Love as Sakura | 爱如樱
53 第48章 A maldição entre nós
“Cientistas ainda tentam encontrar uma explicação para a névoa de poeira que cobriu os céus da China desde o pequeno terremoto de ontem. O Centro Meteorológico Nacional em nota disse que a tempestade pode ter se formado no deserto de Gobi e é a maior tempestade e areia vista em mais de dez anos. Ainda se está investigando...”
Ka Suo desligou a televisão enquanto Shi continuava contemplando o céu dourado que cobria toda a cidade como um cenário apocalíptico. A afirmação do monarca a respeito da abertura do abismo do tempo colocou todos eles em alerta, não havia muito mais tempo restando e eles não pareciam nem perto de uma solução, tudo estava dando errado e a esperança aos poucos ia se dissolvendo no ar como aquela poeira desértica.
Pian Feng e Chao Ya voltaram para o apartamento de Yan Da a fim de ver se o abalo havia danificado alguma coisa. O ânimo de todos estava abalado tal qual a população que tentava não entrar em pânico especulando a origem daquele fenômeno. Se soubessem a verdade mefistofélica — que seu mundo estava prestes a desaparecer — eles imaginavam que seria impossível conter o caos histérico que se alastraria por toda parte.
— Desde o início era uma má ideia confiar essa responsabilidade à Ying Kong Shi, estava claro como água que ela não ia conseguir perdoá-lo quando lembrasse de tudo.
— Por isso você pediu a Xing Jiu para impedir que ela lembrasse? — Chao Ya perguntou enquanto colocava uma cadeira caída no lugar.
— Como você sabe disso? — Pian Feng ergueu a cabeça do seu trabalho de pegar os cacos de um vaso e a fitou em choque.
— Ora, Pian Feng, acha que eu nasci ontem? — Revirou os olhos. — Isso é a sua cara. Xing Jiu conversou comigo depois que você pediu a ele. Se sentia mal por Yan Da e por você.
— Quase aceitei a sugestão dele de subornar um juiz. — Resmungou.
— Oh, você não se atreveria! — Ameaçou. — Do contrário era para ficar lá no submundo mesmo ou eu faria o inferno parecer atrativo para você!
Ele encolheu os ombros sabendo que não era uma promessa vazia. De todo modo, sentia-se no limite, precisava fazer alguma coisa apenas pela sensação de estar fazendo algo ainda que o fim fosse o mesmo. Era da natureza de Pian Feng morrer lutado, mesmo em vão.
— Vou atrás dela.
— Pian Feng...
— Ela precisa pelo menos me ouvir! Se vamos mesmo morrer, não quero que ela parta me odiando ou tendo pensamentos equivocados sobre nós. — Explicou. — Amo Yan Da como se fosse minha filha, aprendi a amar cada pequena parte dela e não vou permitir, Chao Ya, que ela continue agindo como se eu não existisse porque nem a morte pode ser pior que isso!
A cantora se aproximou do marido e o abraçou. Pian Feng não sentiu o nó apertando sua garganta até os braços dela lhe envolverem e as lágrimas caírem pelo seu rosto. Por duas vezes ele viu Yan Da atravessar aquela porta incapaz de olhá-lo e aquilo doía, tanto ou mais que ver Chao Ya nos braços de Liao Jian quatro mil anos atrás. Ele apenas não podia mais esperar, não conseguia deixar aquela situação durar mais que aquilo, ele sentia falta dela, queria abraça-la de novo e protege-la até tudo acabar.
Dessa vez para sempre.
Chao Ya beijou o rosto do amado tentando conter, ela mesma, suas próprias lágrimas. No fundo se sentia como ele, também queria sua menina de volta ainda que tentasse respeitar o tempo dela e suas escolhas. Ela segurou o rosto dele com as duas mãos e secou suas lágrimas com os dedos enquanto o fazia olhá-la nos olhos.
