Love as Sakura | 爱如樱

71 第59章 A essência do silêncio - Parte III


Um dia antes do eclipse

Todos estavam recolhidos em seus aposentos tentando descansar após vários dias de trabalho incansável, recuperações difíceis e sentimentos à flor da pele. A incerteza era como uma névoa acima de suas cabeças, embora Huang Tuo mantivesse viva a convicção de que conseguiriam trazer Yan Da de volta de qualquer maneira. Os casais dividiam no silêncio de seus quartos as preocupações que afligiam seus corações, mas aqueles como Li Luo, sozinhos com seus pensamentos, não conseguiam conciliar o sono ou parar o fluxo de vozes que explodiam em suas mentes com o silêncio ao redor.

A feiticeira tinha pouco papel ali, com a cessão de corpo o parco poder que seu hibridismo possuía agora operava de maneira invertida, ela apenas ajudou com algumas memórias do mundo mortal onde vivia antes de todo o mundo imortal colapsar, foi também quem disse a Shen Hairong, secretamente, sobre a essência do silêncio estar sendo mantida longe dos ouvidos de Shi. Além disso, também fora sua a ideia de colocar no texto do ritual a brecha para o pagamento do poder sem que precisassem ter seus núcleos arrancados de maneira dolorosa. Ela e Shen Hairong, por não participarem diretamente do ritual seriam as únicas a se submeter àquele processo doloroso.

Duranre o Rito do Sol Adormecido, ela não teria espaço, não fazia parte das tribos imortais, até mesmo sua estadia ali não tinha sentido para ela. Mas se sentia em dívida com Yan Da, a princesa do fogo merecia um final melhor. Saindo até os jardins da tribo Xamã, ela se deitou na grama observando o céu estrelado, mal parecia que dali a algumas horas aquela bela lua cheia estaria cobrindo o sol e mergulhando o mundo imortal em escuridão, não que ele estivesse na luz antes. Não percebeu que alguém se aproximava até a pessoa deitar-se ao seu lado na grama.

— Parece a calma que precede a tormenta, não é?

Lan Shang também olhava o manto negro e prateado do firmamento quando fez sua pergunta. As duas não tiveram chance de conversar, mas Li Luo sabia que era graças às atitudes da sereia que ela havia conseguido se livrar da alma de Lian Ji. A feiticeira ainda não sabia se estava grata ou irritada com ela.

— Nervosa? — Devolveu a pergunta.

— Hmm... estou mais preocupada em não funcionar do que nervosa em fazer. — Admitiu a princesa sereia.

— Não há como dar errado, vocês tem tudo que precisam em mãos. — Acalmou-a. — O único problema que permanece é a memória de Yan Da que pode não retornar.

— Tentamos procurar em todos os lugares, Liao Jian e Xing Jiu até foram à montanha Hua Xue, mas Lian Ji parece ser o tipo que guarda tudo na memória, sem registros. — Suspirou. — Não fazemos ideia de como Ying Kong Shi se lembrava da sua vida passada.

— Às vezes penso que esquecer é melhor...

— Não consigo concordar. — Objetou a sereia. — No lugar dela, eu desejaria lembrar, por mais dolorosas que as memórias sejam, elas fazem parte de quem somos e dos lugares por onde passamos, formam nossa experiência.

Li Luo não respondeu imediatamente, estava surpresa com o modo como Lan Shang havia evoluído naqueles anos, antes ela era uma garotinha cabeça de vento que não tinha nada mais em mente além de casar com Ka Suo. Agia pela vontade dos outros sem saber o que queria de verdade e, mesmo assim, a feiticeira a invejava. Envergonhava-se de si mesma por isso.

— Você cresceu de forma surpreendente. — Sorriu.

— Uma hora teria de acontecer, não é?

As duas ficaram em silêncio por longo tempo sendo embaladas pela brisa suave e os sons da natureza em volta. A proximidade natural entre elas incrivelmente não parecia estranha.

— Obrigada. — Disse Li Luo quebrando o silêncio. — Por tudo que fez por mim.

