Love as Sakura | 爱如樱
12 Capítulo Especial [II] - Em algum lugar
4 mil anos depois...
Esses últimos acontecimentos pareciam um pesadelo distante. Acordei na sala de estar com a televisão ligada em um canal de filmes qualquer e o céu do lado de fora ainda estava escuro, mas a tímida claridade da aurora se prenunciava no horizonte. Meus músculos estavam travados por ter dormido no sofá e minha cabeça doía de tal forma que me via incapaz de lembrar sequer se havia tomado café no dia anterior. Contudo, era a sensação de vazio dentro de mim que incomodava. Eu era alfinetado pelo sentimento de que faltava alguma coisa, uma parte de mim, algo na minha vida e, por um instante, não consegui reconhecer meu rosto no espelho.
Incompleto. Estranho. Sozinho. Confuso.
Alguma coisa dentro de mim me lembrou que eu precisava trabalhar dentro de algumas horas, mas não conseguia me lembrar de muito mais que isso. Era como se toda a realidade que me cercava fosse fabricada e, mesmo assim, eu estava convencido que era real e essa sensação ganhava mais força ao ponto de me fazer levantar e tomar banho. A água extremamente gelada ajudou a me despertar de vez, mas a dor de cabeça não passou me forçando a recorrer a um analgésico. Quando cheguei ao quarto, após sair do banheiro, só então prestei atenção na pintura da parede em frente à minha cama.
Era uma majestosa cerejeira.
A pintura ocupava toda a parede, os grossos galhos acinzentados iam desde a base do espesso tronco, alongando-se em todas as direções com delicadas flores rosadas que destacavam-se ainda mais contra a tinta preta na parede. Olhando para aquele desenho, quase podia vislumbrar os galhos se movendo com a brisa gélida que soprava as pétalas perfumadas pelo ar, juntas, as flores tinham um matiz lilás e apenas quando se aproximava da árvore podia-se ver que eram, na verdade, um delicado tom de rosa. A perfeição da execução daquela pintura era tal que a árvore realmente parecia viva. Senti-me atraído para ela e toquei com os dedos a parede gelada como se esperasse sentir a aspereza do seu tronco, então fui engolido por uma espécie de visão.
A branca neve penetrava o tecido de suas roupas que se confundiam pelo branco impecável. Os longos cabelos prateados pairavam no ar com a brisa perfumada pelas flores de cerejeira que choviam por toda parte. Uma dor violenta oprimia seu coração enquanto ele segurava nos braços o corpo ferido da mulher cujo rosto sentia-se incapaz de olhar. A voz dela era um ruído distante que não conseguia distinguir a paisagem ao redor eram cinzas, neve e sangue. O rubro sangue dela. Eu via de longe, impotente e confuso, ao constatar que o rosto emoldurado pelos cabelos prateados era o meu.
Da mesma forma que fui sugado, a visão me repeliu com violência e cambaleei para trás, ofegante. Olhei minha mão como se esperasse algum tipo de resposta, mas havia só a vermelhidão por apertar a parede com muita força e o tremor que percorria meu corpo como um todo.
Minha empregada chegou às sete horas. Ela levou um susto quando me viu de pé e apressou-se em preparar o dejejum, a situação era engraçada uma vez que não me lembrava que horas costumava acordar. Era como se eu tivesse dormido por longos anos e parte da minha memória tivesse sido prejudicada no processo, ainda assim, ri da minha tolice ao imaginar tal absurdo. Talvez eu esteja assistindo muita ficção, pensei.
Cheguei à empresa da família por volta das nove horas, o dia ia passando de forma tão comum que, aos poucos, a sensação de estranheza ia cedendo lugar à racionalidade, mesmo que bem lá no fundo algo ainda sussurrasse que o vazio permanecia. Encontrei meu irmão saindo da sala da presidência, como sempre ele exibia uma expressão abatida, minha relação com meus pais não era a melhor e por causa disso eu saíra de casa cedo, mas Ka Suo continuava sob a rígida rédea do nosso pai e a asa superprotetora da nossa mãe.
— Ge! — Apressei-me para alcançá-lo. — Estou indo almoçar, me acompanha? — Esperava que uma mudança de ares ajudasse a distraí-lo.
— Não posso. — Suspirou. — Estou de saída para o aeroporto, acabei de ser enviado à Los Angeles para negociar um restaurante.