— Vai ficar tudo bem, hum? — Prometeu mesmo não sendo verdade. — Eu sei que a nossa menina também sente a sua falta, mas pelo menos por hoje fique aqui. Se ela está com Hu Bing está segura. Acalme-se primeiro e a procure com a cabeça fria, está bem?
Ele anuiu e a abraçou novamente. A notícia do abismo do tempo pegara a todos de surpresa, apesar de sempre tentarem ter em mente a possibilidade de um fim inevitável, nunca antes ele parecera tão assustador e tão real. Nenhum dos dois se mexeu, ficariam abraçados daquela maneira até sentirem que a separação não viria, até poderem ter a certeza que mesmo separados, em algum lugar, parte de suas almas estariam juntas pela eternidade.
※※※
Yue Shen não fez perguntas quando seguiu o marido pelo portal e os dois saíram no declive das cerejeiras. Ainda que uma parte de si quisesse saber o que Huang Tuo tinha em mente, confiava nele o bastante para apenas seguir o fluxo e se ele a queria ali era porque precisaria dela para algo. Ele franziu o cenho enquanto olhava em volta, as majestosas cerejeiras sempre em floração enchendo o ar com seu aroma adocicado, o chão coberto de neve e o vento uivando por entre os galhos.
— Hmm... — Murmurou pensativo. — Um pouco longe do propósito.
Ela não conteve a leve risada.
— E onde você queria sair, afinal?
— Na... tribo dos astrólogos? — Ele sorriu sem jeito.
— Um pouco longe chega a ser um eufemismo, amor. — Revirou os olhos. — Devia ter deixado que eu abrisse o portal.
— O que fazemos agora?
— Sabe que portais não funcionam aqui. — Suspirou. — Vamos ter de caminhar, não tem outro remédio.
Eles só podiam abrir portais para o mundo mortal, apenas Ying Kong Shi conseguia viajar por portais dentro do mundo imortal. Sem demora, os dois começaram a caminhar e Huang Tuo parecia sem jeito como uma criança que tirou nota baixa na prova e foi repreendida pelos pais. Um sorriso enternecido brilhou no rosto de Yue Shen, ela segurou a mão do marido enquanto os dois avançavam pela planície gelada e bonita sob o caminho ladeado pelas cerejeiras de flores rosadas e esbranquiçadas, nunca tiveram a chance de caminhar juntos daquela maneira no passado, era como entrar em uma máquina do tempo.
— Não faça essa cara. — Falou em tom suave. — Vamos encarar como uma chance de passar mais tempo juntos.
— Você não está chateada? — Ele parecia apreensivo.
— O quê? — Outra risada. — Não seja bobo, Huang Tuo. Não me chatearia com você por um motivo tão ridículo. Com sorte vamos conseguir algum cavalo em algum vilarejo pelo caminho e chegaremos em dois ou três dias.
— Eu devia ter recrutado Shi também. — Suspirou. — Ele seria útil agora.
— Por que ir à tribo dos astrólogos? — Perguntou, por fim. — Com a destruição da Cidade Ren os poucos remanescentes dela talvez sequer nos deixem entrar, se é que ainda tem alguém vivo lá.
— Veja, Lian Ji atacou Xing Jiu para nos deixar um ponto cego, sem eles não podemos rastrear os passos dela e tampouco conseguimos localizar uns aos outros em momentos de necessidade. — Explicou. — Ela deixou o cajado das estrelas para trás, mas levou consigo o cubo dos sonhos, o que significa que através dele conseguiríamos acessar Xing Jiu.
— Isso quer dizer que ele está preso no próprio sonho agora. — Concluiu. — Irônico para dizer o mínimo.
— Se eu não estiver errado a resposta para o motivo de ela ter feito isso como a maneira de acordar nosso amigo estará nas velhas escrituras da tribo dos astrólogos.
— Dos astrólogos e não da tribo xamã? Pensei que vocês cuidassem de enfermidades.
— Amor, você é uma de nós. — Ele lhe ofertou um de seus sorrisos mais doces. — Apesar do que todos eles disseram, sabemos que você só abandonou a cura para proteger Yue Zhao, se alguém te criticou no passado foi apenas a inveja de não ter a sua coragem.
