Ka Suo encarou os portões da tribo dos astrólogos por algum tempo antes de finalmente entrar. Nenhum dos guardas do lado de fora o parou, reconhecendo quem ele era. Atravessou o pátio interno e começou a subir a escadaria onde, no topo, Xun Hao já o esperava como se soubesse da sua visita. Ainda estava inquieto pela discussão que tivera com Shi minutos atrás, mesmo já tendo visto o irmão chateado antes, nunca tivera aquela raiva voltada contra si e essa novidade ao mesmo tempo o magoava e alegrava.

Entendia o lado dele, muitas das coisas que aconteceram com Yan Da poderiam ter sido revertidas com mais facilidade se tivesse contado a ele antes aquele segredo, mas havia muito em jogo para arriscar e, de alguma maneira, apesar de poderoso, não havia garantias que Shi conseguisse esconder aquele detalhe. Se Lian Ji sentisse aquilo, ele se tornaria mais que um alvo para a semideusa, mas uma potencial arma. E ela se encarregaria de fazê-lo servir ao seu propósito.

Não. Mesmo que o irmão tivesse ficado chateado, ele não podia arriscar.

— Por que não me contou isso antes? — Shi encarou o irmão com raiva no olhar. — A chave estava aqui o tempo todo e você impediu de usá-la, o que pretende com isso, Ka Suo?

— Você precisa entender o que isso implica, Shi, não se trata apenas de você e Yan Da, mas de todos nós. — Tentou explicar. — Não podia correr o risco de Lian Ji descobrir sobre isso, apenas Xing Jiu e eu sabíamos.

O jovem príncipe do gelo se obrigou a ser racional, não tinham tempo para discutir aquilo, então a briga precisaria ficar para outra hora. Era imprescindível que Xing Jiu despertasse, junto com Liao Jian e Lan Shang. Sobretudo, eles precisavam encontrar o astrólogo o quanto antes, não havia garantias que a semideusa o deixaria incólume enquanto ele estivesse em seu poder. Com um suspiro exasperado, o jovem príncipe apetou a ponte do nariz pedindo aos céus por paciência e, forçando a voz a não soar ríspida, orientou o irmão.

— Vá depressa para a tribo dos astrólogos e encontre Xun Hao, o subordinado de confiança de Xin Jiu. Ele deve ter um cubo dos sonhos lá, você vai usá-lo para entrar no mundo dos sonhos e tentar localizar Xin Jiu, Xun Hao deve saber alguma forma de guia-lo pelos portais para não se perder. Vou continuar aqui e manter o cajado dos sonhos ligado aos cubos, isso dará energia suficiente para que ele continue caminhando pelos sonhos, se houver uma forma de anular o cubo de Lian Ji e fazê-lo acordar, precisamos agir depressa.

Ele não fizera objeções ou outras perguntas, tratou de abrir o portal engolindo a raiva de Shi com leniência, o irmão não se virou para olhá-lo, permanecendo concentrado na sua tarefa de manter o cajado dos sonhos energizado. Antes de atravessar, Ka Suo disse um “sinto muito” em tom embargado e desapareceu.

— Meu rei. — Xun Hao revericiou-o quando atingiu o topo da escadaria. — Presumo que, como o curandeiro e a envenenadora, esteja aqui por causa de meu mestre.

— Sim, explicarei tudo no caminho para a câmara dos sonhos. — Anuiu. — Precisamos nos apressar.

O servo de Xing Jiu assentiu e acompanhou o monarca pelos intrincados corredores do pavilhão das estrelas na direção da câmara dos sonhos. Ka Suo explicou a ideia de Shi e discutiu possibilidades e impossibilidades no plano, Xun Hao se mostrou otimista já que o cajado dos sonhos estava energizado mesmo na ausência de seu mestre e guardou para si a estupefação pelos poderes do jovem príncipe do gelo serem tão extraordinários ao ponto de alcançar uma magia tão complexa quanto a dos astrólogos, mesmo que parcialmente.

As chances, explicou a Ka Suo, eram pequenas, mas não era impossível. Se tivessem êxito — considerando que algumas coisas só eram acessíveis para Xing Jiu como chefe dos astrólogos — havia a possibilidade de acordar o amigo e inutilizar o cubo de Lian Ji ou pelo menos deixar a localização dele visível para Shi no mapa das estrelas, o que consequentemente revelaria a posição de Lian Ji. O monarca se mostrou satisfeito com a esperança, precisava de Xing Jiu e mesmo que só houvesse 1% de chance de alcançar o objetivo ele ainda arriscaria.

※※※

Ao contrário do que ocorreu da outra vez em que tivera que localizar e atravessar a porta para sair dos seus pesadelos invadidos por Lian Ji, embora tenha encontrado a porta com muito mais facilidade dessa vez — por já conseguir acessar a magia dentro de si — Yan Da não conseguiu acordar imediatamente. Tinha uma aterrorizante consciência das vozes ao longe, dos sons que a cercavam, embora fossem indistinguíveis em um primeiro momento, mas não conseguia fazer seus olhos abrirem e mesmo erguer um dedo parecia tarefa impossível de executar.