— Não precisa agradecer, eu estava te devendo uma. Sabe, sempre invejei você de alguma forma, não apenas por Ka Suo te amar, mas por você ser corajosa. — Lan Shang sentou-se. — De algum modo, acho que me inspirei nisso para seguir meu caminho. Por isso, Li Luo, não se prive de nada que deseja em nome das outras pessoas.

— E você não precisa mais invejar ninguém. Orgulhe-se dessa mulher incrível que você é agora, uma mulher que não precisa de ninguém além de si mesma para ser feliz.

— Ficamos combinadas assim, então? — Estendeu a mão.

— Combinadas.

Li Luo apertou a mão dela e as duas sorriram uma para outra voltando a olhar a noite.

※※※

Shen Hairong, e Li Luo pararam diante do grupo no salão de cura para se despedir. Elas seriam enviadas de volta para o mundo mortal, já que não tinham mais seus poderes, enquanto os demais voltariam ao Declive das cerejeiras para realizar o rito do Sol Adormecido. A manhã ia pela metade e, segundo Xing Jiu, o fenômeno secular aconteceria dentro de algumas horas, entre o fim da manhã e o início da tarde. Lan Shang se despediu da avó que prendeu a lágrima ancestral no seu pescoço com uma corrente de prata. Shi também se despediu da matrona dos mares agradecendo pela ajuda ao que ela lhe desejou boa sorte e pediu que ele mantivesse sempre em mente a sensação de ter nas mãos aquele cristal.

O príncipe do gelo abriu o primeiro portal e as duas mulheres atravessaram com expectativa rumo à sua nova vida, Xun Hao também foi, a mando do seu mestre que se encarregara ele mesmo de retirar seu poder. Shi então abriu o segundo portal e todo o grupo atravessou. A tensão era visível em seus rostos, nos corações descompassados e nas mentes agitadas que encaravam o céu com expectativa e temor. Xing Jiu havia explicado como funcionaria, o Rito do Sol Adormecido era um ritual conjunto que unia as forças de todas as tribos para convergir sobre aquele que traria de volta a alma condenada, naquele caso, Shi. Originalmente, Huang Tuo deveria ser aquele a presidir o ritual, mas o curandeiro cedeu ao astrólogo por estar em posse do seu poder há mais tempo. Além disso, o médico queria estar pronto para o caso de precisar equilibrar a energia de alguém durante o processo.

Eles pararam diante da caverna onde Yan Da estava, junto a Liao Jian, Ka Suo tirou pedras e rochas desobstruindo um enorme círculo. O ex-monarca usou sua magia para fazer um arranjo mágico na neve que se solidificou em um plano elevado e circular com o desenho de um fractal. Todos ficaram em suas posições na borda do círculo, então, sem demorar mais, Xing Jiu começou a recitar as palavras do rito do Sol Adormecido.

— A barreira do tempo, espaço, vida e morte se ergue no casamento dos céus uma vez a cada século.

Liao Jian fez um movimento com os braços e espalmou as mãos no chão formando uma barreira de luz em volta de todos eles. Lentamente o céu se tornava acinzentado.

— As estrelas inflamam o firmamento em comemoração, as memórias remanescem no brilho fugaz da face adormecida.

Ele abriu o mapa das estrelas tanto do mundo imortal quanto do mortal e uniu as constelações em uma só, o manto de estrelas pairou como uma tampa sobre a barreira de Liao Jian.

— Melancólicos oceanos rubros abrigam em seu leito o pálido sonho de carícias ardentes postas para descansar, desejos contemplados pela noite no mundo onde a fé impera.

Lan Shang, representando a tribo das sereias, usou a lágrima ancestral e cobriu a barreira de Liao Jian e o manto de estrelas de Xing Jiu com uma cúpula de água cujas paredes revestiram os outros dois feitiços já lançados.

— Velejando sob mil luas, a tristeza com humano coração deseja as trevas da noite que cobre a luz do dia, o sol abraçado pela lua de trezentos dias desejados pelas sombras, o propício momento para o poeta cantar.

No céu, lentamente, a lua começava a cobrir o sol, Ying Kong Shi tomou seu lugar sentado no meio do arranjo mágico e Chao Ya começou a tocar sua lira, cujas notas reforçavam a magia dos demais.

