Love as Sakura | 爱如樱
14 第12章 Libertada
Shi a observou partir com um misto de angústia e confusão. Não conseguia entender por que Yan Da tinha tanto medo dele, e mesmo assim as circunstâncias continuavam colocando-os um no caminho do outro. Acenando impaciente, ele pediu ao manobrista que trouxesse seu carro, não podia deixar as coisas daquele jeito e, sobretudo, estava preocupado com ela, no estado que se encontrava ele não deveria tê-la deixado dirigir.
Demorou mais do que ele gostaria para sair e foi com alguma dificuldade que localizou o veículo de Yan Da no meio do trânsito caótico. Contudo, ainda estava muito atrás e seria difícil alcançá-la. Inquieto, ele apertava o volante com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos, uma parte de si sabia que as respostas estavam em algum lugar naqueles sonhos, mas ele não conseguia decifrá-las.
Shi começara a ter pesadelos daquele tipo algumas manhãs atrás, mas sua memória registrava que eles existiam desde sua infância, o rosto de alguém que ele não conseguia ver, mas que precisava desesperadamente encontrar. Foi assim toda a sua vida. Ele sempre se fizera crer que não levava jeito com mulheres, que nenhuma lhe despertava o interesse, mas a verdade que essas ideias escondiam é que estava esperado por ela. Procurando-a.
E essa resposta veio no rosto doce de Yan Da.
Foi como uma frequência singular que a alma dela emitia para a sua, algo que apenas ele era capaz de reconhecer, como uma canção que marcara um episódio único, um velho código cujo criador era o único que podia decifrar. Havia uma força invisível que lhe puxava na direção dela e o coração de Shi o pressionava a ser persuadido a essa força. A pulsação estalava nos seus ouvidos fazendo com que a dor de cabeça ficasse pior, ele deu seta para entrar a esquerda bem no momento que viu um carro escuro bater contra o de Yan Da.
Freando bruscamente para não atingir o veículo, Shi sentiu seu coração pular uma batida quando o carro investiu contra ela de novo, ele rabiscou o número da placa no bloco de notas e buzinou várias vezes, as luzes traseiras do carro piscaram e ele bateu em Yan Da mais uma vez deixando o local em seguida. Shi dirigiu a alguns metros de onde ela estava, uma confusão de fumaça saía do capô destruído, o desespero o engoliu quando, trêmulo, ele saiu do carro e correu até ela.
Yan Da ainda estava consciente quando ele forçou a porta do veículo, o odor nauseante de combustível indicava a chance do carro explodir a qualquer momento, ele precisava tirá-la dali. Tanto sangue... o lado direito do rosto dela estava coberto por uma camada vermelha do líquido escarlate, ela tossiu outro bocado de sangue e ele precisou gritar consigo mesmo para se manter no controle.
— Yan Da, pode me ouvir? — Suas mãos tatearam o fecho emperrado do cinto de segurança. — Yan Da, fique acordada, tudo bem?
— Peng Peng... — Murmurou num tom de voz quase inaudível.
Uma pontada dolorosa atacou o coração de Shi. Ela gemeu quando ele envolveu seu corpo frágil nos braços e a tirou do veículo correndo com ela pela rua alguns minutos antes do carro explodir. O impacto da explosão fê-los cair no chão e ele usou seu corpo para proteger a cabeça dela, a onda de calor e fumaça devorou toda a rua e curiosos começaram a sair das casas e aparecer nas janelas do condomínio.
Shi tocou o rosto ferido de Yan Da e, para seu desespero maior, percebeu que ela não respirava.
— Yan Da?! — Chamou-a, erguendo seu tronco nos braços. — Yan Da!
Pressionando os dedos contra o pulso dela percebeu que os batimentos eram muito fracos, ele rapidamente a posicionou com cuidado no chão enquanto alguém ligava para a emergência, inclinou a cabeça dela para trás e, fechando as vias nasais, colou seus lábios nos dela e soprou ar. Com as mãos, Shi iniciou a massagem cardíaca.
— De jeito nenhum você vai armar toda essa confusão e sair facilmente. — Murmurou para ela enquanto pressionava seu peito. — Trate de acordar e me enlouqueça de novo, mas acorde!
Ele soprou ar para ela outra vez, pressionando as mãos contra seu peito com uma mistura de angústia e agonia.
— Yan Da! Por favor... por favor!
