Love as Sakura | 爱如樱

79 第62章 Os dias passam - Parte IV


Tudo estava escuro. Yan Da tateou à sua volta em busca do interruptor, mas não conseguia achar nem mesmo as paredes e parecia estar andando em um enorme local vazio sem qualquer tipo de iluminação, nem mesmo natural. Um sopro gélido fez seu corpo estremecer e, quando piscou tentando fazer seus olhos se adaptarem às trevas, a claridade leitosa veio do alto. Era uma lua cheia diferente de todas as que a princesa do fogo já havia visto, ela iluminou o que parecia um braço de rio cercado por uma floresta de árvores altas, na outra margem, ao longe, Peng Yan acenava para ela com um sorriso doce.

Ela queria alcançá-lo. Deu passos incertos na direção do lado e entrou nas águas frias, a expressão serena de Peng Yan acalentava seu coração conforme Yan Da se movia com dificuldade dentro do lago, parecia que suas pernas ficavam mais pesadas quando lutava para atravessar o rio, a água chegava à sua cintura, ela tentou chamar o nome de Peng Peng, mas nenhum som se formou na sua garganta, a pressão dentro do lago, ela olhou para baixo e uma massa de criaturas translúcidas se movia ao seu redor, quando ergueu a cabeça novamente, seu melhor amigo havia desaparecido.

Yan Da foi puxada para baixo, a água a cercava por todos os lados e se tornava difícil respirar, de repente, um par de mãos a segurou puxando-a para um abraço apertado, ela reconhecia aquele perfume adocicado, cerejeira e menta. O calor aos poucos a envolveu, a velha sensação de estar em casa.

— Peguei você. — A voz melodiosa disse enquanto a apertava contra si. — Está tudo bem agora. Eu te amo, Yan Da.

Tinha certeza que não era Peng Peng que lhe falava, mas quem era? Yan Da desejou se afastar para contemplar o rosto, mas a outra pessoa não parecia ter qualquer intenção de soltá-la. Seu coração parecia doer, quanto mais perto estava daquele estranho, mais distante se sentia, como se nunca fosse capaz de alcançá-lo. Yan Da contemplou a luz vir do céu, a luz prateada da lua ia se tornando mais intensa, de tal modo que não conseguia manter os olhos abertor por muito tempo, uma força poderosa envolveu o corpo da princesa arrancando-a dos braços confortadores, sentiu-se vazia, assustada, tentou alcançá-lo, mas a silhueta foi engolida pela luz antes que ela pudesse contemplar o seu rosto.

— YAN DA! — Gritou a voz do meio da claridade cegante.

Todo corpo de Yan Da estava coberto de suor quando acordou. Olhando em volta, levou alguns segundos para lembrar-se onde estava, já fazia algumas semanas que vinha tendo aquele pesadelo desconexo. O relógio na mesa de cabeceira marcava duas e meia da manhã, ela passou as mãos no rosto e levantou na direção do banheiro onde tomou um longo banho tentando afastar aquelas imagens da memória. As lacunas na sua mente pareciam mais evidentes desde que voltara a Guang Cheng. Talvez tivesse se equivocado ao retornar, aquém de todas as razões que tinha para estar ali outra vez, pensou se não era melhor ter ficado em Pequim.

Saiu em busca de uma boa xícara de chá, seu corpo dava sinais que não voltaria a dormir tão breve, precisava arrumar alguma atividade que mantivesse seus pensamentos calados ou poderia acabar gerando uma indesejada crise de ansiedade. Desde a morte de Peng Peng, elas andavam juntas com os ataques de pânico, mesmo tendo diminuído de forma considerável nos últimos anos, sempre retornavam em momentos de estresse. A chaleira apitou anunciando que a água havia fervido e, enquanto dispunha sobre o saquinho de chá na xícara, olhou em volta na busca de algo para aliviar aquele vazio no seu peito.

— O que está fazendo acordada a essa hora, fadinha?

