Love as Sakura | 爱如樱

38 第34章 Castelo de Vidro


— Shi!

A voz veio de algum lugar atrás dele, era Ka Suo. Uma camada de suor ia se formando no rosto de Shi conforme lutava internamente para não sucumbir à escuridão.

— Vamos, Ying Kong Shi, ela é parte de você, abrace o monstro que você é. — Li Luo sussurrou no seu ouvido.

Depois disso, tudo na mente de Shi se tornou um borrão.

Yue Shen atacou Li Luo com uma agulha envenenada bem no braço, não queria matá-la — ainda — apenas imobilizar, Huang Tuo correu até o jovem príncipe prostrado em agonia e Ka Suo materializou rongyu bing caminhando furiosamente na direção da mulher que amava.

— Shi, se concentre na minha voz, entendeu? Apenas na minha voz. — Huang Tuo orientou enquanto colocava dois dedos na testa do príncipe e começava a emanar seu poder de cura. — Você pode vencer as sombras, é mais forte que elas, guie-se pela minha voz e não escute as sombras, okay?

— Huang Tuo... — Ele engasgou. — Dói...

— Eu sei que dói, mas eu estou aqui com você, eu vou ajudar a passar, eu prometo, mas você precisa lutar contra as sombras, tudo bem?

O jovem príncipe sentia tanta dor que nem conseguia se lembrar da sua vergonha diante do curandeiro, tudo que ele queria era se livrar daquela sensação opressora que devorava cada pequena parte do seu corpo. A energia de Huang Tuo encontrava resistência enquanto forçava passagem na escuridão que engoliu boa parte do corpo de Shi, o médico começava a ficar preocupado que tivessem chegado tarde demais.

— Por favor, Shi, eu preciso que você me ajude, lute contra isso! Ouça minha voz, esse não é você. — Ele intensificou seu poder na testa do príncipe. — Lembre-se do menino que desistiria de tudo pela pessoa que amava, aquele correndo pela floresta do nevoeiro e tirando as flores de cerejeira das árvores para competir com o irmão. Lembre-se do garotinho doce no Palácio da Ilusão que buscava uma maneira de libertar o irmão de um futuro indesejado. Pense no homem por quem Yan Da se apaixonou, aquele que a salvou de um casamento forçado, quem enfrentou o irmão dela sem temer...

As mãos dele se fecharam em punho e ele cuspiu um bocado de sangue muito escuro, Huang Tuo o segurou quando seu corpo pendeu sem forças e, nesse momento, a passagem do seu poder ficou um pouco mais fácil, a energia maligna dentro do príncipe começou a recuar conforme sua cura ia avançando nas camadas do seu espírito fazendo o alívio do médico quase leva-lo às lágrimas.

— Isso mesmo. Esse é você de verdade. Não importa o que você fez, Shi, você não é um monstro.

A consciência de Shi foi se afastando e tornando aquelas palavras ecos quase inaudíveis, tudo em que ele podia se concentrar era na luz dourada emanando de Huang Tuo que penetrava como água gelada sobre uma queimadura, aliviando todas as partes internas dele e afastando aquelas sombras que queimavam suas veias. Ele podia sentir os fios de luz percorrendo seu corpo e se tornando mais conscientes dele conforme sua mente se afastava da realidade e se abandonava naquele vazio. Era a cura de Huang Tuo — o homem que ele assassinara friamente na frente da mulher que amava — devolvendo-lhe a paz exatamente no funeral da sua alma.

Ka Suo tentou com todas as forças não desviar sua atenção de Li Luo para o irmão, apenas forçou sua mente a confiar que Huang Tuo cuidaria bem dele e o impediria de sucumbir. Shi precisava de cura, não de um irmão ansioso naquele momento. Seu foco, entretanto, era destruir de uma vez por todas aquele problema que era Lian Ji, se isso significava enterrar sua própria felicidade futura que assim fosse, uma vez ele já tivera direito a isso às custas da vida do irmão, não cometeria aquele erro outra vez, o que Shi fizera por ele nem mesmo mil vidas seriam capazes de pagar, ele faria o mínimo ao seu alcance.

