Notas iniciais
Olá, seria legal ter leitores. 'u'

Acordou quando percebeu quão doloroso era respirar. Demorou para abrir os olhos, sentia-se exausto e mais melancólico que antes. Suas íris escuras se tornaram visíveis antes de recuperarem o foco. Tudo era brilhante demais. A sensação pegajosa de sangue não estava mais presente, mas seu corpo ainda estava realmente pesado e cansado.

Olhou para baixo e encontrou o próprio torso enfaixado. Vestia um kimono branco aberto por cima e sentiu o rosto se tornar vermelho por alguém tê-lo visto sem nada para que então o vestisse. Não ousou se mexer, a dor era intensa demais, mas desejava respirar naquele momento. Parecia que a dor daquele ferimento contaminava todo o seu corpo. Veneno, talvez? Não sabia ainda. Ouviu passos que chamaram sua atenção.

A porta de frente para o jardim foi puxada para o lado, deixando que luz e cheiro de flores passeasse pelo quarto. Demorou para se adaptar à luminosidade, mas quando o fez identificou quem estava ali.

Os cabelos lisos e castanhos que desciam até passar do queixo, mas paravam antes de seus ombros com exceção de duas mechas, uma de cada lado de seu rosto, que tocavam suas clavículas. Era robusto, mas do jeito que se vestia era possível esquecer esse detalhe, a camiseta branca justa era escondida por um casaco militar bege que ele insistia em usar sobre os ombros. Seus olhos verdes sonolentos encontraram os de Japão e ele suspirou. Nenhum dos dois sorriu.

— Não achei que fosse acordar tão cedo. — Um miado baixo veio detrás dele quando um gatinho branco e cinza, gordo e fofo surgiu no ombro do rapaz — Como se sente?

— Eu...

O ferimento pareceu queimar na mera tentativa de fala. Japão se contorceu e abriu a boca para tentar falar novamente, mas Grécia abaixou do seu lado e balançou a cabeça reprovando a futura tentativa. O oriental fechou a boca novamente e olhou para o lado oposto. Ele tinha razão, não devia tentar falar.

Como sempre que estava juntos, Grécia fazia silêncio. O tempo que os dois dividiam era bom por isso, não precisavam falar para aproveitarem a companhia um do outro. O maior molhou um pano limpo em água morna e torceu, levando ao rosto de Japão e limpando com cuidado. Não estava acostumado com esse tipo de contato, então seu rosto ficou vermelho aos poucos. Era estranho, Grécia sabia que ele não era tocado e não lidava muito bem com contato físico, mas continuava.

— Se não gosta... — Murmurou molhando o pano novamente — Não se machuque de novo.

Japão virou o rosto para o outro lado ainda mais depois disso. Ele estava certo, essa era a pior parte. Se não estivesse machucado ele nunca faria nada disso. No entanto, mais um tipo de toque inesperado aconteceu. Aparentemente Grécia precisava trocar os curativos que envolviam seu peito. Não queria aquilo.

A dor, por um momento, foi deixada de lado quando ele segurou a mão do maior. Sabia ser fraco, mas ele parou ao perceber que Japão o segurara. Franziu o cenho e se forçou a falar, mesmo que a dor começasse a superar o que aguentava.

— N-não... Eu não...

— Japão. — A voz dele foi inesperadamente firme — Você pediu minha ajuda, então eu vou te ajudar. Da próxima vez chame o Itália.

O pensamento de receber cuidados médicos de Itália fez com que Japão tremesse tenso e preocupado. Provavelmente os dois acabariam mortos e levariam mais três países juntos, Itália não era bom com... Nada além de caos e destruição daqueles próximos. Pobre Alemanha.

As pontas dos dedos de Grécia eram mornos contra sua pele fria. Os curativos começavam no meio de seu peito e cobriam uma área realmente grande, e começaram a ser removidos com muito cuidado. O gato desceu do ombro de Grécia e deitou do lado da cabeça de Japão com sua cabeça sobre o pescoço do ferido. Japão gostava de Heracles, o gato. Era macio e fofo e apreciava colo e carinhos.

Decidiu prestar mais atenção no gato já que não adiantava lutar. Era quentinho e parecia se importar com sua condição lastimável. E tinha um cheiro bom, mas não era o típico cheiro de gato, parecia perfume.