Ela foi acometida pela frustração e, em seguida, pelo medo. Ainda sentia um pouco de frio, mas uma onda de calor se espalhava devagar por todo seu corpo, as memórias eram algo raso, ela lembrava de ter atravessado um portal — e prometera a si mesma nunca fazer de novo — e saído em algum lugar no território da antiga tribo do gelo, aos poucos, conforme ia sentindo seus membros pararem de responder, Yan Da se lembrava de ter tentado aquecer o próprio corpo inutilmente até tudo se tornar uma névoa e desaparecer.

— Os sinais vitais estão melhores. Batimentos cardíacos normais. — Era a voz de Huang Tuo. — Podemos considerar o fim do estágio crítico. E a temperatura corporal?

— 36°, doutor. — Respondeu uma mulher.

— Bom. Pode ir ver os outros pacientes, continuarei aqui vigiando o progresso.

A enfermeira assentiu com um sorriso terno e saiu do quarto deixando o curandeiro a sós com a princesa. Huang Tuo se aproximou do leito e segurou a mão de Yan Da, aquela livre do cateter intravenoso. Um sorriso triste arqueou-se nos lábios dele ao lembrar-se de que, meses antes, aquilo a assustaria mortalmente e agora ele entendia o motivo. Quanto horror ela enfrentara, quão injusto tudo aquilo era e que destino cruel ainda a ameaçava.

Com um suspiro, o médico fechou os olhos e se concentrou enviando, através de suas mãos unidas, poder de cura para ela. Sentia que o sistema mágico de Yan Da, tal qual seu corpo, estavam em equilíbrio, ela devia acordar em breve e estava feliz por ser a primeira pessoa que ela veria. Pian Feng havia chegado ao hospital com Chao Ya algumas horas atrás e ele sabia que nada do que dissesse os tiraria do hospital até que vissem com seus próprios olhos que a princesa estava fora de perigo.

O calor calmante subiu pelo braço de Yan Da e se estendeu pelo corpo inteiro como um bálsamo ainda assim, abrir os olhos parecia um ato impossível naquele momento. Não precisava de muito para saber que aquele calor específico dominando-a naquele momento nada tinha a ver com o fluido aquecido ou os lençóis térmicos sobre ela, mas era o poder curativo de Huang Tuo agindo e lhe confortando a mente e o espírito. Consciente de estar de volta do perigo que se escondia no mais profundo de sua mente, a princesa se permitiu ser envolvida naquele calor e adormecer.

Huang Tuo suspirou satisfeito quando soltou a mão da princesa. Curar sempre exigia muito dos membros da tribo xamã, mas o príncipe dos curandeiros não encarava a cura como uma subtração da sua energia, mas como uma forma de parte dele viver na pessoa cuja saúde era restituída. Ele gostava de curar, como se viver sem ajudar outras pessoas não fizesse sentido. Claro, em alguns casos específicos como o de Shuo Gang, apesar de seu senso moral lhe dizer para cumprir seu propósito, ele forçava a voz de sua consciência a calar-se, não se considerava, de modo algum, um deus acima da mentira e da verdade, com o direito de julgar aquele que vivia e morria, mas como o humano que habitava dentro do seu ser imortal, Huang Tuo reconhecia que existências como a do irmão perverso de Yan Da nada mais serviam que desperdiçar oxigênio em um mundo já muito difícil de se viver.

Sentando-se em uma cadeira ao lado do leito, delegara seus demais pacientes para outros médicos do hospital, dispensara descaradamente a reunião convocada com o diretor do hospital para repreendê-lo por ter se recusado a atender o “jovem mestre Meng”, e diante de todo o caos do tempo que se esgotava diante deles nublando os sonhos de um futuro ao lado de sua amada, o príncipe dos curandeiros e dono do mais doce e iluminado dos sorrisos do mundo imortal, esperou pacientemente o retorno da única pessoa capaz de salvá-los da aniquilação.

※※※

Snowblade estava tal qual Liao Jian se recordava, as torres altas de gelo refletindo a luz pálida do sol, os pináculos elaborados que pareciam perfurar o céu, as pessoas andando de um lado para outro vivendo suas vidas como se nada nunca houvesse acontecido, mercadores, serviçais, soldados, crianças brincando felizes com suas risadas preenchendo o ar acompanhadas com o som dos cavalos. O choque daquela visão foi como um soco no estômago do advogado, aquele era o mundo que ele conhecia e pelo qual lutara desde que seus braços ganharam força suficiente para empunhar uma espada.

— É só um sonho, Liao Jian. — Lembrou-lhe Xing Jiu ao ver a forma como o amigo encarava tudo à sua volta. — Lan Shang deve estar em algum lugar no castelo.

Liao Jian apenas anuiu, sério, guardando para si aquela pontada no coração. Por um momento desejou permanecer naquele sonho, longe de sacrifícios, abismos do tempo e amores com fins trágicos. Mesmo sendo somente uma ilusão, se lhe fosse dada a escolha, ele preferia morrer naquela ilusão feliz a voltar para aquele mundo sombrio e cheio de maldade. Quando o astrólogo colocou a mão sobre seu ombro e o apertou, o advogado voltou à realidade, era inútil desejar permanecer naquela ilusão, de algum modo, em algum momento, ele teria de encarar a realidade, aquela cidade não mais existia e todas aquelas pessoas eram fantasmas de um passado que não voltaria mais.

