Love as Sakura | 爱如樱
62 第56章 Lua do abismo
O caminho até o rio Jìngzi parecia ser mais longo do que Peng Yan havia avisado. Durante o percurso, Yan Da mantinha um silêncio meditativo que o melhor amigo não atrapalhava, Peng Peng sempre soube respeitar seus silêncios tão bem quanto ouvia suas palavras. Era igualmente um deleite e uma angústia estar ali. Se por um lado estava extasiada por poder ficar com o melhor amigo outra vez, parte dela não podia negar a falta que sentia de Pian Feng, Chao Ya, Huang Tuo, Hu Bing e Ying Kong Shi. Temia a reação do irmão mais velho quando descobrisse o que havia acontecido a ela, pela primeira vez, a princesa do fogo se sentiu culpada por ter tomado aquela decisão.
Peng Yan seguia à sua frente, pois a floresta era fechada o bastante para impedir que andassem lado a lado. Desde que saíram da clareira o jovem não havia soltado sua mão nem um minuto. Ele afastava os galhos mais baixos e abria espaço entre algumas trepadeiras entrelaçadas entre as árvores, o céu ali parecia oscilar, nunca era noite e tampouco dia, não havia sol, nem estrelas. Yan Da recordou da lua que vira antes, cheia, prateada e majestosa no céu acastanhado do Diyu, chegou a pensar que, talvez, o céu mudasse de acordo com o estado de espírito de quem o olhava.
Havia tantas coisas passando pela cabeça dela, era difícil saber em qual se concentrar primeiro, as palavras da mãe pareciam assombrá-la. Que tipo de história Peng Yan poderia lhe contar? Sobretudo, ela era mesmo capaz de deixar tudo para trás? Seu irmão, Pian Feng, Chao Ya.
Ying Kong Shi.
Fora tolice sua acreditar que a morte a libertaria daquele sentimento. Ela conseguiu quebrar as correntes da maldição que os unia, mas jamais conseguiria apagar o amor que alimentava sua alma, mesmo que tivesse amado Peng Yan duas vezes, nada do que Yan Da já sentira podia se comparar ao amor que nutria por Shi. Era algo arrebatador, enlouquecido e avassalador. Uma loucura arraigada no mais profundo do seu coração e espírito, incendiando seu corpo com o desejo, mas igualmente levando-a a doar sua vida para ele sem hesitação. Mesmo tomando o chá dos cinco sabores, desconfiava, ainda continuaria amando-o na sua próxima existência.
Chegaram a uma clareira no que parecia ser o meio da floresta, Peng Yan pigarreou chamando a atenção da princesa que ergueu o olhar para encará-lo, fazia um bom tempo que o único som cercando-os eram seus passos no chão irregular de folhas secas, pedras e galhos. Todo o percurso Yan Da não havia visto quaisquer animais ou ouvido o menor sinal de folhas farfalhando, a floresta era silenciosa de uma maneira assustadora. O melhor amigo não a olhava, continuava segurando sua mão enquanto a guiava, dessa vez no sentido oeste.
— Acho que devo um pedido de desculpas a você.
— Por que você teria algo pelo que se desculpar? — Ela franziu o cenho. — Você não fez nada de errado, Peng Peng.
Ele suspirou.
— O que eu disse a você na última vez que nos vimos no cativeiro... — baixou a cabeça — na hora sequer cogitei a ideia daquelas palavras assombrarem você dessa maneira.
A princesa do fogo não tinha certeza, mas pensou que talvez estivesse corando naquele momento, pois seu rosto queimava.
— Você está certa sobre não estarmos destinados um ao outro, desde o começo meu papel na sua vida era breve.
— Mas muito significativo. — Salientou. — Você me salvou de várias maneiras, sem você eu talvez tivesse me perdido.
Os lábios de Peng Yan se arquearam em um sorriso triste.
— Mas tem algo sobre o qual não concordo com você. — Sua voz se tornou mais baixa nesse ponto. — Primeiro, você sempre mereceu meu sentimento, Yan Da, se ele nasceu no meu coração foi porque você era a pessoa capaz de cativá-lo, de merecê-lo, não me arrependo de amar você. Segundo, se houver mesmo outra vida, mesmo que nossas estrelas não estejam alinhadas, espero que o destino possa me colocar outra vez no seu caminho, mesmo sendo apenas uma distante testemunha da sua felicidade, porque sempre foi sobre isso: sua felicidade. Esse ainda continua sendo meu único desejo.
Yan Da emudeceu diante do que ouvira. Novamente, a sensação do coração doendo no peito voltou com força fazendo-a parar. Como podia responder àquilo? Eram mais que palavras, ela sabia, era a profundeza do que ele sentia e não fora dissipado nem mesmo pela morte horrenda que tivera. Peng Yan sempre a colocara em primeiro lugar, ela desejava que ele fosse um pouco mais egoísta às vezes, considerando a si próprio ao invés dela, mas o amor significava um pouco desse desprendimento de si mesmo, afinal, ela estava ali por não conseguir permitir que Shi se machucasse. Era uma loucura.
Peng Peng aproximou-se e a abraçou segurando sua cabeça contra seu peito, ela fechou os olhos sentindo a dor espalhar-se por todo o seu peito, o coração dele não batia mais, nem seu peito se mexia com a respiração, mas seu toque era impossivelmente quente contra sua pele.
— Viu só? — Sussurrou ele. — É apenas mais uma prova que você ainda está atada ao fio da vida.
— Peng Peng, eu...
— Não precisa dizer nada, Yan’er. Conheço seus sentimentos e não estou dizendo isso para pressionar você ou tentar mudar o que você sente por ele.
— Pode me prometer uma coisa?
— No momento eu não estou em condições de cumprir muitas promessas — ele deu uma leve risada —, mas vou me esforçar.
