Love as Sakura | 爱如樱
45 第40章 Sublime você
Huang Tuo hesitou um pouco quando tocou no estômago de Yan Da e ela gemeu, encolhendo-se involuntariamente. O curandeiro ergueu o olhar com uma sobrancelha arqueada em preocupação, ela desviou os olhos para o lençol cinza de Ying Kong Shi como se quisesse evitar as perguntas que sabia estarem na ponta da língua dele. Minutos atrás, ele cuidara dos cortes internos dentro da sua boca, no carro, Yue Shen havia limpado o sangue em seu queixo e bochechas, de modo que ela não estava mais tão bagunçada quando Shi a encontrou, ainda assim era mais que evidente que havia levado uma bela surra, mesmo que insistisse em dizer que estava “tudo bem” como se tornara seu costume nos últimos seis anos da sua vida.
— Não é tão ruim. — Sentenciou. — Os cortes na parte interna da sua boca são superficiais, vão cicatrizar em alguns dias. O hematoma no rosto também vai sair sem deixar marcas, não é muito sério, coloque gelo duas vezes ao dia, mas isto aqui — ele apontou para o estômago dela — nós vamos precisar ver no hospital quer a senhorita queira, quer não. Você pode estar com uma lesão interna. Se Shi não cortar fora a mão daquele desgraçado, eu mesmo vou fazer isso.
— Pensei que médicos só salvassem vidas e costurassem membros, não o contrário. — Provocou Yan Da.
— Bem, eu tenho uma visão um pouco pessoal em alguns casos. — Huang Tuo sorriu. — Especialmente quando envolvem punhos e mulheres. Não posso considerar homem um troglodita capaz de machucar mulheres, idosos e crianças. Não me importo nem um pouco em garantir que ele não terá mãos para repetir o erro.
— A polícia não costuma prender por atos desse tipo? — Ergueu a sobrancelha.
— Não quando um médico competente, carismático e bonito como eu diz que foi um acidente irremediável que ele sofreu e não houve como salvar o membro. — Piscou para ela.
— O mundo seria melhor se houvessem alguns bilhões de pessoas como você. — Sorriu. — Hum, posso pedir um favor?
— O que quiser, você é minha paciente favorita, merece tratamento VIP.
— Poderia mentir para Ying Kong Shi sobre isso? — Ela apontou a própria barriga. — Não quero que ele fique preocupado ou ainda mais irritado do que já está.
O curandeiro ponderou o pedido por um momento antes de anuir e oferecer a Yan Da um sorriso de cumplicidade. Ela agradeceu e Huang Tuo acariciou a cabeça dela gentilmente recomendando que ficasse quietinha na cama um pouco enquanto ele resolvia alguns assuntos com Ka Suo, prometeu leva-la para casa em seguida caso quisesse pegar alguma coisa antes de ir ao hospital com ele. Yan Da não protestou e recostou-se na cabeceira abotoando a blusa que abrira para ser examinada, doía um pouco quando ela movimentava a barriga, mas não se sentia tão mal quanto pensou que poderia, afinal, suportara surras muito piores no cativeiro.
Pensou que tipo de dívida Shuo Gang podia ter com aquele homem para tê-lo levado a ir atrás dela, não fazia sentido. Quando ela foi libertada do cativeiro, após Hu Bing pagar o resgate, os envolvidos diretamente desapareceram e ela pensou que Shuo Gang os tivesse silenciado com dinheiro, os dois que foram presos eram apenas bodes expiatórios do irmão. Cansada, a princesa decidiu afastar os pensamentos, não queria voltar àquelas lembranças dolorosas, sempre acabava no meio de uma crise de pânico quando se punha a lembrar daqueles dias sombrios.
※※※
— Parece que Shuo Gang é um problema maior do que eu havia imaginado. — Ka Suo recostou-se na poltrona do escritório, os dedos apoiando o queixo.
— Ge, por que não interferiu antes? Por que deixou isso chegar a esse ponto?
— Shi, entenda que há muitas variantes que precisam ser levadas em consideração. — Explicou o irmão em tom grave. — Primeiramente, quem eu era para Yan Da ao ponto de me meter na vida dela? Ela não me conhecia antes, apesar de monitorá-la com a ajuda de Xing Jiu, havia um limite até onde eu podia interferir no destino dela. E se está perguntando isso sobre a morte de Peng Yan, ele era um mortal, não me cabia mudar o destino dele, quase perdi Pian Feng por causa disso.
— Pian Feng me contou que você oscila as memórias de Yan Da, por quê? Não é muito diferente de tortura-la.
Ka Suo ergueu a sobrancelha contemplando o irmão com um sorriso enigmático. Shi não parecia exatamente com raiva, mas tampouco estava satisfeito, o monarca percebia o jovem príncipe tão imerso em Yan Da que não conseguia ver mais nada diante de si com racionalidade.
— Por que está sorrindo? — Quis saber Shi, irritado.
— Não é nada demais, pode baixar a guarda. — Meneou a cabeça contendo a vontade de rir. — Isso pode parecer cruel agora, mas faço isso pelo seu bem e o bem dela.