Ele seguiu Xing Jiu para o castelo, passando por soldados e convidados elegantemente trajados, ele recordou que dia era aquele: O aniversário de Ka Suo, evento no qual a sereia conhecera aquele que seria seu futuro marido e se apaixonara cegamente por ele. Era difícil para Liao Jian entender aquilo, como duas pessoas que nunca se viram antes ou não sabiam nada uma sobre a outra podiam desenvolver algo como amor? Na guarda do norte, esse tipo de sentimento advinha de uma convivência de anos em um acordo mútuo de respeito, era um sentimento construído e não nascido de inclinações súbitas.

Claro que Lan Shang observava secretamente o herdeiro do trono já a algum tempo, mas ainda assim que sabia ela sobre ele realmente? Na mente de Liao Jian, a princesa sereia se apaixonara por uma ideia de Ka Suo e não por quem ele era de verdade, sobretudo, pela solidão dele que parecia com a sua e ela desejava aplacar, mas uma relação baseada apenas em ideais e compaixão não podia perdurar. Aqueles sentimentos se tornaram obsessão e findaram naquele fim trágico pelas mãos de um príncipe obstinado e outro incapaz de lutar pelas coisas nas quais acreditava.

Ninguém olhava para eles conforme avançavam e o advogado concluiu que ninguém podia vê-los além da pessoa que estava “lúcida” em consciência e era responsável pela projeção daquela imagem. Como esperado, avistaram a princesa sereia logo que adentraram o salão de festas repleto das pessoas mais importantes do reino e dos representantes de cada tribo. Liao Jian viu a si mesmo parado a alguns passos do trono onde o pai de Ka Suo estava, ao lado de Lian Ji, sua concubina e Cheng Tong, a rainha.

Quando avaliava toda aquela situação pelo olhar da pessoa que conhecia o passado em uma totalidade quase completa, Liao Jian não podia deixar de ver as falhas naqueles monarcas do trono, tanto na criação injusta para com o filho, quanto no desprezo destinado ao outro. Enquanto Ka Suo era sufocado por um amor que o incapacitara, Shi era abandonado por todos os lados por indiferença e especulações que o tornaram insensível e cético. Ele só via objetivos e caminhos para alcança-los e, não fosse Ka Suo trata-lo como uma pessoa, talvez o jovem príncipe do gelo tivesse se tornado um monstro.

Todavia, aquela obstinação em salvar a pessoa que ele acreditava mantê-lo com um objetivo de viver, destruíra no processo muitas outras vidas e, na primeira vez que Ka Suo decidira agir de verdade em prol de alguma coisa na sua vida, ele levara a ruína a todo o seu reino por não ter o pulso necessário para lidar com a verdade de suas atitudes. Toda a raiz encontrava-se ali no trono, imutável a qualquer um, enterrada naquele passado de mentiras e sangue. Com um suspiro pesado, ele afastou aquele sentimento de amargura, lamentar ou acusar não mudaria nada. Xing Jiu se aproximou de Lan Shang, vestida em sua glória passada, cujo olhar estava fixado com fascínio naquele que ela acreditava, com todas as suas forças e mente desprovida de experiência, amar.

— Lan Shang gongzhu. — Chamou ele e a sereia o fitou, confusa, ao ver outro dele bem ali a alguns metros dela.

— X-Xing Jiu-jun*[1], como...

— Vamos, precisamos sair daqui.

— Mas, Ka Suo... — Protestou ela.

— Isso é um sonho, Lan Shang! — A voz de Liao Jian reverberou grave e poderosa por todo o lugar. — Por favor, acorde para a realidade de uma vez por todas e faça um bem a si mesma.

Como acontecera com Yan Da, o cenário em volta deles tremulou e desapareceu, restando apenas um amplo espaço vazio e coberto de neve, ela pareceu atordoada por um momento, o astrólogo a fitava com olhar complacente.

— Está tudo bem, do que se lembra?

— Lian Ji... — Começou ela com olhar contemplativo — estava cuidando de você quando ela apareceu então vim parar aqui. Parecia tão real.

— É só uma projeção do seu inconsciente. — Meneou a cabeça. — Snowblade não existe mais e Ka Suo precisa de nós.

— Ótimo, estamos todos reunidos, mas como fazemos para sair daqui? — Indagou Liao Jian.

— Primeiro precisamos encontrar um canal com a câmara dos sonhos. — Explicou Xing Jiu — É o local mais seguro dentro do mundo dos sonhos.

— E em que lugar vamos encontrar isso?

O astrólogo sorriu e apontou a própria cabeça.

— Bem aqui.

※※※

Xun Hao acomodou o monarca em uma das cadeiras e lhe entregou seu cubo dos sonhos. Ka Suo lhe fitou com esperança e aquiesceu fechando os olhos quando o astrólogo usou seu bastão para liga-lo à câmara dos sonhos. Enquanto o torpor passava pelo seu corpo, ele ainda pôde ouvir os desejos de boa sorte do fiel servo de seu braço direito antes de ser absorvido pela escuridão.