— Na sua próxima vida, seja um pouco mais egoísta quanto a sua felicidade. — Pediu. — Ela é importante para mim. Sempre foi.
Ele se afastou um pouco e sorriu acariciando o rosto dela com uma suavidade devota.
— Considere prometido.
Eles retomaram a caminhada, mas dessa vez não foram muito mais longe. O fim da floresta recheada de árvores altas com troncos grossos e passagens estreitas entre elas descortinava em um braço de rio largo que cortava a floresta em dois, dali dava para ver a cadeia das montanhas Kunlun com mais nitidez, era um conjunto majestoso de rochas escuras salpicadas com neve, parecia brilhar de tal forma que a princesa chegou a pensar que a claridade da floresta provinha de lá.
Peng Yan a guiou até a borda do rio, mesmo que ele se chamado rio espelho Yan Da não conseguia ver nenhum reflexo nele. As águas permaneciam completamente paradas e, mesmo sendo límpidas, não refletiam o céu claro acima deles, a copa das árvores altas ou mesmo a luz. A princesa se abaixou para encarar seu próprio reflexo na água, mas não via nada. Tocou na superfície do lago que formou pequenas ondas arredondadas sob seu toque, a água era incrivelmente gelada.
— Eu não entendo...
— Pode-se dizer que este é o fundo do Rio do Esquecimento. — Contou. — Onde os espíritos que não ficam no Diyu e nem merecem seguir em frente ficam, vagando nas profundezas das águas sem lembrar quem foram e sem ter para onde ir. Mesmo seus antigos entes queridos se esquecem deles.
— Então, porque Jingzi?
— Você logo vai entender. — Ele sorriu. — Essa é a parte pura do rio, não vai lhe fazer mal e tem outra finalidade. Contudo, se olhar com atenção vai poder ver com clareza.
— Ver o quê?
— A lua do abismo.
Os olhos da princesa se voltaram fascinados para a água mais uma vez e dessa vez ela foi capaz de enxergar a lua majestosa dentro do rio, todavia, ela não estava em nenhum lugar sob o céu claro acima de sua cabeça, mas dentro da noite do rio como se reluzisse das suas profundezas.
— Está pronta?
Yan Da o encarou e anuiu curiosa sobre o que ele faria a seguir. Peng Yan pegou uma gota do rio e a transformou em um belo fractal de gelo com um simples movimento dos seus dedos, com o mesmo cuidado, recolocou-o de volta na água, mas ao contrário do que aconteceria normalmente, o gelo não derreteu, o fractal emanou um brilho incandescente que doeu aos olhos dela e transformou a superfície do rio em um verdadeiro espelho, Yan Da podia ver um céu azul acima da copa de cerejeiras que distribuíam suas pétalas pelo ar.
— Vou lhe contar uma história.
※※※
Yue Shen, Ka Suo e Lan Shang chegaram à tribo xamã após dias de caminhada silenciosa. A envenenadora parou diante dos portões e encarou-os por um momento como se revivesse memórias e nem o monarca ou a sereia se atreveram a interrompê-la. Trocando um olhar preocupado, Ka Suo e Lan Shang esperaram com paciência até Yue Shen suspirar e abrir os portões. Não havia mais guardas na tribo xamã, apenas alguns criados remanescentes que mantinham as ervas frescas e o palácio limpo.
O silêncio, muito característico da tribo, parecia ainda mais profundo do que o monarca recordava. As pessoas que lidavam com a cura eram pesquisadores, médicos, cientistas de sua época. Precisavam de silêncio, reflexão e dedicavam-se a doentes em repouso. Mesmo o baixo burburinho da aldeia que cercava o castelo não mais existia, somente casas abandonadas com um ou dois habitantes perdidos no meio delas. Pela primeira vez desde o sacrifício, Ka Suo se perguntou quantas pessoas desapareceram em prol do preço de trazer os seus amigos de volta.
Eles entraram no pátio interno onde duas criadas varriam e outra checava as ervas postas para secar. Reconhecendo a envenenadora, as mulheres se encolheram em uma reverência amedrontada e se curvaram para Ka Suo antes de desaparecer. Ninguém apareceu para impedi-los de prosseguir até a antiga sala do trono, Yue Shen tentou com todas as forças afastar os pensamentos que ameaçavam engoli-la novamente, se sucumbisse às lembranças talvez não conseguisse voltar e fazer o que era preciso.
Olhando o vazio do cômodo, Lan Shan se tornou inquieta ao pensar como estaria seu clã submerso nas águas profundas. Estaria sua avó sozinha na sala do trono pensando nas súditas que desapareceram? Pensar nisso fazia seu coração doer, mas ainda não se sentia capaz de encará-la. Quando visse a avó novamente, queria ser uma mulher de quem ela se orgulhasse. Virou o olhar na direção de Ka Suo buscando em seu coração aquele sentimento enlouquecido de outrora, mas tudo que achou foi o amor brando e a saudade de algo que nunca foi seu de fato. Era hora, decidiu, de deixar aquilo partir.
Tudo aquilo que aconteceu com Lian Ji, Yan Da e Shi havia modificado cada um deles até certo ponto. Cada um a seu modo refletia sobre a situação sob sua própria perspectiva e isso influenciava na maneira como encaravam o caminho a trilhar a partir daquele momento. Mesmo toda a atenção voltada para salvar Yan Da — e aquilo era um esforço unânime — em seus inconscientes estava a preocupação do que fariam quando toda a bagunça estivesse organizada. Lan Shang ainda não sabia se continuaria ali no mundo imortal ao lado da avó, embora Shen Hairong nunca tenha se sentido parte do mundo mortal, tal como Liao Jian, a princesa sereia não se via mais vivendo ali sob as águas cristalinas num mundo em ruínas que não conheceria mais a glória.