— Ge, não se sobrecarregue assim. Uma hora o pai vai ter de perceber que você tem uma vida fora da empresa, mas você precisa se impor mais para que ele se lembre disso. — Aconselhei. A impassividade de Ka Suo, às vezes, me tirava do sério.
— Eu sei. — Anuiu. — Não se preocupe comigo, Shi. Ah, antes que esqueça, preciso que encontre a senhorita Yue Shen sobre o projeto do hotel, não vou poder estar lá.
— Ela vai ficar decepcionada. — Sorri para provoca-lo. — As mulheres sempre preferem você.
— Não exagere. — Ele deu uma risada baixa, talvez por ser tão raro, quando Ka Suo sorria eu me sentia cheio de energia. — Não sou eu que vivo nas listas de solteiros cobiçados.
Não pude evitar uma careta. Aquelas famigeradas listas... o quê? Meneei a cabeça tentando puxar em algum ponto da memória o que elas significavam, até que, como num insight, lembrei-me das revistas femininas onde apareciam os solteiros mais cobiçados. As fofocas nunca paravam e sempre estávamos envolvidos em alguma delas, era irritante. Antes que tudo ficasse mais estranho do que já estava, despedi-me do meu irmão, não sem algum desapontamento, e fui buscar as informações das negociações.
Tirei o carro do estacionamento e, quando saí para frente do prédio, por alguma razão meu coração acelerou. Não entendi a razão, mas decidi ignorá-la e segui para meu destino, cheguei a Avenida Ren Xue e o sinal abriu para mim, mas bem nesse momento uma figura passou diante do carro e foi impossível frear antes de atingi-la, todo meu corpo congelou no assento quando a mulher desapareceu do meu campo de visão, saí apressado do carro para ver como ela estava e ligar para a emergência.
Uma mistura de frustração com aquele dia estranho mesclava-se com a preocupação da tarefa delegada à mim pelo meu irmão. Suspirei e me abaixei diante da mulher.
— Ei, você está bem?
A garota abriu os olhos por um momento, suas íris eram de um curioso castanho avermelhado e me olhavam com confusão. Todo meu corpo parecia ter sido golpeado com violência quando seus olhos encontraram os meus, não sabia dizer que espécie de sentimento era aquele, mas em segundos era como se tivesse diante de mim todas as respostas, só era incapaz de compreendê-las. Com lábios em um tom delicado de vermelho, ela balbuciou alguma coisa ininteligível antes de fechar os olhos outra vez. Não estava certo, mas pareceu ter sido "é mesmo você", mas não podia afirmar com certeza. Eu nunca a tinha visto antes, disso estava certo, uma ansiedade aguda começou a me pôr inquieto conforme mais pessoas nos rodeavam, era como se eu esperasse os flashes a qualquer momento, mas para minha sorte a ambulância chegou antes disso.
Eu havia conversado direto com Huang Tuo, o médico íntimo da minha família e bom amigo meu e de Ka Suo. Ele me prometera que trataria dela com toda a atenção e sigilo. Talvez ela fosse funcionária da Huo Enterprises e isso só me traria ainda mais problemas, mas o que importava naquele momento era que ela receberia o melhor atendimento e esperaria até que Huang Tuo me dissesse que ela estava livre de qualquer perigo, Liao Jian poderia cuidar dos problemas futuros.
No começo, senti uma tentação muito forte de tocá-la, mas, ao mesmo tempo, fui acometido por um medo tão intenso que não me atrevi a encostar um dedo nela, além disso, havia muitas pessoas por perto e cada passo errado, para mim, poderia desencadear uma catástrofe. Saí do hospital quando Huang Tuo me garantiu que ela ficaria bem e havia sofrido apenas uma concussão. Paguei as despesas hospitalares e, mesmo contrariado, fui embora. Estava quase atrasado para o compromisso com a senhorita Yue Shen e a última coisa que precisava para completar aquele dia bizarro era uma litania do meu pai sobre responsabilidade e compromisso no trabalho.