Uma lágrima sua caiu no rosto dela e, alguns segundos depois, ele voltou a sentir a pulsação dela um pouco mais forte e sua respiração irregular, mas um pouco melhor. Yan Da tossiu e cuspiu mais sangue, Shi a manteve imóvel controlando sua vontade de abraça-la, a sirene de uma ambulância soou ao longe bem no instante que ele ouviu a voz fraca de Yan Da pronunciar seu nome antes de ficar inconsciente outra vez.
※ ※ ※
Shi ligou para Ka Suo e pediu ao irmão que levasse Huang Tuo de volta ao hospital com urgência. Yan Da recebia os primeiros socorros na ambulância e ele segurava sua mão agradecendo aos céus por cada vez que via o peito dela subir e descer pela respiração. Tão logo chegaram ao hospital ela foi levada direto para emergência e Shi, com as roupas sujas de sangue, permaneceu na sala de espera, oscilando entre a aflição e a ira.
Ele andava de um lado para outro na frente da porta da emergência cuja luz vermelha permanecia ligada prolongando sua ansiedade. Por mais que tentasse dizer a si mesmo que ela ficaria bem, o medo continuava se esticando sob a sua pele como se suas veias fossem preenchidas com gelo.
— Shi. — Ka Suo chegou acompanhado de Huang Tuo.
— Ge! — Ele abraçou o irmão permitindo-se liberar a tensão e o medo que o oprimiam.
— Vai ficar tudo bem, não se preocupe. — Ka Suo tranquilizou-o dando leves tapinhas nas suas costas.
— Eu vou entrar para ver como a senhorita Meng está. — Disse Huang Tuo e entrou na sala.
Vendo seu irmãozinho transtornado, Ka Suo o fez sentar-se em uma das cadeiras no corredor e buscou um pouco de água para ele, sentando ao seu lado e dando espaço para que Shi recobrasse a calma e pudesse dizer o que aconteceu.
— Não foi um acidente. — Declarou ele. — Eu vi que foi de propósito. Ge, tentaram matar Yan Da.
— Por que alguém iria querer machucar a senhorita Meng?
— Eu não sei, mas tenho o número da placa comigo, pode investigar?
— Claro. Já deu depoimento aos policiais?
Ele meneou a cabeça, sentia-se tão maluco que não conseguia pensar em nada além de Yan Da ferida. Huang Tuo apareceu alguns minutos depois vestindo uma roupa de proteção, sua expressão séria não serviu para deixar Shi mais tranquilo.
— Ela quebrou duas costelas, alguns cortes, mas o que me preocupa é uma lesão no pulmão. Precisamos operar o quanto antes, mas para isso é necessário um termo de responsabilidade assinado por um familiar.
— Eu assino, assino qualquer coisa, mas, por favor, salve a vida dela. — Pediu Shi em desespero.
— Shi, precisamos avisar ao pai dela.
— Ge, eu vi Shuo Gang quase bater nela em frente à nossa empresa, acha mesmo que alguém vai vir até aqui?! — Exasperou-se. — Opere, confio em você, eu assumo a responsabilidade.
Sem perder tempo, Huang Tuo anuiu e voltou para dar as ordens para a cirurgia, Ka Suo acompanhou Shi até a recepção para assinar o termo de responsabilidade. Aproveitando a chegada dos investigadores, Shi deu seu depoimento contando em detalhes o que aconteceu, a expressão de Ka Suo tornou-se sombria e, dando uma desculpa qualquer, deixou o hospital.
※ ※ ※
Yue Shen, Chao Ya, Pian Feng e Liao Jian estavam sentados em volta da mesa de jantar na casa de Shi, suas expressões graves eram incapazes de encarar Ka Suo na ponta da mesa com os dedos cruzados e fúria contida pela calma de sua natureza pacífica. Ele pegou um pequeno cubo azul e colocou no centro da mesa, usando seus poderes o objeto emitiu uma diáfana luz e ergueu-se, pairando a alguns centímetros do tampo de vidro, a imagem de Xing Jiu foi projetada como um holograma segundos depois.
— Meu rei. — Saudou.
— Como está seu progresso, conseguiu rastreá-la?
— As estrelas não mostram a localização dela, majestade, peço que me puna pela minha incompetência.
— Yan Da gōngzhǔ* é o alvo. — Anunciou ele fazendo com que todos os presentes erguessem a cabeça para fitá-lo. — Ela é mais suscetível e fácil de mirar do que Shi que está constantemente cercado por nós. Se ela a matar tudo termina. Confesso que a subestimei.