A figura sonolenta de Pian Feng estava parada na soleira da porta com calças cinza de algodão e uma camisa branca, os cabelos adoravelmente bagunçados e a expressão preocupada davam-lhe um ar, ao mesmo tempo, sexy e fofo. Ele se aproximou da ilha da cozinha e serviu-se de um copo com água.

— Te acordei?

— A porta do quarto estava aberta e acabei ouvindo a chaleira. — Explicou. — Meu sono se tornou muito leve no último ano. Está sentindo algo?

— Tive um pesadelo, só isso. — Sorriu para apaziguar a preocupação do amigo. — Talvez pela proximidade do Qingming eu esteja ficando sensível.

— E uma data difícil para você, talvez mais que para outras pessoas. — Ele acariciou os cabelos dela com suavidade. — Há uma diferença entre perder alguém que amamos e ter essa pessoa tirada de nós, Da’er. Mas não é só por causa de Peng Yan que você está inquieta assim, é?

Yan Da deu uma leve risadinha, era impossível esconder qualquer coisa de Pian Feng. Contudo, explicar aquela situação bagunçada dentro do seu peito era difícil, mesmo ela não entendia. Pian Feng sentou ao lado dela em um dos bancos altos da ilha da cozinha e colocou o braço sobre os ombros dela, depositando um beijo na sua cabeça.

— Sabe que pode me contar qualquer coisa, não é?

Ela anuiu e, mexendo o sachê de chá dentro da xícara com a cordinha tentou ordenar suas inquietações antes de verbalizá-las.

— Desde que acordei naquele navio tenho me sentido estranha... — Começou. — Parece que falta algo, sinto que esqueci alguma coisa importante, mas não consigo recuperar. Além disso, há esses sonhos estranhos, eu sinto falta de alguém, Pian ge, uma saudade muito dolorosa, mas não consigo lembrar de quem ou porquê. É impossível?

— Fadinha, você acabou de voltar do Diyu literalmente e vem de um mundo onde pessoas tinham poderes, está mesmo me perguntando sobre possibilidades? — Provocou-a enquanto a apertava contra seu corpo e deliciava-se com a risada dela. — Se posso dizer alguma coisa para você é que, no momento certo, tudo fará sentido.

— Sabe alguma coisa que eu não sei?

— Milhares! — Riu. — Quando você nasceu eu já existia naquele mundo, vi muito mais do que você pode pensar.

— Você entendeu. — Ela deu um leve soco no abdôme dele.

— Confie em mim, hum? Os... como posso dizer — fez uma pausa breve — deuses do destino, coloquemos assim, estão trabalhando para te devolver tudo que é seu por direito, incluindo os bens dispensáveis.

Ele beijou a testa dela com carinho e a abraçou por um instante desejando, secretamente, poder protegê-la de todo o mundo.

— Não vá dormir muito tarde, certo?

— Boa noite, Pian ge.

Pian Feng estava no meio do caminho quando a voz dela o parou.

— Pian ge!

— Sim?

— Eu te amo. — Sorriu. — Obrigada.

O coração do agente derreteu.

— Eu também te amo, fadinha, sabe disso. — Um sorriso bobo iluminava seu rosto. — Vou estar aqui sempre pra você. Quando quiser conversar, chorar ou mesmo matar alguém, conte comigo.

— Um dia eu vou querer matar alguém e me lembrarei dessas palavras.

— Tenho certeza que seu irmão nos absolverá. — Riu. — Ele é imparcial com toda a família, menos com você.

Yan Da fez uma careta sabendo que era verdade. Sentiu-se um pouco mais leve após conversar com Pian Feng, ele fez o caminho de volta e beijou sua cabeça mais uma vez antes de ir dormir. Yan Da terminou de tomar seu chá e, ainda sem sono, decidiu desenhar mais um pouco, havia começado a fazer versões digitais dos personagens que desejava colocar em seu jogo com algumas modificações enquanto anotava as alterações e outros detalhes. Olhou bem para o belo espadachim de longos cabelos prateados segurando a lâmina azulada, os olhos intensos encaravam-na da tela do tablet, as roupas eram brancas como a neve e tinham motivos prateados, Yan Da achou que seria uma boa ideia desenhar um adorno de testa nele com uma safira, fez o arranjo prateado intrincado que quase não contrastava com a pele alva e a pedra brilhante combinava com seus olhos.