Yue Shen caminhou hesitante até o trono dos curandeiros e rodeou-o sob o escrutínio curioso de Ka Suo. Nem o monarca nem a sereia ouviram o que Huang Tuo havia dito à envenenadora de modo que não conheciam a localização dos arquivos secretos da tribo xamã ou mesmo o que ela fazia naquele instante. Analisando com cuidado o trono, Yue Shen tateou sob o assento com atenção até encontrar o que procurava, um compartimento pequeno na parte de trás do trono onde, dentro, estava o selo de jade da tribo xamã. Ela segurou o objeto com cuidado sentindo o peso em sua mão como se fosse errado ele estar ali, em contato com a sua pele.
“(...) não importa o que você ouviu no passado, você é uma de nós. Sempre vai ser.” A voz do marido ressoava em sua mente como um encantamento. O peso no coração da envenenadora não abrandava, mas era movido suavemente pela voz de Huang Tuo, o maior curandeiro de seu tempo. “Você ainda pode curar, Yue Shen, mas precisa curar a si mesma antes.”
Podia fazer aquilo, tinha de fazer, era a única maneira de se redimir pela culpa que sentia na morte de Yan Da. Segurando o selo em mãos, olhou em volta do salão de cura procurando onde poderia colocá-lo, se ele abria uma sala secreta onde o antigo chefe dos curandeiros guardava os documentos que apenas seu sucessor tinha acesso, então, ao mesmo tempo, seria — e não seria — um lugar óbvio. Ela caminhou calmamente por todo o salão até encontrar, próximo à tela interna de oito painéis, o molde do selo em um dos pilares de madeira. Yue Shen encaixou o selo no lugar e o trono girou na base de seis degraus fazendo uma abertura circular sobre o chão que levava a uma entrada subterrânea através de uma escada de pedra.
Ka Suo e Lan Shang estavam surpresos. O coração da envenenadora se acalmou conforme ela respirou fundo e adentrou na entrada escura seguida por Ka Suo que criou um globo de luz azul em sua mão e Lan Shang que ia atrás dele cheia de esperanças de finalmente findar aquele novo sofrimento.
※※※
A voz de Peng Yan se tornou um pouco mais grave quando disse que lhe contaria uma história e Yan Da percebeu que ele repetia aquilo como uma espécie de profecia ou advertência. Olhando novamente para a água, ela viu a imagem se mover como uma câmera cinematográfica mostrando o cenário de um filme, as pétalas de cerejeira volitavam na paisagem glacial contrariando a natureza. Ela reconheceu o declive das cerejeiras sem que o melhor amigo precisasse apontar.
Sob uma das árvores, sentado com uma flauta de jade, um garotinho de aproximadamente duzentos anos tocava uma melodia triste. Seus cabelos prateados que tinham praticamente o comprimento do seu corpo, esvoaçavam com suavidade na brisa gélida, a música era uma variação de notas agudas que decaíam até o médio agudo para subir novamente e, como se entendesse as notas, as árvores lançavam as pétalas pelo ar em um choro silencioso pelo garotinho que se abrigava sob sua sombra. A princesa do fogo não precisava olhar duas vezes para reconhecer o rosto delicado e bonito de Ying Kong Shi, ele era adorável na infância e era a primeira vez que ela contemplava emoções em seus olhos.
— Mesmo tendo sete irmãos mais velhos, Ying Kong Shi estava quase sempre sozinho. — Começou Peng Yan. — Filho de uma concubina que só foi escolhida por Lin Chao pela obrigação dos protocolos ancestrais, ele não era amado pela mãe, que via nele um mero objeto para seu propósito, nem pelo pai, a madrasta ou os seis irmãos mais velhos, excetuando Ka Suo. Lin Chao sempre desconfiou que Shi não era seu filho, mesmo que ambos tivessem parcas semelhanças, ele não sentia naquele menino a essência mágica que compartilhava com seus outros sete filhos.
“Chen Tong sempre via o jovem príncipe como uma prova da existência da segunda esposa do marido, de quem ela não podia evitar se ressentir. Corriam boatos cruéis pelos corredores e Shi era tratado como um pária por quase todos, no mais brando dos cenários, tinha o respeito imposto pela sua posição ou, mais tarde, o temor daqueles que lhe serviam. Não foi por acaso que ele batizou sua ala no castelo como Palácio da Ilusão, durante toda a sua vida, confinada naquelas paredes de gelo — tanto o literal, quanto o da ausência de afeto — Shi sentia que sua vida era uma história contada por alguém e ele não passava de um protagonista destinado a ser anti-herói da ópera trágica de algum bar do reino mortal.”
Conforme o jovem guerreiro do vento ia contando a história, os cenários na água acompanhavam seu relato, mudando continuamente para momentos distintos da infância do garotinho que ainda era jovem demais para entender a hostilidade que o rodeava, mas a sentia com todo o peso sobre os frágeis ombros da inocência. Yan Da não podia evitar compartilhar a solidão de Shi quando ela mesma vivera algo muito parecido. Enquanto seus olhos contemplavam o pequeno príncipe olhando de longe um grupo de crianças brincando quando ele sabia que tudo destinado a si era observar solitário de longe por nunca ser aceito no meio deles, seu coração apertava no peito desejando poder abraça-lo.
Então, a imagem mudou mais uma vez para o castelo, em uma das passarelas suspensas na parte de trás, em cujas pontas havia a cabeça de um dragão entalhada na pedra, Shi estava sentado olhando os pássaros de neve ao lado de Ka Suo que tocava a mesma música triste numa flauta de jade que ela reconheceu ser a mesma que o pequeno príncipe do gelo segurava na floresta de neve. Shi sorria com ar esperançoso enquanto olhava as aves voando no céu com seu chilrear estridente.
— Ge, todos dizem que você um dia será rei, não parece certo ser tão piedoso. — Dizia o garotinho enquanto a neve caía sobre seus cabelos confundindo-se com os fios prateados.
