Love at the End of the Summer
6 Capítulo 6
No dia seguinte, acordei com dor de cabeça e em todo o meu corpo. Com um pouco de dificuldade, consegui chegar na sala, para encontrar a Enid, que estava sozinha no sofá, olhando para a almofada no seu colo.
— Bom dia. — digo, depois de me sentar com ela. Enid olhou para mim e sorriu, mas não falou nada. — Você está bem? — pergunto, um pouco preocupado. Ela assentiu.
— E você? — disse, baixinho.
— Na medida do possível. Conseguiu dormir?
— Sim. Foi difícil, mas consegui. Por ironia do destino, minha mãe colocou um bichinho de pelúcia na minha mochila. — disse, sorrindo. Sorri também, imaginando-a dormindo abraçada com um pequeno ursinho marrom.
— Posso me deitar? Estou completamente dolorido. — peço, apontando para a almofada, depois de alguns minutos de silêncio. Enid demora alguns segundos para responder, mas permite, e deito-me devagar no seu colo, soltando um longo suspiro quando ela passou os dedos por entre os meus cabelos. Fechei os olhos, agradecendo mentalmente pelo carinho, e fiz uma pequena nota mental para retribui-la depois; ela também precisa.
Algumas horas depois, nos juntamos para o almoço, e o clima estava um pouco pesado; eu e Enid estávamos calados, papai e mamãe estavam um pouco nervosos um com o outro, tia Laura estava de ressaca, e April e a vovó estavam tentando nos animar, inutilmente.
— E então, Enid? Gostando de ficar aqui? — vovó pergunta, sorrindo gentilmente e Enid murmura um "sim" com um sorriso falso nada convincente. — Mesmo?
— Sim, senhora. Desculpe o desânimo, só estou um pouco cansada, a minha noite foi um pouco difícil. — diz, colocando ponto final naquele assunto. Comemos em silêncio, e quando a vovó trouxe a sobremesa, só eu e a April comemos. Enid foi para o seu quarto, papai saiu, mamãe foi assistir novela e a tia Laura foi dormir.
— Vocês podem me explicar o que está acontecendo nessa casa? — vovó perguntou.
— Com os adultos eu não sei, mas a Enid e o Dylan estão chateados. — April disse, colocando um bolinho na boca.
— O que aconteceu, Dylan?
— Nada que você deva se preocupar. — afirmo, sorrindo. Levanto e vou para o meu quarto. Fiquei alguns minutos mexendo no celular, e minha avó apareceu meia hora depois.
— Eu conheço você há dezessete anos, e te amo muito, não venha dizer para eu não me preocupar com o meu neto favorito. Agora desembucha. — disse, de braços cruzados, de forma autoritária.
— A April vai fazer um escândalo se descobrir isso, sabia? — sorrio, dando uma breve risada. Ela não riu, e visto que ela não iria sair dali até conversarmos sobre o meu problema, disse: — Eu e Isadora terminamos.
— Você está bem? — perguntou, sentando-se na minha cama.
— Não muito, mas vou ficar. O tempo cura tudo, não é mesmo?
Não. O tempo não cura tudo. Você apenas se acostuma com a ideia de não ter aquela coisa, ou aquela pessoa; a ferida não se cura, ela só para de doer. Talvez ela cicatrize, um dia, mas só se você parar de mexer. Mas é assim mesmo. Nós temos que aprender a cair, para depois nos levantarmos, mesmo com os ferimentos. E mais importante: cicatrizes não são feias. Elas mostram o que e por onde você passou, mostram que você sobreviveu. Não sinta vergonha das suas.
— Dylan, você está dentro deste maldito quarto há mais de cinco dias! — minha mãe esbraveja. — Saia daí e vá ver o sol!
— Não estou a fim. — resmungo, escondendo o rosto no travesseiro. Ouço seus passos dentro do quarto, e quando abro os olhos para ver o que ela ia fazer, vejo que ela abriu a janela. — Mãe, eu estou cansado!
— Cansado de quê, criatura?! Você não faz nada além de comer, dormir, usar o banheiro e tomar banho! Levanta dessa cama, seu pai quer conversar com você. — diz, puxando o travesseiro. Xingo mentalmente, mas faço o que ela mandou.
— O que foi, pai? — pergunto, entrando no seu quarto. Ele olha para mim e sorri.