— Ying Kong Shi... — Pensou lembrando do nome mencionado por Pian Feng. — É um bom nome. Ying de cerejeira, revelando sua intensidade... Kong... de anular, revelando seu poder. E Shi de libertação anunciando seu destino. Dui, é bonito, auspicioso e poderoso. Gosto. Você vai se chamar Ying Kong Shi.

Jie Ke Lin e as crianças foram junto à Hu Bing limpar o túmulo de Meng Xi Yu. Yan Da não tivera a chance de dizer ao irmão como estava tocada por ele ter batizado sua filha com o nome da mãe deles. Mesmo sem saber daquele costume, a cunhada se mostrava não somente disposta, mas curiosa quanto ao festival e fazia perguntas constantes a Chao Ya e Yan Da, sem objetar com nenhuma tarefa que lhe era delegada. Ela era prestativa, cuidadosa e detalhista quando executava uma função, tanto ela quanto o irmão se ofereceram para ajudar Yan Da limpar, ornar e fazer oferendas nos túmulos de Peng Yan e seu pai. As crianças levavam algumas das ofertas e pareciam divertir-se pendurando enfeites nos túmulos e repetindo os gestos de seus pai e tia.

Quando terminaram já era próximo a hora do almoço, então todos foram para casa de Hu Bing onde tomaram banho, trocaram de roupa e comeram em família. Animada, Jie Ke Lin havia preparado todos os pratos favoritos de Yan Da com a ajuda do marido, também cozinhou Qing Tang Yu Wan* que Chao Ya gostava muito. A refeição foi animada, pautada de conversas descontraídas que tinham como principal propósito manter a mente de Yan Da o mais longe possível da tristeza, mesmo a cunhada sabia que tanto aquele feriado quanto o aniversário de morte do melhor amigo eram dias difíceis para a jovem designer. Embora sorrise e tentasse mesclar-se ao ambiente, eles podiam ver nos olhos dela a melancolia nublando o brilho do seu semblante.

Hu Bing estava preocupado com a viagem da irmã até a floresta dos vagalumes, como apelidaram o lugar, mas Pian Feng garantiu que não havia qualquer problema e que Yan Da estaria segura, algo que foi reforçado por Chao Ya. Com Shuo Gang preso e Lian Ji destruída, não havia mais qualquer perigo para ela lá em cima e, o casal também sabia — por Huang Tuo e Xing Jiu — que Ying Kong Shi estaria na clareira. O irmão ainda insistiu que ela ao menos não fosse sozinha, ao que a cantora, para não estragar os planos do amigo, prometeu acompanhá-la. Ao fim da refeição, todos se despediram e Yan Da foi para casa colocar uma roupa um pouco mais quente para subir a montanha já que fazia um pouco de frio lá em cima, especialmente com o inverno se aproximando. O casal de amigos estava na sala, olhando-se com alguma apreensão, quando ela finalmente retornou.

— Sei que prometi ir com você. — Disse a cantora segurando a mão da sua menina. — Mas também sei que esse é seu momento com ele. O aniversário de Peng Yan está perto, não é? Ligue pra mim assim que chegar em Guihua, está bem?

— E se conseguir sinal, ligue da floresta também. — Pediu Pian Feng.

Yan Da sorriu agradecida e os abraçou apertado. Os dois pais coruja sorriam, especialmente o agente que se lembrava da conversa com sua fadinha naquela madrugada, lá em cima, sabiam, ela encontraria as respostas que buscava e torciam para que dessa vez tudo tivesse um desfecho melhor.

— Sei que não devia pedir isso — Pian Feng continuou —, mas não chore muito, certo? Mesmo de longe, não gosto da sensação de saber que você está chorando em um lugar onde não posso te consolar.

Gege, se você continuar me dizendo essas coisas carinhosas vou começar a chorar antes de sair de casa. — Retrucou ela com um sorriso, já sentindo os olhos marejarem. — Eu amo muito vocês dois.