— Fazê-la me odiar aos poucos é pelo meu bem? — Fez uma careta. — Desculpe se não consigo enxergar o benefício disso. Ela tem medo de mim! Não que seja infundado, eu mereço, mas não tem contribuído muito no meu progresso.
Ka Suo deu uma leve risada.
— Me ouça primeiro, tudo bem? Parece que está prestes a me bater. — Ergueu as mãos em sinal de rendição. — Ao contrário do resto de nós, que veio para esse mundo direto do passado pelo sacrifício, você e Yan Da tiveram suas vidas reiniciadas. Isso significa que vocês nasceram e cresceram naturalmente, apesar de suas raízes permanecerem imortais, esse poder estava bloqueado dentro de vocês. Para trazer Chao Ya, Yue Shen, Huang Tuo, Pian Feng e Liao Jian para cá, tive que abdicar de mais da metade do meu cultivo, eles chegaram aqui e com a ajuda de Xing Jiu, localizei-os, reuni-os e permiti que recobrassem todas as memórias de todos nós naqueles quatro mil anos.
“Convenhamos que toda a situação não favorecia o encontro entre vocês, as empresas das duas famílias são concorrentes em termos não muito bons, ainda havia todo o problema com o passado de Yan Da e, antes que você me culpe por isso também, já adianto que estava completamente fora do meu controle. Dois fatores tornavam a situação complicada, o fato do corpo dela ter se desintegrado e, por isso ela precisava começar do zero, e o fato de ela não ter ligação afetiva conosco, desse modo, mesmo que pudesse trazê-la de volta, não tinha controle de onde ela pararia ou que tipo de vida teria. Você foi um caso a parte, com a ajuda de Xing Jiu, precisei usar outro tipo de procedimento e por isso você pôde vir ao mundo na mesma família que eu.
“Xing Jiu passava a maior parte do tempo na caverna dos sonhos, por isso ele tinha controle sobre a localização de vocês e me mantinha informado. Comecei desde cedo a instruí-lo que plantasse na mente de Yan Da a sua imagem, inicialmente de modo nublado, mas ele não tem controle do que ela vê quando invade os sonhos dela, isso quem determina é a própria pessoa de acordo com a emoção que se sobressai. Ela nunca havia visto seu rosto até o dia do acidente, naquele dia, Xing Jiu provocou uma visão nela, Yan Da acreditou estar vendo você do outro lado da rua, a pessoa com quem ela sonhava desde a infância, estávamos confiantes que você pararia o carro a tempo, mas tanto Yue Shen quanto Huang Tuo estavam por perto para “dar uma ajuda” caso não conseguisse. No fim, bem, você não a atropelou porque Huang Tuo a protegeu ou teria sido mais que uma concussão.
“Depois disso, Xing Jiu ficou instigando as suas memórias, era uma maneira de despertar você aos poucos, como ele estava na caverna dos sonhos, só você podia vê-lo e eu tinha controle de até onde ele podia ir e das vezes que aparecia para você. Como ele é o guardião dos sonhos, vê-lo desencadearia, lentamente, seu verdadeiro eu. Ainda assim, não consegui prever que a culpa no seu coração era mais forte que a sua determinação, por isso você sofreu daquela forma antes de despertar. É isso que quero evitar acontecer com Yan Da, mesmo que pareça crueldade fazer isso a ela, é uma maneira de diminuir a dor que é ter as memórias de um passado como o dela trazido de volta quando ela teve uma vida igualmente dolorosa aqui. Ao mesmo tempo, isso ajuda a lembrar à alma dela o sentimento que nutria por você no passado, por isso, mesmo temendo, ela é atraída inevitavelmente na sua direção. Desse modo, quando a dor e a raiva do passado forem superadas, ela poderá ver você por quem é agora e não por quem foi.”
Agora tudo fazia sentido. O corpo de Shi caiu sobre um sofá enquanto ele voltava ao passado, a primeira vez que vira Xing Jiu fora ao sair do restaurante enquanto falava com Huang Tuo ao telefone, ele não podia reconhecê-lo naquele momento, mas lembrava-se da estranha sensação que se apoderou dele quando o astrólogo lhe dirigiu aquele sorriso enigmático. Da outra vez no hall do condomínio quando ele acreditou que estava ficando louco por ver uma pessoa que não existia e que parecia persegui-lo em todos os lugares, sempre seguido de algum tipo de sonho lúcido que lhe provocava dor e que, agora, Shi sabia serem apenas suas próprias memórias.
Depois de recuperar as lembranças, o príncipe havia ficado imerso em tantos sentimentos caóticos que não tivera, de fato, parado para conversar com Ka Suo sobre tudo que havia acontecido e quando estava prestes a fazê-lo, batidas na porta do escritório foram seguidas pela figura séria de Huang Tuo. Shi rapidamente se pôs de pé e caminhou ao encontro do médico para saber como estava Yan Da.
— Se você não arrancar fora a mão daquele idiota eu vou fazer isso sozinho. — Desabafou o médico, irritado. — Ela pediu para não te dizer, então finja decentemente que não sabe. A maior parte dos hematomas é superficial, vão sarar com o tempo, mas eu desconfio que ela possa ter uma lesão interna na área do estômago, ela sente dor quando eu toco, vou leva-la para fazer alguns exames só para ter certeza.
