Love comes softly
10 Liam
“Now that I found you, stay
And let me love you, baby”
–Can’t Take My Eyes Off You (Frankie Valli)
“Agora que eu te encontrei, fique
E deixe eu te amar, amor”
Não fora a luz do sol, muito menos o frio que o acordara.
Seu telefone tocava incessantemente e Liam levou algum tempo até perceber que aquilo não era seu despertador.
“Alô?” A chamada foi atendida com a voz embargada de sono e ressaca.
“Não é ‘alô’, seu idiota! Onde, diabos, você está?” O grito de Jéssica o fez afastar o celular da orelha. “Você sabe que horas são?”
“Tarde o suficiente para você gritar.” Liam uniu as sobrancelhas.
“Veja lá como fala comigo, homem. Posso ser sua amiga de infância, mas ainda sou sua chefe.” A moça suspirou pesadamente. “Onde você está?”
“Dentro do carro, no beco de um bar, completamente de ressaca e cansado da noite agitada que tive.” Um sorriso malicioso adornou seus lábios enquanto as memórias retornavam.
“Você me dá nojo.” Liam pode imagina Jéssica revirando os olhos. “Quem sai para beber no meio da semana?”
“Eu.”
“Meus parabéns. Isso ainda não muda o fato de que você precisa trabalhar. Vá tomar um banho em casa e esteja na empresa até a hora do almoço!”
“Na verdade... Eu queria pedir o dia de folga.”
“Escuta aqui...” A raiva de Jéssica atravessava o telefone. “Você dormiu o dia todo no trabalho, ontem, e hoje quer faltar?!”
“Eu preciso resolver algo muito importante. Deixe a chave com o segurança e eu prometo colocar o trabalho em ordem durante a noite.”
“Liam... Se eu chegar amanhã de manhã e não houver, pelo menos, quarenta processos administrativos sobre a minha mesa, considere-se um cara morto.”
“Obrigado Jéssica.”
“Vá à merda.”
O telefonema foi desligado, deixando Liam com um sorriso no rosto. Conversar com Jéssica sempre era animador e aquele momento não fora diferente. Sua cabeça latejava por conta da ressaca e dos berros da amiga, mas seu sorriso se recusava a sumir.
Suas roupas estavam espalhadas pelo banco da frente, sendo que Liam permanecia apenas de cueca. Seu corpo estava completamente grudento por conta da atividade extra e memórias agradáveis e não agradáveis inundaram sua mente. Eu me sinto uma pessoa horrível. Eu usei o Rafael para afogar as mágoas. O que eu me tornei?
Colocando a calça social e a camisa – mas deixando-a aberta – Liam pulou para o banco da frente, continuando descalço, e deu partida no veículo, saindo do beco e acelerando pelas ruas da cidade.
O sol estava começando a ficar forte e o relógio de seu carro marcava oito e dez. O retrovisor estava sendo utilizado para observar o banco de trás.
A lembrança de Rafael se contorcendo abaixo de si, implorando por mais e sussurrando coisas absurdamente impróprias – e, diga-se de passagem, excitantes – fez com que um meio sorriso surgisse de repente. Será que ele ficou irritado?
Aquilo não parecia ser certo. Deixar tudo ser apenas um caso de uma noite. Rafael havia despertado algo em Liam que nem mesmo Davi conseguira. Eu estou disposto a pagar para saber o que é isso.
O carro foi estacionado próximo a uma loja de ferramentas e Liam pegou o celular, indo direto para as chamadas recebidas e encontrando o número de Rafael. Talvez ele fique bravo quando eu contar que peguei o número dele sem ele saber.
Três toques foram necessários até que o dono do celular atendesse.
“Alô?”
“Bom dia. Eu gostaria de saber por que fui deixado nu, dentro do carro, em um beco.” Havia diversão em sua voz e Liam não percebia o quanto sorria.
“Como você tem meu celular?” A pergunta saíra ríspida, levando um leve arrepio para o corpo do homem de cabelos negros.
“Enquanto você estava inconsciente por causa do seu quarto orgasmo, eu peguei seu celular e liguei para o meu, só para conseguir seu telefone.” A risada que escapou de seus lábios saiu levemente estrangeira. Liam achava que demoraria um pouco para rir tão sinceramente assim. “Viu só? Eu ligo no dia seguinte.”
“Bom, eu preferia que não tivesse ligado.” A rispidez naquela voz deixava tudo ainda mais emocionante.