— Também amamos você, minha menina. — Chao Ya beijou a cabeça dela. — Volte a tempo do jantar.

Yan Da prometeu que voltaria e, pegando um buquê de jacintos azuis, deixou o apartamento. Os dois ficaram olhando-a desaparecer sabendo que, ao voltar, o mundo da sua menina não seria mais o mesmo. Pian Feng beijou a cabeça de Chao Ya.

— Nem comece, ela vai trazer o namorado e você vai ser simpático. — Ordenou.

— Vou ser tolerante e é o máximo que posso prometer. — Resmungou.

A cantora suspirou.

— Esqueça isso, precisamos de um bebê.

E antes que Pian Feng pudesse dizer qualquer coisa, a cantora apenas o beijou ardorosamente e o empurrou na direção do quarto.

A viagem até a vila Guihua foi tranquila, Yan Da colocou uma música alta para evitar os pensamentos e aquela inquietação de que esquecera algo importante. Não parou na vila, mas seguiu direto mais uma hora para cima e estacionou na entrada da trilha. Como começava a esfriar, fechou a gabardinha vermelha e segurou o buquê com as duas mãos enquanto adentrava a floresta. As árvores pareciam mais altas do que se lembrava, enquanto subia a sensação que havia diminuído de tamanho a acompanhava juntamente com aquele incômodo de estar esquecendo algo, era como se, após Peng Peng, ela tivesse voltado ali com outra pessoa, mas Yan Da não conseguia pensar em ninguém especial o bastante para isso. Mesmo Pian Feng e Chao Ya, as duas pessoas que mais amava além de Hu Bing, haviam subido até a clareira com ela, era um lugar especial que pertencia apenas a ela e ao melhor amigo e eles respeitavam isso.

No meio do caminho, parou para descansar um pouco e tomou água de uma garrafinha que estava dentro da sua bolsa. Fechou os olhos e aspirou o ar doce e extraordinário da floresta, era como um enorme abraço da natureza, sempre que revisitava o lugar tinha a mesma impressão de quando Peng Peng a levou ali pela primeira vez, mágico, deslumbrante e renovador, Yan Da se sentia reconectada consigo mesma e com o mundo, como se retornasse para sua origem. As memórias da vida imortal e mortal se mesclavam na sua mente e, por vezes, ela não sabia se as duas “Yan Das” dentro de si eram as mesmas ou se convergiram e empataram suas diferenças para torna-la quem era, mas a princesa do fogo impetuosa e solitária dentro dela em grande parte do tempo mais parecia uma ferida aberta sangrando no seu coração. Retomou a caminhada concentrando-se em seu objetivo, estava começando a pensar demais.

Quando finalmente alcançou a clareira, a tarde já avançara e o céu começava a escurecer lentamente, com as cores pálidas do pôr-do-sol abraçando aquele crepúsculo de tirar o fôlego quando visto dali. Ela deu alguns passos mais perto quando viu alguém sentado no banco que Peng Peng construíra. Erguendo a sobrancelha, Yan Da deu mais alguns passos intrigada em como aquele estranho encontrara o caminho até ali, apenas alguns locais conheciam aquela região e não iam até lá por causa de lendas e superstições antigas. O homem pareceu vê-la, mas como estava ainda um pouco longe ela não podia ter certeza. Levemente irritada com a intrusão em seu local sagrado, apressou o passo para alcançá-lo, ele manteve a cabeça baixa por um momento, ao ver seus contornos com mais nitidez, foi assaltada por uma sensação de familiaridade, ainda assim, não o reconheceu.

— Como chegou aqui? — Quis saber. — Quem é você?

O homem pareceu assustar-se, levantando-se sobressaltado e encarando-a como se visse um fantasma. Yan Da se esforçou para não rir consternada e perguntar qual o problema dele até perceber que seus olhos estavam cheios de água e ele continuava encarando-a sem desviar, chocada, ela ficou sem saber o que fazer por um instante, uma sensação ruim cresceu no seu peito, ele era o intruso ali, por que ela sentia como se tivesse feito algo errado?

