Love as Sakura | 爱如樱
11 Capítulo Especial [I] - Impotente
Como príncipe da tribo do gelo, desde cedo aprendi a respeito da lealdade e dos deveres do trono para o qual, um dia, poderia estar destinado. Afinal, a posição de rei é muito solitária e cercada de vários perigos, portanto, mesmo preparado para assumir o lugar do meu irmão, eu havia sido treinado para protegê-lo. Mesmo sendo irmãos que supostamente deveriam brigar pelo poder, Ka Suo nunca me viu ou tratou como um inimigo.
Por ser o segundo filho — e muitos diziam pelos corredores e ruas do reino que eu só havia sido concebido para firmar os laços entre o clã do gelo e o das sereias — e o mais forte entre todos os ilusionistas do reino, sempre tive em mente que nunca ascenderia ao trono e tampouco tinha esse desejo, tal como sabia que desejava mais que qualquer coisa a felicidade do meu irmão.
Minha mãe, Lian Ji, era a concubina real. Pelas leis da tribo do gelo, todos os reis tinham de se casar com princesas da tribo das sereias para, assim, gerar descendentes fortes. Contudo, o rei Ling Chao quebrou essa tradição ao se casar com Chen Tong, por quem se apaixonou. Meus avós, é claro, foram contra, mas vendo que ele não podia ser persuadido a mudar de ideia, forçaram-no a casar-se com a minha mãe como sua segunda esposa. Talvez por isso, apesar de ser o segundo filho, meus poderes fossem muito superiores aos de Ka Suo, mas ele era o filho da imperatriz do gelo e, por isso, legítimo herdeiro do trono.
Tal como Ling Chao, minha mãe também não estava nem um pouco inclinada a casar-se com o impassível rei do gelo, mas fora forçada pela rainha das sereias a aceitar o acordo nupcial. Eu era o oitavo príncipe do gelo, o mais jovem, e único filho de Lian Ji uma vez que o rei só a procurou uma única vez pela obrigação da consumação do casamento e, após isso, ambos se tornaram nada mais que estranhos. A imperatriz Chen Tong nunca gostou da minha mãe, entretanto, em sua defesa, nunca me tratou com indiferença como meus outros meio irmãos, meu pai, os oficiais e os súditos da cidade Ren da Neve. Nunca reclamei desse tratamento porque eu tinha Ka Suo, desde que nasci ele me acolheu e me amou de forma incondicional.
Na frente do meu irmão todos me tratavam com benevolência e afabilidade, cuspindo uma cortesia falsa que me enojava, por isso, desde muito cedo, aprendi a erguer ao meu redor uma parede de frieza e impassividade, poderia não ser a melhor tática, mas além de me proteger da falsidade da corte, me mantinha alerta para perceber as nuances daqueles que me rodeavam e, consequentemente, estavam próximos ao meu irmão. Para alguém que seria o futuro rei da tribo do gelo, Ka Suo pecava ao ser benevolente demais e nunca medir até onde ia a lealdade dos seus "amigos".
Não era culpa dele, eu sabia. Havíamos sido criados assim.
Graças a Ka Suo pude aprender sobre o amor em sua forma mais sublime. Mesmo que não tenha sido forjado na arte de cultivar em meu coração — transformado em gelo após tantos anos tentando sobreviver na cidade Ren — um sentimento tão profundo por outra pessoa além do meu irmão, não fosse por Ka Suo, ter-me-ia transformado em uma pessoa fria, insensível e, pior, cruel. Não obstante, mesmo o conhecimento de um sentimento tão nobre não pôde me guiar em algumas das decisões mais importantes da minha existência.
Só vim a descobri-lo quando conheci Yan Da.
Ao contrário de meu irmão, cujo casamento com a princesa sereia Lan Shang estava imposto, não havia qualquer pressa — ou impedimentos — para meu próprio matrimônio desde que ele fosse aprovado pelos meus pais. O rei nunca prestou atenção em mim, para ele eu era apenas um peão treinado para manter Ka Suo vivo e seguro, pode parecer insensível da minha parte, mas não aprendi a amá-lo ou mesmo respeitá-lo como um pai, eu o via apenas como um rei e este dever que me fora confiado era tratado com máxima competência de minha parte. Tampouco meu coração, mesmo cercado de belas flores na cidade Ren, se sentia inclinado a doar-se para alguém que não fosse meu irmão.
