Love comes softly
8 Rafael
A porta foi fechada com cuidado enquanto o homem colocava a camiseta.
Seminu, segurando a calça jeans em um braço e o casaco em outro, Rafael sorriu ao ver Liam adormecido no banco de trás do carro. Seus lábios estavam levemente avermelhados e as costas completamente arranhadas. Acho que me empolguei enquanto o arranhava.
As calças foram recolocadas, assim como o casaco, e Rafael olhou para os dois lados, se assegurando de que ninguém o vira. Se bem que ninguém se importaria em ver um cara seminu descendo de um carro estacionado em um beco, do lado de um bar.
Jogando os cabelos para trás e caminhando lentamente para fora do beco, o loiro se certificou de que suas chaves estavam no bolso da calça. Seu carro estava estacionado do outro lado da rua e ele suspirou ao sentir o couro do banco contra as suas costas. Eu estou completamente dolorido. Ele não foi muito cuidadoso. Provavelmente estava bêbado demais.
A partida foi dada e o carro acelerou. O relógio do painel informava que eram três horas da manhã. O frio da madrugada entrava pelas janelas, fazendo Rafael pisar no acelerador ainda mais e ligar o rádio no último volume.
Sua casa ficava do outro lado da cidade e ele precisava trabalhar no dia seguinte, então teria poucas horas para descansar. Maldito dia que eu consegui um emprego na universidade. Tenho pena do desconhecido que ficará como meu parceiro.
X
Assim que chegou em casa, Rafael tomou um banho e se jogou no sofá da sala, agitado demais para dormir.
A televisão foi ligada e o loiro permitiu que um filme bobo o ocupasse até os primeiros raios de sol cruzarem a janela. Eu não estou com sono, mas estou me sentindo acabado.
Colocando uma calça jeans preta e uma camisa social da mesma cor, o homem bagunçou os cabelos e jogou um chiclete na boca, pegando as chaves do carro e saindo de casa. Se meu parceiro for um babaca, eu não vou me segurar.
Rafael havia se formado no mesmo curso que Johan: biologia. Nós começamos a faculdade juntos, mas eu terminei o curso no meu país de origem.
Agora, depois de voltar para onde tudo tinha começado, o loiro havia conseguido um emprego como professor em uma boa universidade. Como professor de sala de aula. Eu queria ser professor de laboratório, mas parece que alguém conseguiu a vaga primeiro. E esse alguém será meu parceiro.
O veículo foi estacionado em uma das vagas privativas para professores. Havia um segurança na entrada, que assentiu com a cabeça assim que Rafael desceu do carro.
Havia um longo corredor que ligava o estacionamento com a secretaria e foi para lá que o loiro se dirigiu. Muitas estudantes paravam ao longo do caminho para observá-lo e isso levou um meio sorriso malicioso aos seus lábios. Desculpem meninas, mas eu gosto da mesma fruta que vocês.
Ao chegar na secretaria, Rafael precisou se controlar para não rir da secretária que deixou alguns papeis caírem quando o viu. Quantas pessoas fúteis.
“Bom dia. Eu sou o novo professor de biologia teórica. Onde devo me apresentar?” Um breve sorriso escapou de seus lábios, apenas para que a secretária ficasse ainda mais constrangida.
“Uhm... O diretor está esperando na sala dele. Acompanhe-me, por favor.” Recolhendo os papeis do chão e colocando uma mecha do cabelo atrás da orelha, a moça saiu de trás do balcão e começou a andar para o outro lado do corredor, deixando que o único barulho audível fossem seus saltos.
Uma grande porta de madeira apareceu em seu campo de visão e o loiro viu quando a secretária bateu na porta e anunciou que o novo professor teórico havia chegado.
“Pode entrar.” Ela disse, se virando para Rafael e fazendo um aceno com a cabeça, enquanto se retirava do local.
O loiro estendeu a mão e abriu a porta, entrando em uma sala completamente decorada em madeira.
”Bom dia! É Rafael, se não me engano, correto?” Um senhor de idade se levantou de uma cadeira de couro e sorriu, estendendo a mão.
“Bom dia. Sim, Rafael. Muito prazer.” Ele respondeu enquanto correspondia o cumprimento.
“O prazer é meu. Meu nome é Rodrigo.” O senhor se sentou e sorriu. “As aulas começam em breve, então aqui está uma carga horária pra você e uma pasta com todos os papeis e anúncios que você precisa ter.”
“Obrigado.” Rafael pegou a pasta e um papel pequeno. “Que horas começam as aulas?”
“Sete e quinze. Você tem quinze minutos para se aprontar. Seu parceiro chegará para a segunda aula, então vocês vão ter que se encontrar no laboratório no fim do corredor onde você dá a sua primeira aula.”