— Eu vou arrancar a cabeça daquele verme! — Shi cerrou os dentes.
— A cabeça não, só as mãos. — Advertiu Huang Tuo. — Conhecendo Yan Da como conheço, acho que ela vai querer fazer churrasco dele sozinha quando recuperar as memórias, você não quer tirar a diversão da sua esposa, não é?
Ka Suo deu uma risadinha discreta.
— Você não poupa nem os momentos sérios, não é? — Suspirou Shi já resignado com as provocações dele.
— Realmente espero que essa nova versão de você tenha melhorias, Ying Kong Shi. Quatro mil anos atrás, se eu tivesse a oportunidade de ver Yue Shen sem roupas em uma tina não perderia meu tempo olhando para as cortinas!
— Huang Tuo! — Shi sentiu o rosto inteiro queimar.
— Ora, achou que eu não sabia? Todos nós sabemos disso. — Sorriu o médico. — Faz parte do pacote “memórias que não nos pertencem, mas recebemos para entender os contextos”. E ainda ficava bravo comigo quando pensei que você era gay, o que esperaria no meu lugar?
— Odeio ficar contra você, Shi, mas Huang Tuo está certo. Você tem um autocontrole que mesmo eu invejo bastante. — Riu.
— Cale a boca, Ka Suo! — Brigou. — Você não está em melhor posição para me criticar.
— Alto lá, eu beijei minha esposa antes mesmo de você ver Yan Da sem roupa na sua frente e dizer que sua mãe era a mulher mais bonita do mundo. — Fez uma careta.
— Tsc, tsc, não admira que ela se ressinta de você. — Completou Huang Tuo meneando a cabeça. — No quesito mulheres você é menos zero. Começo a pensar, Ka Suo, se é realmente uma boa ideia deixar Yan Da com ele.
— Huang Tuo é melhor você sair daqui ou vou correr o risco de apanhar de Yue Shen, mas eu juro que você não sai desse escritório sem pelo menos dois dentes faltando! — Ameaçou.
— Vou trazer sua esposa em segurança para casa!
Disse ele antes de sair apressado do escritório às gargalhadas, Shi se virou para o irmão após um suspiro e apontou o dedo indicador em tom de advertência.
— Nem uma gracinha ou será o próximo!
Ka Suo ergueu as mãos em sinal de rendição enquanto abafava uma gargalhada.
※※※
Yue Shen arrastou o sujeito pelo colarinho pelo jardim imenso de Liao Jian até o galpão, ele havia acordado no meio do caminho e feito um escândalo no porta-malas onde ela o colorara, foi preciso parar o carro para “apagar” ele novamente. Aquilo estava se tornando difícil. Com agilidade, seus dedos digitaram a senha hiperbólica da trava de segurança, o homem que estivera ali antes — pego ao tentar atacar Shi e Yan Da na montanha — fora solto após Xing Jiu bagunçar um pouco a memória dele e influenciá-lo para se entregar à polícia, de todo modo ele não sabia muito, o pouco que havia contado não os ajudara a avançar na resolução do caso de Peng Yan.
Ela largou o sujeito no chão e preparou uma corda, passando-a por cima de uma viga, prendeu as mãos do homem e o suspendeu pelos pulsos, observando-o com alguma atenção julgou que não deveria ter mais de cinquenta anos, era esguio e usava um corte de cabelo da década de oitenta. Uma cicatriz fina tomava o rosto sobre um de seus olhos, ela não tinha certeza, mas parecia ter sido feita com um prego. Erguendo a sobrancelha por um momento, tido como ele estava ameaçando Yan Da se perguntou se havia alguma conexão ali e não gostou das sugestões que sua mente lhe ofereceu.
Pegando uma garrafa com água, ela jogou o líquido frio no rosto do indivíduo até ele acordar. Assustado e um tanto zonzo, ele olhou para Yue Shen com uma mistura de medo e confusão.
— Muito bem, vamos começar com o seu nome. — Disse ela, direta e fria. — Não que isso seja realmente importante, mas nosso príncipe provavelmente vai querer algo para colocar na fossa aonde vai te enterrar. Podemos fazer isso de duas formas, você me diz por conta própria ou eu arranco um dos seus dedos e uso para rastrear sua digital.
— Bei Hsia Zi.*[1]— Balbuciou ele, a voz trêmula.
— Bom. Estamos começando a nos entender. — Anuiu ela, satisfeita. — Comece a falar, porque foi atrás de Meng Yan Da?
— B-Bem... seis anos atrás, meus homens e eu fomos contratados pelo mestre Shuo Gang para dar um sustinho na irmã dele. Ele nos prometeu doze mil dólares na primeira parte do serviço e mais vinte mil quando terminássemos. Só que acabou dando errado porque ela não estava sozinha e tivemos que levar o garoto também. O mestre não fez objeções, até ofereceu cinquenta mil se a gente desse cabo do moleque. Fizemos isso. Meus homens mataram o pivete quando ele ordenou, mas só toquei na irmã dele uma vez, quando ele me disse para continuar colocando agulhas no abdômen dela.