“Sinto muito, mas precisava deixar um assunto claro.” O sorriso sumiu aos poucos quando verdadeiro motivo da ligação se aproximava.
“Eu estou no trabalho.”
“É rapidinho.”
“Você tem um minuto.” Liam se perguntou se Rafael realmente contaria.
“Eu estava de coração partido e fui encher a cara. Você se insinuou para cima de mim e nós fizemos sexo. Sinto muito, mas se eu estivesse sóbrio, isso não teria acontecido.” A sinceridade por vezes era sua melhor qualidade e Liam se orgulhava muito de ir direto ao ponto, não importando a situação. Nenhuma dessas palavras são mentiras, espero que ele entenda.
“É a desculpa que todo mundo dá, Príncipe. Seja mais criativo.” Aquele apelido, que fora recebido na noite anterior, voltou a arrepiar o corpo de Liam. Algo no modo como era chamado, ou pela voz estar rouca, talvez até mesmo a risada, deixava tudo muito instigante.
“É, eu sei, mas é verdade da minha parte. Eu não gosto de deixar assuntos pendentes, então te liguei para dizer que foi algo que uma noite só e que eu me arrependo de ter feito isso sem te conhecer.” A frase saíra com todas as verdades possíveis, mas, só após revisá-la uma vez, Liam percebera que poderia ocorrer um mal entendido.
“Coisas de uma noite são minha especialidade, então não ligo. Ainda assim, obrigado por me ligar e jogar na minha cara que eu fui um arrependimento.” Liam suspirou. Eu sabia que ele ia entender errado.
“Não, você não foi um arrependimento Rafael. Você seria um arrependimento se eu não te ligasse.” O sorriso voltou aos seus lábios e Liam se perguntava se as coisas estavam seguindo aquele rumo por culpa do chute que recebera de Davi. O carro foi ligado novamente. “Eu gostaria de me encontrar com você de novo, mas que seja algo correto. Sem bebidas e com nós dois completamente sóbrios.”
“Eu recuso.”
“Por quê?” Liam não costumava desistir tão fácil.
“Porque eu não quero. Seus assuntos não me interessam e você mesmo disse que não gosta de deixar assuntos pendentes. Nosso assunto já acabou, não tente reabri-lo.” O homem passou a mão pelos cabelos negros. Como ele é difícil.
“Eu não quero reabri-lo porque ele não foi finalizado. Eu quero mesmo conversar com você Rafael. Sinto que podemos ter... Algo em comum.” Em momentos assim, o melhor era ser sincero com ambos. Com ele e comigo.
Um suspiro veio do outro lado do telefone e isso levou uma onda de esperança para o corpo de Liam.
“Ótimo. Entre em contato mais tarde, eu já disse que estou trabalhando.”
“Então podemos nos encontrar?” A animação em sua voz era evidente e Liam não se esforçou nem um pouco para escondê-la.
“Até breve, Príncipe.”
A ligação foi finalizada e Liam sorriu, colocando o celular sobre o banco do carona e saindo de onde estava.
A paisagem passava em alta velocidade do lado de fora e tudo o que permanecia na mente do homem de cabelos negros era o quanto a sorte estava ao seu lado. Eu tenho a sensação de que algo diferente pode acontecer. Eu pensava que perder Davi me faria afundar em desolação, mas...
Sua memória sobre o momento em que chorara atrás daquele volante fez com que algo estalasse em sua mente. Talvez aquele choro tenha sido por tempo perdido... Por algum motivo, eu não acho que tenha chorado por amor.
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A primeira coisa que Liam fez ao chegar em casa, foi se livrar de toda aquela roupa suja – jogando-a diretamente no lixo – e deixar que seu corpo relaxasse na água do chuveiro.
Cada músculo de seu corpo implorava por descanso e seu destino teria sido a cama se a lembrança de que o banco de trás de seu carro estava completamente sujo. Não tem como eu levar para o lava carro. Como vou explicar aquelas marcas de sêmen no banco?
Levando baldes, detergentes e buchas para o lado de fora, Liam deixou que o resto de sua manhã fosse passado entre limpar vidros, capô, bancos e rodas. Limpar o carro era algo que ele raramente fazia, mas que trazia muita satisfação quando chegava ao fim. Parece que meu trabalho fica melhor do que o lava carro. Uma pena eu não ter tempo para fazer isso todo o final de semana. Seria um dinheiro que eu poderia economizar.
Alguns vizinhos passavam por lá e o cumprimentavam, perguntando por que ele não estava no trabalho àquela hora, fazendo-o rir e dizer que tinha um compromisso em poucas horas. Vou ter um compromisso se o Rafael realmente aceitar.
