Love as Sakura | 爱如樱
63 第57章 A chave mestra - Parte I
Sempre que Xing Jiu voltava à tribo dos astrólogos, dentro de si havia uma mistura paradoxal de nostalgia e deslocamento. Esses sentimentos conflitantes eram acompanhados pela triste sensação de não pertencer mais àquele mundo que foi seu lar por tantos séculos.
Tão logo chegou, foi recebido por Xun Hao e, por ainda ser dia, os membros remanescentes da tribo se encontravam dormindo. O bom servo do astrólogo o cumprimentou com toda a subserviência e reverência costumeiros, e o coração de Xing Jiu se angustiava ainda mais por não saber o destino que seu fiel servo teria quando ele fosse embora. Por mais que tivesse um lugar para Xun Hao no mundo mortal, o astrólogo sabia que o mundo conhecido por ele era apenas aquele, não tinha certeza d
e sua adaptação fora dali.— Mestre, bem-vindo de volta!
— Bom vê-lo novamente, meu bom amigo. — Sorriu, afastando suas preocupações e focando nos problemas imediatos. — Vamos para a câmara dos sonhos, temos trabalho a fazer.
O servo o seguiu sem questionar. Conforme avançava pelos corredores e estradas que conectavam os pavilhões do castelo, as inquietações do líder dos astrólogos cresciam. Primeiro, havia o problema de mexer nas memórias de Hu Bing. Xing Jiu não gostava daquele tipo de coisa, memórias eram, além de preciosas, perigosas de manipular; mesmo que tomasse todo o cuidado necessário, sempre havia o risco de sequelas inesperadas.
Segundo, a permanência do espírito de Yan Da no Diyu, por mais que acreditasse em Huang Tuo e nas suas habilidades, trazer alguém de uma das cortes era um tabu que exigia preços altos e, não atoa, eram crimes desde o início do mundo imortal. Terceiro, a relação abalada entre Shi e Ka Suo, uma fraternidade como aquela destruída não podia ser algo menos que um presságio muito ruim, entendia o lado do jovem príncipe, mas não parecia ser um mal entendido que se resolveria com uma conversa, mesmo Ka Suo tendo exposto o pedido de Yan Da.
Xing Jiu entrou na câmara dos sonhos e tomou seu lugar no trono dos astrólogos, apoiou o cajado das estrelas em seu suporte ao lado e juntou os dedos, pensativo, pesando com cuidado o que precisava fazer. Tinha de resolver logo a questão do irmão da princesa, nada de bom viria se Hu Bing começasse a mover céus e terra atrás de uma irmã que nunca seria capaz de encontrar e, ao mesmo tempo, tinha de tomar o cuidado de não apagar Yan Da de sua mente, uma vez que — mesmo pequena — havia a possibilidade de ela voltar.
— Mestre, o que o incomoda?
— Vamos precisar “distorcer” a memória do príncipe Hu Bing. — Anunciou o astrólogo. — Estou tentando pensar na maneira menos invasiva de fazer isso e, ao mesmo tempo, me manter incógnito.
— Se o mestre me permitir, posso fazê-lo no seu lugar.
— Sabe que não gosto desse tipo de tarefa, Xun Hao, e estou certo que entende a gravidade de se mexer com a mente das pessoas, especialmente quando esta é a mente de um mortal.
— Por que o mestre precisa fazer isso, então?
— Yan Da está morta. — Revelou. — Não sei como pretendem fazer isso, mas Huang Tuo e Ka Suo estão procurando uma maneira de trazê-la de volta e isso me impede de apagá-la completamente da mente do príncipe Hu Bing.
Xun Hao ficou pensativo como se estivesse refletindo as palavras de seu mestre, mas inicialmente não disse nada. Xing Jiu soltou um suspiro pesado e levantou caminhando até o painel das constelações. A maneira mais segura era intervir através do sonho, plantar a ideia que Yan Da havia viajado por um tempo para se livrar de todo o processo envolvendo a empresa do pai e os crimes dos irmãos. Hu Bing seria capaz de aceitar isso, mas ainda havia a falha de ele tentar se comunicar com ela, era muito complicado e o astrólogo começava a se sentir frustrado.
Lendo as estrelas, ele percebeu que haviam passado mais de duas semanas no mundo mortal. Antes que gritasse de frustração, decidiu agir conforme planejado, seria normal a irmã não atender o telefone, podia lidar com os detalhes depois, quanto menores fossem as intervenções na mente de alguém, menos danosas. Usando o cajado das estrelas, ele abriu o portal dos sonhos e deu instruções a Xun Hao sobre algumas tarefas que deveria realizar. Enquanto estivesse dentro do portal, o corpo de Xing Jiu seria uma casca vazia, era importante prevenir possessões ou outros danos e, principalmente, interrupções.