— Foi assim que conseguiu essa cicatriz? — Yue Shen apontou para o rosto dele. — Nem pense em mentir, isso será pior pra você.
— Sim. — Admitiu, um brilho doentio ardia em seus olhos. — Havia uma excitação quando ela gritava de agonia. O mestre não deixava ela completamente presa porque estávamos sempre de vigia, além disso, ela estava muito ferrada, não teria como fugir. Implorava o tempo todo pra gente soltar o pirralho. Um dia, prometi que soltaria se ela me fizesse um agradinho, bem...
Ele não precisou terminar. Yue Shen fechou os olhos sentindo o asco embrulhar seu estômago e disse a si mesma para não agir precipitadamente. Eles precisavam de toda a informação que pudessem conseguir, depois ela poderia acabar com ele. Entretanto, não era da sua natureza engolir coisas de todo tipo de maneira pacífica, especialmente quando isso envolvia violência com pessoas que não tinham chance de se defender, muito disso estava intimamente ligado à sua irmã. Então, o homem não pôde terminar a sentença porque ela se aproximou dele e segurou seu rosto entre as mãos, fazendo-o olhar em seus olhos.
— Um agradinho? — Sorriu, gélida. — Eu adoro fazer agradinhos. Já que naquela oportunidade ela não pôde agradá-lo, permita-me fazer isso agora em seu nome.
Hsia Zi sorriu, animado, conforme a mão de Yue Shen descia suavemente pelo seu pescoço, não podia imaginar o que viria a seguir quando ela fechou-a em punho e golpeou-o na virilha com tanta força que algo ali fez um “crack” asqueroso. Ele gritou enlouquecido pela agonia conforme a dor espalhava sinais de fogo por todo seu corpo, os pulsos se feriam quanto mais ele se mexia, presos pela corda atada à viga. Momentaneamente satisfeita, a ex-assassina recobrou a calma enquanto os gritos dele ecoavam no galpão, em resposta, ela jogou mais água em seu rosto até ele reduzir para gemidos.
— Como escaparam da prisão? — Inquiriu ela.
— Não sei. — Gemeu o homem, lágrimas caindo pelo seu rosto. — O mestre Shuo Gang cuidou de tudo. Ele escolheu dois dos homens e mandou o resto de nós para Cingapura, após algum tempo, quando era seguro, nós voltamos, mas nunca recebemos os vinte mil dólares mesmo tendo completado o serviço.
— Por isso você foi atrás dela?
— Estava esperando uma oportunidade. Eu a tenho seguido há meses, mas ela estava sempre acompanhada de alguém, fazia os mesmos percursos, não havia chance de apanhá-la. Hoje foi a primeira vez que a vi sozinha sem carro ou companhia.
— Shuo Gang planejou tudo sozinho?
— Ele falava com alguém ao telefone. — Contou o homem. — Parecia discutir muito. Eu o ouvia gritar algumas vezes, mas não sei quem era. Pelo pouco que ouvi das conversas, era alguma coisa sobre dinheiro.
— O legista e os exames de Peng Yan, você foi responsável por isso também?
— Não, eu juro! — Gemeu ele. — Quando a senhorita foi largada no canal junto com o corpo do garoto, o mestre Shuo Gang fez a gente sumir até a poeira baixar. Não sei nada sobre esse médico ou esses papéis.
Xing Jiu chegou acompanhado de Liao Jian no momento em que Hsia Zi dizia a última sentença. O astrólogo se aproximou do homem, bateu uma foto e caminhou até a mesa com computadores. O advogado sorriu para Yue Shen, vendo como o suor frio escorria pelo rosto pálido do sujeito ela devia ter feito alguma coisa cruel, embora não houvesse sangue em parte alguma — algo que o intrigou, afinal, Yue Shen não era conhecida pela paciência com bandidos misóginos. Avaliando o sujeito por um momento, ele rodeou-o e, chamando a colega em um canto, indagou o que ela havia conseguido.
Yue Shen fez um resumo, não bateria mais em Hsia Zi porque sabia que Shi queria ter esse prazer pessoalmente. Explicou o que acontecera quando encontrou ambos e os impediu de levar um tiro, se não haviam solucionado de vez o problema do passado de Yan Da, pelo menos estavam um passo mais perto. Ela sempre desconfiou que Shuo Gang não era inteligente o bastante para planejar aquilo tudo sozinho, mas continuava a pergunta de quem estaria por trás dele e como ele fez para sumir com o legista e todos os documentos médicos da irmã até aquela data.
— Acha que ele está dizendo a verdade?
— Você acredita que não haveria sangue se ele tivesse mentido pra mim? — Ergueu a sobrancelha para o advogado.
— Ponto pra você. — Concordou Liao Jian anuindo com a cabeça.
— Bei Hsia Zi. — Anunciou Xing Jiu. — Nome de nascimento, Liu Qingrong. Quarenta e nove anos, original de Hualien, em Taiwan, divorciado, pai de quatro filhos de três mulheres diferentes. Preso em 94 por agressão doméstica, em 2001 por tentativa de estupro e em 2005 por tráfico de pornografia infantil, crime que lhe deixou nove anos preso. Veio para cá em 2010 após passar dois meses em Hong Kong fugindo de cobradores por causa do seu vício em jogos, quando mudou seu nome para Bei Hsia Zi.