“Entendido. Posso me retirar agora?” Rafael colocou a pasta apoiada em um dos braços usou a mão livre para arrumar os cabelos.
“Com certeza. Se houver algum problema, ou se tiver alguma duvida, por favor me chame.”
O loiro concordou com a cabeça e se despediu, se retirando da sala.
Aquela conversa já havia acontecido antes. Havia uma semana que ele tinha ido até a universidade, se informar corretamente sobre alguns assuntos, então conversar com o diretor esta manhã não havia passado de burocracia. E isso é algo que eu odeio.
Assim que chegou na sala de aula, Rafael esperou todos os alunos universitários se sentarem. Várias meninas o olhavam completamente admiradas, os olhos brilhando e mordendo o lábio inferior. Como eu adoro destruir sonhos.
“Bom dia classe. Meu nome é Rafael. Sou o novo professor de biologia teórica de vocês e tem uma coisa que vocês precisam saber antes de começarmos a estudar: sou gay e não me interesso pelas minhas aluninhas ou aluninhos. Não, eu não dormi com o diretor, não eu não me visto de mulher a noite e se eu ouvir alguma piadinha sobre o assunto, podem apostar que vou fazer vocês se arrependerem.” Seu olhar fuzilava cada um de seus alunos e Rafael precisou se segurar para não rir da expressão de desolamento que começava a tomar conta dos olhos das moças. “Muito bem, abram seus livros na página 120.”
X
A aula se passou tranquila e Rafael se mostrou um ótimo professor.
Biologia é um campo que tem brechas para ótimas piadas e o loiro não perdeu nenhuma oportunidade de se divertir com os alunos. Nenhum deles pareceu incomodado com o comportamento do homem no começo da aula e durante o tempo que passaram juntos, o próprio Rafael fez uma piada em relação ao assunto de homossexualismo.
Todos os alunos riram e logo eles haviam formado um bom vinculo de professor e aluno.
Entretanto, havia uma pessoa, no fim da sala, que permanecera impassível. Suas características eram quase idênticas às de Johan e isso fez Rafael permanecer com um sorriso levemente irônico nos lábios. Ficar lembrando do Johan em um momento como esses não me agrada. Eu tenho certeza que ele e aquele policial têm alguma coisa.
Um suspiro cruzou seus lábios quando o sinal anunciou o final da aula.
“Muito obrigado pela atenção de vocês. Agora vocês terão aula prática no laboratório no fim do corredor. Até outro dia.”
Os alunos se despediram e agradeceram pela aula, saindo da sala falando sobre diversos assuntos.
O rapaz que chamara sua atenção demorou um pouco mais para guardar o material e retirou o celular do bolso, dando uma olhada nas horas.
“Professor, eu posso conversar com o senhor?” A voz veio baixa até os seus ouvidos e Rafael parou de juntar os papéis para erguer o olhar.
“Claro. Algo relacionado à matéria?” O loiro cruzou os braços e forçou um sorriso. Algo não me cheira bem.
“Não... É só que... Eu sei que o senhor disse que não queria falar sobre o assunto, mas eu queria falar sobre... Sua opção sexual.” O rapaz havia caminhado até a mesa do professor e pareceu encolher levemente ao terminar a frase, visivelmente envergonhado.
“O que?”
“S-sinto muito. Por favor, não se sinta ofendido. É só que... Eu queria tirar umas duvidas.” Seu rosto estava absurdamente corado e isso fez Rafael soltar uma risada baixa. Ah, entendi.
“Você está em duvida, não é?”
A resposta não veio e isso só fez com que o sorriso irônico de Rafael ficasse ainda maior. Eles são idênticos. No dia em que eu tentei dormir com o Johan, ele estava bêbado, mas estava curioso. Tenho certeza de que se ele e aquele policial estão em um começo de relacionamento, o Johan vai acabar criando uma situação onde aquele pobre coitado vai precisar beijá-lo.
“Olha, se você está em duvida é porque tem alguém que chama a sua atenção. Por que não tenta conversar com essa pessoa? Só não faça besteiras, como tentar levá-lo para a cama sem a permissão da pessoa.” Foi sua resposta final e isso pareceu deixar o menino ainda mais constrangido.
“E-eu nunca faria isso...!”
“Ótimo. Então você tem mais caráter que eu. Agora vá para a aula. Eu já vou ir para o laboratório. Tenho que entregar uns papéis para o professor novo de vocês.” O loiro deu uma leve batidinha no ombro do rapaz, incentivando-o a deixar a sala.
“O-obrigado, Professor. Sinto muito por qualquer coisa.”
“Sem problemas.”