Nǐ... Zài kū ma? — Perguntou com uma mistura de surpresa e pânico. — Tudo bem, não é como se eu fosse dona das terras ou algo assim, só perguntei o que estava fazendo aqui.

Ele não pareceu notar que estava chorando, pois ergueu a mão ao rosto e tocou as lágrimas com algum espanto. Yan Da depositou as flores ao lado do banco de madeira e ficou esperando que o estranho lhe desse alguma explicação. O cenário era uma antítese ao clima entre eles, vagalumes pairavam no ar enquanto a luz natural desaparecia mergulhando-os na escuridão, o homem não parecia disposto a falar nada, e quando fez menção de caminhar na direção dela, discretamente Yan Da colocou a mão dentro da bolsa para segurar a arma de choque que Pian Feng havia lhe dado meses atrás. Mas ele passou por ela. Antes que tivesse chance de respirar fundo, para seu novo choque, ele segurou sua mão e a virou para si pressionando seus lábios contra os dela, de início, o beijo era leve e tímido como se ele esperasse que ela o empurrasse para longe, mas no segundo que suas bocas se tocaram, Yan Da foi engolida por um fluxo de imagens e emoções.

Ei, você está bem?” Viu o olhar preocupado de Shi quando quase a atropelou um ano atrás, a memória encaixava tão bem na lacuna da sua mente que se perguntou como a havia apagado. “Meng xiaojie, devo chamar um médico para vê-la?” A confusão do momento em que acordou no apartamento dele sem saber que moravam no mesmo prédio, o terror ao lembrar que havia vomitado no terno dele quase a fez rir ali, a amabilidade de Shi e seu cavalheirismo quando cuidou dela durante seu estado febril e o modo como os dois se desentenderam no começo. Seu encontro no escritório quando ela foi trabalhar na ZhangYing, as memórias do passado em algumas ocasiões que se tocavam — e agora ela sabia serem provocadas por Xing Jiu. “Meng xiansheng, eu o aconselho a manter a calma. Isso não são modos de tratar uma mulher seja ela da sua família ou não” A maneira como ele a defendera de Shuo Gang impedindo-o de estapeá-la. “Yan Da, pode me ouvir? Yan Da, fique acordada, tudo bem?” Sua voz chamando-a em desespero quando Lan Shang bateu contra seu carro provocando aquele acidente.

Não se preocupe com isso, talvez não faça direito porque, bem, nunca prendi o cabelo de ninguém antes. Mas farei o melhor que puder. Se a senhorita me orientar, talvez me saia melhor.” O jeito adorável como ele sorria quando tentava prender o cabelo dela seguindo suas orientações, ou as flores que levava e as horas que lia para ela durante o período que ficou internada. A maneira como cuidou dela todas as vezes que teve pânico por causa das agulhas.

Ela é uma pessoa que não se apaixona fácil. Além do mais, começamos pelo lado errado.”

“O que, você disse a coisa errada logo no primeiro encontro?“

“Quem dera fosse só isso. Eu quase a atropelei no primeiro encontro.”

Aquela havia sido a primeira vez que Shi havia dito que gostava dela. Lembrou também do olhar desesperado dele quando recuperou as memórias e a abraçou logo ao acordar. As lágrimas que pingavam na sua blusa, a forma como ele a apertava em seus braços, não fazia ideia da dor que sentia ao descobrir quem era e tudo que fizera. “Está ferida?” Os braços de Shi estavam à sua volta, a mão repousava em sua cabeça mantendo-a pressionada contra seu peito, naquele beco fétido, onde ela fora encurralada por fantasmas do seu passado, ele apareceu para protegê-la, assim como Yue Shen. Também foi a primeira vez que ele a beijou de verdade.

— Você disse uma vez que, no futuro, eu não precisava pedir. — Lembrou-lhe em voz baixa.