— Eu nunca quis ser rei. — Respondeu Ka Suo, melancólico.
— Então o que quer ser?
— Talvez ser um pássaro da neve. — Sorriu após pensar um momento. — Veja, eles podem voar para onde desejam.
— Suoyi, você escolheria a liberdade ao invés do trono de Snowblade?
— Shi. — Anuiu. — Desde criança fui testemunha das escolhas difíceis que o pai teve de fazer, prefiro ser quem eu sou, responsável apenas pelo meu próprio destino, sem tantas vidas pesando sobre meus ombros.
Shi ficou pensativo por um tempo, então levantou com um sorriso brilhante e contemplou os pássaros no céu, avançando pela passarela até a ponta.
— Ge, vou te ajudar a realizar seu desejo. — Prometeu.
— Mesmo? — Sorriu Ka Suo sabendo daquela impossibilidade.
— Nós dois certamente conseguiremos alcançar nossos desejos. Você deve acreditar em mim, vou manter minha palavra. Em breve, você será livre como esses pássaros, voando alto e livre.
Yan Da sentiu o frio subir pela sua espinha — uma metáfora, já que seu espírito era imaterial —, enquanto olhava o pequeno Ying Kong Shi falando com tanta convicção a profecia de um futuro não muito distante se perguntando se, naquele momento, enquanto dizia aquelas verdades, ele tinha consciência das consequências da sua promessa. Ka Suo, ao que parecia, não levava o irmão a sério e apenas sorria extasiado com seu inocente e doce irmão, levantando-se, ele o abraçou e os dois observaram juntos o céu cinzento onde a liberdade de Ka Suo e a promessa de Shi enegreciam o horizonte.
— Nem o jovem príncipe nem seu irmão sabiam o peso que essas palavras teriam no universo, eles não podiam prever o seu destino. — Continuou Peng Yan. — Desde sempre, Ka Suo era o único vínculo afetivo que Ying Kong Shi possuía, o único amor que ele conheceu e, dada sua natureza, faria qualquer coisa para proteger esse sentimento e essa pessoa.
“Os sofrimentos de Ka Suo eram seus sofrimentos, ele preferia abdicar da própria vida a ficar sozinho num mundo onde ninguém o aceitava apenas por ele ser quem era. Por esse motivo, Shi dedicou sua vida a realizar o sonho do irmão de ser livre, ele não tinha uma noção concreta do que era amor, então como ele podia reconhece-lo no instante que entrou na sua vida como um tornado?”
Yan Da refletia sobre aquelas palavras, mesmo que tivesse perdido a mãe quando criança nunca teve dúvidas dos sentimentos de Meng Xi Yu por ela, inclusive, ela morrera para proteger a filha. Da mesma forma, Hu Bing, aquém de toda a disputa que enfrentavam pelo trono no passado, também enfrentou o pai em nome dela. Yan Da ainda contava com a devoção de Peng Yan, ela recebeu amor, cultivou-o no seu coração sob os espinhos de uma existência moldada no poder.
Na água, ela via a si mesma diante do príncipe em sua forma mortal, por nunca tê-lo visto antes não foi capaz de reconhecê-lo, mas se apaixonou por ele à primeira vista. Apenas agora a princesa se dava conta que julgara o príncipe e suas atitudes sem conhecer realmente sua história, mas apenas o que falavam por alto sobre a tribo do gelo e seus integrantes. Diante do passado dele e descobrindo todas as dificuldades que ele enfrentou sozinho, sentia-se mal por ele e pela forma como o acusou. “Eu sei que, visto assim, eu pareço um monstro, mas toda história tem dois lados...” As palavras dele eram como um tapa em seu rosto. Sequer percebeu as lágrimas caindo pelo seu rosto até Peng Peng se aproximar e secá-las com suavidade.
— Não estou contando tudo isso para que culpe a si mesma ou se condene. Você, ao contrário de todos os outros, não conhecia toda a história, Da’er. Se estou te contando essa história é para que você veja a verdade de forma limpa e encare seus sentimentos e decisões sem a influência de terceiros ou de mágoas de um passado pela metade.
Os olhos da princesa não conseguiam desviar da imagem de Shi na água, o porte frio e indiferente, mas, se olhasse com mais atenção, agora ela conseguia ver o fogo nos seus olhos, a determinação, argúcia e instinto protetivo.
— À sua maneira, ele protegeu você de várias formas. — Disse Peng Yan. — Ele só não entendia os sentimentos que eram despertados no seu coração porque o único amor que conhecia era o do seu irmão. Não quero com isso dizer que todas as atitudes dele são justificadas, Da’er, mas elas têm uma explicação. Desde o começo, Shi fora criado como uma arma e nunca como uma pessoa, Ka Suo o transformou em uma pessoa e você o tornou real. Ele tinha medo do amor que sentia por você, era algo sobre o qual não tinha controle, então lidou com isso da única maneira que sabia: enterrando no mais profundo gelo do seu coração.
— Peng Peng... — Ela o abraçou escondendo o rosto choroso em seu peito. —Wǒ shì hěn yìsile[1]... [N.A. Eu fui tão má...]
— Shh... — Acariciou os cabelos dela mantendo sua cabeça apoiada contra si. — Não é culpa sua, Da’er. Quando seguir o seu caminho, quero que você deixe todos esses sentimentos ruins aqui no reino dos mortos, enterrados sob a lua do abismo, hao bu hao?
A princesa anuiu e o jovem esperou paciente até que ela se acalmasse o bastante para continuar, ainda havia coisas que ela precisava saber.