— Meu rei, se não consigo localizá-la nas estrelas significa que ela não está mais no mesmo plano que eu, isso quer dizer...
— Sim. — Completou Ka Suo. — Quer dizer que ela está aqui.
— Os planos estrelares são diferentes. Ainda assim, se vossa majestade não consegue sentir a presença dela alguém a está ajudando a se camuflar.
— Xing Gui? — Chao Ya arriscou. — Ela é a única que poderia bloquear vossa majestade e Xing Jiu.
— Bù kěnéng*, eu mesmo destruí o espírito de Xin Gui. — Lembrou Xing Jiu com amargura.
— Lembre-se com quem estamos lidando, Xing Jiu. — Alertou Yue Shen. — Não há garantias que ela seja incapaz de trazer sua irmã de volta.
— Ela precisaria da lótus invisível para esse fim. — Pian Feng finalmente falou. — Nós sabemos que só restou uma com a destruição da cidade Ren.
— Mas a Montanha Huan Xue permaneceu. — Lembrou-lhes Liao Jian. — Ela alimentava o lago de lótus com sua própria energia espiritual.
— Apenas uma lótus invisível restou, estou seguro disso. — Asseverou Xing Jiu, foi um dos preços do sacrifício.
— Então como isso pode acontecer? Mesmo ela sendo extremamente poderosa, toda magia deixa uma marca. — Disse Yue Shen. — Ela não pode estar aqui e se camuflar tão bem ao ponto de não conseguirmos localizá-la.
Ka Suo pôs-se pensativo e nenhum deles disse mais nada. Se Yan Da era um alvo ele precisava crescer o cerco ao redor dela e naquele momento todos eram suspeitos, incluindo a própria família Meng. Se uma vez ela os manipulou para dominar a tribo do gelo não poderia ser diferente agora, Huo Yi fazia qualquer coisa em nome do poder, uma vez ele sacrificara a própria filha, poderia fazê-lo novamente.
— Liao Jian, localize a placa anotada por Shi, seja meu representante junto dos detetives. — Ele começou a delegar as tarefas. — Chao Ya e Pian Feng, vocês continuarão ao lado da princesa, Huang Tuo vai dar a vocês uma poção que retardará as memórias dela, encontrem uma maneira de fazê-la ingerir por conta própria, não funcionará se for ministrada com ela inconsciente.
— Liao Jian cumprirá suas ordens, meu rei. — Ele se ajoelhou diante de Ka Suo com o braço sobre o peito e a mão fechada em punho sobre o coração, depois saiu.
— Chao Ya e Pian Feng cumprirão suas ordens, meu rei. — Os dois reverenciaram Ka Suo da mesma maneira e deixaram a sala.
— Yue Shen, você continuará mantendo a segurança de Shi.
— Shì, wáng! — Ela se ajoelhou diante de Ka Suo. — Yue Shen cumprirá suas ordens.
E deixou a sala.
— Xing Jiu, chegou o momento de você vir até nós.
— Xing Jiu cumprirá a vontade de vossa majestade.
E respondendo isso, sua imagem desapareceu e o cubo caiu inerte e opaco sobre a mesa. Ka Suo fechou a mão em punho e o tampo da mesa congelou, a guerra havia começado.
※ ※ ※
Já fazia duas horas que Shi estava em frente à sala de cirurgia e não havia qualquer novidade sobre o estado de Yan Da. Ele confiava em Huang Tuo, sabia que o médico era capaz de salvá-la e essa era a única razão pela qual ele ainda não estava subindo pelas paredes, mas a agonia da espera e o medo causado pela ignorância do estado dela eram enlouquecedores.
Ka Suo ainda não havia retornado e Shi sentiu-se pequeno e sozinho sendo oprimido pelos seus próprios sentimentos. Sempre que fechava os olhos podia ver o rosto de Yan Da coberto de sangue, sua voz fraca quase inaudível pronunciando seu nome, ele encontraria a pessoa que fez aquilo com ela e a destruiria.
Quando finalmente conseguiu parar para pensar racionalmente, analisou seu primeiro encontro com Yan Da, sempre achara muito estranha a forma como ela entrou no seu caminho de maneira tão imprudente. Poderiam os dois eventos estarem relacionados de alguma forma? Por mais que detestasse Shuo Gang, Shi não queria acreditar que ele estava por trás daquilo, ele não poderia ser tão perverso ao ponto de tentar matar a própria irmã.
