilatadas, com um pequeno filete azul dando um brilho intenso e incomum ao seu redor. Sara sentiu se perder naqueles olhos, sendo levada para um lugar que suas palavras não podiam descrever.
— Acho melhor você se secar, ou vai pegar um resfriado – Grissom quebrou o silêncio, mas não o contato dos olhos.
— Você também – sorriu tão suave, que se não fosse por seu tom de voz, seria imperceptível – Obrigada pelo passeio, além de toda a conferência, claro.
— O prazer foi todo meu.
De frente um pro outro, sorriram sem exagero, apenas um contrair de lábios discreto e suave. Ele queria muito beijá-la, ou simplesmente tocar seu rosto, e gravar aquele rosto que havia lhe causado tantas reviravoltas no estômago.
Com a mão livre, Grissom depositou seus dedos na face de Sara, fazendo um leve carinho em sua testa, descendo para a bochecha. A mulher sentiu seu rosto queimar ao toque do homem, confusa pelo repentino gesto.
— Seu cabelo – justificou ele – molhado, caindo no rosto – abaixou a mão.
— Bom, boa noite – ela não sabia o que dizer, e menos ainda conseguia se mover em consonância com sua despedida – boa viagem de volta.
— Boa noite.
Movimentos contrários. Ao invés de se distanciarem para irem embora, o espaço entre eles foi sendo quebrado gradativamente, envolvidos por um sentimento doido na barriga, e uma onda de calor no peito. Aquilo era um beijo. Seria, se não fosse por Nick, que aparecendo no momento errado, pigarreou.
— Com licença.
Afastaram-se bruscamente, o primeiro momento em que seus olhos quebraram o contato.
— Nick – Sara tinha uma expressão assassina nos olhos.
— Desculpe, interrompi alguma coisa?
— Não Nick, eu já estava de saída – Grissom argumentou rápido – Boa noite, Sara.
Somente nesse momento perceberam que ainda estavam de braço dados. Desvencilharam-se rapidamente, enquanto o homem olhou para ela envergonhado por toda a situação, como quem pede desculpas.
— Boa noite, Grissom – também sorriu tímida.
Trocaram um longo olhar, mais significativo do que poderiam explicar. O que fora exatamente aquilo? Eles acabaram de quase se beijar, não fosse por uma indesejada interrupção. E depois? O que aconteceria? Estavam completamente entorpecidos pelo momento, coração descompassado, rostos corados. Grissom foi quem se virou primeiro. Começou a caminhar, mas se virou brevemente, acenando para Sara, que sorriu, enquanto observada o perito ir andando.
— Obrigada, Nick – Sara estava de mau humor – Agora tenho mais um motivo pra reclamar de você.
Saiu, rumo a seu apartamento. Já o porteiro, ficou satisfeito, vendo a morena se afastar.
“E então você chegou
como quem deixa cair
sobre um mapa
esquecido aberto sobre a mesa
um pouco de café uma gota de mel
cinzas de cigarro
preenchendo
por descuido
um qualquer lugar até então
deserto”
Ana Martins Marques
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