O assistente fechou e selou portas e janelas que davam acesso à câmara, mesmo os criados que costumavam trabalhar no local foram dispensados. Todos os preparativos estavam prontos, o astrólogo tomou seu lugar em um dos bancos diante do portal sentando-se em posição de lótus, fechou os olhos e confiou sua vida ao assistente como fizera tantas vezes antes.
※※※
Shi deixou a caverna, mas não foi direto para a tribo xamã como havia prometido, deu a volta no declive das cerejeiras e parou diante da árvore onde, quatro mil anos atrás, enterrou as vestes de Yan Da como um simbólico túmulo à sua memória. Ali, olhou para os céus e contemplou a imensidão azul clara que nunca escurecia. Mesmo sentindo seu coração fragmentado dentro do peito, o príncipe do gelo despertou esperança no fundo da sua alma, Pian Feng tinha razão, ainda não estava acabado, se ele prometera encontrar uma maneira era dever de Shi estar ao lado dele naquela batalha e oferecer todo o seu poder aos pés de qualquer coisa capaz de trazer sua amada de volta. Estendendo a mão na direção da árvore, ele concentrou sua energia e visualizou bem onde desejava ir abrindo um portal por onde atravessou sem demora.
A visão do seu quarto no apartamento parecia algo novo aos olhos dele. Shi não tinha certeza quanto tempo se passara desde a última vez que estivera ali dentro, mas era como se parecesse toda uma vida. Passou os dedos pela pintura da cerejeira na parede de onde acabara de sair, contemplou o céu pacífico daquele mundo após tanta bagunça e terror. Voltar àquela vida era como escapar de um pesadelo que ainda assombrava seu inconsciente. Encarando-se no espelho, Ying Kong Shi quase não se reconheceu. A barba por fazer, os olhos e pele sem viço, havia perdido peso, lábios rachados e expressão abatida, imaginou quantas vezes no passado sua princesa havia se sentido daquela maneira. Com um suspiro, entrou no box e tomou um banho demorado na tentativa de revigorar as energias.
Caminhando até a sala de estar, Shi fechou os olhos e se concentrou tentando encontrar o que fora procurar ali, levou só um minuto até ele descobrir, no escritório onde o irmão costumava ficar, um saquinho de veludo escondido atrás de alguns livros na terceira prateleira da estante. Esvaziando o conteúdo na mão, ele contemplou a lágrima ancestral provavelmente recuperada após a derrota de Lian Ji. Fechando a mão em volta da pedra, o príncipe saiu até o apartamento de Yan Da.
Já fazia alguns dias que não via Chao Ya, mesmo que o tempo passasse diferente no mundo imortal, ele havia se acostumado com as repreensões dela e sua pose materna obrigando-o a engolir nem que fosse um jiaozi. Quando viu Pian Feng na caverna ficou um tanto surpreso, não que ele não fosse visitar Yan Da com alguma frequência, mas em geral aparecia quando Shi estava apagado pela exaustão e a pouca alimentação. Após bater algumas vezes e não ouvir resposta tentou a maçaneta percebendo que a porta estava aberta. Franzindo o cenho, o príncipe entrou no apartamento, cauteloso, mas tudo em volta era um silêncio sepulcral.
— Não!
O grito angustiado de Chao Ya rompeu o silêncio e fez Shi se precipitar na direção do quarto de onde vinha o som, era o cômodo de Yan Da, ele materializou sua espada e, apertando firmemente o punho, entrou apressado encontrando a cantora deitada na cama, abraçada a um travesseiro com lágrimas escapando de seus olhos fechados, o belo rosto estava torcido em uma expressão de desespero e ela movia os braços tentando alcançar alguma coisa.
— Yan Da! — Chorou. — Minha menina!
Shi sentiu seu coração se partir. Aproximou-se da cama e sentou ao lado da cantora, as mãos de Chao Ya se prenderam nos seus braços e ela implorava que Yan Da não fosse embora. Com delicadeza, o príncipe tentou acordá-la, levou um tempo enquanto ela permanecia presa no pesadelo aterrador onde revivia a morte da princesa, quando finalmente conseguiu abrir os olhos, um suor gelado cobria o rosto da musicista e as lágrimas tornavam Shi uma silhueta disforme, ele a abraçou e deixou que chorasse até ter forças suficientes para verbalizar algo. Não havia uma maneira do príncipe isentar-se da culpa do sofrimento dela e de Pian Feng, se tivesse protegido Yan Da melhor, aquilo não estaria acontecendo.