— Como posso ser uma curandeira, Huang Tuo? Eu não posso curar, mato tudo em que toco.
— Sabemos que não é assim. — Os dedos dele apertaram um pouco mais a mão dela. — Viu? Ainda estou vivo. Não importa se é magia negra ou branca, meu anjo, ela depende antes de tudo da nossa própria vontade e intenção.
Yue Shen sorriu e se aproximou mais passando a mão pela cintura dele. Huang Tuo a envolveu com seu braço e os dois continuaram a jornada até um vilarejo decadente nos arredores da divisa entre a antiga Snowblade e a tribo Xamã. Era uma vila de curandeiros que antes pertencia a tribo Xamã, mas que com a perda dos líderes acabou sobrevivendo como podia. Não foi difícil barganhar por um cavalo e os dois seguiram viagem mais rápido tentando não pensar na visão desoladora que deixaram para trás.
Aquela, afinal, não era mais a vida deles.
※※※
Yan Da e Hu Bing não se sentiram melhor após ver a notícia no jornal sobre o abalo que algumas regiões do país sofreram. Claro que, para ela, nada daquilo estava relacionado ao que acontecera com Shi ou ao seu destino naquele mundo. Ela ainda não sabia de nada. Nem ela e nem o irmão conseguiram descansar direito naquela noite, com medo de um novo abalo e ainda sob a visão tenebrosa da cidade coberta com o véu de areia, eles partilharam o mesmo quarto conversando sobre amenidades até finalmente conciliarem o sono.
Na manhã seguinte, Hu Bing saiu logo depois do café da manhã para ir ao escritório, havia algumas coisas para resolver e ele queria começar a agir o quanto antes. Ele prometeu que voltaria para almoçar com a irmã e pediu que ela ligasse caso ocorresse qualquer coisa. A própria Yan Da sabia que precisava resolver sua situação na ZhangYing, mas a possibilidade de encontrar Ying Kong Shi afastava dela qualquer disposição de sair de casa. Não podia fugir para sempre, mas evitaria o príncipe do gelo o máximo que pudesse enquanto seu coração estivesse inflamado pela raiva e a mágoa.
O retorno do irmão serviu para aliviar um pouco a dor dos últimos acontecimentos e a sensação era de que Yan Da não estava mais à deriva agarrando-se a um pedaço de madeira para sobreviver, ainda que não soubesse o que faria da sua vida dali para frente, pelo menos se sentia um pouco mais encorajada a segurar as rédeas da sua vida. Conseguiria seguir em frente a partir do momento que deixasse o passado para trás. Mas não tinha ideia de que maneira o faria quando os sentimentos do passado mesclavam-se com aqueles que nasceram no seu coração naquele mundo também.
Ela se lembrava de cada detalhe do que viveu com Ying Kong Shi. Os dias que ele ficou ao seu lado no hospital aprendendo a cuidar dela e prendendo seus cabelos da forma mais torta e adorável até acertar penteados perfeitos, a sorte de flores que ele lhe levava diariamente por não conhecer suas favoritas e para garantir que ela sempre teria um aroma suave à sua volta. A forma como ele agia meio tolo sem saber o que fazer quando estavam juntos, ou o modo que fazia o coração dela acelerar com um único olhar. Ela odiava cada partícula do universo que a fizera se apaixonar por ele de novo.
Recusando-se a ficar presa em seus pensamentos e sem o alívio da ocupação do trabalho para manter sua cabeça focada em alguma coisa, recorreu ao laptop do irmão para checar as últimas postagens do The Forge, o podcast de RPG que mais gostava e havia deixado de ouvir nas últimas semanas quando sua vida virou de cabeça para baixo. Havia uma sessão de contos no site e foi a ela que Yan Da recorreu, em geral eram histórias de personagens ou contos originais dos idealizadores da página. Ela não queria ouvir as últimas novidades sobre jogos naquele momento porque havia muito não jogava e fazê-lo agora podia lembrar-lhe daquele dia em que massacrara Ying Kong Shi em um PVP*[1] e o resultado da disputa foi uma sequência de beijos intensos.