— Você é sempre tão inoportuno, Ka Suo. — Ela revirou os olhos soltando uma lufada de ar. — Mais um pouquinho e ele seria meu novamente.

— Em breve você não vai mais precisar se preocupar com isso, Lian Ji. Sua história acaba aqui.

— Eu acho que não.

Ela esboçou um sorriso diabólico, o braço ainda sangrava onde a agulha envenenada fincara-se e uma mancha escura crescia sob a pele. Apertado a empunhadura da espada, ele avançou na direção dela, uma vez, em outras circunstâncias, os dois também haviam lutado juntos, ele perdera subjugado pelo poder praticamente ilimitado dela, mas agora as coisas eram diferentes, Lian Ji não era mais a deusa que comandava a tribo do gelo como fantoches sobre seu controle, o reinado dela havia terminado junto com o mundo que ela criara para se divertir.

Eles eram livres.

Ele podia matá-la.

Vendo que seus poderes eram realmente limitados, a mulher no corpo de Li Luo materializou uma espada e revidou os golpes de Ka Suo com maestria, Yue Shen observava sem se envolver, sabendo que a luta era do seu rei e ele gostaria de luta-la sozinho, havia muito tempo aqueles dois tinham contas a acertar. Ela ficaria de prontidão apenas no caso de ele precisar dela. A única certeza compartilhada silenciosamente pelos dois era que dali Lian Ji não sairia viva. Finalmente eles estariam livres dela de uma vez por todas e Shi poderia refazer seu caminho — que já seria bem difícil — para Yan Da sem a sombra daquela ameaça.

As habilidades de Lian Ji na esgrima se equiparavam às dele, os dois eram tão bons em atacar quanto em desviar dos golpes, Ka Suo, então, aplicou energia espiritual nos ataques para diminuir as chances da adversária, naquele ponto parasitário, Lian Ji não dispunha de muito poder, ela deslizou no momento em que ele mirou a espada no seu pescoço e conseguiu fazer um corte no braço esquerdo do monarca que apenas lhe sorriu bem no instante que se virou e investiu a lâmina azulada no seu corpo.

Surpresa, a mulher sentiu a dor excruciante quando a lâmina de rongyu bing penetrou sua carne atravessando seu corpo até despontar nas costas. A mão de Ka Suo, ao contrário do que ela imaginaria, não tremeu ou hesitou quando ele desferiu o golpe mesmo que ela estivesse usando o corpo da mulher que ele amava. Um sorriso insano e ensanguentado arqueou-se no rosto distorcido e Li Luo quando ela pendeu, caindo ajoelhada, Ka Suo puxou impiedosamente a espada vendo-a engasgar com o próprio sangue.

— Ela tinha razão... — Murmurou ela em meio a tosse escarlate. — Você nunca a viu de verdade.

O corpo de Li Luo caiu sobre a poça do próprio sangue e só nesse momento Ka Suo deixou cair a espada com as mãos trêmulas, o coração vacilando, as lágrimas caindo pelo seu rosto diante da morte irreversível dela. Uma mão apertou levemente seu ombro, era Yue Shen.

— Eu sinto muito, meu rei.

— Tudo que eu queria, era entender o porquê. — Ele disse enquanto olhava a massa inerte diante dele. — Por que ela fez isso, Yue Shen?

— Infelizmente eu não posso te responder a essa pergunta, wáng, mas precisa ser forte agora, o príncipe precisa de você.

Eles se viraram para Shi, inconsciente nos braços de Huang Tuo. Quando Ka Suo deu um passo na direção do irmão, uma risada estridente ecoou por todo lugar, dessa vez não era a voz de Li Luo, era a própria Lian Ji. Yue Shen se virou em busca da direção do som, mas parecia vir de toda parte, o coração de Ka Suo pulou uma batida enquanto o riso ia perdendo força e desaparecia.

Ainda não havia acabado.

— Como isso é possível? — Yue Shen olhou para o corpo inerte da feiticeira sem entender. — Ela não pode estar viva!

Ka Suo não respondeu, ele mesmo não conseguia entender como aquilo havia acontecido, achou que matando Li Luo acabaria com tudo, ele perdera a mulher que amava em vão? O que estava acontecendo?

— Wàng, precisamos ir atrás dela. — Disse Yue Shen.