O mundo dos sonhos é um lugar perigoso, lembrava-se da advertência dele, se não tomar cuidado pode acabar ficando preso no seu próprio inconsciente ou, caso abra a porta errada, pode nunca mais encontrar o caminho de volta para sua própria consciência. Use o cubo dos sonhos como um canal que pode guia-lo até meu mestre, se conseguir se concentrar nele com todo seu coração, será impossível abrir a porta errada, meu rei.

Era quase a mesma sensação de entrar em um portal. Ka Suo ficou no escuro por alguns momentos até o mundo à sua volta lentamente começar a tomar forma. Dessa vez, ele saiu no Mar de Gelo diante da imponente Lian Qiu Shi onde as correntes ensanguentadas ainda tremulavam com os ventos violentos. Ka Suo se viu ali em sua primeira vida, miserável e fraco, solitário, desejoso de uma vida que, conseguindo, só lhe trouxera mais amargura. O pássaro de neve veio ao longe, seu chilrear estridente ecoou por todo o lugar sendo levado pelas ondas, os ombros do monarca se encolheram no momento que a ave chocou-se contra as rochas, a cabeça esmagando-se primeiro e o sangue respingando contra a neve, transformando-se em cristais escarlates. O sangue escorreu pela rocha escura soltando as correntes e libertando sua versão passada que jogou-se do precipício buscando a liberdade daquela existência.

Não se permita prender pelo sonho no qual entrará. A voz de Xun Hao sobrepôs-se ao som das ondas que carregavam seu corpo inerte para longe. Se ficar preso no seu próprio inconsciente, não vai conseguir sair. O monarca se forçou a dar as costas para aquela visão triste e sombria, concentrou-se em Xing Jiu e o objeto em suas mãos cintilou, levou alguns minutos até o portal abrir-se diante dele e uma brisa gélida soprar em seu rosto, abrindo os olhos e implorando aos céus que seus planos dessem certo, Ka Suo atravessou a fenda de energia e desapareceu.

※※※

A primeira coisa que ocupou o pensamento de Yan Da quando finalmente conseguiu abrir os olhos foi o rosto de Pian Feng. Respirar ainda doía um pouco e sua visão levou algum tempo para focar, entretanto, foi o rosto de Huang Tuo — brilhante e belo — a visão a seu lado. Pelo som do monitor cardíaco e as cobertas elétricas, notou que ainda estava na terapia intensiva, odiava hospitais, mas a presença do curandeiro lhe surtiu a sensação de tranquilidade.

— Olá — sorriu falando com ela em voz baixa e terna —, como está se sentindo?

Yan Da tentou falar, mas nenhum som saiu. Seus lábios estavam grudentos e parecia que sua garganta se tornara um deserto, arenoso e ardente. Huang Tuo franziu o cenho por um momento e censurou-se baixinho enquanto servia água em um copo descartável e colocava um canudo, ajudando-a a beber devagar. Cada gesto do médico era atencioso e muito delicado, lembrava-se de cada momento em que fora ajudada por ele, em nenhum momento Huang Tuo mudara sua postura em relação a ela. Era sempre solícito, gentil, terno e aberto.

— Melhor agora? — Seu sorriso torto tinha ar de constrangimento.

— Obrigada... — a voz saiu como um sussurro — Pian ge...

— Está lá fora, junto com Chao Ya. Vou avalia-la e transferi-la para um quarto, assim poderá vê-los.

— Quanto tempo?

— Algumas horas, nada mais. — Tranquilizou-a. — Você sofreu hipotermia moderada a grave, por sorte Shi conseguiu encontra-la a tempo.

— Ying Kong Shi?

— Sei que é difícil acreditar, Yan Da, mas ele realmente ama você.

Ela não respondeu. Admitir aquilo para si mesma não mudaria as coisas àquela altura. Há muito Yan Da decidira que seu tempo com o príncipe do gelo havia passado, não havia futuro para eles, as mágoas do passado sempre seriam uma sombra sobre qualquer relação que tivessem e, uma hora ou outra, acabariam passando isso na cara do outro. Ela não queria viver assim, tivera duas vidas assombrada pela perda, a intimidação e a indiferença, estava cansada. Tudo que desejava era esquecer.

Huang Tuo fez alguns exames e, ao atestar a estabilidade do seu quadro, autorizou a transferência para um quarto particular na enfermaria. O casal de amigos entrou tão logo as visitas foram liberadas pelo médico, Chao Ya correu até ela e a abraçou com olhos cheios das lágrimas que não caíam. Pian Feng, mais cauteloso, sentou-se ao lado do leito e segurou sua mão com delicadeza e carinho.

— Se algo tivesse acontecido a você eu mataria aquele Ying! — Ameaçou Chao Ya com voz trêmula.

— Eu nunca faria isso com você, jie. — Um sorriso angustiado arqueou-se no rosto da princesa. — É muito bom ver vocês outra vez.

— Minha fadinha... — Pian Feng fez uma pausa para recobrar a firmeza na voz — você ainda vai fazer as penas das minhas asas caírem de preocupação!