Meneou a cabeça afastando os pensamentos. Era irritante como ele nunca saía da sua cabeça mesmo quando ela usava toda sua determinação para não pensar nele. A campainha do apartamento tirou-a dos seus devaneios e, suspirando, ela se perguntava quem poderia ser. Hu Bing não lhe avisara que estava esperando ninguém e ela não esperava que alguém soubesse sua localização. Ligando a câmera da porta, ela viu o rosto angustiado de Pian Feng do outro lado e seu coração pulou uma batida. Yan Da hesitou um pouco antes de finalmente destravar a porta e permitir que ele entrasse. Podia fugir de Ying Kong Shi o quanto quisesse, era justo, mas por mais magoada que estivesse, ela sabia, era impossível dar as costas à Pian Feng três vezes.
Eles ficaram parados diante um do outro por longo tempo, apenas se olhando como amigos que não se veem por muitos anos, olhares marejados, nós bloqueando o fluxo prolixo de palavras, corações gritando pedidos de perdão silenciosos até, por fim, Pian Feng dar um único passo a frente e dizer o nome dela em um sussurro cheio de tristeza, aquilo foi o bastante para quebrar todas as defesas de Yan Da que cobriu a distância curta separando-os e atirou-se no abraço confortável do seu protetor.
— Eu sinto muito... — Murmurava ele entre soluços. — Minha fadinha, eu nunca... me perdoe...
Permaneceram abraçados trocando soluços e pedidos de desculpas pelo que pareceu um longo tempo. Yan Da não conseguiria ficar chateada com ele por muito tempo e estava consciente disso, especialmente porque Pian Feng era uma parte crucial da sua vida. Quando os perdões foram dados e um enxugou as lágrimas dos outros com dedos trêmulos, o guerreiro preparou um chá sabendo que Qiqi não demoraria muito para começar os preparativos do almoço e não desejando atrapalhá-la — agora que seu trabalho era cozinhar para três e não mais dois. Ele e Yan Da se acomodaram no escritório de Hu Bing onde poderiam conversar sem risco de serem ouvidos e sem nada que os interrompesse.
Inicialmente, apenas o silêncio imperou no cômodo cheio de livros que mais parecia um escritório inglês do século XIV. Uma enorme janela com pesadas cortinas azuis dava vista para o jardim lateral do condomínio e o céu dourado e sinistro do lado de fora perfurado pelos arranha-céus da cidade. Estantes ocupavam quase todas as paredes, havia um pequeno cofre ao lado da mesa de mogno e uma saleta onde ficavam sofás, poltronas além de um aparador com alguns lanches e bebidas. Tudo ali era muito masculino e tinha um toque de Hu Bing, mas Yan Da gostava daquele lugar.
— Imagino que querer saber como você está é a pergunta errada. — Começou Pian Feng um tanto cauteloso.
— Eu não saberia te responder, de todo modo. — Admitiu. — Jiejie ne?*[2]
— Para eu te responder isso, há muita coisa que preciso explicar antes. — Disse e bebeu um gole do chá. — É por isso que estou aqui, Yan Da, para te dizer toda a verdade por trás dessa tempestade de areia e de tudo que aconteceu para estarmos aqui.
Ela olhou o amigo por longo tempo tentando entender suas palavras. Pian Feng era sempre honesto com ela, assim como Hu Bing, por isso pelo tom dele ela estava certa que não ia gostar do que ouviria a seguir. De repente, lembrou-se de algumas palavras dele antes de recobrar a memória do passado. “Você vai tirar de letra, são idiotas!” Quando ela estava prestes a encontrar Ying Kong Shi em uma armação feita por Ka Suo. “Não me torne um monstro por você”, naquele momento aquelas palavras não fizeram sentido, agora ela podia sentir em cada célula epitelial o medo de que Shi quebrasse seu coração de novo. Era por isso que ele sempre ficara contra o príncipe do gelo a quem devia servir, porque sabia o que ela sofrera no passado e não queria que o ciclo se repetisse.