Mais tarde, naquele dia em que ele a salvara, em seu apartamento, os dois jogaram e ele perguntou novamente se podia beijá-la, Yan Da havia lhe dito precisamente aquelas palavras. Como um quebra-cabeças, a memória da designer ia se montando com perfeição e todas as lacunas que apagavam Shi da sua vida foram remontadas, o coração dela se encheu de dor, culpa e amor, seus olhos arderam pelas lágrimas e ela sorriu, Peng Yan havia lhe mostrado a trajetória de Shi, Yan Da conhecia suas lutas e limitações, sobretudo, conhecia o homem parado diante dela naquele momento. Shi parecia desconcertado.

— Ying Kong Shi!

Ela jogou os braços em torno do pescoço dele e o beijou. Lembrou-se quando ele a levou para visitar sua avó, o jantar no terraço da empresa com fogos de artifício e beijos apaixonados. Os pedidos de perdão quando ela recuperou a memória, a insistência em que o ouvisse. “Eu amo você, Yan Da... a amo desde o momento que te vi pela primeira vez quando você me salvou do lago. Todas as vezes que eu disse que você era só uma inimiga, eu menti, para mim mesmo e para você. A única mulher que já conseguiu tocar meu coração foi você, ainda é você e sempre será você.” As últimas palavras que lhe disse antes de sua vida imortal chegar ao fim, todas aquelas peças eram postas nas lacunas da memória dela fazendo com que Yan Da se sentisse completa outra vez. Suas lágrimas se misturavam com as de Shi, finalmente sentia como se estivesse em casa.

Ao se afastarem em busca de ar, Shi deu-lhe um carinhoso beijo no nariz, Yan Da encarou a camada de pele exposta onde a camisa social estava aberta, seu coração acelerou diante da sensualidade latente que emanava dele. Como se temesse que Shi conseguisse ver através dela, deu um tapa no seu peito provocando-o.

— Está atrasado! — Brincou.

Ele sorriu se tornando ainda mais irresistível, e beijou sua testa cheio de ternura e cuidado. Um gesto tão simples, mas que dizia tanto. Sua mão apoiava a cabeça de Yan Da, encostada em seu peito, afagando-lhe os cabelos, o coração dele, ela notou, também estava agitado como se respondesse ao dela. Todo o universo pareceu se alinhar e desejou que o tempo parasse ali.

— Desculpe. — Respondeu entrando na brincadeira.

— Eu te amo, Ying Kong Shi. — Murmurou com voz embargada. — Sinto muito, demorei demais para chegar.

— Shh... esperar você sempre vale muito a pena. — Sorriu. — Eu te amo, Yan Da. Amo você desde a primeira vez que te vi, você foi meu primeiro e será meu único amor para sempre.

Se beijaram outra vez, enquanto a floresta era engolida pela noite e a luz emanada pelos vagalumes ganhava mais força, em suas bocas, o sabor de saudade, sal e júbilo. Shi queria não precisar respirar para poder beijar Yan Da para sempre, a forma como ela segurava sua camisa, apertando-a entre os dedos, não ajudava muito o lado racional do seu cérebro a se manter no controle. Nada mais podia separá-los, nenhum obstáculo se encontrava em seu caminho, ele usaria cada segundo de vida para fazer Yan Da feliz.

Abraçados, os dois sentaram no banco e contemplaram a noite preenchida por um céu estrelado e luzes dos vagalumes pairando ao redor. O cheiro adocicado da floresta soprado pela brisa gélida conferia um clima ainda mais romântico para eles. Yan Da mantinha a cabeça no ombro de Shi que a abraçava com um braço e segurava sua mão com o outro. Ela ligou uma lanterna para que pudessem se ver com um pouco mais de nitidez.

— Sabe que não vou mais perder você de vista, não é? — Perguntou ele. — Nunca mais quero ficar longe de você, Yan Da.

— Nesse caso é você que vai precisar se mudar, meu atual apartamento é maior que o seu. — Sorriu olhando pra ele.

— Está me convidando? — Provocou.

— Estou mandando que se mude, senhor Ying. — Advertiu-o com um sorriso travesso. — Já passamos tempo demais separados, você está a quatro mil anos se fazendo de difícil.