A mente de Shi dava voltas em um labirinto cuja saída ele não conseguia encontrar. Passou as mãos pelo rosto e respirou fundo quando sentiu uma mão tocar seu ombro, erguendo a cabeça fitou o rosto pacífico de Ka Suo lhe transmitindo toda a calma que precisava.
— Trouxe algumas coisas para você, por que não vai à um hotel e toma um banho para tirar essas roupas sujas de sangue?
— Não vou conseguir sair daqui até ter certeza que ela está bem... me sinto de alguma forma responsável por isso, ge.
— Como poderia? Não foi você que bateu no carro dela. — Retrucou. — Shi, eu já tenho alguém investigando a placa que você anotou, você fez o melhor que pôde.
— Essa semana parece uma vida inteira. — Suspirou. — Tudo parece estar virando de cabeça para baixo, ge... não sei o que fazer.
— Entendo que se preocupe com a senhorita Meng, mas talvez esteja sendo um pouco precipitado, não acha? — Sorriu. — Embora não possamos prever o amor.
— Não diga tolices. — Censurou Shi baixando a cabeça para evitar o olhar do irmão.
— Ah, então ainda não admitiu que gosta dela? — A risada suave de Ka Suo foi como bálsamo sobre uma ferida. — Então está bem, vou zoar você quando admitir.
— Ge! — Protestou Shi com o rosto inteiro queimando.
A intenção de Ka Suo, de distrair o irmão para acalmá-lo, funcionou e em meio ao constrangimento da conversa, Shi conseguiu recobrar a calma e direcionar as emoções para outro rumo. Era certo que sentia alguma coisa por Yan Da, algo que ele não era capaz de explicar e não entendia, mas amor era algo muito complexo para se referir a alguém que ele conhecia a uma semana. Talvez ele apenas estivesse sendo influenciado por aqueles sonhos/visões ou o que fossem. Ou talvez só estivesse com muito medo de admitir, já que nunca se apaixonara antes. O fato é que, quando Huang Tuo saiu da sala de cirurgia, ele foi o primeiro a pôr-se de pé ávido por notícias de Yan Da.
— Está fora de perigo. — Apressou-se em dizer o médico. — A lesão não foi profunda de modo que conseguimos reverter, eu vou deixá-la em observação na terapia intensiva pelos próximos dias e, dependendo de como ela demonstrar melhoras na recuperação, transferirei para um quarto.
— Quando vou poder vê-la?
— Vá com calma, Romeu. — Alfinetou Huang Tuo. — As visitas do CTI são só de quinze minutos no período da tarde. Volte amanhã com roupas limpas e disponibilidade para vestir um conjunto completo de proteção.
Ka Suo ergueu uma sobrancelha para o médico e Huang Tuo suspirou, frustrado.
— Mas como hoje estou benevolente vou deixar você vê-la pelo vidro.
Um sorriso iluminou o rosto de Shi. Ele precisou esperar a transferência de Yan Da para o CTI que estava instalado no mesmo prédio do hospital, as UTI's ficavam em um prédio adjacente. Ele sentiu como se um peso enorme tivesse sido tirado de seus ombros quando ouviu que ela estava fora de perigo, ainda assim seu coração urgia em vê-la. Ka Suo permaneceu ao seu lado imerso nos próprios pensamentos, dando a Shi espaço para acolher tanto o alívio quanto a melancolia da situação.
Huang Tuo voltou para busca-lo e o irmão lhe disse que o esperaria no carro, ao que Shi concordou. Ele seguiu o médico até o elevador e por um corredor largo sem janelas, o quarto de Yan Da era privado no fim do corredor, ao olhar pelo enorme vidro, ele viu uma enfermeira checando as máquinas ligadas ao corpo dela, havia uma faixa em volta da sua cabeça e uma máscara de oxigênio, o coração de Shi se partiu.
Ele encostou a mão no vidro desejando poder tocá-la, sentindo aquele vidro que os separava parecer uma distância de dois mundos paralelos que não se encontravam. Fechando os olhos por um momento ele a viu em seus braços, o sangue vertendo do seu corpo sem que ele nada pudesse fazer, sua respiração evanescendo, as batidas fracas do seu coração desistindo.
"Alguma vez você gostou de mim?"