— Méishìr... — Murmurou ele enquanto acariciava os cabelos da cantora.
— A minha menina... — Soluçou. — Eu quero... a minha menina... de volta.
— Eu sei... — O príncipe fechou os olhos lutando contra suas próprias lágrimas. — Vou encontrar uma maneira de trazer nossa princesa de volta, Chao Ya, eu prometo.
Ela prendeu o tecido do seu casaco entre os dedos enquanto seu corpo era sacudido pelo choro. Shi compartilhava aquele sentimento, mas imaginava que a dor da cantora, tal como a de seu companheiro, vinham de maneira diferente e talvez mais intensa que a sua. Os dois viam e tratavam Yan Da como uma filha, desde que chegaram ali foram incumbidos de protegê-la de forma direta ou indireta. Assim, estavam sofrendo tal como pais cujo filho foi arrancado abruptamente de seus braços enquanto Shi era apenas mais um amante que perdera sua musa por própria estupidez. De novo.
Da primeira vez, por sua idiotice e cegueira. Da segunda, por sua falha.
Pian Feng chegou em casa alguns momentos depois, preparou um chá que serviu à esposa quando esta se acalmou um pouco mais, consolada pelo príncipe do gelo. Shi ajeitou os travesseiros sob a cabeça de Chao Ya e saiu do quarto tão logo ela pegou no sono, dessa vez, mais tranquila. Alcançando a sala de estar, sentou-se ao lado do guerreiro do vento que parecia abatido.
— Há quanto tempo ela está assim?
— Desde que voltamos. — Suspirou. — Acho que a ficha finalmente caiu e ela se deu conta que Yan Da não vai voltar. Não tem sido fácil, a vida sem Yan Da é como uma ostra sem a pérola, não tem qualquer sentido e mesmo que tenhados tentado ressignificá-la, Ying Kong Shi, o vazio nos oprime e não tem pretensão de nos permitir continuar.
Shi sentiu as palavras de Pian Feng atravessarem-no como uma espada. Ainda que sentissem aquela ausência em níveis diferentes, ele era capaz de entender como o casal estava afetado pelo acontecido e não havia uma maneira de evitar a culpa por aquilo, a espada que atravessara o corpo de Yan Da pertencia a seu irmão, os infortúnios aos quais a princesa foi exposta haviam tido origem na sua incapacidade de admitir os sentimentos, direta ou indiretamente, a culpa sempre voltava a seta para sua direção.
— Eu sinto muito... — Murmurou, as mãos fechadas em punho sobre as coxas. — Falhei em protegê-la.
— Você não é o único culpado. — O guerreiro meneou a cabeça. — Eu tentei protegê-la de você e também falhei. Não há escapatória para o destino do coração, mesmo se nunca tivessem se visto, ela ainda continuaria procurando por você inconscientemente como sempre foi.
— Vou trazê-la de volta, Pian Feng, não importa o que precise perder.
— Em todo o mundo imortal você sempre foi o mais poderoso, Ying Kong Shi, fosse como príncipe do gelo ou do fogo. — Pian Feng olhou bem em seus olhos. — Acredito em você. Tanto Chao Ya quanto eu estaremos dispostos a pagar qualquer sacrifício com você. Yan Da merece ser feliz.
— Você também.
A resposta do príncipe surpreendeu o guerreiro do vento. Sem dar chance de resposta, Shi deu alguns tapinhas leves no ombro dele antes de deixar o apartamento. Pian Feng ficou imóvel como se não acreditasse no que havia acabado de acontecer, quando por fim conseguiu retomar o controle de si mesmo, levantou-se e foi até o quarto de Yan Da, onde a cantora dormia um sono mais pacífico comparado aos últimos dias. Deitando ao lado dela, ele a abraçou e desejou que, ao acordar, seus pesadelos permanecessem perdidos no mundo dos sonhos.
※※※
Yan Da olhou para o lago irreflexo e as árvores imóveis pela ausência de qualquer brisa. O céu havia voltado ao seu anil inicial e a lua do abismo desaparecera como que imersa outra vez dentro das águas paradas. Ao seu lado, Peng Yan continuava imerso em um silêncio contemplativo a espera de seu aval para dizer as coisas que ela sabia ainda precisar ouvir.
Quando o melhor amigo lhe abraçara às margens do rio, o céu enegrecera por causa das emoções em descontrole dela, Peng Yan tremulou preocupado com o que poderia acontecer a seguir e foi com algum custo que Yan Da compreendeu as palavras dele e procurou recobrar a calma, poderia ainda haver uma maneira de ao menos se despedir de Pian Feng, Chao Ya e se desculpar com Ying Kong Shi. Abraçando as pernas, percebeu que seu peito estava cheio de lágrimas, mas ela não conseguia mais chorar.