— Yue Shen tem razão, Ka Suo. — Concordou Huang Tuo. — Não se preocupe com o príncipe, eu conversarei com ele e o levarei de volta em segurança.

O monarca olhou para o irmão com tristeza e suspirou anuindo. Seguindo Yue Shen, ele deu um comando a Xing Jiu que enviasse a localização de Lian Ji conforme a estrela dela se movia e os dois seguiram para o nordeste na direção da tribo de música xamânica.

※※※

Huang Tuo acomodou o príncipe sob uma das cerejeiras ainda sob o alívio de ter intervindo a tempo. Foi por muito pouco que Shi não sucumbiu às trevas e perdeu a si mesmo. Com um suspiro, o curandeiro sentou pacientemente ao lado dele e esperou, colocando a mão em sua testa algumas vezes para se certificar que o processo de cura fora eficaz. Ele mesmo se sentia um tanto quanto cansado após usar tanta energia, mas estava satisfeito por Shi estar a salvo.

Vendo toda a cena de fora, sentiu-se mal por Ka Suo sendo forçado a matar Li Luo daquela maneira, ainda que soubesse, diante das circunstâncias, não haver salvação para a feiticeira. Ele conheceu Li Luo e não conseguia entender a razão para ela ter feito uma escolha tão cruel. Em contrapartida, segundo as regras de possessão, não havia qualquer chance de Lian Ji ter saído viva daquilo, se a casca morre, as almas morrem com ela, fora o que aprendera. Ou se extraía o invasor do corpo possuído ou se matava os dois ao mesmo tempo. Pensando mais a fundo, a única conclusão a qual ele podia chegar era uma lenda muito antiga sobre a lágrima ancestral.

Livros antigos relatavam essa história de que a primeira sereia, que chorara apenas uma lágrima em sua existência — aquela que originara as águas do reino imortal e todo o clã mágico das sereias — e o fizera com extrema dor. Contudo, para impedir que suas descendentes sofressem o mesmo destino que ela, foi-lhes concedido que uma vez que cantassem a música dos mares poderiam libertar o poder da lágrima ancestral e conseguir qualquer propósito que não envolvesse trazer alguém de volta à vida ou forçar o amor de outra pessoa. Pensando assim, se Lan Shang estivesse mesmo ao lado de Lian Ji e a lenda fosse verdadeira, era possível separar as duas com a morte de Li Luo, na verdade, seria a condição necessária. Li Luo morria, o espírito de Lian Ji se libertaria da concessão de possessão e ela poderia retornar ao seu corpo original que poderia ser cedido pela lágrima.

Assustador pensar nisso.

O curandeiro sabia que com a destruição de Snowblade e do lago de lótus, Lian Ji não era mais tão poderosa quanto antes. Tudo que restava no mundo imortal além dos escombros da montanha Huan Xue, eram os resquícios das tribos que eles deixaram para trás, fantasmas de uma vida que não lhes pertencia mais. Ele olhou mais uma vez para Shi, se Lian Ji realmente tivesse conseguido a façanha de ludibriar Lan Shang ao ponto de conseguir seu corpo de volta, o príncipe do gelo era a única chance que todos eles tinham de sair vivos no final da guerra que estava por vir. Isso tornava o fato de quase tê-lo perdido ainda mais apavorante.

— Nǐ xǐngle.* — Disse quando Shi abriu os olhos. — Como se sente, ainda dói em algum lugar?

O jovem príncipe não respondeu, ao invés disso, como uma criança que foi pega fazendo uma travessura, sentou e abraçou as pernas evitando olhar para Huang Tuo. Vendo-o encolhido daquela forma, o curandeiro quase não reconheceu o imponente, impassível e objetivo príncipe do gelo por quem um dia lutou. Naquele momento, Ying Kong Shi parecia apenas um jovem atordoado pela vergonha de um passado que não podia mudar. Ele sorriu, bagunçando carinhosamente os cabelos do outro.

— Vamos lá, não precisa tratar árvores como soldados*. Não estou aqui para julgar você.

— Como eu posso sequer te olhar depois do que eu fiz? — Perguntou Shi em voz baixa. — Você ainda consegue me olhar como se nada tivesse acontecido? Como se eu não fosse aquele monstro que levou sua vida?

