“And with a love like that
You know you should be glad”
–She Loves You (The Beatles)

“E com um amor como esse
Você sabe que deveria estar feliz”

Ele não sabia se estava certo.

Sua mente lhe dizia que tudo iria dar errado. Seu corpo se recusava a relaxar e Rafael tinha certeza de que Liam havia percebido isso. Depois que eu o aceitei, ele simplesmente me abraçou mais forte, me deu um beijo na testa e disse que precisava ir trabalhar. Disse que conversaríamos amanhã, depois que eu me acalmasse.

Rafael tinha medo de que as coisas não caminhassem como deveriam. Ele achava que a vida o faria pagar por todas as maldades que ele já havia feito. A principio ele não se importaria, mas... Agora que estou com o Príncipe, meu corpo parece estar recebendo toda a carga de medo que eu nunca senti.

O sono o atingiu em cheio e o loiro se deixou levar, dormindo com a determinação de que precisava falar com Johan no outro dia.

X

A sala dos professores estava cheia quando ele chegou.

Estava um pouco mais frio do que a manhã anterior, então a maioria das pessoas estava com casacos e blusas de lã.

Rafael se sentou próximo à janela, agradecendo mentalmente por estar usando a jaqueta de couro por cima da camisa social. Sua pasta de trabalho foi aberta e ele retirou alguns papeis de lá, observando o cronograma do bimestre, revisando a matéria que precisaria passar no dia. Sistema digestivo? Vou falar sobre a matéria e ver até onde eles sabem. Qualquer coisa vou direto para sistema endócrino.

Um baixo ‘bom dia’ chegou aos seus ouvidos e Rafael ergueu o rosto, vendo Johan entrar na sala e cumprimentar os professores que estavam mais próximos.

Seus olhares se encontraram e o loiro fez sinal para a cadeira à sua frente, em um pedido silencioso para que Johan se sentasse. Ele não vai fazer isso. Eu vou ter que obrigá-lo a falar comigo quando o sinal bater.

No entanto, seu pensamento não se realizou. Johan, inesperadamente, caminhou para o lugar que ele estava, sentando-se na cadeira indicada e cruzando os braços. Bom... Isso é uma mudança e tanto nos fatos.

“Bom dia.” O homem de cabelos castanhos disse baixinho, abrindo um meio sorriso irônico. Ele parece estar se obrigando a falar comigo.

“Bom dia. Dormiu bem?” Sua tentativa de começar uma conversa normal soou falsa e Rafael se repreendeu mentalmente. Qual é Rafael? Você consegue fazer melhor do que isso!

“Melhor do que achei que iria.” O sorriso se espalhou pelo rosto de Johan, deixando-o com uma expressão que o loiro nunca havia visto antes. É o olhar de uma pessoa apaixonada.

“Johan...”

“Eu sei. Nós precisamos conversar.” O homem de cabelos castanhos suspirou e apertou a ponte do nariz.

“Quando as aulas acabarem, eu irei encontrá-lo. Me espere no laboratório.”

A risada sincera de Johan o deixou surpreso, fazendo seus olhos se arregalarem. O homem a sua frente cobria os lábios com a mão, para que a risada não saísse muito alta.

“Desculpe, desculpe...” Johan fez um sinal de que estava tudo bem. “É que parece que somos alunos da faculdade de novo.”

Rafael ficou surpreso com o comentário. Ele achava que o passado era lembrado com certo ódio, mas não parecia ser o caso. Ele está rindo na minha frente! Eu nunca achei que veria isso de novo!

“Eram bons tempo, mas eu não gostaria de voltar atrás. Eu gosto das coisas como elas estão agora.” O sinal de início das aulas marcou o final da frase de Johan, mas Rafael ainda teve tempo de ver o olhar saudoso em sua expressão.

Aos poucos, os professores se levantaram das cadeiras e Rafael sorriu. Então é isso? As pessoas mudam quando encontram a pessoa certa na vida?

X

Quando as aulas chegaram ao fim, Rafael se surpreendeu por ver que havia alguém o esperando na porta.

“Olá. Algo errado? Alguma dúvida com a matéria?” Sua pressa quase transpareceu em sua voz, mas ele conseguiu se controlar quando reparou em quem era. É o aluno de ontem. O indeciso.

“Professor!” O rapaz pareceu se assustar com a presença de Rafael, virando-se corretamente para ficar frente a frente com o professor. “E-eu... Sinto muito por incomodá-lo com coisas que não se relacionam à matéria, mas...”

Rafael suspirou. Agora não. Eu não tenho dado conta dos meus relacionamentos, imagina o dos outros.