Quando a guerra entre nossa tribo e a do fogo finalmente eclodiu após séculos de tensão silenciosa, a cidade Ren foi invadida pelos soldados do fogo e meus irmãos foram para a batalha. Sendo o mais jovem dos príncipes, fui impedido de lutar e forçado a, junto com meu irmão, fugir para o reino mortal. Naquela época, ainda criança, vivi os duzentos anos mais felizes de toda minha vida, livre das rígidas regras reais e da falsidade dos membros da corte de gelo. Ka Suo era minha única família e mesmo minha mãe, por quem nutria algum afeto, foi esquecida.
Embora seu casamento estivesse certo, meu irmão não demonstrava qualquer interesse na princesa sereia ou em qualquer outra mulher. Em seus olhos tudo que podia ver era uma constante melancolia e solidão, menos quando olhavam os meus, então podia vislumbrar um brilho de amor e ternura, por isso daria qualquer coisa para ver Ka Suo feliz. A centelha do amor só ardeu em seus olhos quando ele viu Li Luo pela primeira vez. Ela era a mais jovem e uma das melhores feiticeiras do império da neve, contudo, pelo fato de ser mestiça nunca seria capaz de se tornar uma ilusionista, apenas uma poderosa feiticeira. Ninguém além de mim seria capaz de dizer que Ka Suo havia se apaixonado, ninguém o conhecia como eu.
Nessa mesma época, enquanto fugíamos dos soldados do reino de fogo, meu irmão e eu nos separamos e foi assim que conheci Yan Da, filha de Huo Yi. Estava um pouco desorientado após cair no lago do mundo mortal, fiquei inconsciente por três dias e, ao acordar, me vi no acampamento dos soldados da tribo do fogo, eles haviam sido instruídos a procurar por meu irmão e eu, por isso, com minha identidade mortal, fingi ser um homem comum para Yan Da que nomeou-me Yun Fei*. Um nome que adotei temporariamente.
Precisava encontrar meu irmão, mas vi naquela situação uma oportunidade de descobrir os passos da tribo do fogo. Contudo, não esperava que a princesa do fogo, diferente de seus cruéis irmãos, fosse alguém justa e gentil, embora muito orgulhosa se recusando a receber ajuda ou demonstrar fraqueza. Em parte, como um príncipe, eu era capaz de entende-la, sendo uma mulher, por melhor que fosse sempre seria subestimada e comparada aos homens de sua família. Mas descobri muito cedo que Yan Da podia ser muita coisa, mas fraca não era uma delas. Seu poder mais forte encontrava-se no seu coração.
Uma fração muito pequena de mim sentiu-se mal ao traí-la. Nunca fui cego aos seus sentimentos por mim, mas sendo filha do inimigo de nosso clã, era-me impossível dividir minha lealdade. Entretanto, por várias vezes ela salvara minha vida, uma em especial me marcou profundamente. Enquanto as tropas da princesa vasculhavam o mundo mortal atrás dos últimos príncipes do gelo, Shuo Gang, o único irmão mais velho ainda vivo de Yan Da, apareceu no acampamento para ver o andamento das buscas e fazer um acordo de casamento com o guardião do norte.
Porém, Yan Da se recusou a casar com o filho do guardião e, sabendo que isso enfraqueceria seus planos, Shuo Gang acreditou que era eu o causador da recusa — sabia que ele não estava errado, mas me recusava a confirmar suas suspeitas —, assim, ele me prendeu para torturar. Eu a vi apanhar para me defender, ouvir seu irmão lembra-la que, como princesa da tribo do fogo, ela devia obediência a Huo Yi e não podia ter sentimentos por nada e ninguém, assisti-a ser humilhada e permaneci impotente. Naquele momento, enquanto a dor me consumia como um veneno lento, meus olhos contemplaram a tristeza nos olhos de Yan Da que enchia de lágrimas seu rosto de fada ao se ver entre mim e seu irmão mais velho.
Ainda assim ela me escolheu.
O erro de Shuo Gang era sempre subestimar a força de Yan Da. Ele acreditava tão piamente que ela estava abaixo dele não apenas por ser mulher, mas em habilidade de guerra que, quando se viu derrotado por ela, foi forçado a engolir seu orgulho e me deixar ir. Já havia visto Yan Da em batalha antes, mas nunca a vi tão feroz quanto naquele curto embate contra seu irmão. O ódio nos olhos de Shuo Gang poderia ter facilmente incendiado a tenda sob a qual estávamos. Quando ele foi embora, Yan Da tratou minhas feridas com devoção e diligência e sacrificou metade da sua própria essência para me salvar.
Mesmo assim eu a traí. Deixei-a ir embora sem sequer agradecer por ela ter me oferecido seus sentimentos sinceros, mas talvez eu tivesse vivido tanto tempo congelando meus sentimentos que me tornara incapaz de sentir algo por quem quer que fosse. Ou era nisso que me fazia acreditar, porque nenhuma das horas de tortura nas mãos do príncipe do fogo doeu mais em mim do que ver o rosto decepcionado de Yan Da antes de virar as costas magoada e ir embora.