※※※
Pian Feng massageou suas têmporas tentando aliviar a dor de cabeça. O presidente da gravadora não ficara nem um pouco contente quando ele anunciou que Chao Ya faria uma pausa na carreira e tivera de suportar quase uma hora de perguntas invasivas e reclamações. Desde que voltaram do mundo imortal os dois não conseguiam lidar com aquela vida em que tudo remetia a Yan Da, sentiam tanto a falta dela que era como se a atmosfera da terra estivesse de algum modo irregular e não conseguissem mais respirar ali.
Chao Ya estava inconsolável. Passava os dias apática, dentro do quarto da princesa, ora chorando, ora dormindo, exausta pelo pranto. Saía esporádicas vezes de volta ao reino imortal para ver Yan Da outra vez e tentar convencer Shi a engolir algo. O próprio Pian Feng não se via muito melhor e, duas semanas depois de terem voltado, se davam conta de que se enganaram ao acreditar que podiam seguir adiante e sentia na pele agora o desespero dos pais que perdiam um filho. Ele não sabia como consolar a esposa porque não havia consolo para seu coração.
Tentou telefonar para ela quando deixou o prédio da gravadora, mas a cantora não atendeu o que significava que havia adormecido outra vez. Com um suspiro, Pian Feng entrou no carro e voltou para casa. No percurso, o telefone anunciou outra chamada de Hu Bing, desde que ele voltara o irmão de Yan Da questionava o paradeiro dela e o guerreiro do vento não sabia mais que desculpas inventar. Se perguntava o que os outros estavam fazendo que ainda não resolveram o problema das memórias dele.
Por mais furioso que estivesse com Ka Suo, Pian Feng — e sabia que a cantora nutria o mesmo sentimento — acreditava na promessa de Huang Tuo de trazer a princesa de volta, ainda que não soubesse como ele poderia fazer isso sem quebrar algum tabu do mundo mágico. Para trazê-los de volta, Ka Suo abdicou de toda Snowblade, das pessoas que lá viviam, de metade da sua essência mágica e de boa parte da população imortal já bastante reduzida após a grande guerra. Ainda havia a triste possibilidade de Yan Da retornar sem as suas lembranças, mesmo que isso fosse magoar o coração do guerreiro, ele preferia vê-la de longe e feliz do que conviver com a ausência dela pelo resto dos seus dias. E se ele e Chao Ya ainda estavam lutando para continuar a viver era porque essa esperança ainda existia.
Todavia, ainda não conseguia perdoar Ka Suo. Sabia que havia sido um pedido de Yan Da, mas ele não conseguia conceber aquilo, não conseguia aceitar o fato de que o monarca tivera coragem de feri-la daquela maneira. Meneando a cabeça, Pian Feng afastou os pensamentos, se continuasse daquela maneira ia acabar enlouquecendo. Certificou-se que Hu Bing não estava nos arredores do condomínio antes de entrar com o carro no estacionamento e subir para o apartamento de Yan Da. Abrindo a porta com cuidado, alegou que Chao Ya estava mesmo dormindo, cauteloso, saiu de novo até o apartamento de Shi e usou a cerejeira pintada em sua parede como um portal para o mundo imortal.
O declive das cerejeiras continuava imutável e o ar gélido foi bem vindo para sua cabeça dolorosa tal como o cheiro adocicado das árvores. Ele percorreu o caminho estreito que já conhecia bem até a caverna secreta mais ao fundo da floresta, a barreira mágica de Shi parecia ter alargado, pois ele pensou tê-la sentido alguns metros antes de onde estivera outrora. Suspirou antes de entrar e encontrar o torturado príncipe sentado ao lado do esquife sem forças sequer para chorar mais.
— Você está horrível. — Abaixou-se diante dele e percebeu-o pálido e mal conseguindo abrir os olhos. — Pelo véu do vento, você está tentando morrer também?!
— Não seria uma redenção justa para minha alma? — Murmurou o príncipe, quase sem voz.
Pian Feng sussurrou uma imprecação e forçou Shi a beber água. Os lábios do príncipe do gelo estavam rachados pela desidratação e, ele sabia, se não fosse a aura imortal dentro dele, já estaria em estado crítico ou morto. Era a primeira vez que via Ying Kong Shi, o maior ilusionista da tribo do gelo, tão derrotado daquela forma, não havia qualquer sinal do homem implacável e poderoso que ele fora um dia. Irritado, o guerreiro do vento estapeou-o com toda a força conseguindo uma expressão chocada do outro.
— Finalmente alguma reação, sua apatia estava começando a me irritar. — Estreitou os olhos para ele. — Escute bem o que eu vou dizer porque não vou repetir, Ying Kong Shi, minha fadinha sacrificou a preciosa vida dela de novo para que você continuasse vivendo e eu tenho certeza que não era para você ficar com seu traseiro na neve se lamentando como Ka Suo fez no passado ao invés de ir buscar uma solução para os problemas. Se a quer de volta, levante-se e vá ajudar Huang Tuo a encontrar uma maneira de salvá-la! Ficar aqui nesse estado não a ajudará e, juro pelo vento, se você cometer alguma estupidez contra si mesmo e puser o sacrifício dela abaixo eu farei questão de ir até o Diyu pessoalmente garantir que sua maldita alma nunca vai encontrar outra vida! Tīng míngbái le ma?!*[2]
Shi parecia chocado, a mão sobre o rosto que ardia pela intensidade da agressão e, sobretudo, as palavras do guerreiro do vento que o tiraram da inércia e clarearam sua mente para seu real dever naquele momento. Separar-se de Yan Da era insuportável, mas Pian Feng estava certo, ficar ali parado não mudaria as coisas, ele tampouco podia delegar apenas aos outros a responsabilidade de trazê-la de volta, fosse qual fosse o preço da vida dela, Shi queria pagar pessoalmente. Os olhos encheram-se de lágrimas e, num gesto inesperado — e igualmente chocante — Pian Feng o abraçou dando tapinhas leves nas suas costas.
— Méiguānxì.[3] — Murmurou.