— Sinto muito, gege...

— Shh... Huang Tuo disse que você deve poupar energias. Hu Bing já esteve aqui mais de dez vezes, liguei para ele, virá mais tarde vê-la.

— O que disse a ele?

— Hm... tive que inventar uma mentira criativa, Huang Tuo me ajudou nisso, dissemos que você teve uma queda súbita de pressão a caminho do apartamento por causa do ar pesado.

— Ele engoliu isso? — Sorriu.

— Por sorte seu irmão é juiz, não médico. — Revirou os olhos. — E nosso garoto das plantas consegue ser convincente quando quer.

— Mais um pouco e vamos levar você pra casa, minha menina. — Chao Ya acariciou o rosto dela.

— Não. — Objetou. — Há um lugar em que preciso ir antes.

— Tudo bem, minha querida, onde você quiser. — Assegurou. — Só não entre em um portal sozinha nunca mais, por favor!

Yan Da riu e o gesto doeu horrivelmente, mas ela nunca sentira uma dor tão recompensadora quanto aquela.

※※※

Lan Shang e Liao Jian olharam em volta com expressões confusas. Não reconheciam aquele lugar na geografia do mundo imortal, aparentemente era uma caverna localizada no lado oeste de Snowblade, a mais ou menos trinta ou sessenta quilômetros. Embora Lan Shang não conhecesse muito bem o mundo fora da tribo das sereias, Liao Jian era muito bem familiarizado com todo o território do reino do gelo e nunca vira aquele lugar antes.

Xing Jiu entrou na caverna e eles o seguiram. O interior, ao contrário do esperado, não era um cerco de rochas brutas com estalactites e algum provável artefato mágico no centro, mas parecia muito uma espécie de base de operações da tribo dos astrólogos. Mesas, estantes, um enorme painel de energia muito semelhante à câmara dos sonhos e, ao fundo, um lago natural onde havia sim estalagmites. Liao Jian franziu o cenho enquanto analisava o lugar, o astrólogo usara um portal para chegar até ali de modo que ele não pôde avaliar que caminho levava àquele lugar.

— Posso imaginar o que está pensando — apontou Xing Jiu com um sorriso — esse lugar não existe realmente no mundo imortal.

— Então como...

— Ora, eu lhe disse — apontou para sua cabeça — bem aqui.

— Xing Jiu, tem certeza que esse lugar é realmente seguro? — Lan Shang. — Se Lian Ji pegou de fato o seu cubo dos sonhos pode estar nos vigiando aqui.

— É uma possibilidade que ela ande pelo mundo dos sonhos — concordou — mas ela não conseguiria chegar aqui sem a ajuda de Xun Hao.

— Como pode ter tanta certeza? — Os sentidos de Liao Jian estavam em alerta.

— Porque esse é o meu subconsciente. — Assegurou o astrólogo. — Apenas meu assistente e eu conhecemos esse lugar e sabemos como chegar aqui. Mesmo com meu cubo dos sonhos, Lian Ji não conseguiria encontrar esse lugar.

A notícia pareceu tranquilizar tanto o advogado quanto a sereia. O astrólogo, satisfeito, posicionando-se diante do painel, ele fechou os olhos e usou seu poder para energiza-lo, foi quando o corpo de Liao Jian ficou rígido. Xing Jiu abriu os olhos e se virou rapidamente para a entrada da caverna, o advogado ficou em posição de ataque e Lan Shang se encolheu num canto assustada, esperando Lian Ji aparecer ali a qualquer instante.

Mas era Ka Suo.

— Ka Suo! — A sereia sorriu aproximando-se do monarca.

Wáng, como chegou aqui? — Quis saber Liao Jian.

Ele não respondeu de imediato, seu olhar marejou quando olhou os amigos ali e, sem hesitar ou se preocupar com a etiqueta, apenas abraçou-os apertado agradecendo ao universo por estarem bem. E murmurou isso enquanto os apertava contra si, agradeceu-os por permanecerem vivos, não importava o que aconteceria dali para frente, Ka Suo não estava disposto a acordar sem os amigos de maneira alguma.

Explicou para eles sobre o plano de Shi e a ajuda de Xun Hao que o levou até ali através da câmara dos sonhos e do cubo. Xing Jiu ficou radiante ao ver o cubo do seu braço direito ali, poderia energiza-lo e usá-lo para inutilizar o cubo que Lian Ji roubara dele, isso a impediria de andar livremente pelo mundo dos sonhos e ainda ajudá-lo-ia a acordar libertando assim os amigos de seu sono.

— Contudo, há algo em que precisamos ser cautelosos. — Alertou Ka Suo. — Lian Ji levou o corpo de Xing Jiu para algum lugar e ela ainda está com ele. Quando você acordar, precisa tomar cuidado com os movimentos, pensar em uma maneira de escapar seja lá onde estiver.

— Será que existe a possibilidade de Lian Ji ainda usar a casa da vovó para se esconder? — Sugeriu Lan Shang. — Existe um real labirinto subterrâneo sob a mansão.