— A verdade no fim dos tempos, o silêncio que grita nos recônditos do ser, o veneno e a cura que se confundem.

Yue Shen e Huang Tuo convergiram seus poderes em uma massa arroxeada de energia e lançaram sobre as águas da sereia que envolviam a cúpula tornando-as avermelhadas.

— Os ventos guiam o espírito que anda pelos dois mundos, sussurra antigas palavras, dita a essência do silêncio do sol adormecido.

Por fim, Pian Feng usou mais uma vez seu poder para convergir os quatro ventos, o dragão de energia cresceu e parou atrás de Shi, contornando-o quase completamente como um protetor. Seu rugido fez todos estremecerem e quando a lua cobriu completamente o sol mergulhando tudo em escuridão Shi encontrou o caminho ensinado por Shen Hairong para as profundezas do seu ser.

— A porta para o outro mundo se abre, o sol e a lua se encontram, o que foi cortado pela terra será reconectado pelo céu, tudo retornará ao seu lugar de direito.

Ka Suo, representando a tribo do gelo, ergueu a mão na direção do irmão e enviou seu poder para o peito de Shi, concentrando-se na lótus escarlate dentro dele, uma luz avermelhada cresceu em volta do príncipe do gelo e, no íntimo de seus corações, todos esperavam e desejavam que ele conseguisse seu propósito.

※※※

Shi encarou as três versões de si mesmo bloqueando o caminho. Não tinha tempo para aquilo, mas sabia que precisava lutar novamente contra eles se desejasse passar. Yan Da o estava esperando em algum lugar no meio daquela escuridão. Ele se concentrou, pensou no que Shen Hairong lhe disse, na sensação de segurar em suas mãos o cristal, a chave mestra do seu poder. Quando abriu os olhos novamente, o céu acima dele era escuro e uma lua cheia reluzente imperava, as suas três versões avançaram na sua direção, ele materializou sua espada e os enfrentou.

Li Tian Ji era mais agressivo que o príncipe do gelo, todavia, aquele que representava quem ele “achava que devia ser”, foi o mais fácil de dispersar. A lua do abismo parecia brilhar com mais intensidade e os alertas no seu coração eram sirenes gritando estridentes. Em voz alta, ele começou a dizer cada vez que sua espada se chocava contra as outras versões dele, “não sou mais eu”, assim, o silêncio conseguiu retornar e ele venceu, forçando-os a se esconder nas sombras. Mas como encontraria Yan Da? A luz prateada brilhava sobre um lago cujas águas transparentes estavam paradas como um espelho. Cauteloso, ele se aproximou e viu o rosto de Yan Da refletido na água, como se ela estivesse olhando para ele de um universo do outro lado onde o céu estava claro.

— Ying Kong Shi?

— Yan Da! — Seu coração pulou dentro do peito. — Onde você está?

Ela não pareceu ouvi-lo. Shi olhou em volta, mas não havia mais nada além do lago e da lua do abismo, só escuridão por toda parte. A resposta precisava estar ali. Ouvindo sua intuição, ele apenas colocou a mão dentro da água, viu quando a princesa pareceu fazer o mesmo e, em algum ponto, ele conseguiu alcançar a mão dela. Sem esperar nada, os dedos de Shi se prenderam com força nos de Yan Da e ele a puxou para fora do lago, abraçando-a apertado.

— Peguei você! — Sussurrou ele contra os cabelos dela. — Está tudo bem agora.

— Eu sinto muito... — Chorou ela. — Me perdoe...

— Shh... você não precisa se desculpar por nada, meu amor. — Ele a apertou mais. — Nada é culpa sua... estamos juntos agora, vai ficar tudo bem.

Yan Da balançou a cabeça sem desgrudar dele. Os olhos de Shi estavam marejados sem conseguir acreditar que ela estava realmente nos seus braços. A lótus escarlate brilhou entre eles emanando uma luz vermelha, uma parte dela penetrou no espírito da princesa.

— Eu te amo, Yan Da. — Disse, em alto e bom som. — Eu amo você.