— Bate em mulheres e abusa de crianças, seu tipo favorito, Luna. — Observou Liao Jian, sarcástico.
— Espero que o príncipe não se importe muito se eu quebrar um ou dois ossos dele. — Trincou os dentes, apertando ainda mais as mãos em punho.
— Ele virá à noite. — Informou Xing Jiu. — Parece que a princesa foi levada por Huang Tuo para alguns exames.
— Aconteceu alguma coisa? — Liao Jian quis saber. — Pensei que ela estivesse bem.
— Aquela besta bateu nela. — Yue Shen apontou para Hsia Zi. — Se Huang Tuo a levou deve ter encontrado algo que precisava de atenção. Até lá, vou me exercitar um pouco.
Ela alongava o braço enquanto se aproximava de Hsia Zi que gemia em protestos se balançando freneticamente na corda numa vã tentativa de fugir de Yue Shen. A mestra de venenos sorriu, bela e mortal, prestes a mostrar para ele o que acontecia quando alguém a deixava irritada.
※※※
Yan Da soltou uma lufada de ar enquanto esperava Huang Tuo voltar para o quarto onde ela havia sido colocada. Odiava hospitais ainda mais do que seis anos atrás. Pelo menos dessa vez não havia nenhuma agulha espetada sob sua pele. Pensava no que havia acabado de acontecer. Até quando a morte de Peng Peng continuaria lhe perseguindo como um fantasma furioso em busca de justiça? Encolheu-se no leito abraçando o próprio corpo, uma pontada de dor a fez soltar-se, era tão estranho que, horas atrás, quando Shi a apertou contra seu corpo ao ponto de não caber uma folha de papel entre eles, ela não sentiu nada além de calor e uma felicidade terna.
Maldição! Estava mesmo presa em uma armadilha. Contudo, mesmo que o medo espreitasse como uma sombra nos recantos do seu coração, ela sempre recordava a voz dele nas montanhas dizendo-lhe que aquilo nunca se repetiria. A forma como ele segurava sua mão quando ela tinha ataques de pânico, ou de como sempre apoiava sua cabeça contra seu peito quando a abraçava. A maneira delicada e um tanto desajeitada como ele prendia o cabelo dela quando ficou internada, as noites que passava vigiando seu sono. Em cada pequeno gesto, Shi abria um espaço nos muros que ela erguia em volta de si para se proteger. Parte de si temia perdê-lo como perdeu Peng Yan, isso ela realmente não conseguiria suportar, mas tal como aconselhara Pian Feng e Chao Ya, precisava se entender consigo mesma e arriscar, se o pior acontecesse, ela queria ter a certeza que cada momento que passou ao lado de Shi valeu a pena.
Recostando-se no travesseiro, a princesa do fogo fechou os olhos, depois de toda aquela confusão e do beijo trocado com Ying Kong Shi, apenas naquele momento ela percebeu quão cansada estava. Lentamente, os barulhos à sua volta iam diminuindo, passos apressados de médicos e enfermeiras, bipes de monitores cardíacos, conversas sussurradas em corredores, prantos desesperados e rodinhas de macas passando de um lado para o outro. Sua mente se afastou da realidade e foi imergindo mais profundamente na escuridão pacífica da inconsciência.
※
30 mil anos antes
Yan Da estava prestes a completar cem anos. Àquela altura, seus poderes eram os mais formidáveis da tribo do fogo, embora ninguém reconhecesse isso pelo fato de ela ser uma mulher; e tanto Huo Yi quanto Shuo Gang se empenhavam para fazê-la acreditar em sua fraqueza. Ainda assim, a pequena Yan Da amava e se orgulhava da sua família, mesmo que eles não demonstrassem o mesmo por ela. Tinha dez irmãos, mas com a férrea e constante luta pelo trono, não se podia dizer que afeto era um sentimento reinante entre eles, sendo a mais jovem, ela não era levada a sério e sequer cotada para um dia chegar a ser rainha da tribo do fogo, especialmente porque era visível em suas atitudes — por mais que ela tentasse esconder — que Yan Da era justa, tinha um coração generoso e não usava truques sujos para conseguir o que queria. E esse era precisamente o legado de Huo Yi para seus filhos, obter poder a qualquer custo.
O palácio do fogo era uma majestosa construção de cinco níveis dentro de uma montanha vulcânica construída pelo bisavô dela. O lago de fogo, por onde jorravam as lavas incandescentes, passava sob a enorme ponte que ligava o primeiro e o segundo nível, sua nascente ficava no quarto nível. No primeiro, ficava o enorme castelo onde Huo Yi tomava as decisões desde que assassinara o pai e os seis irmãos para conseguir o poder. No segundo e terceiro ficavam o campo de treinamentos dos soldados e as casas do povo que compunha o reino do fogo. Sendo muito solitária, Yan Da costumava sentar-se na ponte para observar o curso da lava mesclando preto, amarelo e laranja, liberando calor do centro da terra e iluminando todo aquele nível por si só.