O susto fez Shi se afastar do vidro. A voz débil de Yan Da ressoou tão nítida na sua mente que ele ergueu um olhar assustado na sua direção como se esperasse encontrar seu olhar magoado do outro lado do vidro.
— Aya, não faça essa cara, ela está respondendo muito bem. — Encorajou Huang Tuo. — Daqui a algumas semanas vai estar pronta para os seus galanteios.
— Você vai morrer se passar um dia sem me provocar? — Shi o encarou aliviado pelo fato do médico conseguir fazê-lo rir naquela situação.
— Morrer talvez não, mas vai me custar muito autocontrole. — Um sorriso iluminou o rosto carismático e bonito de Huang Tuo. — Vou monitorá-la pessoalmente, fique tranquilo. E preciso estar por perto quando ela recobrar a consciência e se der conta do número de agulhas que está no corpo dela.
— Agulhas?
— Ah, você não sabe? Ela tem aicmofobia em um grau bastante severo.
Shi voltou a olhar pelo vidro, Yan Da era como uma boneca sobre a cama, e as roupas brancas do hospital lhe causavam uma sensação de incômodo, como se ela estivesse morta. Ele suspirou, havia tantas coisas sobre ela que não sabia.
— Duì le!* Eu tenho a informação que você me pediu.
— Informação? — Olhou para ele, confuso.
— Peng Peng. — Ele sussurrou o nome ganhando a atenção de Shi. — Venha comigo.
Shi ficou relutante em deixar Yan Da, mas seguiu Huang Tuo até o elevador. As salas dos médicos ficavam no quinto andar do hospital, um andar acima dos consultórios. A de Huang Tuo era pintada em um discreto tom de creme com mobília branca de hastes de metal e esquadria combinando. Havia um quadro na parede — e era o único adorno no lugar — de uma mulher bonita, os traços sérios, impassíveis e letais, lábios cheios, olhos amendoados e nos longos cabelos escuros uma tiara de testa com uma pedra roxa. Ela usava vestes azuis com nuances lilases e havia o cabo de uma espada sobressaindo-se atrás do seu ombro.
Shi franziu o cenho enquanto olhava a pintura.
A mulher parecia uma versão passada de Yue Shen.
Meneando a cabeça ele desviou a atenção da imagem julgando estar pensando absurdos. Uma mesa redonda ficava no canto com duas cadeiras, havia também um conjunto de sofás de couro branco, uma estante repleta de livros médicos, uma mesa de mogno equipada com um computador, na parede ao lado uma luminária de raio-x e, na outra parede, paralela, havia um aparador com água, comida e uma pequena geladeira. Era um ambiente aconchegante, Shi sabia que naquele mesmo andar ficava o dormitório coletivo para os médicos plantonistas.
— Aqui, sente. — Ele indicou um dos sofás e colocou um envelope amarelo sobre a mesa de centro.
— Essa pessoa era um paciente seu?
— Ah, não. — Meneou a cabeça. — Não meu, mas de um amigo. É um caso um pouco antigo, seis anos mais ou menos, eu era residente na época, por isso não me soou estranho.
— Peng Peng, ela... — Hesitou.
— Ele. — Corrigiu Huang Tuo matando todas as expectativas de Shi de ser uma garota. — Sim, morreu.
O médico começou a tirar os parcos papéis de dentro do envelope, havia algumas fotos anexadas e vários carimbos vermelhos de CONFIDENCIAL. Ele não sabia como Huang Tuo conseguira aqueles documentos, mas parecia ser algo sério. Lembrou-se do desespero de Yan Da enquanto delirava por aquela pessoa, uma parte de si queria saber quem ele era, outra temia o que encontraria naquelas páginas.
— A verdade é que todo o procedimento médico envolvendo esse rapaz ocorreu em sigilo, ao que parece a mídia estava envolvida e alguém pagou uma soma considerável ao hospital para fingir que Peng Peng nunca esteve aqui.
— Alguma relação dele com Yan Da?
— É aí que as coisas ficam meio obscuras. — Mesmo estando sozinhos na sala, Huang Tuo falava baixo. — Pesquisei o histórico médico da senhorita Meng, mas não há nada. É como se ela nunca tivesse ficado doente, tomado vacina, ido ao dentista, nada. Mas meu amigo me garante que ela foi admitida em internação ao mesmo tempo que esse sujeito.