— Antes de ouvir as más notícias, quero saber algumas coisas.
— O que você quiser, estou aqui para responder suas perguntas. — Assegurou. — E imagino que deva ter várias.
— Se eu tivesse parado para refletir de verdade sobre tudo que aconteceu provavelmente perceberia que sim, há muitas perguntas, mas não tive calma espiritual o bastante para isso.
Um sorriso amargo se formou nos lábios de Yan Da enquanto ela bebia mais um pouco do chá em sua xícara e mantinha os olhos fixados na mesa de centro. Pian Feng, sentado em uma poltrona ao lado dela, como sempre deu o tempo que ela precisava para organizar suas ideias e encontrar as palavras, algo a que Yan Da era sempre grata.
— Como você e Chao Ya acabaram lutando do meu lado do jogo dessa vez? — Perguntou finalmente. — Pelo que me lembro, eu não era a pessoa favorita de vocês quatro milênios atrás.
— Ah, sobre isso. — Ele deu uma risada baixa. — Antes de mais nada, quero dizer que sinto muito. Eram tempos diferentes e circunstâncias diferentes, além do mais, eu não sabia o que sei agora.
— Como assim?
— Quando fomos trazidos para cá, bem, Xing Jiu nos concedeu todas as visões do passado que não recebemos além da nossa própria. Sua história com Ying Kong Shi foi vista como um filme de rolo por todos nós. Sabemos o que você sofreu e os crimes que ele cometeu. Conhecemos o intuito do seu pai, a conduta errônea do seu irmão, enfim, memórias que nos eram inacessíveis se tornaram claras e, conhecendo toda a história, foi impossível não mudar nossa opinião a seu respeito, ainda que nunca tivéssemos reais motivos para ter algo contra você.
“Xing Jiu foi o último de nós a vir para cá, por isso era muito difícil rastrear sua estrela do mundo mortal e demoramos algum tempo até conseguir te encontrar. Yue Shen ficou responsável por vigiar você a princípio, mas quando como ela também precisava vigiar Ying Kong Shi, Ka Suo acabou confiando o trabalho a mim já que Liao Jian ainda tem parte do cérebro na Fortaleza do Norte. Não tive objeções, embora admita que ainda não tinha essa devoção particular por você. Contudo, quando Shuo Gang sabotou o seu carro não pude ficar parado, não apenas porque nossa permanência aqui dependia de você, mas porque me era impossível assimilar que sua vida enveredasse no mesmo caminho de novo! A luz nas costas de Peng Yan que você viu naquele dia foram as minhas asas. Perdi meus poderes naquele dia.”
— Espera um pouco, como a permanência de vocês aqui pode depender de mim? — Interrompeu.
Pian Feng começou, então, a contar tudo do início, desde o sacrifício que os trouxera de volta naquele mundo até o momento em que ela recobrou a memória do passado. Contou-lhe sobre a razão pela qual não conseguiram impedir que ela e Peng Yan tivessem aquele desfecho trágico e quão desesperados todos ficaram procurando por ela todo aquele tempo. A verdade foi sendo despejada sobre ela com sinceridade ácida, sem que ele lhe escondesse qualquer detalhe. Disse-lhe do abismo do tempo em que Li Luo havia sido colocada por Lan Shang, dos possíveis planos de Lian Ji e tudo que ela fizera, da razão por Ka Suo não ter lhe devolvido suas memórias e, mais importante, dos sentimentos de Ying Kong Shi durante tudo aquilo — embora lhe custasse admitir que o príncipe do gelo estava mesmo sendo sincero sobre seus sentimentos.