“Se eu puder ajudar...” O loiro respondeu.

“É só que eu queria agradecer. Eu tomei coragem e enfrentei meus medos. Agora tudo parece estar indo para um bom caminho. Obrigado.” O sorriso daquele jovem fez Rafael entender o quanto ele estava sendo sincero.

“Eu sou um professor, minha função é ajudar. Agora eu preciso ir.” Seus passos começaram a ecoar pelo corredor, até um sorriso brotar em seus lábios. “E estude! Quem sabe amanhã tenha uma mini prova surpresa.”

O rapaz riu alto e agradeceu, correndo para o lado oposto e saindo do campo de visão de Rafael. Agora eu estou atrasado para encontrar o Johan!

Os passos apressados se tornaram uma breve corrida e o loiro não demorou muito para chegar ao corredor do laboratório, encontrando Johan falando no celular.

Assim que o homem de cabelos castanhos o viu, a ligação foi finalizada e ele caminhou até a janela, encostando-se e deixando o material no chão. Seus cabelos estavam bagunçados pelo vento que entrava e suas orelhas estavam vermelhas pelo frio.

“Sinto muito pelo atraso, um aluno veio falar comigo.” Sua respiração estava levemente alterada e ele se apoiou na parede da janela para aproveitar o ar.

“Sem problemas, isso vai se tornar algo comum agora.” Johan cruzou os braços e suspirou. “E então? Quem vai começar a falar?”

“Eu não me importo que você comece.” Rafael deu de ombros.

Era verdade. Contando que ele ainda pudesse dizer o que tinha em mente, não importava quem começasse a falar. Embora eu queira terminar o que comecei ontem.

“Eu e aquele cara do mercado estamos juntos agora.” Johan falou por fim. “E graças a ele eu pude perceber como fui mente fechada. Você teve e sempre terá sua parcela de culpa no que aconteceu entre nós há alguns anos, mas eu também estava errado. Eu nunca tive a intenção de me deitar com você, mas ainda deixei que chegássemos até onde chegamos.”

“Você não é tão culpado assim Johan. Eu já sabia que você jamais faria sexo comigo e mesmo assim segui em diante. Eu te amava tanto que chegava a doer e ser rejeitado daquela forma foi demais para o meu ego. Eu achava que ninguém jamais me negaria.” Rafael suspirou e se inclinou mais um pouco sobre a janela, vendo o sol do meio dia refletir no chafariz do pátio. “Eu falei coisas horríveis para você e hoje eu entendo como você deve ter se sentido. No entanto, agora, neste momento, eu gostaria de deixar claro que nada daquilo foi verdadeiro.”

“Eu sei. Foram palavras duras, não vão ser fáceis de esquecer, mas quando eu penso em você... Tudo o que eu me lembro, são os momentos que passamos como verdadeiros amigos de faculdade. Algumas palavras não-sinceras não deveriam interferir no que levamos tempo para construir.” Johan passou a mão pelos cabelos e olhou para o relógio. “Vai levar um tempo, mas eu gostaria de voltar ao zero. Eu quero te dar essa segunda chance, Rafael.”

Aquelas palavras, tão inesperadas, trouxeram memórias esquecidas. O dia em que eles conversaram pela primeira vez, o dia em que quase foram pegos colando na prova, o dia em que os dois caíram na lama – em frente à faculdade – porque estavam brigando com dois garotos, a primeira vez que um almoçou na casa do outro... Foi uma boa amizade. Eu realmente gostaria de começar de novo.

Desencostando-se da janela e arrumando o casaco de couro, Rafael estendeu a mão para o homem de cabelos castanhos e sorriu.

“Olá. Meu nome é Rafael, sou formado em biologia e dou aulas teóricas nessa faculdade. Atualmente estou namorando um príncipe cujo nome é Liam e adoraria ser seu amigo. Muito prazer.”

Os olhos de Johan se arregalaram e ele estendeu a mão por impulso, segurando Rafael e puxando-o para perto.

“Você o que?!” A pergunta saíra desafinada por seus lábios e Rafael precisou se controlar para não rir.

“Estou namorado com o ex do seu atual namorado.” A cena era cômica e Rafael se perguntou como tinha tanto autocontrole para não rir. “Mas eu não deveria saber disso porque estamos nos conhecendo agora.”

O olhar confuso de Johan permaneceu por mais um tempo, até ele se afastar do loiro e apertar sua mão corretamente. Seus lábios se fecharam e ele engoliu em seco antes de voltar a falar.