Quando finalmente reencontrei meu irmão e voltamos juntos à Cidade Ren, eu sabia dos seus planos de se casar com Li Luo. Era bom o suficiente para perceber que o caráter reto da feiticeira estava à altura do meu irmão, assim como a reciprocidade de seus sentimentos e a certeza de que ela poderia fazer Ka Suo feliz me encheu de uma felicidade indizível, único sentimento capaz de me fazer deixar de lado a sensação tormentosa do que fizera com Yan Da e do quanto — mesmo sem admitir — eu sentia falta dela.
Nossos pais, é claro, foram contra o casamento entre eles. Ka Suo, como futuro rei do Império da Neve, só poderia esposar alguém do Palácio do Mar, uma completa hipocrisia por parte do rei que, contrariando meus avós, se casou com uma princesa do gelo. Quando a primeira neve caiu na Cidade Ren, Li Luo havia desaparecido. Corriam muitos rumores no castelo, alguns de que ela havia ido embora do império, outros que havia partido para o mundo mortal. Mas eu sabia a verdade, o rei a havia feito algo contra ela. Xin Jiu disse a verdade a Ka Suo, a dura verdade que ninguém mais tinha coragem de dizer e, mesmo eu, incapaz de vê-lo sofrer, omiti.
Ka Suo imergiu em uma languidez mortal. A tristeza sempre presente em seus olhos alcançou uma força que me partia o coração só de olhá-lo. Queria fazer algo por ele, poder despertá-lo daquela letargia. Meu irmão não tinha ideia que sua maior arma era a bondade de seu coração.
— Por que não vai atrás dela? — Indaguei.
— Para que? — Devolveu. — Ela pode estar morta.
— Isso é apenas uma possibilidade, ge. Não é algo certo. — Argumentei. — Você quer tanto assim ser rei ao ponto de renunciar ao seu coração?
— Como poderia abandonar meus pais, meu povo e você dessa maneira?
A dor em suas palavras era evidente, mas quem eu ouvia ali não era o meu irmão, era o rei que ele havia sido treinado para ser, calando a voz das suas vontades e curvando-se a um reino que nunca almejou governar. Uma parte de mim era revolta e a outra era tristeza.
— Por favor, não me use como uma desculpa para sua covardia. — Fechei as mãos em punho. — Ge, se um dia eu amar alguém, estarei mais que disposto a desistir de tudo por essa pessoa.
Nunca seria capaz de imaginar que aquelas mesmas palavras ecoariam contra mim no instante que segurei o corpo de Yan Da nos meus braços quando, mais uma vez, ela se sacrificou para salvar a minha vida.
Meu laço com meu irmão falou mais alto que meus sentimentos por ela, sentimentos estes que ainda não conseguia compreender em sua totalidade e, na minha covardia, decidi reprimir. Mesmo sendo uma princesa da tribo do fogo, ela se virou contra sua família para ajudar a minha, ainda assim eu matei seu pai na frente dela, mais pela fúria de ele ter sido capaz de sacrificá-la para me atingir do que pelo ódio cego de ele ser a causa da morte de Ka Suo.
Enquanto Yan Da desfalecia nos meus braços, o sangue maculando a neve sob nós, desejei ser capaz de derramar as lágrimas que enchiam meu coração, mas eu havia me tornado uma montanha de gelo, impenetrável e insensível. Meus olhos se quer eram capazes de vê-la agonizar, enquanto meu coração gritava contra mim, sua alma — a mesma que um dia salvara minha vida — se desfez no ar como faíscas de uma chama que nunca acenderia novamente.
— Yan Da... você foi a minha mais bela e corajosa amiga. — Sussurrei para o vazio. — Eu definitivamente vou te encontrar de novo... continuarei procurando até o dia que eu não existir mais. Eu te prometo.
Eu havia escolhido Ka Suo e isso me fizera perdê-la para sempre. Por isso, fui firme em minha escolha até o final. Quando você não tem mais nada a perder, tomar decisões não é difícil.
Subi no topo da montanha Huan Xue e pulei transformando-me no ar em um pássaro de neve. A vida de Ka Suo tinha um preço tal qual paguei pela minha escolha por ele. Fechei meus olhos quando meu corpo foi em direção à rocha e a dor foi tão rápida que quase não existiu quando minha cabeça se chocou contra a pedra duas palavras ecoavam dentro de mim:
Yan Da.
Então, o mundo desapareceu.
*Yun Fei [云飞] — algo como nuvem flutuante.
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