Yan Da ouviu sem interromper a narração de todos os anos que viveu ao lado do guerreiro sob sua ótica, a forma como os sentimentos dele começaram a mudar quando a salvou na festa de calouros naquele bar, o modo como lhe doeu fingir que não sabia do triste fim de Peng Yang quando antes estivera desesperado para salvá-los, mas incapaz de localizá-los. O coração da princesa do fogo foi realmente tocado com o carinho e a honestidade do guerreiro do vento ainda que não conseguisse aceitar a posição dele quanto aos sentimentos de Shi, após ouvir tudo aquilo nada conseguia tirar da cabeça de Yan Da que Shi apenas queria salvar o irmão (de novo) usando-a para libertar Li Luo.
— Fadinha, eu sou a última pessoa que gostaria de falar por Ying Kong Shi. — Continuou. — Não concordo com nada que ele fez para você e te apoio por se sentir magoada. Mas do mesmo modo que um dia vi aquele moleque tão frio quanto os muros de Ren Xue Chen, hoje eu sou testemunha do que ele sente por você, é real, Yan Da.
— Há uma maldição entre nós, Pian ge. — Disse em tom baixo. — Por mais que o destino pareça insistir nesse erro, não estamos designados a ficar juntos.
— Você sabe a única coisa que desejo é a sua felicidade. — Ele se aproximou e segurou as mãos dela. — No começo, também temi que aquele Ying pudesse machucar você quando recobrasse as memórias, confesso que até tentei dificultar a aproximação de vocês dois. Mas mesmo diante de tudo isso, fadinha, ele ainda está aqui por você. Ele escolheu você dessa vez.
Os olhos da princesa se direcionaram para o céu cor de trigo do lado de fora da janela finalmente entendendo o significado por trás daquele prenúncio do fim. Conforme as peças se juntavam no quebra-cabeças dos acontecimentos ela refletia as palavras do amigo e, voltando o olhar para ele, esboçou um meio sorriso sombrio.
— Bem, vamos testar essa sua teoria muito em breve.
※※※

MENG HUO YI É PRESO PELA POLÍCIA!
O CEO da Huo Enterprises, Meng Huo Yi, foi preso na manhã de hoje por um mandado emitido pelo próprio filho, o juiz Meng Hu Bing que retornou à China após sete anos vivendo na Europa onde se formou em Direito. Em nota, a polícia não deu muitos detalhes acerca da prisão do empresário, mas algumas fontes afirmam que as acusações giram em torno de possíveis movimentações ilegais da empresa e até mesmo um assassinato ocorrido seis anos atrás.
Em breve entrevista para nossa página, Meng Hu Bing diz que o processo ocorrerá em segredo de justiça, mas que fará o possível para esclarecer a série de mal entendidos envolvendo o pai e também o irmão mais novo, Meng Shuo Gang, assim como a transparência dos negócios da Huo Enterprises. Ele afirma que fará um julgamento imparcial para os familiares.
“Eu os vejo como cidadãos chineses e não como parte da minha família. Aplicarei a lei de acordo com o que eles fizeram de errado.”
Um assunto obscuro relatado à nossa fonte pode envolver a filha mais nova do empresário, Meng Yan Da e o desaparecimento de um jovem prodígio ocorrido seis anos atrás, contudo, nenhum relato oficial foi feito por parte da superintendência da polícia ou pelo juiz Hu Bing, responsável pessoal pelo caso. Ele será assessorado por dois outros juízes do supremo tribunal de justiça já que os envolvidos são seus parentes diretos.
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Ka Suo largou o tablet sobre a mesa do escritório e soltou um suspiro pesado. Parecia realmente o fim de tudo. Se perguntava se Shi já havia visto as notícias, mas duvidava. O irmão estava mais e mais afundado em melancolia como se estivesse perdido. Ele não podia culpa-lo de todo modo. Sentia a pressão da energia do abismo do tempo fazendo força para se romper, o peso daquela responsabilidade nos seus ombros era opressor.
— Zhang xiansheng, a reunião está prestes a começar.
— Ah, sim, já estou indo. — Anuiu.