Quando vi Yue Shen pela primeira vez seus olhos escuros e letais foram como uma bofetada no meu rosto. Ela era fria, muito formal e séria demais, mas nenhuma dessas características — que estavam de acordo com sua posição — me desconcertou tanto quanto a sensação de que já a tinha visto antes. Disse a mim mesmo que, sendo uma herdeira importante do mercado asiático, eu poderia tê-la visto em alguma reportagem ou revista, ainda que ela não fizesse o perfil de alguém que dava entrevistas. A transação foi mais rápida e tranquila do que esperava e, me surpreendendo ainda mais, ela esboçou um enigmático sorriso antes de ir embora, como se soubesse de algo que eu não sabia.
O céu crepuscular me recebeu quando deixei o restaurante. Tratar de negócios era sempre igual, cansativo e demorado. Muitas vezes me perguntava que espécie de dever filial me mantinha naquele círculo vicioso. Eu sabia, no fundo, que tinha a ver com Ka Suo, enquanto meu irmão não fosse livre, eu não poderia seguir meu próprio caminho — embora esse sentimento me deixasse uma sensação de peso e estupidez. Foi enquanto pensava nisso que o vi.
Estava parado do outro lado da rua, encostado em um corsa prateado e me olhava fixamente. Eu tinha certeza que nunca o vira antes, mas o peso do seu olhar era tão opressor que entrei depressa no carro e respirei fundo várias vezes antes de dar a partida e me afastar daquela figura estranha.
— Huang Tuo. — Dei o comando de voz ao celular, conectado ao painel do carro via bluetooth, e coloquei o fone portátil na orelha direita. Ele atendeu no segundo toque. — Como ela está?
— Ela recebeu alta algumas horas atrás. — Contou ele. — Não havia nada realmente grave, a concussão pode causar alguns sintomas incômodos, mas ela ficará bem.
— Obrigado, Huang Tuo, por toda a ajuda. — Suspirei aliviado.
— Sabe que não precisa agradecer. — Mesmo sem vê-lo, não era difícil imaginar o sorriso carismático que iluminava seu rosto naquele instante, sempre com um ar provocador e zombeteiro. — Acho que você vai ficar mais surpreso quando eu disser quem ela é.
— Como assim, quem ela é? — Ergui uma sobrancelha para não tirar a atenção da estrada.
— Você atropelou ninguém menos que Meng Yan Da. — Anunciou ele com a voz mais baixa. — A filha de Meng Huo Yi.
— Gǒupì!* — Murmurei entredentes.
Pisei no freio com brusquidão e precisei dar seta para estacionar no meio fio. A surpresa — nada agradável — foi como um soco no meu estômago. Preocupado, Huang Tuo começou a gritar no fone para saber se eu estava bem e acalmei-o quando eu mesmo consegui recobrar o autocontrole. De todas as pessoas na China inteira eu tinha que atropelar logo Meng Yan Da?! Apertei as mãos no volante e encostei a testa nelas fechando os olhos e imaginando a confusão que me esperava no dia seguinte.
— Vamos lá, não entre em pânico ainda. — Disse Huang Tuo como se estivesse me vendo. — Não sei se foi a concussão, mas ela não agiu em nada como o pai ou o irmão, mostrou mais educação que a família inteira junta. Com sorte ela vai te ligar e pedir algum favor sórdido que beneficie o pai dela e o assunto estará encerrado.
Quase ri da suposição inocente. Estava na cara que ele não conhecia a família Meng. O deus do destino devia estar furioso quando escreveu minha vida nas estrelas porque me se sentia muito sem sorte. Despedi-me de Huang Tuo e voltei à pista em direção à minha casa, pediria orientações a Ka Suo e entraria em contato com Liao Jian, temia que, já na manhã seguinte, a policia ou uma frota de advogados estivesse na minha porta prontos para promover o escândalo do ano.
Entrei com o carro no estacionamento do condomínio e saudei o porteiro com um aceno breve. Minha cabeça doía e aquele dia estranho parecia estar passando em câmera lenta. Atravessei as portas de vidro bem a tempo de ver Meng Yan Da cambalear para dentro do elevador. Em um canto do saguão, o estranho de minutos atrás me olhava com o mesmo sorriso enigmático e, ou eu estava ficando maluco, ou ele estava mesmo me seguindo. Como ele conseguira entrar ali? O guarda na guarita não permitia a entrada de ninguém que não fosse morador do condomínio ou autorizado por um. A menos que...
A menos que só eu pudesse vê-lo.