Shi pegou um dos papéis, era um relatório médico cheio de palavras complexas e explicações intrincadas que não faziam nenhum sentido para ele. Franzindo o cenho ele devolveu para a pilha e pegou uma das fotos, era grotesco, o homem na imagem estava deitado em um catre com um rosto muito inchado, havia marcas de corte pelo rosto e pescoço.
— Causa da morte?
— Choque hipovolêmico.
— Causa da morte na língua leiga. — Shi ergueu o olhar para Huang Tuo.
— Desculpe, não costumo falar desse tipo de coisa com não-médicos. — Sorriu sem jeito. — Bem, resumidamente ele perdeu sangue em uma velocidade muito grande e, dessa forma, tanto a distribuição de oxigênio para o cérebro e os órgãos quanto o próprio funcionamento do corpo entraram em pane. Fui didático o bastante?
Ele sorriu para Shi que estreitou os olhos.
— O que mais? — Perguntou.
— Como eu disse, é um caso obscuro, a maior parte das informações ficou no relatório do legista que, segundo meu amigo, desapareceu assim como os registros da sua Julieta.
— Alguém está tentado esconder alguma coisa...
— Sua melhor fonte de sucesso é conseguir informações da própria vítima.
— Acha mesmo que ela vai me dizer alguma coisa? Ela mal consegue ficar no mesmo cômodo que eu por mais de dez minutos! — Suspirou com frustração.
— Ying Kong Shi, você é tão imaturo! — Riu Huang Tuo. — Se confiança fosse tão fácil de se conseguir alguém já teria dado um jeito de engarrafar e vender. É onde está a beleza do processo, ela pode ser conquistada.
Shi fez uma careta sem querer admitir que o médico tinha razão. Uma sensação gelada subiu desde a base da sua espinha até o pescoço, se o segredo envolvendo a morte daquela pessoa estivesse ligado à tentativa de assassinado de Yan Da, então aquela história ainda não havia terminado, quem quer que estivesse atrás dela tentaria matá-la de novo. Ele transmitiu suas preocupações para Huang Tuo que apressou-se em tranquiliza-lo.
— Já tomei todas as providencias, apenas duas enfermeiras da minha confiança tem autorização para entrar no quarto dela, fora isso, só mesmo tenho acesso, há policiais em turnos para vigia constante, não fique afobado, ela está segura, eu te asseguro.
※ ※ ※
Quando Yan Da abriu os olhos, a planície gelada foi nublada pela tempestade que açoitava seu rosto. O vento cortante doía como lâminas contra sua pele e, olhando em volta, ela foi incapaz de se localizar. Tentou puxar na memória o que acontecera antes de chegar ali, mas não conseguiu, sua mente estava em branco. Fazendo um esforço, ela conseguiu fazer as pernas responderem e se pôs de pé abraçando o próprio corpo numa tentativa vã de se aquecer.
Olhando além da neve que voava na paisagem glacial aparentemente desértica, ela avistou uma construção ao longe. As botas de cano alto que usava afundavam na neve e, dando uma olhada nas suas roupas, ela não se lembrava de já ter tido nada parecido. O vestido era uma mescla de fantasia de festa e armadura de ficção fantástica. A saia vermelha era curta na frente mas alongava-se atrás como uma cauda, o tecido era fino e mesclado de preto e vermelho, ele subia em couro no corpete justo com protetores de ombro e braçadeiras, mas por dentro o tecido vermelho terminava em um vestido com alças largas de decote quadrado. As botas iam até a linha pouco acima do joelho e não facilitava a locomoção na neve. Quando vestira aquelas roupas?
Esforçando-se, ela conseguiu transpor a distância de meio quilômetro que a separava da construção sendo muitas vezes derrotada pela forte tempestade e derrubada no chão. Quando se aproximou seus olhos fitaram o letreiro branco e azul fixado nos portões de gelo: Ren Xue Cheng*. Algo na sua memória dizia já ter ouvido aquele nome antes, mas ela não podia lembrar onde. Querendo desesperadamente um lugar para se abrigar da tempestade, ela empurrou as portas, surpreendendo-se por estas terem cedido com tanta facilidade.
Dentro, uma rua larga ladeada por casas de madeira antigas seguia até uma espécie de castelo de gelo no topo de uma colina, enquanto percorria a avenida onde a neve estava mais rasa, Yan Da não pôde ver qualquer sinal de vida por ali, era como se todos os moradores tivessem ido embora. Havia objetos rústicos que ela só havia visto antes expostos em museus, mas que ali estavam parados em calçadas e alpendres, quanto mais avançava, mais a sensação de déjà-vu a acompanhava. Ela se via ali naquela mesma avenida, seguindo um Ka Suo de longos cabelos prateados que arrastavam no chão como um véu, esgueirando-se pelas passagens entre as casas de forma a mantê-lo ignorante da sua presença. Junto com ele esperava encontrar uma forma de salvar...