“M-meu nome é Johan, sou formado em biologia e dou aula prática nessa faculdade. Atualmente estou namorando um policial cujo nome é Davi e... Também adoraria ser seu amigo. Muito prazer.” Um pequeno sorriso tímido cruzou os lábios do homem e Rafael apertou sua mão um pouco mais. Então eles estão mesmo namorando.

A conversa se estendeu por mais quarenta minutos e tudo o que eles fizeram foi falar sobre os anos que haviam se passado. Sobre como fora o termino da faculdade – o de Johan na faculdade local e o de Rafael em outro país –, assim como conversaram sobre Davi e Liam. É um pouco estranho falar sobre esses dois, mas isso se tornará algo comum.

O assunto só foi finalizado porque Johan olhou para o relógio e disse que estava extremamente atrasado para um compromisso. Rafael concordou e acenou para o novo amigo enquanto este corria para fora da faculdade.

Seus lábios se apertaram, quando finalmente estava sozinho, mas uma longa gargalhada conseguiu escapar.

O peso de um planeta havia saído de suas costas e ele se sentia livre novamente. Eu me sinto com todos os direitos. Eu me sinto amado e sinto amor. Eu me sinto feliz e sinto que posso doar felicidade. Eu sinto que não posso ficar longe do Príncipe e espero que isso seja recíproco.

X

Assim que chegou em casa, Rafael ligou para Liam. A chamada precisou de dois toques antes de ser atendida com uma risada conhecida que levou arrepios para o seu corpo.

“Olá.” A voz de Liam estava excessivamente leve.

“Olá.”

“A que devo a honra de sua ligação?”

“Falei com Johan hoje.”

“E então?”

“Conversamos e começamos de novo. Eu me apresentei para ele e ele se apresentou para mim.” Só agora Rafael percebera como essa ideia soara infantil.

“De quem veio essa ideia?” Liam parecia segurar para não rir.

“De mim...”

“Como eu disse... Uma tela em branco. Impossível prever o que acontecerá, mas sempre será algo que me agrada. Rafael?” O tom de voz adotou uma tonalidade branda e Rafael podia sentir que era amado.

“Sim?”

“Você é perfeito. Por favor, não mude.”

Os dois ficaram em silêncio por um tempo, até o loiro deixar uma risada escapar. Ele quer que eu permaneça o mesmo? Ótimo!

“Então... Príncipe. Se isso for uma ordem eu verei o que poderei fazer, mas até lá, eu tenho um pedido.” A ironia e o sarcasmo chegaram na quantia certa e Rafael finalmente se sentiu completo. Eu tenho tudo o que eu preciso.

“Eu irei ouvi-lo. O que deseja?” Liam havia aprendido a lidar com o apelido e isso só tornava as coisas mais interessantes.

“Eu quero que você saia do seu trabalho nesse instante e venha para a minha casa.” O pedido saiu parecendo uma ordem, mas Rafael deu de ombros e começou a caminhar para o quarto.

“Qual seria o motivo desse pedido?”

“Eu estou louco para fazer sexo com você até um de nós desmaiar. E devo lhe dizer: eu não desmaio com facilidade. Estarei esperando no meu quarto.” Se alguém perguntasse, Rafael poderia afirmar com toda a certeza: ele não tinha vergonha na cara.

“Você não deveria fazer isso, sabe? Minha chefe vai me matar se eu não trabalhar até o horário certo hoje.” Liam parecia se lamentar.

“Uma pena. Se você não chegar aqui em dez minutos, eu vou sair e procurar um par novo. Esteja avisado.”

A ligação foi finalizada antes que Liam pudesse dizer algo e Rafael não conseguiu conter outro sorriso. Eu tenho uma pessoa que me ama, eu consegui consertar algo que eu achei que não teria como mudar e posso seguir em frente com a minha vida. Se isso não me deixasse feliz... O que mais conseguiria?

Notas finais
Aos meus leitores: Sei que não tenho cumprido com o prazo de postar todos os sábados, mas a vida tá difícil. Agora que é reta de fim de ano, tudo fica mais corrido. Sexta eu tive prova, sábado tive apresentação, domingo teve aquela palhaçada de ir votar e eu ainda tive que ir para o treino depois. Nossa, que complicado. Ainda assim, vou tentar cumprir com a palavra de que: se eu não postar no sábado, de segunda não passa. Ok? Por favor, entendam o meu lado, eu não queria decepcioná-los, mas a coisa tá feia :/ Obrigada para quem continua a ler e pelo apoio que todos têm me dado. É super importante! Aliás, fanfic chegando ao fim. Teremos, no máximo, mais uns 3 capítulos. Já dá pra ficar triste? :c