Um tremor perpassou todo meu corpo. Meneei a cabeça afastando o pensamento e corri na direção do elevador, era agora ou nunca, precisava esclarecer as coisas com a senhorita Meng e, se fosse o caso, dar a ela a compensação que quereria pelo acidente. Ainda sentia o olhar do homem estranho queimando minhas costas quando coloquei a mão entre as portas do elevador para impedi-lo de fechar e entrei, meu timing foi realmente bom porque ela pendeu para frente bem no momento que, surpreso, me inclinei para ampará-la e impedir que caísse. Havia uma fina camada de suor em sua testa, ela estava muito pálida e sua visão não focava em nada porque ela comprimia os olhos como se a claridade os ferisse.
— Meng xiaojie, você está bem?
Minha preocupação era real. Não era médico, mas sabia que a concussão podia ter alguns agravantes que, mesmo sem requerer alarme, necessitavam de cuidados. Ela claramente não estava bem. Estava prestes a erguê-la nos braços quando, de modo inesperado, ela vomitou sobre meu terno. Apertei depressa o botão do sétimo andar enquanto tirava o paletó e tentava não sujá-la, segurei-a quando ela caiu inconsciente, não sabia onde ela morava e, dada a situação, preferi leva-la para meu apartamento.
Entrei em casa e lembrei que minha empregada havia pedido folga, suspirei enquanto levava Yan Da para meu quarto e me livrava das roupas sujas. Coloquei algo confortável e fui até a cama verifica-la, estava inquieta e parecia que vomitaria de novo a qualquer momento, apressei-me em pegar o lixeiro do escritório no meu quarto e aproximei dela bem a tempo de receber outro jato de fluxo gástrico.
— Acho que foi uma má ideia você ter deixado hospital cedo. — Comentei, colocando o lixeiro de lado e lhe oferecendo um copo com água.
Ela parecia atordoada, olhava em volta ainda um pouco zonza. Listei na minha mente os sintomas da concussão enquanto tentava avaliar se deveria chamar Huang Tuo para vê-la. Mesmo naquela situação pouco favorável, me impressionei em como Yan Da conseguia se manter linda.
— Meng xiaojie, devo chamar o médico para vê-la? A senhorita parece confusa.
— Que... quem é você? — Quis saber, ainda estava com dificuldade em articular palavras.
Desculpei-me pelo que acontecera mais cedo àquele dia. Expliquei toda a situação e me desculpei também por não tê-la esperado acordar quando deixou o hospital, vendo o estado dela naquele momento me senti irresponsável, poderia ter evitado aquilo se a tivesse mantido no hospital ou trazido eu mesmo ela para casa. Mesmo meio entorpecida, senti uma frieza protetiva em sua conduta, não podia estar certo se era pela situação ou algum outro motivo, mas ela parecia com medo de mim, pois seus olhos, que ainda tentavam focalizar meu rosto, esgazearam-se quando perguntou:
— Yi-Ying Kong Shi? Você é Ying Kong Shi?
— A senhorita me conhece? — Sorri. — Receio não termos sido apresentados apesar de ambas as famílias estarem no mercado.
— Preciso ir pra casa. — Fez menção de levantar, mas eu a detive empurrando suavemente seus ombros de volta à cama.
— O doutor Huang me disse que você precisa descansar. — Expliquei. — Se houver qualquer coisa que possa fazer para compensá-la pelo que aconteceu, por favor, não hesite em me dizer. Perguntei em que andar você morava no elevador, mas a senhorita acabou desmaiando antes de conseguir responder.
— Eu...
Hesitou, seu rosto voltou a ficar vidrado por um instante e, de repente, seus olhos voltaram a se arregalar ela cobriu a boca com as mãos e me lançou um olhar do mais puro terror.
— Tian de! Eu sinto muito!
Suas bochechas ficaram de um adorável tom escarlate. Não me recordava de alguma vez ter visto algo tão lindo em toda a minha vida. Não pude conter uma risada enquanto me apressava em acalmá-la.
— Não há problemas. Você sofreu uma concussão, Huang Tuo me disse por telefone. Mandei meu terno para a lavanderia, não precisa se preocupar com isso. Por favor, descanse aqui hoje. Há um quarto de hóspedes e posso ficar lá sem inconvenientes. Tomei a liberdade de mandar trazerem o remédio que ele receitou, está em cima do criado mudo junto com um analgésico. Tome-os e durma um pouco, pedirei que lhe tragam algo para comer mais tarde e, se estiver melhor, pode ir para seu apartamento.