Contudo, seu passatempo preferido era descer ao quarto nível, lá próxima a nascente do rio, havia uma caverna onde ela costumava soltar pequenos fogos de artifício que explodiam no ar, quentes e brilhantes, era um espetáculo particular cheio de beleza e aqueles pequenos brilhos de fogo lhe davam a sensação de que não estava mais sozinha. Bem dentro do seu coração, ela desejava um amigo de verdade, alguém que fosse como aqueles fogos de artifício brilhando e iluminando a escuridão, aquecendo o frio na caverna e dentro do seu peito.
※
15 mil anos atrás...
Yan Da não se deixou abater pelo que Shuo Gang lhe dissera. Quando confirmou que Peng Peng realmente não estava em nenhum lugar, ela tentou sair imediatamente atrás dele, mas foi trancada no quarto por ordem de Shuo Gang — ela não sabia se apoiado pelo pai ou não. Por dias, a princesa do fogo remoeu a atitude do melhor amigo, fazendo mil perguntas do que poderia ter acontecido, do que ela poderia ter feito. Ainda assim, não conseguia chegar a nenhuma conclusão, conhecia Peng Peng tão bem quanto a si mesma, ele não teria agido daquela forma, havia algo errado.
Ela cronometrou a troca de guardas e encontrou a brecha perfeita para fugir, usou uma das sacadas do seu quarto, conhecia o castelo como ninguém de modo que não a viram quando desceu para o segundo nível e, a partir dali, nenhum guarda se atreveria a detê-la. Vasculhou os outros três níveis do reino do fogo, saiu para as florestas nas proximidades, chegou mesmo a ir até a tribo do espírito do vento, mas mesmo lá não havia qualquer sinal de Peng Yan. Na verdade, não havia sinal de ninguém, todas as árvores, construções e o castelo estava em ruínas, destruído pelas chamas.
Chamas de sua tribo.
— Peng Peng! — Yan Da gritou na direção dos céus, lágrimas nublando sua visão. — Ni zai na’r?!*[2]
※※※
— Peng Peng... ni zai na’r?
Ela sussurrou a pergunta enquanto dormia, a angústia clara na sua voz. Imagens do cativeiro lhe vieram à mente e mesclavam-se com aquelas imagens fantasiosas de um passado que Yan Da não conseguia reconhecer, mas que lhe trazia muita dor. Inconsciente, ela continuava chamando o nome de Peng Peng quando Shi entrou no seu quarto de hospital e, aproximando-se da cama, segurou gentilmente sua mão, a outra acariciando seu rosto com suavidade. Quase imediatamente, o desespero que estava prestes a explodir no coração da princesa foi acalmado por um sono pacífico e sua boca parou de procurar um Peng Peng há muito adormecido na eternidade.
— Ying Kong Shi.
A surpresa fez o coração do príncipe pular uma batida, apertando-se no peito ao ponto de ele sentir-se zonzo. Erguendo a mão de Yan Da até os lábios ele a beijou com carinho devoto, no fundo a culpa ainda gritava os ecos do sofrimento dela, acusando-se como responsável por todo o temor no seu coração. Fechando os olhos, no silêncio do quarto, Shi permitiu que o calor da mão de Yan Da aquecesse seu rosto enquanto a lágrima escorria fechando seu veredicto. Batidas leves na porta o fizeram se recompor rapidamente e Huang Tuo surgiu, mais uma vez sério, aproximando-se do príncipe, que pusera-se de pé, ele colocou a mão em seu ombro e apertou com suavidade.
— Pare de fazer isso a si mesmo, Shi. — Aconselhou em tom carinhoso. — Ela não está mais sozinha e se culpar não muda o passado, só atrasa do seu presente.
— Como ela está?
— Foi um traumatismo contundente então nenhum órgão foi afetado, o que é algo bom. Ela não está sentindo mais muita dor, eu cuidei do problema do meu jeito.
— Obrigado por isso, Huang Tuo. — Shi anuiu lhe oferecendo um sorriso.
— Pode leva-la para casa. — O médico piscou. — Foi para isso que veio, não foi? Estava com medo que eu a raptasse?
— Claro que não. Sei que você não largaria Yue Shen nem pelo nobel de medicina.
— Por falar nela, onde está minha esposa?
— A essa altura? — Um sorriso sombrio se formou no rosto do príncipe. — Está alongando os músculos após um bom exercício.
O médico fez uma careta entendendo o que Ying Kong Shi queria dizer com aquilo e estremeceu ao pensar na esposa em ação. Yue Shen era implacável e não costumava ser nem um pouco piedosa. No mesmo nível em que era bela, também era letal. Bagunçando o cabelo de Shi numa tentativa de afastar aqueles pensamentos, o curandeiro se despediu e voltou para o seu turno de salvar pessoas.