Frio tomou seu corpo quando o curativo foi totalmente aberto. Com cuidado, após espantar Heracles por um momento, Grécia ergueu Japão. Precisava tirar completamente o curativo.

Muita proximidade e muita dor. Segurou o maior pelos ombros e começou a ofegar. O esforço era mais do que conseguia suportar, mesmo que Grécia o apoiasse e dispensasse boa parte da força que fazia. Estava velho demais para isso.

Sentiu seu ferimento queimar quando a medicação foi aplicada. Sabia que ele só fazia o necessário e que o fazia bem, mas ainda era horrível e muito mais doloroso do que gostaria que fosse. Mesmo assim se esforçava para ficar em silêncio, deixando escapar apenas arfadas pesadas de dor.

Depois do que pareceu uma eternidade, Grécia começou a refazer o curativo com bandagens limpas. Manteve Japão próximo e refez atentamente a proteção que envolveria o ferimento e auxiliaria na recuperação. A dor não era mais insuportável, o medicamento devia ter anestésicos, era bom. Suspirou aliviado, percebendo na sequência como ainda segurava o maior com força, como se o abraçasse. Japão afastou as mãos dele e desviou os olhos castanhos para o outro lado. Estava vermelho novamente.

Grécia olhou para ele e ficou assim por um tempo, segurando o menor próximo de si, mas em silêncio. Eles passavam muito tempo em silêncio juntos. Mas o maior quebrou o silêncio.

— Eu trouxe algo pra você.

Japão o observou em silêncio. Sabia que Grécia conhecia seus costumes, mas não tinha certeza se haviam conversado sobre presentes. Ficou com receio de ser algo descabido ou de não saber como reagir. Grécia deitou Japão novamente e pediu que aguardasse. Em pouco tempo ele voltou com uma pequena caixa branca com cordas finas vermelhas mantendo a tampa fechada. Era um embrulho simples.

Parou do lado do menor e estendeu a caixa para Japão com uma breve reverência. Com esforço, Japão sentou e aceitou fazendo uma dolorosa e breve reverência em retorno. Trouxe a caixa para o colo e olhou para Grécia novamente. Não é costume abrir o presente na frente dos outros, mas ele não parecia ter intenções de sair sem que o menor abrisse a embalagem.

Após um suspiro preocupado ele puxou os cordões e abriu o embrulho, separando a tampa da caixa.

— ... Grécia...

Dentro da caixa havia uma almofada vermelha e fofa, mas ela quase não era visível por estar debaixo da criatura mais amável que Japão já vira. Era pequeno e preto com pequenas luvinhas brancas em cada patinha, assim como a pontinha de sua cauda, seu focinho e as pontas de suas orelhinhas. O felino miou choroso ao olhar para Japão e se apoiar na lateral da caixa pedindo colo.

Grécia apenas sorria satisfeito. As mãos pálidas de Japão envolveram o pequeno e o trouxeram para perto. E, estranhamente, ele sorriu.

— Eu não sei se seria capaz de retribuir algo tão...

— Melhore. — Grécia o interrompeu com seu ar tranquilo de sempre — Se você melhorar vai retribuir em dobro. Pode ser?

— ... Pode. — Sua expressão voltou a ser tranquila, mas seu rosto tornara-se rosado. O felino havia se acomodado em suas mãos e dormido. Era adorável.

— Vai dar um nome?

— Eu dei o nome do seu gato. — Murmurou — Você devia dar o nome do meu.

— Você tem razão... — Grécia se espreguiçou sonolento — Acho que você devia chamá-lo de Kiku... Parece com você...

O maior bocejou enquanto falava e pendeu para o lado, aos poucos deitando do lado do tatame do Japão. O menor acompanhou inabalado sua trajetória até o chão e suspirou. Puxou suas próprias cobertas para o lado e cobriu o outro, deitando e ajeitando também o filhote recém-nomeado.

— Kiku...

Murmurou sonolento. O remédio devia estar fazendo efeito. Olhou para o lado e encarou o Grécia que respirava lento e satisfeito antes de sorrir e cair no sono.

Notas finais
Yay, gato. 'u' comentem, fantasmas. 'u'