Por sorte, ela não se opôs. Ofereci seus remédios com um copo d'água e a deixei no quarto para descansar.
※ ※ ※
Na sala de estar, peguei minha flauta e comecei a tocar. Fazia muito tempo desde que eu havia produzido música com ela — a quem batizei de Yun Fei não sei por qual motivo. Talvez fosse a estranheza daquele dia confuso, mas a música melancólica saiu tão naturalmente que era como se eu a tocasse com frequência e não pela primeira vez. Lembrei-me de Ka Suo, da tristeza constante que obscurecia o brilho de seus olhos. Não muito depois disso, ele me telefonou.
Conversamos sobre a situação com Yan Da. Ele tinha uma opinião diferente da minha e, por um instante, me senti bem infantil. Talvez eu estivesse sendo injusto com ela, não a conhecia e Ka Suo tinha razão, tirar conclusões precipitadas sobre alguém era errado. Mas meu conhecimento de causa acerca dos demais filhos de Huo Yi me levava a duvidar sobre a personalidade dela, ainda que, momentos atrás, ela tenha se mostrado preocupada com meu terno e em nenhum momento tenha me acusado de atropelá-la.
Tudo bem, talvez eu estivesse sendo realmente injusto.
Tão logo a chamada foi encerrada, suspirei. Sentia falta de Ka Suo, se ele estivesse comigo a situação não teria chegado àquele extremo. Estava prestes a telefonar para Liao Jian quando a voz de Yan Da às minhas costas me fez saltar de susto.
— Não sou uma mercenária como você e seu irmão pensam. Você não devia ser tão duro com seus julgamentos, Ying xiānshēng.
— Meng xiaojie, eu a acordei? Sinto muito. — Era-me impossível esconder o constrangimento.
— Poupe o tempo do seu advogado, não vou fazer nenhum show como está pensando. — Atacou. — E não sou tão próxima do meu pai ao ponto de ser cega e injusta. Se me der licença, vou para minha casa.
Quando deu dois passos, seu corpo perdeu a força e ela caiu. Apressei-me em segurá-la antes que se machucasse, ela era leve como uma pluma, embora não parecesse ter o perfil de mulher fútil que vive fazendo dietas malucas. Levei-a de volta para o quarto e acomodei-a sobre a cama, ela parecia ainda mais pálida do que quando a vi no elevador, aquilo não era bom.
— Tudo bem, tudo bem, sinto muito! Eu não deveria ter dito aquilo, mas pode me repreender quando estiver recuperada? Apesar de não ser grave, não leve a concussão tão descuidadamente.
Yan Da fez uma careta evitando o contato visual. Ela estava mal, mas sua presença de espírito era tamanha que recusava-se a se dobrar. Nunca vi uma criatura tão adorável — e a reafirmação dessa constatação me surpreendeu novamente — mal me dei conta de que a estava encarando até que seu rosto voltou a tingir-se de escarlate. O som de batidas na porta me deu a chance de escapar de mais aquele momento desconfortável entre nós, mas minha alegria durou pouco quando abri a porta e fitei Lan Shang bem atrás do entregador de comida.
Implorei que Buda me enchesse com um átimo que fosse da sua paciência. Fechando a porta, passei por ela como se não a visse e me dirigi à cozinha para colocar a comida em um prato e arrumar numa bandeja, assim Yan Da não precisaria levantar para comer.
— Lan Shang, eu aprecio que veja minha casa como a sua, mas não é um bom momento para visitas agora.
— Você não atendia o telefone, vovó quer ter uma reunião com Ka Suo o quanto antes. — Anunciou ela cruzando os braços.
— Lan gūniáng* todos nós somos gratos pela ajuda da sua família à ZhangYing em um momento de necessidade, e agradecemos mais ainda o carinho que sua avó tem pela nossa família. Contudo, não me lembro da liberdade amorosa do meu irmão estar incluída no contrato de colaboração entre a Hǎowán Hǎi* e a ZhangYing.
— Eu não...
— Sei bem o que está tentando fazer. Ka Suo não tem qualquer pretensão de se casar com você. Pode ser que outras famílias ainda optem pelo retrógrado sistema de arranjar casamentos com base em benefícios mútuos, mas a nossa não é uma delas. Minha mãe é contra esse tipo de coisa e, acredite, Ka Suo vai escolher sua própria esposa quando achar que é o momento certo. Quanto antes entender isso menos tempo vai sofrer. Agora, por favor, volte para casa, já está bem tarde.