— Duìbùqǐ... — Chorou o príncipe.
— Hǎo hǎo hǎo, méiguānxì a, Bù kūle, hǎo ma?*[4] [N.A. certo, certo, certo, tudo bem, não chore, okay?]
Shi foi recobrando a calma aos poucos e, apesar de um tanto desconcertado, Pian Feng estava satisfeito por vê-lo finalmente reagindo após tantos dias imerso naquela apatia. O príncipe do gelo se afastou do guerreiro do vento e, com um aspecto bagunçado, mas um semblante melhor, pôs-se de pé.
— Obrigado, Pian Feng. — Disse sinceramente.
— Mova o traseiro dessa caverna, idiota. — Revirou os olhos para evitar sorrir. O príncipe sorriu e virou-se prestes a ir embora. — Ying Kong Shi!
Shi se virou na entrada da caverna.
— Você vai trazê-la de volta... duì bù duì?*[5]
— Wǒ bǎozhèng a.*[6] — Anuiu. [N.A. Eu prometo]
Quando ele desapareceu além da entrada da caverna com o ânimo aparentemente renovado, Pian Feng se deixou cair ao lado do esquife de gelo e respirou fundo. Testemunhar a dor de Shi segurando sua princesa nos braços tocou profundamente o coração do guerreiro do vento e, sob o choque da morte dela, ele pôde melhorar sua impressão a respeito dos sentimentos do príncipe por ela. Ter fé em Shi e Huang Tuo era tudo que Pian Feng podia fazer naquele momento.
— Esse seu príncipe é muito problemático, fadinha. — Disse baixinho com um sorriso triste. — Você vai ter um bocado de trabalho com ele.
Levantando-se, ele contemplou o belo rosto adormecido dela através da camada grossa de gelo, uma lágrima involuntária e teimosa caiu sobre o gelo cristalizando de imediato, ele acariciou o rosto de Yan Da sobre a tampa sentindo o peito apertar de dor e saudade.
— Por isso, você precisa voltar, minha fadinha... voltar para dar um jeito nesse príncipe complicado. Voltar para iluminar nossas vidas... porque, honestamente, não sei se consigo continuar nesse mundo sem você.
Fechou os olhos, abraçando a tampa de gelo.
— Por favor, Yan Da... — Murmurou engasgando com as lágrimas. — Por favor...
※※※
Huang Tuo e Liao Jian chegaram com Li Luo na tribo xamã mais rápido graças a um par de cavalos que o advogado conseguira. O curandeiro estava preocupado com a imperatriz, não sabia até onde o abismo do tempo havia danificado o espírito dela ou se era apenas a falta de vontade dela em viver. Tudo tinha de ser levado em consideração. Sua única certeza era que, se não agissem rápido, Li Luo podia nunca mais acordar.
Eles entraram no salão de cura e Huang Tuo a levou apressado para o quarto mais próximo do salão de ervas. Liao Jian, por sua vez, seguindo orientações do curandeiro foi atrás de Ka Suo para informar o estado da imperatriz. O médico tomou o pulso de Li Luo e franziu o cenho, a pulsação espiritual dela parecia enfraquecer a cada momento. Saindo até o salão de ervas ele procurou algumas de que precisava e pisou com a ajuda de um pilão de mão.
— Huang Tuo... — Ka Suo apareceu nesse momento. — Como ela está?
— Receio que não muito bem. — Respondeu sem olhá-lo adicionando coisas à mistura de ervas secas. — O poder espiritual dela diminui a cada momento, não sei quanto disso pode ser um dano do abismo do tempo, da cessão de corpo ou...
— Ou?
— Da vontade dela. — Disse, após hesitar por um momento. — Entenda, Ka Suo, há coisas que mesmo eu não posso fazer. Só posso curar até onde o meu paciente me permite, se ele não quer viver, não sou eu que posso fazê-lo contra a vontade dele.
Passando pelo monarca com uma expressão séria, Huang Tuo sentou ao lado de Li Luo e, despejando um pouco de água morna na mistura de ingredientes, ajudou-a a beber com o auxílio de uma colher. Estático, Ka Suo observava sob o temor silencioso ante as palavras do amigo. Ao terminar de ministrar todo o remédio, o curandeiro tomou o pulso da imperatriz e esperou alguns minutos; percebendo que a pulsação melhorava gradualmente soltou um suspiro de alívio.
— Talvez seja melhor trazer Xing Jiu aqui, ele pode ser útil. — Aconselhou o curandeiro. — Peça que Liao Jian o traga, de todos nós ele é o menos empenhado em ajudar Yan Da.
O monarca anuiu e Huang Tuo saiu até a biblioteca secreta para ajudar a esposa, que queria muito ver de novo, e Lan Shang a procurar uma maneira de reverter a morte de Yan Da. Ao vê-lo, Yue Shen correu para abraça-lo fazendo a sereia sorrir timidamente e sair até as estantes mais ao fundo para lhes dar privacidade. Huang Tuo manteve a envenenadora em um abraço apertado por longo tempo, aproveitando a sensação de tê-la nos braços sem o temor do minuto seguinte.
— Viu? — Sorriu, falando baixinho e depositando um beijo na cabeça dela. — Eu disse que conseguiria.
Yue Shen sorriu e apertou-o um pouco mais sem dizer nada. O curandeiro pensou que ela parecia muito com uma criança quando agia daquela maneira e, por ser tão raro vê-la vulnerável assim, ele estava extasiado — sob as várias camadas de preocupação — em descobrir esse novo lado dela.
— Li Luo ne? — Perguntou quando se afastaram.
— Está estável agora, mas não totalmente fora de risco. — Acariciou o rosto da esposa. — O espírito dela foi submetido a muitas cargas, ainda não sei até onde vai a vontade dela de viver. Encontrou alguma coisa?
Meneou a cabeça.