Mas a resposta da princesa não conseguiu chegar até ele, uma forte luz quente envolveu os dois, Shi sentiu algo os separar, o dragão de vento de Pian Feng agitava-se em volta deles e a última coisa que ouviu foi o grito de Yan Da chamando seu nome antes de serem sugados pela luz e tudo desaparecer.

A magia cessou, todos foram jogados com violência no chão, o eclipse começava a se desfazer e o céu tornava-se claro, Shi encarou as próprias mãos na certeza que não havia mais qualquer poder ali, trôpego, ele se pôs de pé e cambaleou até a caverna apenas para contemplar o esquife sobre a grande pedra no interior completamente vazio. Yan Da não estava em parte alguma. Do lado de fora, um terremoto começou a sacudir a terra, a paisagem oscilando como um pisca-pisca, antes que qualquer um pudesse tentar alguma coisa, um portal abriu sugando-os para fora e o grupo caiu dentro do apartamento moderno de Ying Kong Shi.

— Não! — Shi gritou erguendo-se com dificuldade. — Onde ela está? Onde ela está?!

— Shi! — Huang Tuo tentou contê-lo. — Fique calmo.

— A caverna estava vazia, ela sumiu! — Continuou ele, histérico. — Para onde ela foi, Huang Tuo? O que deu errado?

— Não sabemos ainda, mas vamos encontrá-la, eu prometo. — Disse o médico em tom apaziguador. — Agora você precisa descansar, todos nós temos de descansar.

— Tenho de encontrá-la! — Chorou. — Não tenho mais poder, o ritual recebeu seu preço, ela precisa voltar! Eu tenho de achá-la!

O médico o abraçou sentindo seus próprios olhos enchendo-se de água, não era para ter acontecido daquele jeito, tudo havia dado certo, onde eles haviam errado? O ritual fora feito corretamente, ninguém se machucara, ele estava consciente durante todo o processo, as magias convergiram, o eclipse teve a duração correta, a luz da lótus escarlate saiu de Shi e entrou na caverna. Para onde Yan Da foi mandada? Não fazia sentido.

Vendo que ele não ia se acalmar, Ka Suo golpeou um ponto vital no pescoço do irmão que caiu desacordado nos braços de Huang Tuo. Todos estavam confusos e cansados, Chao Ya e Pian Feng também choravam sem saber o que fazer, onde estava sua menina? Por que não havia voltado como todos esperavam?

— Não vamos perder a cabeça ainda. — Yue Shen agiu como a voz da razão no meio deles. — Se o corpo de Yan Da não estava na caverna então quer dizer que ela conseguiu acordar. O que fizemos funcionou. Vamos encontrá-la.

— Como? — Chao Ya quis saber. — Somos mortais agora.

— Vamos usar recursos mortais então. — Retrucou a envenenadora. — Estamos aqui há um bom tempo, sabemos viver nesse mundo. Sabemos usá-lo. Yan Da está viva, podemos achá-la.

— Luna está certa. — Concordou Liao Jian. — Temos recursos aqui, conseguiremos localizá-la, talvez não tão depressa quanto antes, mas vamos conseguir.

— Os de nós que estiverem em melhor condição, ajudem os demais a chegarem em suas casas. — Instruiu Yue Shen. — Ninguém está apto a fazer nada depois dessa transição abrupta. Nos reuniremos em breve para decidir como agiremos.

Liao Jian se comprometeu a levar Xing Jiu, que estava desacordado, e Xun Hao para casa. Pian Feng e Chao Ya retornaram ao apartamento de Yan Da. Ka Suo e Huang Tuo ficariam com Shi e Yue Shen levaria Lan Shang de volta para a avó e encontraria o marido em casa depois.

Ka Suo tentou contactar a princesa por telefone, mas estava desligado. Ninguém entendia o que acontecera, apesar do desfecho ser incerto nenhum deles imaginava que o corpo de Yan Da ia desaparecer daquela forma. O que mais os preocupava naquele momento era a possibilidade da princesa estar por aí sem memórias de quem era. Tentou manter o foco nas palavras de Yue Shen, havia dado certo e eles usariam tudo que tinham para encontrar Yan Da.

O pior havia passado.