— Olha só quem apareceu... Bem-vindo de volta à vida. — diz. Apenas cruzo os braços, demonstrando que não estava achando graça. — Senta aqui.
— A mãe disse que você queria falar comigo. — digo, depois de me sentar. Ele assente.
— E quero. — ele faz uma pequena pausa, provavelmente buscando as palavras certas para dizer. — Sua avó me contou por quê você está deprimido.
— E daí? — falo, um pouco irritado por ele ter tocado no assunto que estava evitando nos últimos cinco dias.
— E daí, que estou preocupado com você. Por quê vocês terminaram, filho?
— Não estou a fim de falar sobre isso. — tento me levantar, mas ele me puxa de volta, com o semblante sério.
— Estamos conversando, garoto. — diz. Engulo em seco. — Agora responda à pergunta.
— Ela me traiu. Satisfeito?!
— Não. — ele coça a barba. — Por que ela te traiu?
— Eu não sei. — digo, desejando com todas as minhas forças que ele me deixe em paz para eu poder voltar ao meu quarto.
— Ela não disse? — nego. — Então já sabe o que fazer quando voltarmos. — olho para ele, incrédulo. — O que foi? Não olhe assim para mim. Você irá perguntar à Isadora o motivo, entendeu?! Se você não perguntar, penduro você pela cueca no telhado!
— Está bem, tanto faz. — digo, irritado. Sei da capacidade do meu pai, não tenho dúvidas de que ele faria isso sem nem hesitar.
— Como se sente com tudo isso? — perguntou.
— Indignado, destruído, acabado. Pode escolher, fique à vontade.
— Entendi... O que a Isadora pensaria se pudesse te ver agora, Dylan?
— Eu não sei, não me importa o que ela pensa. — respondo.
— Na minha opinião, ela pensaria no quanto você é um fracassado, e não se arrependeria do que fez. Acho que ela até agradeceria por vocês terem terminado. — diz, sem me olhar.
— Nossa, pai! Muito obrigado pelo carinho, e grande apoio emocional. — digo, ironicamente.
— Obrigado. Sabe, se tem uma coisa que aprendi com todos os foras que já levei, incluindo os da sua mãe, é que mulheres mudam de opinião sobre nós muito facilmente. — diz.
— Ah, jura? Pai, não sei se você entendeu muito bem mas, a Isadora me traiu. Eu não quero voltar para ela. — digo, mostrando o óbvio.
— Eu sei. — ele sorri. — Mas ela está rindo de você agora, Dylan. Você vai deixar barato?
— O que quer dizer com isso?!
— Você está dando o que ela quer! Sua única chance de vingança é mostrar que está bem com tudo isso, filho, não ficar o dia inteiro dentro do quarto, perdendo grandes oportunidades de diversão. Entende o que quero dizer?!
— Mais ou menos. — dou de ombros. Na verdade, não estava entendendo nada. Isadora não está rindo de mim, ela nem se importa.
— Dylan, você é um garoto muito legal, você vai perder as suas tão amadas férias de verão por causa de uma garota que não vale nada? Isto é sério? Ela não liga para você, e agradeça-a por isso, você se livrou de um peso morto.
— Inspirador.
— É, sim, acredite. Filho, curta as suas férias, aproveite o máximo tempo aqui. Não deixe sua vida parar por causa de uma ninguém. Mostre-a o homem incrível que você é, mostre-a quem ela perdeu.
— Isadora não está aqui, pai. Ela não pode rir de mim, ela não pode me achar um fracassado, e eu não posso mostrá-la quem ela perdeu. — digo.
— Eu sei, mas e se estivesse? — ergueu uma sobrancelha. — Em menos de três meses as aulas estarão de volta, então vá treinando. Pegue de volta a sua felicidade, a sua energia, e quando chegar a hora, dê um soco no estômago daquela vadia! Não literalmente, claro. — ele riu, e acabei rindo também.
— Está certo. — sorrio.
— Que bom. Pense nisso, Dylan. Você é o meu garoto, não vou deixar você ficar triste. — assinto. — Agora vá interagir com as pessoas. Ainda sabe o que é isso, não é?
— Sei. — rimos, novamente. — Obrigado, pai. Você tem razão.
— E quando não tenho?!
— Quando a mamãe diz que está errado. — zombo.
— É, mas com mulher não se discute. Pelo menos, não com as que você ama.