— Boa parte dos livros fala sobre magia proibida e alguns tabus antigos que foram descartados com o passar do tempo, mas não encontramos nada sobre o caso de Yan Da.
— Quanto já olharam?
— Não sei ao certo, talvez três ou quatro estantes. — Suspirou. — Achei mais arquivos de veneno do que meu próprio professor tinha em toda a sua biblioteca, alguns deles eu sequer ouvi falar.
— O veneno e o antídoto são co-dependentes. — Sorriu. — E muitas vezes, venenos são curas inesperadas, é natural que os estudemos.
— Achei alguma coisa! — Lan Shang disse de algum lugar nos fundos da biblioteca.
Antes que o casal fosse até ela, a sereia se precipitou por entre as estantes segurando um pergaminho de bambu aberto que entregou a Huang Tuo. O curandeiro examinou o texto com atenção, além dos ideogramas havia alguns desenhos, Yue Shen, ao seu lado, observava as palavras com uma mistura de esperança e apreensão.
— Parece que não temos muitas saídas disponíveis... se ela tiver atravessado os portões de Meng Po, a chance de trazê-la de volta diminui e, mesmo que ainda esteja em alguma corte do Diyu, será difícil preservar a memória dela sem um sacrifício. — Suspirou o curandeiro.
— Não tem outro meio? — Yue Shen perguntou.
— Vamos continuar procurando, pode ser que haja mais coisas sobre o assunto, sendo um velho tabu pode ser que outros tenham tentado antes. — Encorajou a sereia.
— Lan Shang está certa. — Anuiu Huang Tuo. — Mostre onde achou este livro, vamos procurar mais informações.
※※※
Yan Da sentiu uma dor intensa atravessar o seu peito e, de repente, a voz de Pian Feng atravessou os seus ouvidos com tal nitidez que a princesa temeu encontrar o amigo ali. “Por isso, você precisa voltar, minha fadinha... voltar para dar um jeito nesse príncipe complicado. Voltar para iluminar nossas vidas... porque, honestamente, não sei se consigo continuar nesse mundo sem você.”
Peng Yan a segurou quando seu corpo pendeu, ela mal conseguia respirar, parecia que seu peito havia sido aberto por uma bala de canhão.
— Tudo bem... — Disse baixinho o seu melhor amigo. — Já vai passar.
— O que é isso?
— Eu disse, a dor deles vai começar a afetar você. — Ele esboçou um sorriso triste. — Só não imaginei que começaria tão rápido... precisamos nos apressar.
— Peng Peng... o que está acontecendo?
— Receio não poder explicar isso agora, ainda há coisas que você precisa saber, Da’er. — Seu tom de voz era angustiado. — Consegue respirar?
Após um momento, ela anuiu.
— Wo meishi. — Sentou-se outra vez e, ao ver a expressão preocupada de Peng Yan, fez uma careta. — Wo zhen de meishi*[7], não sou tão quebrável assim.
— Hao... então vou continuar. — Ele se afastou um pouco e tocou a água com o dedo indicador, ondas circulares se formaram e oscilaram abrindo-se para uma nova imagem, Yan Da contemplou Ying Kong Shi já na vida atual trabalhando na ZhangYing ao lado de Ka Suo. — Ao contrário da sua vida quatro mil anos atrás, quando voltou nessa nova oportunidade, Shi teve a oportunidade de crescer em um lar amoroso com uma família que o amava, respeitava e incentivava.
“Não havia sombras sobre sua origem e, apesar de seus pais serem um tanto quanto exigentes pela sua tradição arraigada numa família tradicionalista, eles sempre o amaram muito. Todavia, o coração do jovem nunca foi capaz de conhecer o amor. Shi passou pela adolescência e juventude incapaz de se apaixonar embora tenha recebido o coração de várias garotas e fosse cobiçado por onde passasse. Isso, claro, até ele encontrar você. A partir do momento que ele a viu pela primeira vez, todos os anos de solidão fizeram completo sentido e, mesmo que de início esse sentimento estivesse mascarado por uma aguçada curiosidade a seu respeito, ele sabia que nunca mais conseguiria ficar longe de você.
“Essa necessidade se mostrou mais forte quando, mesmo sabendo o seu papel naquela entrevista de emprego, ele escolheu confiar a você um dos cargos mais importantes dentro da empresa. A fascinação de Shi aumentava cada vez que ele te via, Da’er, mesmo parecendo impossível e ele não acreditando nem um pouco em amor à primeira vista, era impossível negar seu coração acelerado cada vez que seus olhares se cruzavam e a necessidade incontrolável em seu peito de proteger você. Ele foi torturado quando recobrou as memórias de tudo que havia feito, sentiu repulsa por si mesmo e desespero por saber do seu ódio ao lembrar o que ele havia lhe feito.”
Yan Da acompanhava as imagens que tinham como plano de fundo a narração do melhor amigo. Havia uma mistura de mágoa e angústia no seu coração, quanto mais descobria sobre os sentimentos de Shi, mais se sentia culpada sobre a forma como o tratou, mas, ao mesmo tempo, também sentia medo de aceitar os sentimentos dele.
— Ele tentou então conquistar seu coração. — Continuou. — Contaria toda a verdade para você quando você também o amasse, assim, mesmo que chegasse a odiá-lo pelo que aconteceu no passado, eventualmente poderia perdoá-lo. Mas as coisas acabaram dando errado e você acabou recuperando as memórias antes do esperado sem que Ka Suo pudesse evitar. Todos eles nutriam a esperança de que você perdoaria Shi no final, afinal, o amor que sentiam um pelo outro sempre foi claro, mas não aconteceu e se conformaram com seu fim iminente. Só que Lian Ji tinha outros planos e, por pior que tenha sido o abismo do tempo, algo muito pior teria acontecido a você ou aos outros se ela tivesse conseguido o que queria antes.