— Peng Peng — murmurou quebrando o silêncio que cercava o lugar — o que acontece agora?
— Você tem duas alternativas — o tom sério do amigo a fez virar a cabeça para encará-lo por um instante — pode escolher voltar e continuar seu destino de onde parou ou pode seguir em frente e esquecer tudo, sem perguntas, sem julgamentos, como sua mãe prometeu.
— E você? — Quis saber. — Que tipo de acordo você fez com ela?
Peng Yan encolheu os ombros como se não quisesse falar sobre o assunto e a princesa do fogo se tornou apreensiva. Sabia que o amigo não era capaz de mentir para ela, mas preocupava-se que ele editasse a verdade e lhe escondesse detalhes relevantes. Yan Da esperou o que pareceu um longo tempo até ele suspirar e voltar a falar.
— Quando cheguei à corte de Meng Po não tinha qualquer arrependimento comigo, Da’er, você estava viva e ficaria segura era só o que precisava saber. Estava pronto para seguir em frente, mas ninguém vem para o Diyu e sai ileso, são precisos 49 dias nos quais mesmo as suas menores faltas em vida serão julgadas. — Segurando uma pedrinha da margem na mão, Peng Yan atirou-a no lago causando leve agitação na superfície. — Ao contrário do que você pode pensar, nunca fui perfeito, tinha meus crimes para pagar e só teria sucesso se sobrevivesse aos julgamentos das dez cortes.
“Sua mãe apareceu para mim antes que os julgamentos começassem. Eu ainda estava na fase de transição e era muito difícil manter a tranquilidade porque meu espírito de algum modo ainda estava ligado a você, eu sentia seu sofrimento pulsar em cada partícula da minha alma, mas não havia nada que pudesse fazer. Além disso... havia o meu pai também.”
Nesse momento, Peng Yan fez uma pausa e Yan Da se encolheu baixando a cabeça. O pai do melhor amigo ficara transtornado com a perda, mesmo que Hu Bing tenha se encarregado de todas as despesas do funeral e tentado dar a ele toda a assistência que precisasse, nada seria capaz de suprir a falta que o filho fazia. Poucos meses após a morte de Peng Yan, seu pai não suportou mais a dor e pôs um fim à sua vida. Essa culpa também pesava no coração da princesa do fogo, embora Hu Bing não tivesse lhe contado imediatamente o que havia acontecido dada a condição crítica dela, quando descobriu o triste fim do pai de seu melhor amigo, não havia nada que dissuadisse Yan Da da culpa que corroeu seu coração.
— Suicídio é julgado em conjunto pelas cortes 1 e 6, respectivamente os infernos da violência e do assassinato. — Continuou. — Poucas vezes almas com esse pecado conseguem seguir para outra vida, elas são apenas condenadas por cometerem uma ofensa tão severa à natureza. Sua mãe me disse o destino do meu pai... uma alma torturada por séculos até estar tão destruída que nem se lembraria mais quem foi um dia, então ele seria atirado no rio do esquecimento e sentenciado a nunca mais ter outra chance de ser lembrado, amado ou feliz.
— Por isso você aceitou a oferta dela, para que seu pai pudesse seguir em frente sem a condenação. — Concluiu a princesa sentindo o amargor preencher sua boca.
— Essa não foi a única razão. — Meneou a cabeça e se pôs de pé caminhando alguns passos mais próximo da margem. — Não conseguiria seguir em frente sabendo que você passaria o resto da vida sofrendo uma culpa que não era sua, Yan Da. Além disso, quando sua mãe me mostrou o seu futuro, me senti no dever de te ajudar, você merece a felicidade e não quero que perca isso por causa de ninguém, especialmente de mim.
“Por ter tido a vida que teve por duas vezes, sua mãe se tornou a juíza do inferno da violência, ela seria a primeira a me julgar. Você pode não acreditar, mas eu era bem encrenqueiro no fundamental. Contudo, ela me ofereceu um acordo, salvaria a alma do meu pai e lhe permitiria uma reencarnação em troca de eu ajudar você a enxergar a verdade e fazer sua escolha. Quando acabar, eu terei minha chance de seguir em frente, sem lembranças, sem dor, sem perguntas.”
Yan Da ergueu a cabeça e olhou para as costas do melhor amigo. Vestindo aquelas roupas antigas, Peng Yan parecia ainda mais bonito. Doía no seu coração aquelas palavras, era o que ela mais temia e o que prendia sua determinação em fazer uma escolha de seguir em frente.