Eu tinha consciência de que havia sido muito duro com ela, mas não havia outra forma de fazê-la enxergar o papel ridículo que estava se prestando por alguém que não retribuía seus sentimentos. Lan Shang era irritante e sua conduta infantil e mimada minou até a última gota da minha tolerância. Suspirei quando finalmente fiquei sozinho de novo, terminei de organizar a bandeja e levei-a para Yan Da.
— Eu não estava certo sobre o que você gostava, então pedi algo leve.
— Por que está fazendo isso? — Sua voz era fria, ela parecia estar na defensiva. — Já disse que não vou fazer nada contra sua empresa. Não tem que me bajular.
— É por minha causa que você está assim, o mínimo que posso fazer é cuidar de você. — Expliquei reprimindo o impulso de me encolher. — Me deixe saber se precisar de mais alguma coisa.
— O que eu poderia pedir a alguém que nem me conhece, mas já pensa o pior de mim? — Alfinetou e, dessa vez encolhi os ombros sentindo meu rosto queimar.
— Eu realmente sinto muito. Não tive as melhores experiências com seu irmão Shuo Gang e acabei julgando a senhorita por ele, por favor, aceite minhas desculpas.
— Ying Kong Shi, você é como o sol no meio de uma tempestade de neve.*
A forma como aquelas palavras soaram melódicas na sua voz aveludada fez um novo tremor subir pela minha espinha. Era a primeira vez que ficava tão fascinado por uma mulher. Mesmo em circunstâncias tão adversas, cheguei a agradecer mentalmente ao deus do destino por tê-la posto em meu caminho. Todos os sinais na minha mente gritavam que eu precisava saber mais sobre ela. Yan Da ergueu uma sobrancelha, seus olhos escuros e graciosos me olhavam com certo desafio.
— Vai ficar aí me olhando?
Balbuciei um pedido de desculpas e deixei o quarto.
※ ※ ※
A noite seguia tranquila e me entreti com um livro até o sono vencer. Era madrugada quando ouvi o grito de Yan Da vindo do meu quarto. Acordei sobressaltado e pulei da cama, ainda meio zonzo, para assisti-la. Para meu choque, quando a avistei ela estava coberta de suor e ardia em febre. Ela se remexia inquieta sobre a cama e chamava por alguém de nome Peng Peng. Quem seria? Ex-namorado? Seu semblante era de sofrimento, ela agitava os braços em agonia como se tentasse alcançá-lo.
— Meng xiaojie. — Sentei-me ao seu lado e segurei a mão dela e tocando-lhe o ombro levemente. — Meng xiaojie, acorde.
— Peng Peng! — Gritou com angústia. — Deixem-no em paz!
— Meng xiaojie! — Tomei seu rosto entre as mãos apenas para constatar o óbvio, que ela ardia em febre. — Droga...
Tão logo meus dedos tocaram sua pele, minha mente foi sugada outra vez.
— Gōngzhǔ*.
O homem de longos cabelos e trajando vestes azuis aproximou-se da cela de Ya Da. Sua expressão taciturna contrastava com o sorriso brilhante dela, mesmo abatida dentro daquela cela, com suas energias minadas, ela ainda sorria como se nada tivesse acontecido. Não importava quão ferida estivesse, Yan Da sempre sorria, ele havia aprendido isso no pouco espaço de convivência.
— Yun Fei! Você está bem? — Ela o analisava com ares preocupados.
— Estou bem, mas parece que vossa alteza não. — Ele a analisou com ar sério.
— Húshuō*. — Protestou ela dando de ombros. — Só esgotei um pouco a minha alma, algumas horas de sono e colocarei esta cela abaixo.
O homem quase sorriu, sabia que ela era orgulhosa demais para admitir qualquer tipo de fraqueza. Em contrapartida, seu coração aqueceu-se, ele lembrava das horas que passara sendo torturado por Shuo Gang, se ela havia esgotado sua alma para salvá-lo...
— Alteza, como pode desperdiçar seu poder com um simples escravo? Não tinha que desgastar sua alma para me salvar.
— Fèihuà!* — Brigou ela parecendo insultada. — Você não é meu escravo, um escravo se arriscaria para me livrar daquele casamento forçado?