Antes de chegar em casa, Liam já havia decidido que ligaria para Rafael no horário de almoço, informando o endereço de um restaurante para que ambos pudessem almoçar juntos. Eu vou ir lá e esperar. Vou decidir o que fazer depois que ele aparecer. Se ele aparecer...
Quando entrou em casa novamente, o relógio marcava onze horas. O telefone foi retirado do gancho e Liam pensou em ligar para o melhor restaurante italiano que conhecia.
Entretanto, comida italiana era sua comida preferida. Eu não faço ideia do que o Rafael gosta. E se ele não gostar de comida italiana?
No final das contas, a reserva foi feita em um restaurante familiar, onde haveria todos os tipos de comidas, para todos os gostos. O restaurante não era menos caro, mas isso não era incomodo no momento. As primeiras impressões são as que ficam, certo? Se bem que as nossas primeiras impressões foram um pouco diferentes do comum.
Liam subiu as escadas para o quarto e trocou de roupa, colocando uma calça jeans e camisa social azul marinho. Seus cabelos não foram arrumados porque o homem se jogou sobre a cama, determinado a descansar pelo menos um pouco antes do encontro. Encontro, huh?
Seus lábios se mantiveram franzidos enquanto seus olhos se fechavam. Liam não queria dormir. A única coisa que permanecia em sua mente era o chute que levara de Davi e a noite que passara com Rafael. Surpreendentemente, a noite com Rafael prevalecia e pensar no ex não doía tanto quanto ele pensara que doeria. Eu pensava que seria incapaz de pensar em Davi por um bom tempo. Rafael está em minha vida há um dia e fez uma mudança incrível. O que será que mudaria se ele permanecesse para sempre?
Seu telefone tocou, anunciando a entrada de uma mensagem.
“A chave vai ficar com o segurança. Quarenta papeis, Liam. Quarenta. Nada menos! –Jéssica”
Uma risada escapou de seus lábios e Liam pensou sobre o que poderia fazer para agradecer Jéssica mais tarde. Provavelmente nada. Jéssica era uma mulher geniosa e costumava fazer boas ações por trás de gestos ríspidos, para que ninguém percebesse seu lado sensível. Ela já sofreu muito na vida, não gosta de se mostrar fraca.
Seus dedos se moveram rapidamente e, antes que percebesse, Liam enviara uma mensagem. Entretanto, o destinatário não era Jéssica.
“Eu vou te ligar em meia hora. Se não me atender, ficará em sérios problemas. Espero que entenda. –Liam.”
Dois riscos apareceram no canto da mensagem, indicando que ela havia sido enviada corretamente para o destinatário: Rafael.
A resposta não veio, mas Liam tinha a breve sensação de que as palavras foram devidamente recebidas e lidas. Eu me pergunto o que ele deve estar pensando.
Levantando-se da cama, colocando um sapato social, passando a mão pelos cabelos e pegando a chave do carro, Liam desceu as escadas e trancou a porta de casa, caminhando até à garagem e entrando no carro.
O motor roncou quando recebeu a partida e o portão eletrônico foi acionado para que Liam pudesse sair.
O carro acelerou novamente pelas ruas da cidade, entretanto, a velocidade era bem menor, já que não havia pressa para chegar ao local destinado. Me pergunto se ele realmente vai ir.
O restaurante familiar não era muito longe de sua casa e Liam chegou faltando dez minutos para o meio dia.
Seu nome foi informado na recepção e uma garçonete o guiou para uma mesa nos fundos do restaurante, envolta por paredes de papel. Achei que um reservado seria mais apropriado. Nossos assuntos precisam de privacidade.
Assim que se sentou, a atendente perguntou se ele gostaria de fazer o pedido.
“Agora não. Vou esperar minha companhia chegar.”
A moça simplesmente assentiu com a cabeça e se retirou, deixando Liam a sós. O celular foi retirado do bolso de sua calça e o número de Rafael foi discado novamente.
Os cinco toques pareceram demorar uma eternidade para serem atendidos, mas a resposta foi obtida.
“O que foi, Príncipe?” Algo em sua voz denunciava que Rafael estava um pouco angustiado.
“Uhm... Neste exato momento eu estou em um restaurante familiar, no centro da cidade, com uma reserva para duas pessoas. Eu e mais alguém. Quero saber se você não gostaria de vir.”
“Não. Convide outra pessoa. Vou desligar.”
