No dia seguinte, acordei com dor de cabeça e em todo o meu corpo. Com um pouco de dificuldade, consegui chegar na sala, para encontrar a Enid, que estava sozinha no sofá, olhando para a almofada no seu colo.

Bom dia. digo, depois de me sentar com ela. Enid olhou para mim e sorriu, mas não falou nada. Você está bem? pergunto, um pouco preocupado. Ela assentiu.

E você? disse, baixinho.

Na medida do possível. Conseguiu dormir?

Sim. Foi difícil, mas consegui. Por ironia do destino, minha mãe colocou um bichinho de pelúcia na minha mochila. disse, sorrindo. Sorri também, imaginando-a dormindo abraçada com um pequeno ursinho marrom.

Posso me deitar? Estou completamente dolorido. peço, apontando para a almofada, depois de alguns minutos de silêncio. Enid demora alguns segundos para responder, mas permite, e deito-me devagar no seu colo, soltando um longo suspiro quando ela passou os dedos por entre os meus cabelos. Fechei os olhos, agradecendo mentalmente pelo carinho, e fiz uma pequena nota mental para retribui-la depois; ela também precisa.

Algumas horas depois, nos juntamos para o almoço, e o clima estava um pouco pesado; eu e Enid estávamos calados, papai e mamãe estavam um pouco nervosos um com o outro, tia Laura estava de ressaca, e April e a vovó estavam tentando nos animar, inutilmente.

E então, Enid? Gostando de ficar aqui? vovó pergunta, sorrindo gentilmente e Enid murmura um "sim" com um sorriso falso nada convincente. Mesmo?

Sim, senhora. Desculpe o desânimo, só estou um pouco cansada, a minha noite foi um pouco difícil. diz, colocando ponto final naquele assunto. Comemos em silêncio, e quando a vovó trouxe a sobremesa, só eu e a April comemos. Enid foi para o seu quarto, papai saiu, mamãe foi assistir novela e a tia Laura foi dormir.

Vocês podem me explicar o que está acontecendo nessa casa? vovó perguntou.

Com os adultos eu não sei, mas a Enid e o Dylan estão chateados. April disse, colocando um bolinho na boca.

O que aconteceu, Dylan?

Nada que você deva se preocupar. afirmo, sorrindo. Levanto e vou para o meu quarto. Fiquei alguns minutos mexendo no celular, e minha avó apareceu meia hora depois.

Eu conheço você há dezessete anos, e te amo muito, não venha dizer para eu não me preocupar com o meu neto favorito. Agora desembucha. disse, de braços cruzados, de forma autoritária.

A April vai fazer um escândalo se descobrir isso, sabia? sorrio, dando uma breve risada. Ela não riu, e visto que ela não iria sair dali até conversarmos sobre o meu problema, disse: Eu e Isadora terminamos.

Você está bem? perguntou, sentando-se na minha cama.

Não muito, mas vou ficar. O tempo cura tudo, não é mesmo?

Não. O tempo não cura tudo. Você apenas se acostuma com a ideia de não ter aquela coisa, ou aquela pessoa; a ferida não se cura, ela só para de doer. Talvez ela cicatrize, um dia, mas só se você parar de mexer. Mas é assim mesmo. Nós temos que aprender a cair, para depois nos levantarmos, mesmo com os ferimentos. E mais importante: cicatrizes não são feias. Elas mostram o que e por onde você passou, mostram que você sobreviveu. Não sinta vergonha das suas.

Dylan, você está dentro deste maldito quarto há mais de cinco dias! minha mãe esbraveja. Saia daí e vá ver o sol!

Não estou a fim. resmungo, escondendo o rosto no travesseiro. Ouço seus passos dentro do quarto, e quando abro os olhos para ver o que ela ia fazer, vejo que ela abriu a janela. Mãe, eu estou cansado!

Cansado de quê, criatura?! Você não faz nada além de comer, dormir, usar o banheiro e tomar banho! Levanta dessa cama, seu pai quer conversar com você. diz, puxando o travesseiro. Xingo mentalmente, mas faço o que ela mandou.

O que foi, pai? pergunto, entrando no seu quarto. Ele olha para mim e sorri.