Dessa vez, um sorriso se desenhou no sempre impassível rosto do homem.
— Vossa alteza me disse que, uma vez que a livrasse do compromisso, me libertaria do fruto de fogo. — Lembrou ele.
Ele viu a expressão do rosto de Yan Da entristecer.
— Yun Fei, como você pode ser tão insensível? — Suspirou ela. — Minha própria família está disposta a me sacrificar para conseguir o que quer, neste mundo, além de você e Peng Peng, estou sozinha. E Peng Peng está morto. Você é o único que se preocupa comigo. Meu único amigo.
Caí sentado no chão quando fui expulso da visão. Meu coração batia agitado e meu corpo inteiro tremia. Yan Da ainda se remexia na cama, febril. Apressei-me em buscar água gelada e uma toalha de mão para colocar sobre o rosto dela, sem hesitar, mesmo apesar da hora, liguei para Huang Tuo. Minha cabeça ainda doía horrivelmente, me sentia enjoado e a preocupação não estava ajudando em nada os sintomas.
— Espero que seja importante pra me ligar a essa hora bem no meu dia de folga. — A voz sonolenta soou do outro lado da linha.
— Ela está com febre! — Reclamei ainda pressionando a toalha molhada na testa dela.
— Ying Kong Shi, o que você é, uma criança? — Reclamou o médico. — Que tipo de homem não sabe tratar uma febre?
— Ela não deveria estar com febre, você disse que era só uma concussão! — Rebati, irritado. — E muitas das coisas que envolvem cuidar de uma febre eu não posso fazer com uma mulher, Huang Tuo!
— Por exemplo? — O maldito estava mesmo me provocando. — Qual a dificuldade em resfriar um corpo humano?
— Está me dizendo para enfiar a mão dentro da blusa dela?! — Baixei a voz temendo que ela acordasse, eu queria socar a cara desse médico. E por que diabos eu estava corando?! — Mesmo com uma toalha e uma situação isso não é apropriado.
— Bem, pelo menos isso prova que você está vivo, afinal, se consegue se constranger nessa situação. — Riu. Fiz uma nota mental para bater nele quando o visse de novo. — Eu cheguei a pensar que você era gay, não que eu tenha algo contra, claro.
— Isso não é hora para piada. — Ralhei, frustrado. — O que eu faço?!
— Onde está sua empregada?
— Precisou viajar para Tianjin, está com a mãe doente.
— Bem, então a menos que uma de suas irmãs venha de Xiam tratar a febre dela, você vai precisar dar uma de enfermeiro hoje, até porque a culpa é sua. — Devolveu Huang Tuo com um bocejo. — Jia you*!
— Ei, espera, Huang Tuo!
Mas ele desligou. O maldito médico desligou! Fiquei apavorado, a febre não dava sinais de ceder e não via qualquer alternativa ao não ser fazer o procedimento recomendado.
— Eu não posso fazer isso! Não! — Disse para mim mesmo. — Me sinto um tarado só de tocá-la sem permissão, como eu vou... Aaaaaah!
Estava prestes a chorar de frustração. A blusa dela estava grudada no corpo, assim como os sedosos cabelos escuros. Tinha certeza que eu morreria no dia seguinte quando ela acordasse e descobrisse, mas não podia deixar aquilo agravar para algo mais sério — embora eu não fizesse ideia do que seria. Com uma careta, fui até o closet e peguei um suéter limpo, troquei a água por outra mais gelada e apaguei todas as luzes do quarto. Não pode ser tão difícil! Pensei. Quando ela acordar eu me ajoelho e deixo que me açoite se for preciso.
Tirei o blazer que ela vestia e, em seguida, abri os botões de sua blusa tomando o cuidado de não tocá-la descuidadamente. Meng xiaojie, por favor, me perdoe, eu juro que não tenho segundas intenções! Ergui seu tronco e apoiei o queixo dela no meu ombro, mantendo os olhos fechados apesar de estar o mais profundo breu no quarto. Tiro a blusa e passo a toalha gelada da nuca à base de suas costas. Eu juro por todos os deuses do budismo e taoísmo que não estou vendo nada! Gritei mentalmente. Ela continuava chamando por Peng Peng, sua voz era quase um sussurro inaudível agora, seus braços se fecharam ao meu redor e meus olhos se arregalaram, senti que até mesmo meu couro cabeludo ficou vermelho nesse momento.