Ying Kong Shi?
Parando bem no centro da avenida, Yan Da levou as mãos à cabeça sentindo uma pontada violenta no centro do seu crânio. Então se deu conta da diminuição do frio e do fato de ali dentro não haver qualquer sinal da tempestade de neve que uivava violenta do lado de fora dos portões. O que está acontecendo? Perguntou a si mesma sem, claro, obter qualquer resposta. Uma espécie de magnetismo puxava Yan Da na direção daquele castelo de neve, como se, caso conseguisse alcançá-lo, fosse descobrir as respostas para as perguntas em sua mente.
Para as visões que a atormentavam.
Assim, continuou caminhando com determinação, o céu estava escuro e sem nuvens, do lado de fora dos muros da cidade, ela podia ver a tempestade rugindo como um animal furioso, mas ali dentro era como se nada acontecesse, o tempo havia parado. O caminho que levava até o castelo era uma subida estreita pela colina, devia ter em torno de quatrocentos a quinhentos metros, ela suspirou e, ignorando o cansaço em seus músculos, começou a subir, mal deu dez passos e a figura de Shuo Gang apareceu diante dela, ele também estava vestindo roupas estranhas e havia uma coroa em sua testa. Ele esboçou um sorriso de escárnio ficando no caminho de Yan Da.
— Você nunca conseguirá salvá-lo! — Cuspiu. — Não passa de uma inútil.
— Saia da minha frente, Shuo Gang!
Ela avançou, mas ele bloqueou a passagem e a estapeou com força, contudo Yan Da permaneceu no mesmo lugar e, surpreendendo a ele — e a si mesma—, devolveu o golpe com tanta força que ele se dissolveu no ar. Uma ilusão? Assustada, ela olhou para as próprias mãos e uma corrente de chamas alaranjadas as preenchia.
— Venha até mim, Yan Da, princesa do fogo.
A voz ecoou por todo lugar, Yan Da olhou para cima, mas não havia ninguém na estrada ou à vista no castelo. Era uma voz feminina suave, aveludada e hipnótica. Como uma sereia, pensou, sem saber a razão da comparação. A mulher a chamou de 'princesa do fogo', mas ela não tinha ideia da razão daquilo. Meneou a cabeça e continuou andando até alcançar o castelo, uma voz no fundo da sua mente lhe dizia para sair dali, mas a parte de si que se sentia compelida a descobrir os segredos sobrepujava os alertas.
Uma passarela suspensa com um enorme pórtico de torres de gelo se erguia e levava ao castelo, era uma construção belíssima como Yan Da nunca havia visto fora dos livros de fantasia, torres com pináculos que pareciam perfurar o céu escuro, janelas cintilavam sob a baixa luz, as portas com formato singular e longas hastes de gelo e mármore. Enquanto seguia pela passarela, Yan Da avistou um vasto jardim frontal com um lago cheio de lótus brancas flutuado e emitindo um brilho dourado, mas havia uma, dentre todas, cujas pétalas vermelhas e cristalizadas irradiavam uma força que ofuscava as demais.
As portas do castelo se abriram para um pátio interno quando ela se aproximou, havia um enorme salão decorado com pilares altos envoltos com dragões de água, janelas largas com vistas para florestas de pinheiros brancos, bordos e cerejeiras, pequenas mesinhas enfileiravam-se ladeando o salão até a parte mais alta onde, acima de um conjunto de doze degraus, estava um trono alto de gelo e nele uma mulher vestindo um hanfu vermelho e branco segurava um leque com desenho do lago de lótus que ela vira lá fora. Os longos cabelos eram ornados por joias que variavam de cristais a flores, seus olhos exibiam um tom azulado quando expostos à luz diáfana do salão. Ela era linda, mas emanava uma aura assassina.
— Quem é você?
— Bem vinda, princesa do fogo, bem vinda. — Ela sorriu. — Eu estava esperando por você.
— Que lugar é esse?
— Aqui você terá todas as respostas que procura. — A mulher levantou e deu alguns passos na direção de Yan Da. — Eu vou libertar a sua mente.