— Ei, pare de fazer isso consigo mesmo, Ying Kong Shi, não devolvemos sua memória para vê-lo como um cão afogado!* — Repreendeu-o. — Para começar, você não é um monstro, se quer chamar alguém assim chame Lian Ji que foi a pessoa por trás de toda aquela palhaçada. Ela sim é um monstro. Você foi usado como todos nós, as coisas que você fez como Li Tian Ji não podem ser delegadas a quem você é de verdade, você é Ying Kong Shi, o príncipe do império da neve, mas também o adolescente com quem eu virei madrugadas jogando videogame para me livrar da tensão das provas, o garoto que eu adoro provocar especialmente quando se trata de Yan Da e, sobretudo, a pessoa que ela sempre amou independente de qualquer coisa.

— Eu não posso fazer isso... não consigo fingir que nada aconteceu, limpar esse sangue das minhas mãos e seguir em frente, não é apenas uma questão de encarar a parede* por um mês... o que eu fiz...

— Olhe para mim, Shi. — Pediu Huang Tuo com uma voz tão imperiosa que o príncipe não conseguiu desobedecer. — Ela tirou suas memórias, suprimiu seu verdadeiro eu, transformou você na máquina de matar que ela queria para atingir Ka Suo por ter atrapalhado o jogo dela. Nenhum de nós culpa você, estamos todos aqui, vivos, por sua causa. Eu sei que encarar essas lembranças é doloroso e é difícil, mas elas não definem quem você é, suas ações do passado não devem impedir o caminho do seu futuro ou definir o seu presente. Só o fato de você sentir culpa pelo que fez já é o bastante para provar que se arrependeu, apenas aprenda com isso e use essa dor como escada para não repetir esses erros, para ser melhor. Você tem a chance de consertar as coisas agora, especialmente com Yan Da. Quando encontrar uma montanha, sempre haverá um caminho.* Não está sozinho, todos estamos ao seu lado agora.

Ele secou delicadamente as lágrimas cristalinas que escorriam pelo rosto de Shi.

— Yan Da...

— Ela não lembra. — Acalmou-o. — Suprimimos as memórias dela, apesar de haver alguns lapsos, estamos retardando o máximo que podemos. Você fez um bom trabalho mesmo antes de se lembrar, agora precisa bater enquanto o ferro está quente.*

Ele entendeu então. Eles estavam retardando as memórias dela para que ela não o odiasse, não sentisse aquela dor excruciante de saber a verdade e destruir qualquer ponte que ele pudesse criar entre eles. Se Yan Da recuperasse as memórias, não haveria qualquer esperança para ele, ela nunca o perdoaria. O coração de Shi comprimiu-se com a culpa, sabia que mesmo reprimindo-a no fundo do seu ser ela permaneceria viva, lembrando-o todos os dias do que fizera como um martírio eterno. E ele bem o merecia.

— Huang Tuo... eu sinto muito, de verdade.

— Eu sei. Apesar de nossas tribos não interagirem muito, me lembro bem de você quando criança e, quanto ao adulto que se tornou mais tarde, sempre o respeitei como príncipe. — Ele sorriu. — Confesso que achava um pouco irracional do seu pai insistir em dar o trono a Ka Suo quando era claramente você que invocava os ventos e controlava as chuvas.* Mas isso não me cabia opinar.

— Eu nunca quis ser rei, sendo franco. Aceitaria a responsabilidade apenas para vê-lo livre, como ele queria ser. — Admitiu. — Por Ka Suo eu estava disposto a aceitar diligentemente os escombros*, tanto que sacrifiquei a única mulher que amei por isso.

— Agora que não há mais impedimentos, você tem a chance de trilhar seu próprio caminho, Shi, fazer suas escolhas pensando em você mesmo. Yan Da não lembra de nada, mas ela ainda não está a salvo. Cabe a você reparar os erros do passado, recomeçar agora. Se ela não acredita, faça-a acreditar.

Ele não sabia como. Yan Da tinha um medo natural dele, repelia qualquer tipo de avanço que seus sentimentos pudessem ousar. Além disso, depois de tudo que passara, o amor para ela se tornara um sinônimo de sofrimento, ela não se renderia facilmente mesmo que seu caminho insistisse em levá-la à ele. Mas estava disposto a pensar em uma maneira.