— M-M-M-Meng xiaojie... — Afastei as mãos dela, imóvel. — N-n-n-n-ni g-g-g-ganshenme?*
— Peng Peng... wo hen xiang ni...*
Senti suas lágrimas pingarem na minha camisa e meu coração se encheu de pesar. Com diligência e muita cautela, resfriei o tronco dela o melhor que pude na escuridão intensa e, torcendo para acertar, coloquei o suéter pela sua cabeça, acomodando-a em travesseiros secos. Sem acender a luz em nenhum momento, pus uma cadeira ao lado da cama e acomodei a toalha molhada na sua testa outra vez. Inesperadamente, ela segurou minha mão impedindo-me de sair do quarto, vigiei sua temperatura até o cansaço me vencer e eu adormecer ao seu lado.
※ ※ ※
— Tudo que eu quero agora é ficar longe do senhor!
Depois daquela despedida conturbada, pensei que nunca mais veria Yan Da outra vez. Ainda assim, fosse nos meus sonhos ou pesadelos, eu era incapaz de tirar o rosto dela da cabeça. E a pior parte era que não conseguia contar a ninguém sobre isso, nem mesmo a Ka Suo.
Quando a vi de novo pela manhã no elevador, meu coração pulou batidas. A situação ainda era desconfortável, mas o simples fato de estar perto dela parecia... certo. Eu ainda sabia tão pouco a seu respeito. Mesmo as pistas que ela me fornecera sobre sua relação com o pai eram rasas demais para formar uma opinião. Mas, se havia algo do qual estava certo era que ela me fascinava. A força de seu espírito, a agudez de seu caráter incisivo e a sua personalidade única.
Mal pude conter a surpresa ao vê-la entre os candidatos para vagas na ZhangYing. Claro, estava óbvio que aquilo era uma jogada — eu não sabia se por parte dela ou do pai —, mas já dizem que a melhor estratégia é manter os inimigos ainda mais perto que os amigos. Além do mais, eu queria entender que tipo de visões ou ligação estranha era aquela que sentia por ela. Por que ela assombrava meus sonhos e, sobretudo, queria sua presença por perto. Essa última razão era ainda mais forte que as demais.
No momento em que ela foi trazida à minha sala, com o rosto adorável e a habitual postura defensiva, reprimi a vontade de provoca-la quando me lembrei do seu estado em nosso encontro minutos atrás. Ainda assim, não podia deixá-la fugir tão facilmente. Sorri.
— Meng xiaojie, que prazer em revê-la.
Em meu coração agitado, uma única frase era repetida incansavelmente:
Como prometido, finalmente te encontrei.
Embora não fosse capaz de compreender aquela certeza dentrode mim, a sensação de concordância era permanente e o júbilo compensava as dúvidas preenchendo dentro de mim o vazio inexplicável. A única coisa sobre a qual não restavam dúvidas era que não importava o que houvesse, eu nunca deixaria ela ir embora.
Notas:
*Gǒupì [狗屁] — Essa palavra seria nossa interjeição para o palavrão "merda". 狗 é cachorro e屁 é, literalmente, peidar. Ao pé da letra seria "peido de cachorro" ahahaha. Mas eu coloquei aqui pra não usar o palavrão em si (não sou muito fã de usar palavrões), geralmente, no dia a dia, eles usam em inglês "shit", essa palavra é um equivalente entre muitos porque, bem, eu quis usar em mandarim e pronto kkkkkk.
*Gūniáng [姑娘] — significa "menina", mas pode significar senhorita em um sentido formal. Ainda mais formal que xiaojie. Aqui, Shi usa essa palavra de forma irônica.
* Hǎowán hǎi [好玩海] — Se traduz como "oceano divertido"
*como o sol no meio de uma tempestade de neve — ela usa isso no sentido de contradição.
*Gōngzhǔ [公主] — princesa
*Jia You [加油] é uma expressão de encorajamento como "boa sorte", tem o mesmo sentido do Ganbate [頑張って] no japonês, o Fighting do coreano e o Susu [สู้ๆ] do tailandês.
*Ni ganshenme? [你干什么] — O que você está fazendo?
* wo hen xiang ni [我很想你] — Eu sinto muito a sua falta.
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