— É isso que eu temo... — admitiu — esquecer. Não quero esquecer você e tudo que vivemos juntos por mais doloroso que tenha sido. Não quero esquecer Pian ge, jiejie, Da ge e todo o amor que eles me deram a vida inteira. E não quero esquecer...
Parou.
— Ele não é? — Peng Yan virou-se para ela e sorriu. — A ideia de esquecê-lo também machuca você.
A princesa baixou a cabeça, de alguma forma não conseguia se sentir confortável falando de Ying Kong Shi na frente de Peng Yan, parecia errado e insensível. Além disso, por mais egoísta que fosse, ela também não queria que ele esquecesse tudo sobre ela, mesmo sabendo que seria melhor para ele seguir em frente sem vínculos com o passado. Melhor e certo. Como se conseguisse ler seus pensamentos, o garoto se abaixou diante dela e ergueu seu rosto com delicadeza fazendo-a encarar seus olhos.
— Da’er, não pense nem por um segundo que não valorizo cada instante que vivi ao seu lado, mesmo que eu tome o chá dos cinco sabores e viva uma nova vida sem as amarras do passado, em algum lugar no meu coração você sempre vai existir e esse espaço, não importa quantas pessoas eu conheça, nunca poderá ser preenchido por ninguém além de você.
Ela o abraçou fechando os olhos e buscando resquícios de um coração que já não batia, mas que ainda podia ser ouvido em algum recanto da sua mente.
— Lembre-se do que me prometeu. — Sua voz tremulou ao dizer as palavras, as mãos apertando o robe dele. — Seja mais egoísta quanto a sua felicidade, hao bu hao?
— Wo daying ni.*[1] — Peng Yan beijou o topo de sua cabeça.
Yan Da sentia o coração apertado, tinha consciência de que, a partir daquele instante, precisava deixar Peng Yan ir, mas tal como a primeira vez na qual fora obrigada a despedir-se, era difícil demais dizer adeus. Mesmo ele a tendo isentado de toda a culpa pelo que aconteceu no passado — duas vezes! — ela não conseguia deixar de se sentir responsável por seus infortúnios e era apenas esse sentimento que lhe inspirava coragem para deixá-lo seguir em frente e, assim, conquistar uma vida de felicidade em retribuição ao sofrimento vivido em suas duas existências.
— Wo ai ni*[2], Peng Peng. — Murmurou com voz trêmula. — Eu realmente te amo muito.
— Eu também, Da’er. — Ele a apertou um pouco mais. — Mais que a minha própria vida. Vou amar para sempre.
Segurando o rosto dela entre as mãos, Peng Yan secou suas lágrimas com os dedos enquanto olhava no fundo dos brilhantes olhos de Yan Da, havia muito que ambos desejavam dizer, mas as palavras pareciam insuficientes para expressar os sentimentos em seus corações. A princesa do fogo desejava no mais íntimo do seu ser que houvesse uma maneira de reverter tudo aquilo, mesmo que amasse Ying Kong Shi, se tivesse a chance, ela escolheria se doar para Peng Yan, amá-lo como ele merecia ser amado. Erguendo a mão para tocar no rosto daquele que sempre fora seu melhor amigo e protetor, a princesa se inclinou suavemente e o beijou.
A sensação do toque dos lábios de Peng Yan, ao contrário de Shi, não era a paixão inflamada que acendia fogo em todas as suas células, não vinha acompanhada daquele desejo avassalador que desnorteava o mais racional dos seus pensamentos, mas ao contrário, era uma sensação pacífica de preenchimento, devoção, carinho, um tipo de amor que Yan Da não conseguia traduzir em palavras, mas que enchia todo seu espírito de paz. De sua parte, Peng Yan depositou todo seu sentimento naquele gesto, sua única e última chance de ter a pessoa que amava em seus braços, ele bejou Yan Da com a sua alma torturada, com os anos de sentimento reprimido e silenciado, com a felicidade de vê-la sorrir e respirar todos os dias.
Todo o sentimento não dito foi exclamado em alto e bom som através daquele beijo apaixonado e proibido. Yan Da estava assustada com o peso das suas escolhas e não podia prever o que aconteceria a seguir, mas tinha certeza de que era a melhor saída para ela e para Peng Yan. Afastando-se, extasiado pela troca de carinho tão íntima, ele acariciou o rosto dela e esboçou um sorriso encantador.
— Então, já decidiu, não é?
— Sim. — Ela enxugou uma lágrima que caía pelo rosto pálido. — Já tomei minha decisão.
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