“Eu sei, Da’er, que a decisão que você tomou foi pelo bem de Shi e dos outros, ainda que tenha servido também como uma maneira de se vingar de Ka Suo e do príncipe e era isso que sua mãe mais temia caso você acabasse sendo pega pelos demônios de Meng Po. Sua punição por isso seria severa, pois purificar um espírito vingativo é difícil. Mas veja por si mesma o sofrimento no coração do príncipe Shi com a sua perda.”
A imagem refletida no lago era inacreditável aos olhos da princesa. Antes, Shi derramara uma única lágrima por ela, mas por não entender os sentimentos que nutria em seu coração, não era capaz de realmente sentir a perda dela. Todavia, o desespero daquele jovem no meio da ponte abraçado ao seu corpo, gritando e agredindo o irmão que antes era seu universo, assistindo seu sonho, definhando ao lado do seu corpo em um esquife de gelo, era quase fantasioso de tão chocante.
“Eu preferia que você tivesse me condenado a morrer. Me salvar e me condenar a essa dor é pior que qualquer morte. Diga, Yan Da, vale a pena me salvar?” Ela não conseguia reconhece-lo, mas as palavras dele conseguiam atravessá-la tão dolorosamente quanto a espada envenenada que lhe tirou a vida. Os sentimentos de Shi transbordavam, a princesa do fogo se sentiu ainda mais culpada por ter desconfiado da veracidade deles antes. Tudo que queria naquele momento era poder ter uma chance de abraçar Shi outra vez. Sua mão tocou a água como se pudesse alcança-lo, mas não foi capaz, só fez a imagem desaparecer e a superfície do lago voltar a ser brilhante e irreflexiva outra vez.
— Ainda há outra questão que é necessário esclarecer. — Disse Peng Yan. — Quando fomos sequestrados, seis anos atrás, Shi ficou muito mal. As estrelas de vocês se fundiram e ele podia sentir tudo que você sentia, por muito pouco ele não morreu. Xing Jiu não conseguia te localizar, Huang Tuo e Ka Suo levaram Shi para o reino de fogo enquanto os outros te procuravam desesperadamente por todos os lugares com os recursos que dispunham. Mais tarde, o astrólogo apagou essas memórias da mente de Shi, Da’er, mas ele sofreu com você cada minuto do nosso cativeiro. Cada agulha no seu corpo também foi sentida por ele.
Yan Da se levantou afastando-se pela costa do lago cristalino com uma dor profunda no coração. Sentia-se enlouquecendo por uma agonia desesperadora, as verdades ecoando no seu peito como lanças, estava enjoada e vazia. Podia ouvir os passos de Peng Yan atrás de si a certa distância, longe o suficiente para lhe dar privacidade e perto o bastante para segurá-la se fosse preciso. As lágrimas nublavam sua visão do cenário ao redor, o céu acima de sua cabeça foi escurecendo lentamente e ela sentiu a luz esbranquiçada pinicar na sua pele quando ergueu seu olhar aquoso e encarou a lua cheia reinante nas trevas do firmamento.
A lua do abismo.
— Yan Da! — A voz de Peng Yan tinha um tom de advertência.
A princesa do fogo gritou, consumida pelo arrependimento e a culpa, desejou apagar a si mesma para se libertar daqueles sentimentos e nesse momento Peng Yan lhe chamou de novo, dessa vez seu tom era de medo. Ele a alcançou e abraçou apertado escondendo seu rosto no peito dele, cobrindo-a com seu robe de cima, o garoto a manteve presa em seus braços enquanto ela gritava contra seu peito a dor que lhe consumia.
— Tenha cuidado com o que desejar aqui, Yan Da... qualquer deus é capaz de te ouvir e pode atender o seu pedido. — Advertiu. — Sei que é difícil, mas limpe seus pensamentos, deixe ir essa dor, apenas quando conseguir se desprender da culpa vai ter forças para encontrar o caminho de volta ao seu destino.
Fechando os olhos, Yan Da pensou em Shi, na sensação dos seus lábios suaves, nos seus olhos expressivos, no som grave e aveludado da sua voz, no calor especial do seu abraço e, sobretudo, na música do seu coração. Apertando as vestes de Peng Yan entre seus dedos, ela implorou o perdão daquele que não mais podia lhe ouvir.
※※※
Xing Jiu chegou à tribo Xamã acompanhado de Liao Jian e Xun Hao. Foi diretamente para o quarto onde Huang Tuo havia hospedado Li Luo cumprimentando Ka Suo quando passou por ele. Sentando ao lado da ex-feiticeira, ele tomou seu pulso e fez uma careta, Xun Hao pediu ao monarca que saísse do aposento junto com o advogado enquanto ele auxiliava o astrólogo nos procedimentos.
— Mestre...
— Abra o portal dos sonhos. — Ordenou Xing Jiu. — Não temos muito tempo.
Ka Suo queria permanecer à porta do quarto a espera de notícias, mas acabou cedendo ao pedido de Liao Jian e o acompanhou até o salão da cura. O monarca queria mesmo conversar com o amigo a respeito do que este faria sobre o futuro, se voltaria para o isolado norte ou aceitaria a nova vida no mundo mortal. Estavam quase alcançando a porta de entrada quando uma figura surgiu entre os arcos surpreendendo os dois.
— Shi... — Murmurou Ka Suo.
O jovem príncipe parou a alguns metros de onde o irmão, e o advogado, o encaravam, mas ainda se sentia incapaz de olhar para Ka Suo sem mágoa.
Xun Hao recebeu o cubo dos sonhos de Xing Jiu quando este atravessou o portal dos sonhos segurando o cajado das estrelas, uma luz forte engoliu todo o cômodo e as luminárias de cristal explodiram causando grande barulho, na cama, os olhos de Li Luo se abriram para a vida mais uma vez.
Fale com o autor