Olha só quem apareceu... Bem-vindo de volta à vida. diz. Apenas cruzo os braços, demonstrando que não estava achando graça. Senta aqui.

A mãe disse que você queria falar comigo. digo, depois de me sentar. Ele assente.

E quero. ele faz uma pequena pausa, provavelmente buscando as palavras certas para dizer. Sua avó me contou por quê você está deprimido.

E daí? falo, um pouco irritado por ele ter tocado no assunto que estava evitando nos últimos cinco dias.

E daí, que estou preocupado com você. Por quê vocês terminaram, filho?

Não estou a fim de falar sobre isso. tento me levantar, mas ele me puxa de volta, com o semblante sério.

Estamos conversando, garoto. — diz. Engulo em seco. Agora responda à pergunta.

Ela me traiu. Satisfeito?!

Não. ele coça a barba. Por que ela te traiu?

Eu não sei. digo, desejando com todas as minhas forças que ele me deixe em paz para eu poder voltar ao meu quarto.

Ela não disse? nego. Então já sabe o que fazer quando voltarmos. olho para ele, incrédulo. O que foi? Não olhe assim para mim. Você irá perguntar à Isadora o motivo, entendeu?! Se você não perguntar, penduro você pela cueca no telhado!

Está bem, tanto faz. digo, irritado. Sei da capacidade do meu pai, não tenho dúvidas de que ele faria isso sem nem hesitar.

Como se sente com tudo isso? perguntou.

Indignado, destruído, acabado. Pode escolher, fique à vontade.

Entendi... O que a Isadora pensaria se pudesse te ver agora, Dylan?

Eu não sei, não me importa o que ela pensa. respondo.

Na minha opinião, ela pensaria no quanto você é um fracassado, e não se arrependeria do que fez. Acho que ela até agradeceria por vocês terem terminado. diz, sem me olhar.

Nossa, pai! Muito obrigado pelo carinho, e grande apoio emocional. digo, ironicamente.

Obrigado. Sabe, se tem uma coisa que aprendi com todos os foras que já levei, incluindo os da sua mãe, é que mulheres mudam de opinião sobre nós muito facilmente. diz.

Ah, jura? Pai, não sei se você entendeu muito bem mas, a Isadora me traiu. Eu não quero voltar para ela. digo, mostrando o óbvio.

Eu sei. ele sorri. Mas ela está rindo de você agora, Dylan. Você vai deixar barato?

O que quer dizer com isso?!

Você está dando o que ela quer! Sua única chance de vingança é mostrar que está bem com tudo isso, filho, não ficar o dia inteiro dentro do quarto, perdendo grandes oportunidades de diversão. Entende o que quero dizer?!

Mais ou menos. dou de ombros. Na verdade, não estava entendendo nada. Isadora não está rindo de mim, ela nem se importa.

Dylan, você é um garoto muito legal, você vai perder as suas tão amadas férias de verão por causa de uma garota que não vale nada? Isto é sério? Ela não liga para você, e agradeça-a por isso, você se livrou de um peso morto.

Inspirador.

É, sim, acredite. Filho, curta as suas férias, aproveite o máximo tempo aqui. Não deixe sua vida parar por causa de uma ninguém. Mostre-a o homem incrível que você é, mostre-a quem ela perdeu.

Isadora não está aqui, pai. Ela não pode rir de mim, ela não pode me achar um fracassado, e eu não posso mostrá-la quem ela perdeu. digo.

Eu sei, mas e se estivesse? ergueu uma sobrancelha. Em menos de três meses as aulas estarão de volta, então vá treinando. Pegue de volta a sua felicidade, a sua energia, e quando chegar a hora, dê um soco no estômago daquela vadia! Não literalmente, claro. ele riu, e acabei rindo também.

Está certo. sorrio.

Que bom. Pense nisso, Dylan. Você é o meu garoto, não vou deixar você ficar triste. assinto. Agora vá interagir com as pessoas. Ainda sabe o que é isso, não é?

Sei. rimos, novamente. Obrigado, pai. Você tem razão.

E quando não tenho?!

Quando a mamãe diz que está errado. zombo.