— Não é uma certeza, mas se eu conseguir inutilizar o cubo dos sonhos em posse dela, com a ajuda de Shi, posso tentar localizá-la. Sabendo onde ela está provavelmente encontrarei meu corpo e podemos pensar em uma maneira de fugir.

— Precisamos nos apressar. O abismo do tempo está se rompendo, uma tempestade de relâmpagos iniciou e teremos problemas piores não muito depois.

Eles se entreolharam e assentiram. Xing Jiu colocou o cubo dos sonhos diante do painel e começou sua magia, não havia uma garantia de que suas existências teriam um final feliz, mas nenhum deles estava disposto a esperar o fim sem lutar. Sairiam dali, ajudariam Shi na luta contra Lian Ji, se não pudessem salvar a si mesmos pelo menos poupariam aqueles milhões de mortais que nada tinham a ver com aquela guerra.

※※※

Pian Feng e Chao Ya trocaram um olhar discreto quando ele estacionou o carro diante do cemitério. Yan Da pediu para descer sozinha e nenhum deles objetou apesar do guerreiro aguçar seus sentidos e usar o vento para monitorar qualquer espécie de presença mágica ou hostil no local.

A princesa do fogo andou sem pressa por entre as lápides, ainda sentindo certo incômodo ao respirar. Não olhou para trás nenhuma vez, sabia que se o fizesse acabaria mudando de ideia.

“Quero visitar o Peng Peng.” Dissera aos amigos quando ainda estavam no hospital. “Há muito tempo não vou vê-lo, sou uma péssima amiga.”

“Não diga isso, meu anjo.” Censurou Chao Ya. “Você passou por muita coisa nos últimos meses, sei que onde quer que esteja, Peng Yan entende isso.”

“Jie... Pian ge, acho que nunca cheguei realmente a agradecer vocês dois por cuidarem de mim e ficarem ao meu lado todos esses anos.” Baixou o tom de voz encarando as próprias mãos cada uma entrelaçada na mão de um dos amigos. “Agora que me lembro de tudo, sei que vocês não tinham qualquer obrigação de me proteger dado o passado da nossas tribos, mas ficaram ao meu lado, me defenderam, realmente cuidaram de mim e me deram amor. Se isso foi algo de obrigação ou pena, não quero saber, apenas quero acreditar que foi genuíno e ser grata por isso.”

“Fadinha, como poderia pensar que sentiríamos amor por você apenas pelas ordens de Ka Suo ou pelo seu passado? Claro que não!” Contrapôs Pian Feng.

“Amamos você por ser quem é.” Completou Chao Ya. “Conhecemos você, Yan Da, nessa vida, nesse agora. Não consideramos o que houve quatro mil anos atrás ou de que tribo viemos e mesmo que o fizéssemos ainda teríamos muito o que te agradecer e dever.”

“Amamos você por ser quem é, essa mulher doce, generosa, boa e ter o sorriso mais lindo e brilhante, mais até mesmo que o de Huang Tuo e por si só já é muito!” Riram. “Nós dois defenderemos o seu sorriso e a sua felicidade com as nossas vidas, independente do que mande Ka Suo, do seu passado ou de qualquer coisa.”

“Também amo vocês.” As lágrimas, até então presas, romperam a barreira de seus olhos e escoaram pelo leito esquálido de seu rosto. Os dois a abraçaram apertado e Yan Da mergulhou no cheiro suave de frutas vermelhas que emanava de Chao Ya misturado com o aroma cítrico de Pian Feng. “Sinto muito por ter me comportado daquela forma antes.”

“O antes não importa meu anjinho.” A voz da cantora vacilava. “Sempre amaremos você independente do que aconteça.”

“Sempre e para sempre.” Emendou o guerreiro do vento.

A chuva forte golpeava o guarda-chuva da princesa enquanto ela caminhava entre as lápides grandes de pedra escura. O vento gélido soprava em seu rosto e era com muito afinco que impedia as lágrimas angustiadas de irromper pelo seu rosto. Estava cansada de chorar por coisas que não tinham conserto, já tivera sua cota de lágrimas para saber que não mudava nada. Após andar por algum tempo, quando tanto a barra de suas calças quanto a parte do quadril de sua gabardina preta já estavam molhados pela chuva torrente, ela chegou ao túmulo de Peng Yan. Encarou os ideogramas e a frase que Hu Bing mandara gravar ali, pensar no irmão não ajudava a diminuir o peso da culpa pela escolha egoísta que estava fazendo, e mesmo que desejasse vê-lo mais uma vez e lembra-lo que o amava, sabia que uma segunda separação seria difícil demais para ambos depois de tudo que haviam vivido.

Yan Da ajoelhou-se diante da sepultura do melhor amigo e um raio caiu com força a alguns metros de onde estava fazendo uma enorme fissura no chão e levantando uma fumaça cinzenta.