— Onde está Ka Suo? Me lembro de ter ouvido a voz dele.

— Ah, isso... ele precisou ir até a montanha Hua Xue procurar algo de que Xing Jiu precisa. — Mentiu. — Deve nos encontrar no seu apartamento depois.

— Li Luo...

— Não era ela de verdade, Shi. Era um espectro criado por Lian Ji. Ka Suo vai explicar melhor para você depois, não se preocupe com isso agora, tudo bem?

Ele anuiu. O médico julgou não ser uma boa ideia deixar o jovem príncipe a par dos conflitos que Ka Suo enfrentava com Li Luo, especialmente a morte desta momentos atrás, o foco de Shi deveria recair inteiramente sobre Yan Da. Sabia que o monarca iria usar suas próprias mentiras mais tarde para desviar o irmão daquela história, por enquanto queria tirar Shi dali o quanto antes caso Lian Ji ainda pudesse estar presente para tentar um novo estrago.

— Seu pai deve ter colocado uma marca vermelha na sua testa quando você nasceu. — Comentou, após um momento de silêncio. — Diminuiria muito meu instinto de te bater se você agisse assim mais vezes.

— Ora e qual a graça? — O médico deu uma risada. — Tenho certeza que se eu parasse você sentiria falta.

— É verdade. — Admitiu. — Mesmo que você seja um maldito trapaceiro, não consigo imaginar minha vida sem você testando os limites da minha paciência.

— Sou completamente a favor de tirar sua seca de quatro mil anos. — Provocou. — Espero que você não esteja vencido.

— Você que é muito mais velho que eu ainda funciona, por que eu estaria fora da validade? — Devolveu.

— Ai, essa doeu! — Huang Tuo colocou a mão no coração fingindo ter sido atingido. — Espera, está admitindo que vai finalmente florescer a flor de pêssego* da princesa?

— Huang Tuo! — Advertiu arrancando uma boa gargalhada do médico. — De verdade, obrigado.

— É o que fazem os amigos, Shi. Nos bons e maus momentos. — Sorriu. — Bem vindo de volta.

Shi ficou de pé e virou de frente para uma das cerejeiras viçosas, a mesma que estava pintada na parede do seu quarto, estendendo a mão na direção dela, ele abriu um portal, para alívio de Huang Tuo sem mais perguntas.

— Vamos. — Estendeu a mão para o curandeiro. — Vamos para casa.

Aquela última pequena sentença encheu o coração do médico de esperança. O fato de Shi chamar aquela nova realidade de casa era um indicativo que ele deixaria seu passado enterrado ali, no declive das cerejeiras e na floresta do nevoeiro, claro que esquecer seria impossível, as rachaduras naquele castelo de vidro não podiam ser reparadas e ele estava fadado a contemplá-las todos os dias pelo resto da sua vida. Mas era um passo. Um passo em direção ao futuro pelo qual todos eles esperavam, e que ele e Yan Da mereciam.

Com um leve aperto no ombro dele, Huang Tuo bagunçou os cabelos de Shi e ofereceu-lhe um sorriso carinhoso.

Juntos, eles atravessaram o portal.


Notas:

*Nǐ xǐngle [你醒了] — só recordando isso, significa "você acordou" ou "você está acordado."

*Tratando árvores como soldados — pessoa tão desconfiada que confunde árvores com soldados.

*Cão afogado — alguém que está deprimido e arruinado.

*Encarar a parede/muro — Refletir sobre algo.

* Quando encontrar uma montanha, sempre haverá um caminho. — Independente do obstáculo é possível encontrar uma forma de contorná-lo.

* bater enquanto o ferro está quente. — Agarrar uma chance quando aparece.

*Invocando os ventos e controlando as chuvas — pessoa muito poderosa, pode fazer o que quiser.

Aceitar diligentemente os escombros — aceitar situações muito rebaixadas

*Marca vermelha na testa — Na China antiga marcas vermelhas eram desenhadas em crianças para "atrapalhar a ignorância."

*Flor de pêssego — Em chinês simboliza a virgindade.