O rapaz saiu da sala com passos largos e rápidos, deixando Rafael sozinho, com uma expressão cansada. Seus lábios estavam apertados e seus olhos estavam fixos nos papéis à sua frente. Eu confesso que foi errado dizer aquelas coisas para o Johan, principalmente porque eu estava tentando forçá-lo a fazer algo, mas ele queria. Eu não sei o que aconteceu ou porque ele parou, mas ele estava curioso em relação àquilo.
Seus pensamentos foram interrompidos pelo vibrar de seu celular. Havia um número desconhecido piscando na tela e Rafael atendeu no terceiro toque.
“Alô?”
“Bom dia. Eu gostaria de saber por que fui deixado nu, dentro do carro, em um beco.” Aquela voz levemente rouca e em tom de diversão invadiu sua mente com uma rajada de lembranças.
“Como você tem meu celular?” A pergunta saiu levemente ríspida.
“Enquanto você estava inconsciente por causa do seu quarto orgasmo, eu peguei seu celular e liguei para o meu, só para conseguir seu telefone.” A risada fez um arrepio subir pela espinha de Rafael. “Viu só? Eu ligo no dia seguinte.”
“Bom, eu preferia que não tivesse ligado.”
“Sinto muito, mas precisava deixar um assunto claro.”
“Eu estou no trabalho.”
“É rapidinho.”
“Você tem um minuto.” Rafael olhou para o relógio de pulso.
“Eu estava de coração partido e fui encher a cara. Você se insinuou pra cima de mim e nós fizemos sexo. Sinto muito, mas se eu estivesse sóbrio isso não teria acontecido.”
“É a desculpa que todo mundo dá, Príncipe. Seja mais criativo.” Uma risada debochada escapou de seus lábios.
“É, eu sei, mas é verdade da minha parte. Eu não gosto de deixar assuntos pendentes, então te liguei para dizer que foi algo de uma noite só e que eu me arrependo de ter feito isso sem te conhecer.” A voz de Liam parecia acusadora e extremamente arrependida. Por algum motivo, isso fez Rafael se sentir inseguro.
“Coisas de uma noite são minha especialidade, então não ligo. Ainda assim, obrigado por me ligar e jogar na minha cara que eu fui um arrependimento.”
“Não, você não foi um arrependimento Rafael. Você seria um arrependimento se eu não te ligasse.” Liam parecia sorrir e o loiro conseguiu ouvir a partida do carro. “Eu gostaria de me encontrar com você de novo, mas que seja algo correto. Sem bebidas e com nós dois completamente sóbrios.”
“Eu recuso.”
“Por quê?”
“Porque eu não quero. Seus assuntos não me interessam e você mesmo disse que não gosta de deixar assuntos pendentes. Nosso assunto já acabou, não tente reabri-lo.”
“Eu não quero reabri-lo porque ele não foi finalizado. Eu quero mesmo conversar com você Rafael. Sinto que podemos ter... Algo em comum.”
O loiro suspirou e passou a mão pelos cabelos.
“Ótimo. Entre em contato mais tarde, eu já disse que estou trabalhando.” Foi sua resposta.
“Então poderemos nos encontrar?” Algo na animação de Liam fez seu coração pular uma batida.
“Até breve, Príncipe.”
A ligação foi finalizada e Rafael ficou em silêncio, tendo uma breve sensação de que Liam parecia ter alguma conexão com Johan. É só impressão. Isso tudo é porque ele fez algo que o Johan faz: insistiu.
Um suspiro pesado escapou de seus lábios e ele terminou de reunir os papéis e saiu da sala, desligando o climatizador de ar e as luzes. O corredor estava bem iluminado pela luz do dia e o loiro continuou a andar em direção ao laboratório. Mas o Johan é assim. Quando ele fica curioso, ele não mede esforços para conseguir o que quer. Eu só espero que aquele policial não fique irritado quando o Johan voltar atrás. Porque ele é assim. Ele vai fazer de tudo para conseguir um beijo e depois disso... Vai ficar na defensiva de novo.
Duas batidas na porta da sala de laboratório anunciaram sua chegada e Rafael virou o trinco, entrando devagar.
“Com licença Professor. Meu nome é Rafael, sou o encarregado da parte teóric-” A frase morreu em seus lábios quando o loiro ergueu os olhos e viu quem estava parado na frente do quadro do laboratório.
“... Rafael?” O nome saiu levemente sussurrado, enquanto os olhos verdes se arregalavam aos poucos.
“J..o...han...?”
Com as sobrancelhas unidas e a expressão de confusão e incredulidade, Rafael sentiu quando sua mão apertou o trinco da porta com mais força. Mas que merda...?
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