Shi se aproximou novamente do leito e, com cuidado, acordou Yan Da. Ela abriu os olhos, sonolenta, e o encarou por um momento sem lembrar direito o que havia acontecido ou como fora parar ali. Conforme a consciência se restaurava e a realidade se alinhava em sua mente, as memórias das últimas horas voltavam e ela se lembrava da agressão, do tiro e das ameaças de Hsia Zi. Ele explicou sem muitos detalhes que Huang Tuo afirmara que não havia lesões sérias e que o “remédio” que ele lhe ministrara a deixara sonolenta — de fato essa última parte não era uma total mentira já que o processo de cura realmente deixava o enfermo sonolento como forma de fazê-lo recuperar as energias. Assim, ajudando-a a levantar, ele a acompanhou para casa.
※※※
Quando entraram no apartamento de Yan Da, havia um bilhete com a elegante caligrafia de Pian Feng sobre o aparador avisando que os dois haviam precisado comparecer a uma reunião na gravadora e voltariam tarde. Vendo aquilo, Shi se ofereceu para lhe fazer companhia até eles retornarem algo ao qual a princesa não se opôs, não queria ficar sozinha. Disse ao príncipe que ficasse à vontade e foi ao seu quarto tomar um banho, foi quando viu, sobre sua mesa de cabeceira, a bonita caixa que ele lhe dera mais cedo, ainda não tivera tempo de abri-la, mas decidiu fazê-lo mais tarde, antes de dormir, pois não queria deixá-lo esperando.
Ao sair do banheiro, notou que tudo estava quieto demais, se perguntou se ele havia ido embora e, após vestir uma roupa, saiu do quarto enquanto tentava secar o cabelo na toalha, alcançando a sala viu que Shi olhava concentrado para a tela do seu computador. Naquele dia, antes de Pian Feng ir busca-las no hospital, ela havia lhe pedido que se conectasse ao jogo de MMORPG que estava jogando e colocasse sua personagem para “cultivar”, o guerreiro havia deixado o computador ligado desde então e era o que Shi olhava naquele momento. O rosto da princesa tingiu-se de vermelho imaginando o que se passava pela cabeça dele naquele momento, pensaria que ela era infantil? Velha demais para aquele tipo de coisa? Estava prestes a formular uma boa desculpa para aquilo quando Shi lhe sorriu entusiasmado.
— Não acredito que esta personagem é você! — Exclamou, entusiasmado. — Nós nos falamos na última guerra de território.
Espere aí, nós? Ela ficou confusa enquanto olhava para o jovem diretor executivo diante dela e o imaginava diante de um computador com dedos ágeis movendo um personagem 3D na tela e falando com ela enquanto suas guildas lutavam contra monstros. Poderia ser mais louco? Aquilo não parecia em nada o perfil dele. Vendo o rosto confuso dela, Shi deu uma risadinha e continuou.
— Desculpe, não queria mexer nas suas coisas, mas vi o jogo aberto e não me contive. Não imaginava que jogávamos o mesmo jogo.
— Eu não imaginava que você jogasse qualquer coisa além de mahjong*[3]. — Ela fez uma careta enquanto se aproximava e sentava ao lado dele. E Shi dessa vez riu com vontade.
— O que a faz pensar que eu sou o tipo que só joga mahjong? — Sorriu. — Claro, eu não dispenso um bom jogo de mahjong, mas jogo MMORPG desde a adolescência. Huan Cheng*[4] se tornou meu favorito desde que comecei nesse universo de games online.
— Está mesmo falando sério? — Ela o olhou em busca de sinais de piada, mas não encontrou.
— Claro que sim. Huang Tuo foi o grande responsável por eu começar a jogar isso. No começo eu era viciado em jogos de console, nós dois jogávamos muito especialmente em semanas que ele e Ka Suo tinham prova, ele ficava muito estressado. — Explicou. — Quando os jogos de console se tornaram um pouco menos desafiadores, fomos em busca de jogos online, os PVP’s eram nossos favoritos. A partir disso, fui migrando de jogo em jogo. Só tem três mulheres no hanking de melhor jogador, não sabia que uma delas era você, formidável.
— Ying Kong Shi, você não cansa de me surpreender. — Ela sorriu.
— A recíproca é totalmente verdadeira. — Ele retribuiu seu sorriso e apontou para a toalha que ela ainda esfregava nos fios. — Posso te ajudar com isso aí?
A princesa ergueu a sobrancelha e sem esperar confirmação, Shi caminhou até ela e guiou-a até a poltrona, onde a sentou e começou a secar o cabelo dela. Perguntou a Yan Da onde ela guardava o secador, depois voltou à sala trazendo-o consigo, ele a mudou para um dos sofás onde pudesse ligar o aparelho na tomada e, após secar bem o cabelo dela, penteou-os com suavidade e fez uma bela trança elaborada nos longos e sedosos fios escuros. A jovem fechou os olhos apreciando a sensação das mãos de Shi movimentando seus cabelos com uma delicadeza quase devota, podia sentir o calor que emanava dele abraçar o seu corpo, cada gesto era como um carinho e, ao final, ficou estarrecida com o resultado.
— Onde aprendeu a fazer isso?
— Ah... — Ele esboçou um sorriso tímido, as maçãs do rosto e as orelhas tingindo-se de vermelho. — Bem, depois que falhei algumas vezes em ajeitá-los no hospital, estudei um pouco mais e aprendi algumas coisas. Se tivesse a oportunidade de cuidar de você de novo, queria me sair melhor.