“Rafael espere!” Sua voz saíra um pouco mais alta do que o necessário e Liam quase sorriu por se ver passando vergonha em um local público. “Eu não vou convidar outra pessoa. Eu quero falar com você. Vai cair um pedaço seu se você vier?”
“Não, Príncipe, não vai. Mas eu preciso revisar uns arquivos importantes para o meu trabalho.”
“Eu ajudo a revisar. Mas você precisa vir!” Liam sabia que estava soando desesperado, mas realmente precisava ter essa conversa com Rafael.
“Príncipes não devem sujar suas mãos revisando papéis chatos.” Um suspiro chegou aos seus ouvidos e Liam percebeu que havia ganhado aquela luta. “Me dê o endereço, chego aí em dez minutos.”
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De fato, Rafael chegara dentro de dez minutos, chamando a atenção de quase todas as moças do restaurante.
Sua escolha de roupas contrastava com a cor de seus cabelos e olhos. O preto o deixava mais magro, mas não menos atraente. Havia um olhar suspeito em seu rosto e um sorriso debochado em seus lábios. É como se ele fosse a personificação da palavra ‘problema’.
A atendente guiou o homem para a mesa de Liam e corou brevemente ao entregar o cardápio para ambos.
“G-gostariam de fazer seus pedidos?” Seus olhos vagavam de um homem para o outro e Liam se perguntou se aquilo não poderia ser considerado falta de educação.
“O especial da casa, sem pimenta.” Liam entregou o cardápio para a moça, sem precisar olhar duas vezes.
“Eu vou querer o mesmo. Não conheço esse restaurante o suficiente e estou sem paciência de olhar cardápios.” Rafael também devolveu o papel para a moça e ela se retirou, completamente envergonhada.
“Você vai acreditar no meu julgamento para comida, sem ao menos saber o que vem no prato?” Liam arqueou uma sobrancelha.
“Dizem que Príncipes têm bom gosto. Vamos ver se isso é verdade.” Rafael sorriu e apoiou o cotovelo sobre a mesa, deixando que seu rosto pousasse sobre sua mão.
“Por que você me chama de ‘Príncipe’?” O homem de cabelos negros ajeitou a taça à sua frente e se encostou melhor na cadeira, cruzando os braços.
“Porque eu estava tão bêbado quando você entrou naquele bar, que eu jurava ter visto um cavalo branco ao seu lado.” Talvez tenha sido o olhar perplexo em seu rosto que fez Rafael rir. “Mentira. É que você tem um ar diferente. Quase nobre. Como se estivesse acostumado com coisas que pessoas normais não estão.”
“Como você pode dizer isso de alguém que foi para um bar encher a cara e depois dormiu com um desconhecido?”
“Você tinha um ar de nobreza até bêbado. Aliás, como eu disse, costumam falar que Príncipes têm bom gosto. Você resolveu dormir comigo porque pensou que eu tinha um bom sabor. Algo assim?”
Liam se perguntou se Rafael não se envergonhava em dizer aquelas coisas em voz alta. Provavelmente não.
“Você é bem direto.” Foi seu comentário, enquanto um garçom aparecia para encher as taças com vinho. “Ah, nós não queremos vinho. Pode trazer um suco ou algo assim, obrigado.”
O garçom assentiu com a cabeça e se retirou.
“Quem disse que eu não quero vinho?” A expressão de perplexidade assumiu o rosto de Rafael, fazendo Liam rir baixinho.
“Desculpe, mas eu disse que nós teríamos uma conversa completamente sóbrio. Ou seja: nem uma única gota de álcool no nosso sistema.”
“Sabe, uma taça de vinho não vai alterar nossos sentidos.”
“E você diz isso baseado em quê?”
“Baseado em meus conhecimentos como professor de Biologia.” Rafael suspirou e voltou à posição inicial, apoiando o cotovelo sobre a mesa.
“Então você estava dando aulas quando eu te liguei?” Liam sorriu, feliz por descobrir mais sobre a vida de Rafael. Não sei por que estou tão feliz.
“Não. Eu tinha acabado de sair da sala de aula quando você me ligou.”
“Então você mentiu quando disse que estava no trabalho?”
“Tecnicamente, enquanto eu estiver dentro da faculdade, eu ainda estou em meu local de trabalho.” Rafael passou a mão pelos cabelos e voltou a se sentar corretamente quando o garçom apareceu com uma garrafa de suco de uva.
“Você não parece o tipo de pessoa que leva o trabalho tão a sério.”