É, mas com mulher não se discute. Pelo menos, não com as que você ama.

Então quer dizer que você ama aquela piranha mirim do supermercado?! mamãe diz, dando-nos um tremendo susto.

O quê?! Claro que não! Ela tinha pelo menos uns quinze anos, eu não queria assustá-la! E nós estávamos num supermercado, eu não podia gritar lá dentro! papai se defende.

Sei... ela crispa os olhos. Dou risada e me levanto, saindo do quarto. Antes de sair, dou meia-volta e pergunto:

Mãe, você deu quantos foras no papai?

Ah, eu já até perdi a conta. ela sorri, olhando para ele. Eu queria saber até onde ele iria com aquela paixão maluca, e ele sempre voltava. Sempre soube que dar foras é a chave para o coração de um homem.

Querida, isto não funciona com todo mundo. ele ri. Eu só estava muito apaixonado por você.

E agora não está mais?! pergunta.

Não. Agora eu te amo. ele responde, sorrindo.

Bom mesmo, se não eu te mataria. diz, beijando-o. Sorrio e saio do quarto, deixando-os à sós. Meus pais se amam muito. Vou em direção ao quarto de April e Enid, para falar com elas. Estou com saudades.

Olá, pessoas. cumprimento, sorrindo, depois de abrir a porta. As duas olham para mim, assustadas.

Meu Deus, você ainda existe?! Nem lembrava que você ainda estava nesta casa! April comenta, rindo. Ela se levanta de sua cama e me dá um grande abraço. É bom te ver de novo! Já faz quanto tempo?

Ah, cala a boca. rio junto com ela. Oi, Enid.

Oi, Dylan. ela deixa o esmalte que estava segurando no criado-mudo e vem me abraçar.Que bom que você saiu do quarto. Todos estávamos preocupados.

É bom sair de lá. comento. O que vocês estão fazendo?

Pintando as unhas. O que você acha, azul brilhante, ou verde mar? April me mostra os frascos.

Nenhum dos dois. faço careta.

Azul brilhante, então. diz, sentando-se novamente em sua cama. Dylan, você pode me ajudar? ela pede.

Só se for para ajudar a estragar as suas unhas, porque eu nunca pintei as unhas de ninguém. digo, rindo.

Está tudo bem, vivendo e aprendendo.

A April é péssima nisso. Enid diz, rindo, enquanto olhava para mim. Da última vez, ela conseguiu usar o vidro todo de esmalte, mas não conseguiu deixar uma gota nas unhas.

Que mentira! Foram dois vidros. Me respeite. ela diz, e nós três rimos. Vai ajudar ou não, flor? pergunta.

O.k, tanto faz. sento-me ao lado dela e pego o vidro de suas mãos. April, não se mexa, por favor. peço, já que suas mãos não paravam de tremer.

Hey Dylan, eu fico melhor com as unhas pintadas de preto, ou de vermelho-vinho? Enid pergunta, mostrando as unhas que havia pintado com as cores citadas.

Vermelho. Não vejo você sendo gótica. respondo.

Só porque eu pintei as unhas de preto, não significa que eu seja gótica. ela ri, retirando o esmalte preto com um algodão molhado em acetona.

Enid, olhe para as roupas que você usa. Se você não é gótica, você é lésbica. April diz, apontando para as roupas que estava usando.

Vocês são muito críticos, sabiam? Não se julga alguém pelas roupas que usa. diz, um pouco mais séria.Se eu usasse apenas roupas curtas, eu trabalharia num bordel, ou numa boate de stripper, por acaso?

Claro que não, mas só porque não conseguiu emprego em algum dos dois. digo, sorrindo. April e Enid olham para mim, com cara de dúvida, e eu explico: Se você se vestisse assim, significaria que você tem problemas com seu pai, o que praticamente todas as strippers têm.

É, até que isso faz sentido. ela sorri, ainda um pouco confusa.

Tudo bem, já nos divertimos, agora quer terminar de pintar as minhas unhas, coisa linda? — April diz, ironicamente.

Só se você parar de se mexer! Até parece um chihuahua. digo, e Enid ri. Sorrio com sua risada, e começo a pintar as unhas da April, pacientemente.