Shi fez uma careta e ela riu.

— Preciso sobreviver antes de decidir morar com você. — Lembrou.

— Sobreviver? — Ela arqueou a sobrancelha, confusa.

— Quando Pian Feng descobrir que vamos dividir o mesmo teto é capaz de colocar um cinto de castidade em você. — Riu. — Pior, quando seu irmão souber da minha existência, desde que te encontraram naquele cruzeiro todos estão me impedindo de encontrar com Hu Bing alegando que eu estaria atrás das grades antes de soletrar “problema”.

Yan Da deu uma sonora gargalhada que encheu o coração de Shi com gratidão e felicidade, era sempre assim que desejava vê-la, sorrindo, sem mais medos, lágrimas e sacrifícios. No mais íntimo do seu ser, agradecia ao universo por tê-la enviado de volta à sua vida, à Peng Yan por tê-la protegido no Diyu e a todos os seus amigos por terem ajudado a trazê-la de volta.

— Isso vai ser muito divertido. — Brincou ela. — Uma pena que você não é mais a prova de balas.

— Vou pedir à Yue Shen um colete. — Anuiu. — Se o preço para ficar ao seu lado é esse, estou mais que disposto.

— Não se preocupe com isso, vou proteger você. — Prometeu.

— Você sempre foi incrível nisso. — Ele acariciou o rosto dela. — Obrigado por sempre me salvar mesmo quando eu não merecia isso.

Os dedos de Yan Da beliscaram a bochecha dele.

— Pare de dizer essas coisas! — Repreendeu-o. — Você é o amor da minha vida, mesmo tendo sido teimoso e difícil, sempre valeu a pena salvar você.

— Espero que o resto da minha vida seja pagamento suficiente. — Sorriu. — Não vou medir esforços para que você seja muito, muito feliz, Da’er.

O coração de Yan Da pulou uma batida. Pian Feng e Hu Bing eram as únicas pessoas que a chamavam de Da’er, era uma forma tão íntima e carinhosa, além de soar tão sensual na voz de Shi que foi, ao mesmo tempo, estranho e bom ouvi-lo chama-la daquela maneira.

— Eu disse algo errado? — A voz dele soava preocupada enquanto a encarava silenciosa por algum tempo.

— Não, de forma alguma. — Tranquilizou-o dando uma leve risada. — Só fiquei um pouco surpresa por você me chamar de Da’er.

— Você não gosta?

— Fiquei feliz, é sério, isso me coloca numa posição mais perto de você. — Confessou sentindo o rosto arder.

— Yan Da — Shi esboçou um sorriso terno enquanto segurava seu rosto, a voz assumiu um tom suave e cheio de sinceridade —, eu quero você para sempre ao meu lado, como minha namorada, minha noiva, minha esposa e a mãe dos filhos que um dia os céus nos abençoarão ter. E também quero te ouvir me chamando de Shi.

Ela riu baixinho, os olhos mais uma vez marejados diante da nova declaração.

— Quando eu chamar seu nome inteiro outra vez, você vai estar encrencado. — Sorriu. — Meu Shi.

Ele riu e a beijou docemente. Aqueles pequenos momentos doces já conseguiam valer por todos os dias melancólicos e desesperadores que ele viveu longe dela. Sabia que ainda tinha muito a dever pelo que fez no passado, nunca esqueceria isso, mas seu foco era a felicidade daquela doce e linda mulher ao seu lado.

— Espero que Yue Shen possa te levar um colete em cinco horas. — Murmurou ela dando um beijo no nariz de Shi. — Pian ge está me esperando para jantar.

— Telefono pra ela no caminho. — Shi sorriu e beijou a testa dela.

Os dois levantaram ainda abraçados e começaram a descer a Montanha Luo Yin Po, em seus corações, Shi e Yan Da agradeceram à Peng Yan por ressignificar aquele lugar para eles e abençoar sua união. Os dois ainda tinham muito o que viver pela frente e estavam dispostos a aproveitar cada segundo daquela pequena eternidade.