“Você ainda não sabe muito sobre mim.” Rafael deu de ombros e pegou a taça com suco quando garçom se afastou.
“É aí que está: eu gostaria de saber mais sobre você.”
A mesa afundou em silêncio enquanto o loiro desfrutava do suco. Seus olhos permaneceram fixos nos de Liam, sustentando aquele gesto cheio de significados.
A taça foi depositada sobre a mesa novamente e a garçonete apareceu com os pedidos, colocando os dois pratos sobre a mesa e se retirando rapidamente.
“Por que quer saber mais sobre mim, Príncipe? Acha que eu teria algo de útil para o seu reino?” Rafael analisou o prato de comida, parecendo satisfeito ao ver que era constituído de frango grelhado, salada, arroz e strogonoff.
“Acho que nós dois podemos ter algo de útil para ambos.” Liam sorriu e pegou a taça também, levando-a para os lábios, mas sem tomar seu conteúdo. “Na verdade, Rafael, você me interessa. Eu disse ao telefone que me arrependia de ter feito aquilo com um desconhecido e é verdade. Entretanto, algo me diz que eu não me importaria de fazer o que fiz se conhecesse pelo menos um pouco sobre você.”
O loiro pegou o garfo e a faca e cortou um pedaço do frango, levando-o para a boca. Seus olhos permaneceram fixos no prato de comida e Rafael parecia ponderar sobre variados assuntos. Ele não está prestando atenção apenas em mim.
“Rafael, seja lá quem esteja ocupando seus pensamentos agora, é melhor você parar.”
Os olhos claros do homem finalmente se ergueram, parecendo surpresos.
“É comigo que você está falando agora. Quero que sua atenção e pensamentos estejam voltados unicamente para este momento.”
“O Príncipe está dando uma ordem?” Rafael sorriu.
“Se eu responder em positivo, terei sua atenção completa durante o resto do almoço?” Liam voltou a cruzar os braços.
“Você não precisa nem responder. Minha atenção é completamente sua agora.”
Um brilho surgiu nos olhos de Rafael e isso pareceu o suficiente para deixar Liam mais calmo.
“De qualquer maneira, quer dizer que você não se importaria em fazer o que fez comigo se me conhecesse ao menos um pouco?” Fora o loiro quem quebrara o silêncio.
“Se eu te conhecesse ao menos um pouco, eu saberia em que terreno estaria entrando. Saberia se era seguro ou não.” Liam deu de ombros e voltou a pegar a taça. “Não precisaria me preocupar em mostrar tudo o que tenho.”
“Quer dizer que você tem mais truques do que os de ontem à noite?”
“Incontáveis.” O sorriso malicioso estava estampado no rosto de ambos os homens e qualquer um naquele restaurante – mesmo sem ouvir a conversa – poderia perceber que o assunto estava indo para um caminho nada puro.
“O que você descobriu sobre a minha pessoa hoje já é o suficiente para deixá-lo confortável?” Rafael arqueou uma sobrancelha e soltou os talheres, se inclinando um pouco mais para frente.
“Talvez.”
A resposta pareceu agradar Rafael parcialmente, pois ele voltou a se sentar corretamente e respirou fundo antes de continuar.
“Infelizmente, para você, eu não sou uma pessoa constante. Costumo machucar as pessoas com palavras para que elas não me machuquem de outra forma.” O loiro deu de ombros. “Não vou tratá-lo como as pessoas o tratam.”
“Claro que não.” Liam sorriu. “Você continuará me tratando como sempre, certo? Como um Príncipe que precisa de algo no reino, mas ainda não descobriu o que.”
Se aquele sorriso que aparecera nos lábios de Rafael não era um sorriso sincero, então Liam não saberia dizer o que era. Havia um brilho de esperança naqueles olhos e algo dentro de seu peito pareceu estalar. Como um interruptor.
“Muito bem, Príncipe. Eu aceito o seu convite para começarmos novamente.” Rafael estendeu a mão por cima da mesa. “Muito prazer, meu nome é Rafael Ordan. Pode me chamar de Rafael.”
“O prazer é meu, Rafael.” Liam retribuiu o cumprimento e sorriu. “Sou Liam, mas pode me chamar de Príncipe.”
“Eu jamais deixaria de chamá-lo desta forma.” Rafael inclinou a cabeça para o lado, sorrindo.
Liam sustentou aquele aperto de mão por mais um tempo, aproveitando para poder gravar aquele toque caloroso. Eu me pergunto o que esse interruptor dentro de mim ligou. Espero que seja algo bom. Algo que valha a pena.
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