— Peng Peng... sua amiga ingrata veio vê-lo de novo após tanto tempo. — Começou. — Sinto muito, por duas vezes você teve de sofrer por minha causa. Nunca vou conseguir perdoar a mim mesma por isso assim como vou partir dessa vida incapaz de perdoar Shuo Gang. Mas conseguirei justiça para você, Peng Peng, como prometi. Seis anos atrás, você disse que me amava. Quatro mil anos atrás você demonstrou isso, mas nunca consegui retribuir seus sentimentos ou tive coragem suficiente para assumir os meus. Agora entendo o motivo. De algum modo que não sei explicar, meu coração sempre esteve à espera de Ying Kong Shi, mesmo que por duas vezes tenhamos nos encontrado e eu tenha amado você com todo meu coração, todos os pesares que vivi só tiveram sentido quando encontrei aquele príncipe do gelo desgraçado outra vez.

“Não sei se, muito tempo atrás, quando ele era uma ave do gelo eu fui o vento que guiou suas asas para ser condenada a amá-lo dessa maneira, ou se fui a rocha na qual ele tirou sua vida, mas ainda que minha mente se empenhe com toda sua energia a odiá-lo, meu coração não consegue evitar amá-lo, esperar por ele. E quando paro para pensar em tudo que você e eu passamos nessas duas vidas, chego a conclusão que não merecia você, nunca mereci. Ainda assim o meu amor por você nunca vai morrer, Peng Peng, mas se o universo te der uma nova chance, e eu realmente espero que dê, desejo que ele te coloque longe do meu caminho, para que eu nunca tenha que viver com a culpa de te machucar seja de que maneira for. Para que você tenha uma vida longa, feliz e com todas as realizações que foram interrompidas por minha causa.

“Obrigada, Peng Peng, por ter existido duas vezes e me salvado do vazio de uma vida sem amor e sem amigos. Obrigada por ter me amado e me protegido. Me perdoe por não ter vindo antes e por nunca ter te dito essas palavras quando tive chance antes. Eu te amo.”

— Yan Da.

O corpo da princesa retesou. Todos os seus músculos endureceram em reconhecimento àquela voz, ela se pôs de pé sentindo as pernas da calça pesando pela água. Virando-se, encarou a figura que chamara minutos antes por mensagem, sob um guarda-chuva tão grande quanto o seu, usando um guarda-pó preto e uma camisa de gola rolê também preta, Ying Kong Shi a encarava com olhar angustiado. Foi com esforço hercúleo que a princesa do fogo manteve sua indiferença a despeito do coração descontrolado no peito. Os dois permaneceram frente a frente por algum tempo enquanto a tempestade continuava açoitando seus guarda-chuvas e os raios ameaçadores cortavam os céus cinzentos e, esporadicamente, abriam pequenos buracos no chão ou partiam no meio alguma árvore ao longe.

— Você realmente veio.

— Não podia ignorar um chamado seu. Nunca.

— Estou vendo. — Não conseguiu evitar o sarcasmo na voz. — Desculpe chama-lo no meio... disto. — Apontou para a tempestade ao redor.

— Por favor, não se desculpe, fiquei feliz por receber seu convite. — Adiantou-se.

Yan Da fez uma pausa antes de continuar, nesse momento seu olhar evitava o do príncipe do gelo.

— Sei o que isso parece e, o fato de ter te chamado aqui não é um sinal que te perdoo. Eu só...

Hesitou. O resto da frase “queria te ver de novo” ficou preso na sua garganta. Admitir aquilo seria dar a ele uma esperança que ela não podia sustentar ou manter. Não depois do que prometera ao fogo sagrado e a Lian Ji. Era cruel e Yan Da teria de viver com mais aquele sangue em suas mãos. Shi tampouco esperou o resto da sentença abafada pela chuva, ele apenas largou o guarda-chuva que o protegia, cobriu a curta distância que os separava e a beijou. Yan Da não ouvira em que momento de sua conversa particular com Peng Peng ele havia chegado, sequer desconfiava que ele ouvira boa parte dela.

Levou um minuto para que o gesto dele fosse assimilado pelas sinapses neurais dela. Sem ao menos se dar conta, a torrente já os encharcava enquanto o vento levava para longe seu guarda-chuva e os raios ameaçadores os cercava. Os braços da princesa se fecharam em torno do pescoço de Shi enquanto as mãos dele prendiam sua cintura e a puxavam contra si. O beijo acendeu seus corpos trêmulos em meio ao temporal e Yan Da guardou consigo cada movimento e sensação daquele momento, apenas isso a ajudaria a sobreviver ao caos que estava por vir.

Quando por fim se separaram, ávidos por fôlego, ela ficou feliz que as lágrimas no seu rosto se confundiam com as grossas gotas da tempestade. Sem dizer uma palavra, a princesa do fogo deu as costas para Shi e correu na direção oposta ao carro dos amigos que ainda a esperavam do lado de fora. Pensou ter ouvido a voz de Shi chamando seu nome em meio ao barulho forte da água golpeando o solo, mas não olhou para trás. Atravessou os portões dos fundos do cemitério e desapareceu na cortina de água, uma figura esguia lhe esperava sob uma grande sombrinha de bambu com motivos de cerejeira, o sorriso sombrio arqueando-se no belo rosto.

— Está pronta, criança? — Sua voz era audível mesmo no barulho ensurdecedor da tormenta.

— Sim. — Respondeu Yan Da. — Vamos pôr logo um fim em tudo isso.