— Então quer dizer que você ama aquela piranha mirim do supermercado?! — mamãe diz, dando-nos um tremendo susto.
— O quê?! Claro que não! Ela tinha pelo menos uns quinze anos, eu não queria assustá-la! E nós estávamos num supermercado, eu não podia gritar lá dentro! — papai se defende.
— Sei... — ela crispa os olhos. Dou risada e me levanto, saindo do quarto. Antes de sair, dou meia-volta e pergunto:
— Mãe, você deu quantos foras no papai?
— Ah, eu já até perdi a conta. — ela sorri, olhando para ele. — Eu queria saber até onde ele iria com aquela paixão maluca, e ele sempre voltava. Sempre soube que dar foras é a chave para o coração de um homem.
— Querida, isto não funciona com todo mundo. — ele ri. — Eu só estava muito apaixonado por você.
— E agora não está mais?! — pergunta.
— Não. Agora eu te amo. — ele responde, sorrindo.
— Bom mesmo, se não eu te mataria. — diz, beijando-o. Sorrio e saio do quarto, deixando-os à sós. Meus pais se amam muito. Vou em direção ao quarto de April e Enid, para falar com elas. Estou com saudades.
— Olá, pessoas. — cumprimento, sorrindo, depois de abrir a porta. As duas olham para mim, assustadas.
— Meu Deus, você ainda existe?! Nem lembrava que você ainda estava nesta casa! — April comenta, rindo. Ela se levanta de sua cama e me dá um grande abraço. — É bom te ver de novo! Já faz quanto tempo?
— Ah, cala a boca. — rio junto com ela. — Oi, Enid.
— Oi, Dylan. — ela deixa o esmalte que estava segurando no criado-mudo e vem me abraçar. — Que bom que você saiu do quarto. Todos estávamos preocupados.
— É bom sair de lá. — comento. — O que vocês estão fazendo?
— Pintando as unhas. O que você acha, azul brilhante, ou verde mar? — April me mostra os frascos.
— Nenhum dos dois. — faço careta.
— Azul brilhante, então. — diz, sentando-se novamente em sua cama. — Dylan, você pode me ajudar? — ela pede.
— Só se for para ajudar a estragar as suas unhas, porque eu nunca pintei as unhas de ninguém. — digo, rindo.
— Está tudo bem, vivendo e aprendendo.
— A April é péssima nisso. — Enid diz, rindo, enquanto olhava para mim. — Da última vez, ela conseguiu usar o vidro todo de esmalte, mas não conseguiu deixar uma gota nas unhas.
— Que mentira! Foram dois vidros. Me respeite. — ela diz, e nós três rimos. — Vai ajudar ou não, flor? — pergunta.
— O.k, tanto faz. — sento-me ao lado dela e pego o vidro de suas mãos. — April, não se mexa, por favor. — peço, já que suas mãos não paravam de tremer.
— Hey Dylan, eu fico melhor com as unhas pintadas de preto, ou de vermelho-vinho? — Enid pergunta, mostrando as unhas que havia pintado com as cores citadas.
— Vermelho. Não vejo você sendo gótica. — respondo.
— Só porque eu pintei as unhas de preto, não significa que eu seja gótica. — ela ri, retirando o esmalte preto com um algodão molhado em acetona.
— Enid, olhe para as roupas que você usa. Se você não é gótica, você é lésbica. — April diz, apontando para as roupas que estava usando.
— Vocês são muito críticos, sabiam? Não se julga alguém pelas roupas que usa. — diz, um pouco mais séria. — Se eu usasse apenas roupas curtas, eu trabalharia num bordel, ou numa boate de stripper, por acaso?
— Claro que não, mas só porque não conseguiu emprego em algum dos dois. — digo, sorrindo. April e Enid olham para mim, com cara de dúvida, e eu explico: — Se você se vestisse assim, significaria que você tem problemas com seu pai, o que praticamente todas as strippers têm.
— É, até que isso faz sentido. — ela sorri, ainda um pouco confusa.
— Tudo bem, já nos divertimos, agora quer terminar de pintar as minhas unhas, coisa linda? — April diz, ironicamente.
— Só se você parar de se mexer! Até parece um chihuahua. — digo, e Enid ri. Sorrio com sua risada, e começo a pintar as unhas da April, pacientemente.
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