— Do que está falando?
— Os sonhos que você tem desde a tenra idade... você quer as respostas, mas não as encontra.
Yan Da recuou um passo, havia algo errado. A mulher se deteve e voltou a sorrir, mas seu sorriso era tão gelado quanto tudo à sua volta. Erguendo uma mão ela criou uma espécie de espelho de gelo diante de Yan Da, a figura de um Ying Kong Shi com longos cabelos brancos e uma coroa prateada com pedra azul apareceu diante dela. Ele vestia roupas brancas com bordados azuis e sua expressão era impassível e cruel.
— O que você fez por ele, o que ele deve a você. — Disse a mulher. — Está pronta para saber a verdade?
A imagem cresceu e Yan Da se viu nos braços dele, sangue vertia do seu corpo e ele não a olhava, os olhos azuis fitavam o longe, como se olhá-la fosse algo pecaminoso. Lágrimas caíam pelos seus olhos enquanto ela dizia palavras cujo som não saía. Uma dor pungente tomou o peito de Yan Da, ela recuou ainda mais desviando o olhar da imagem, sua mente entrando em um frenesi. O rosto da mulher ainda exibia um sorriso cruel. Lembre! A voz dela ecoou na sua mente. Liberte-se.
※ ※ ※
Huang Tuo correu assim que o sinal na sua sala começou a tocar de modo frenético, ele desceu pelas escadas o mais depressa que suas pernas permitiam e chegou ao corredor da CTI, as duas enfermeiras que ele designara para assistir Yan Da estavam em volta do leito desesperadas para reanima-la, o monitor cardíaco sinalizava perigo em um tom tão alto que, não estivesse acostumado àquilo, ele teria mandando desligar.
— Prepare o desfibrilador, rápido! — Ordenou a uma delas. — 250.
— Em 250, doutor.
— Afastem-se! — As mulheres se afastaram e ele pressionou as pás contra o peito e o lado esquerdo dela.
Assim que afastou as pás, a enfermeira voltou a fazer massagem cardíaca, mas Yan Da não respondia. Huang Tuo ordenou que a enfermeira colocasse mais gel nas pás e aumentasse a potência para 300. Novo choque. O corpo de Yan Da ergueu-se e caiu com um baque surdo sobre a cama, a outra enfermeira continuou fazendo massagem cardíaca, mas ainda não havia resposta.
※ ※ ※
Shi acordou com o coração acelerado, uma camada fina de suor havia se formado na sua testa, ele olhou para os lados, desorientado, e a cerejeira na parede do seu quarto parecia... brilhar? Voltou os olhos para o relógio sobre a cômoda, eram quatro da manhã. Uma sensação devastadora oprimia seu peito, rapidamente levantou e colocou uma roupa qualquer, pegou o celular e as chaves de casa e do carro, saindo de casa apressado.
Yan Da.
O nome dela ecoava na sua mente como um mantra. Ele precisava vê-la, havia alguma coisa errada, mesmo sem saber como, ele podia sentir em cada célula do seu corpo. Levou quinze minutos para chegar ao hospital, ele passou por enfermeiras e médicos rumo ao elevador, pressionou o botão do andar da CTI e sentiu seu coração bater mais rápido conforme os andares pareciam passar mais devagar que o habitual. Encontrou uma confusão no corredor, os policiais que protegiam a entrada pareciam preocupados, ele correu até o vidro e viu Huang Tuo tentando reanimar Yan Da, pela sua expressão preocupada, parecia não estar funcionando.
Não!
— Yan Da! — Ele tentou entrar, mas os policiais o seguraram.
— O senhor não pode entrar.
— Yan Da! Yan Da!
O monitor cardíaco continuava oscilando de forma frenética e Huang Tuo berrava ordens que, para Shi, eram inaudíveis, os choques eram tão fortes que o corpo de Yan Da se erguia e caía novamente com brusquidão, lágrimas caíam pelo rosto de Shi enquanto ele gritava o nome dela e os policiais o seguravam com força.
— Huang Tuo, você precisa salvá-la! Tem que salvá-la! — Gritou.
Mas Yan Da estava indo para longe...
E o coração de Shi estava se perdendo com ela.
Notas:
*Gōngzhǔ [公主] — princesa
*bù kěnéng [不可能] — Impossível
*Duìle [对了] — Certo.
*Ren Xue Cheng [任雪城] — Cidade Ren da Neve
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