※※※

Xing Jiu franziu o cenho, uma fina camada de suor cobria seu rosto e os raios arroxeados e dourados que emanavam das suas mãos na direção do cubo enfraqueciam gradualmente ao ponto de Ka Suo se preocupar e começar a reforçar a energia do amigo. Mesmo assim, a conexão que o astrólogo conseguiu com o príncipe do gelo foi muito rápida, mas consumiu muito da sua energia. Contudo, felizmente ele pôde vislumbrar a localização da semideusa, que Shi já havia conseguido mais ou menos focalizar nos mapas que abrira em seu apartamento.

A conexão com o cajado dos sonhos foi cortada e ele sentiu o momento em que o cubo dos sonhos diante de si absorveu o de Lian Ji, inutilizando-o. Todavia, como Lan Shang presumira, a semideusa ainda estava se escondendo na mansão de Shen Hairong, o que dificultaria um pouco a fuga do astrólogo e atrasaria a libertação da sereia e do advogado. Ka Suo se propôs a ajudá-lo, com a ajuda de Lan Shang, ele fez um mapa da propriedade, ela lhe mostrou exatamente onde deveria entrar e sair para conseguir se livrar do labirinto de corredores escuros e alcançar a saída lateral, não era certo que a semideusa não o visse, mas era a melhor chance que tinha.

O astrólogo se esforçou para memorizar todo o mapa da sereia com precisão e, antes de começar sua magia para acordar, aconselhou o monarca a ir na frente, voltando para o mundo mortal e o encontrando na mansão se não como uma distração para Lian Ji — já que era provável que Xing Jiu acordasse enfraquecido —, como uma rota rápida de fuga já que seria mais fácil manter o mapa em mente se conseguisse sentir a energia do rei do lado de fora. O monarca concordou e, com a ajuda do amigo, atravessou o portal dos sonhos e acordou na tribo dos astrólogos.

Ka Suo agradeceu a ajuda de Xun Hao e o atualizou rapidamente sobre a situação de seu mestre ao passo que o assistente do astrólogo se mostrou aliviado. Ele abriu um novo portal e voltou para o apartamento de Shi carregando no coração a esperança de que tudo daria certo. A tempestade de raios remanescia, parecendo ainda mais violenta do que horas atrás quando ele se ausentara. Procurou por Shi no escritório, mas o cajado das estrelas estava no chão, os cubos jaziam inertes na mesa e não havia qualquer sinal do príncipe do gelo.

Ainda tinha algum tempo, se forçou a pensar, Xing Jiu não acordaria de imediato, ele precisava saber a localização de Shi. Ligou para o irmão, mas caiu na caixa postal, um aperto surgiu no peito do monarca, estava prestes a ligar novamente quando a mensagem apareceu no display do seu celular vinda do número de Yan Da:

01000101 01110011 01110100 01101111 01110101 00100000 01100011 01101111 01101101 00100000 01100001 00100000 01110000 01110010 01101001 01101110 01100011 01100101 01110011 01100001 00101110 00100000 01010011 01100101 00100000 01110001 01110101 01101001 01110011 01100101 01110010 00100000 01110001 01110101 01100101 00100000 01100101 01101100 01100001 00100000 01100101 00100000 01101111 01110011 00100000 01110011 01100101 01110101 01110011 00100000 01100001 01101101 01101001 01100111 01101111 01110011 00100000 01100011 01101111 01101110 01110100 01101001 01101110 01110101 01100101 01101101 00100000 01110110 01101001 01110110 01100101 01101110 01100100 01101111 00101100 00100000 01100101 01101110 01100011 01101111 01101110 01110100 01110010 01100101 00101101 01101101 01100101 00100000 01101110 01100001 00100000 01110000 01101111 01101110 01110100 01100101 00100000 01001100 01110101 01101111 00100000 01011001 01101001 01101110 01100111 00101110

Franzindo o cenho, Ka Suo encarou a sequência numérica tentando entender o que havia ali bem no momento que Yue Shen entrou no apartamento acompanhando um ensopado Shi. O monarca encarou os dois com olhar sério e lhes mostrou a mensagem da princesa. Yue Shen só precisou olhar uma vez.

— É uma mensagem em código binário. — Disse. — Xing Jiu estava tentando me ensinar isso para nos comunicarmos um tempo atrás, antes do abismo do tempo ser formado.

— Como decodifica? — Shi quis saber.

— Há uma tabela, mas levaria um tempo que não temos. — Ela tirou o celular da mão de Ka Suo. — Podemos usar um conversor online.

Mexendo um pouco no aparelho, ela levou apenas dois minutos para decodificar a mensagem e a expressão sombria no seu rosto tencionou os irmãos que esperavam nervosos a resposta.

— Não é de Yan Da. — Ela virou o celular na direção deles:

Estou com a princesa. Se quiser que ela e os seus amigos continuem vivendo, encontre-me na ponte Luo Ying.

— É de Lian Ji. — Concluiu Shi.

— Yue Shen, chame os outros. — Pediu Ka Suo. — É hora de acabar com isso.

Notas finais
[1] Jun é um honorífico e pode ser traduzido como “lorde”