O coração da princesa aqueceu com aquelas palavras. Como ele podia ser tão incrível daquele jeito? Que tipo de homem estudava sobre penteados para arrumar o cabelo de uma mulher? A comparação mais lisonjeira que ela conseguia pensar eram Pian Feng e Hu Bing. Com a garganta quase fechada de emoção, ela o encarou por um momento, o silêncio se instaurou entre eles conforme o tempo parava e seus olhos diziam tudo que suas bocas não se atreviam a pronunciar. Surpreendendo-o mais uma vez, Yan Da se inclinou para perto e depositou um beijo no seu rosto.
— Espere aqui um pouco. — Afastou-se apressada, sem olhar nos olhos dele uma segunda vez.
Saindo da sala, ela voltou ao quarto e trouxe consigo outro laptop que entregou a ele. Shi ficou olhando o aparelho por um tempo até entender que ela queria provas de ser realmente um jogador de Huan Cheng. Sem esperar mais, ligou o aparelho e fez log in no jogo, a história não era muito complicada, basicamente sete tribos que competiam entre si por território, havia alguma mitologia envolvida, como era de se esperar daquele tipo de jogos, mas, sobretudo, a guerra central no jogo era entre a tribo de fogo e gelo. Ele não sabia se era uma coisa boa ou ruim os dois terem se encontrado dentro daquele contexto tão específico. Huang Cheng havia sido lançado naquele ano, precisamente quatro meses antes deles dois se encontrarem.
Teria alguma conexão?
Afastando os pensamentos, ele localizou Yan Da no mapa e os dois foram para um torneio PVP, ela estava sentada na poltrona com as pernas dobradas e os olhos concentrados na tela, enquanto os dedos se moviam ágeis sobre o teclado. Ao passo que Shi estava no sofá menor ao seu lado, observando cada ataque preciso da espadachim que Yan Da era no jogo, uma fada do fogo. Os dois primeiros confrontos deram empate, mas ela o vencera nos três seguintes e baixou a tela do aparelho com um sorriso triunfal no rosto.
— Você está enferrujado. — Sorriu.
— Acho que eu não sou tão habilidoso quanto me julgava. — Shi esboçou uma risadela. — Vou praticar mais para derrota-la numa próxima.
— Quero muito vê-lo tentar. — Provocou ela.
— Posso perguntar uma coisa? — A voz dele ficou um pouco mais baixa nesse momento.
— O que quiser.
— Por que uma fada do fogo?
Ela pensou por um tempo antes de responder.
— Eram as únicas que usavam vermelho. — Riu. — E eu gosto muito dessa cor. E você? Por que um músico do gelo?
— Ah, percebi que os caras de branco carregando guqins eram geralmente os melhores jogadores em todos os MMORPG. — Sorriu. — Mas vejo que vou precisar de mais do que isso para manter essa reputação.
— De alguma forma, acho que combina com você. — Ela depositou o laptop na mesa de centro.
— Yan Da...
Hesitou, também colocando o aparelho de lado, Yan Da o olhou confusa, sem entender a razão daquela súbita mudança de humor. Shi parecia repentinamente abatido e assustado.
— Ei, o que houve? — Indagou, sentando ao lado dele.
— Eu... — Shi baixou a cabeça por um momento e meneou-a. — Não é nada, esqueça isso. Posso pedir algo a você?
— Se estiver ao meu alcance, eu farei. — Prometeu.
Shi ergueu o rosto e olhou profundamente nos olhos dela por longo tempo, sua mão segurou sua face delicada, o dedo acariciando com gentileza a mação do rosto como se a pintasse com o mais fino dos pincéis. A respiração de Yan Da ficou irregular por um momento e ele sentiu a pele dela eriçar quando seu rosto se aproximou um pouco mais e ele sussurrou:
— Posso te beijar?
A resposta veio quando ela deslizou os braços sobre os ombros dele e levou seus lábios ao encontro dos dele. Shi a puxou contra si, a mão segurando com cuidado a cabeça dela enquanto o outro braço envolvia sua cintura puxando-a para seu colo, os dedos de Yan Da enterraram-se nos cabelos dele e era como se ela sentisse que havia uma espécie de calor que os ligava um ao outro, não tinha certeza exatamente do que era, mas não parecia algo advindo do desejo que atraía seus corpos. Era algo mais profundo, mais etéreo. Como se suas almas conversassem uma língua própria e se reconhecessem. Todas as vezes que Shi a tocava, não importava quão profundo o beijo dos dois fosse, ele respeitava todos os limites que, no fundo, ela desejava que ultrapassasse. Havia tanta devoção e sinceridade em cada pequeno gesto dele que Yan Da se sentia única.
Amada.
Quando se afastaram, lutando por ar, o coração dela martelava freneticamente dentro do peito, a mão dela desceu de seus cabelos para o rosto dele e, ainda de olhos fechados, ela sorriu. As testas apoiando uma a outra, os braços de Shi sem largar seu corpo.
— No futuro, Ying Kong Shi — disse baixinho —, você não precisa pedir.
Então, ele a beijou outra vez.
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