A ausência de Xing Jiu parecia deixar tudo aquilo ainda pior. Não ter o amigo por perto era ruim não apenas pela impossibilidade de localização coletiva, mas, sobretudo, pelo fato da ausência dele ser como um braço faltando em Ka Suo. Era com o astrólogo que ele dividia suas preocupações e pedia conselhos quando não sabia que passos dar. Mais do que nunca, o monarca gostaria de ter o amigo ao seu lado naquele momento, pois não via uma maneira de salvar Yan Da e todos os seus amigos daquele final trágico e iminente.
※※※
O curandeiro e a envenenadora chegaram à tribo dos astrólogos em dois dias imortais (o tempo passava de maneira diferente nos dois mundos). Havia alguns guardas nos portões, o que indicava a existência de remanescentes, todavia o casal foi cauteloso uma vez que não sabiam quem estava no comando desde a partida de Xing Jiu. A maioria das tribos imortais havia ficado vazia após a queda do reino do gelo, a quem eles serviam. Mesmo o reino do fogo havia se tornado um apanhado de montanhas vulcânicas abandonadas e só o poder ancestral sobrevivia em suas entranhas.
Contudo, a sorte lhes favoreceu e quem ainda mantinha a tribo dos astrólogos em ordem era Xun Hao, o braço direito de Xing Jiu. Eles foram recebidos na câmara dos sonhos pelo gentil homem que, ao saber das condições de seu amo, se prontificou em ajudá-los a encontrar o que procuravam. Eles foram levados para a biblioteca das estrelas onde ficavam os escritos raros e antigos, embora o próprio Xun Hao não soubesse exatamente o que estava procurando porque mesmo administrando a tribo, ele não tinha acesso aos segredos dos líderes.
— Estamos procurando registros sobre a Estrela Morta. — Anunciou Huang Tuo.
— Onde você ouviu falar sobre isso? —Xun Hao lhe lançou um olhar assustado.
— Nós xamãs precisamos aprender sobre todas as tribos, assim podemos desenvolver curas específicas. — Explicou. — Acho que foi isso que Xing Jiu descobriu que Lian Ji estava fazendo, por isso ele foi atacado.
— Isso é impossível. — Protestou. — Ninguém conseguiria forjar uma estrela morta em uma constelação, mesmo um astrólogo muito poderoso teria dificuldade em criar algo assim de maneira eficaz.
— Odeio ser aquela a defender Lian Ji, mas você realmente não deveria subestimar mulheres dessa maneira. — Disse Yue Shen enquanto analisava tranquilamente um dos pergaminhos de bambu. — E considerando que ela criou toda uma cidade de ilusão para controlar como fantoches, o que te faz pensar que ela falharia em criar uma estrela morta seja lá o que isso for?
Huang Tuo deu um sorrisinho travesso e olhou para Xun Hao e, com um dar de ombros, concordou com a esposa.
— Ka Suo tem um cubo de comunicação, acha que serviria para falar com Xing Jiu se ele estiver no mundo dos sonhos? — O curandeiro quis saber.
— É uma possibilidade, se a energia espiritual do meu mestre estiver estável será suficiente para fornecer comunicação. — Pensou Xun Hao. — Ainda assim, como não é o cubo dele não posso dar certeza.
— Então não tem uma maneira de acordá-lo?
— Tem. — Garantiu. — Se Ka Suo conseguir estabelecer uma conexão a partir do segundo cubo de comunicação, ele tem que fazer meu mestre puxá-lo para o sonho enquanto segura o cubo, meu mestre pode converter o cubo no principal e anular o que está em posse de Lian Ji.
— Já é um começo. — Proferiu Yue Shen se aproximando. — Veja isso, acho que encontrei o que procura.
Huang Tuo pegou o pergaminho de bambu e começou a ler.
— Foi como pensei. — Assentiu. — Ela conseguiu criar uma forma da avó Shen Hairong e fazer com que a estrela dela, que estava no mundo imortal, aparecesse no mundo mortal enquanto ela mesma usava a estrela da sereia como camuflagem para a sua, que estava no mundo mortal, escondendo-a de Xing Jiu com uma estrela morta que aparecia localizando-a aqui.
— Então quando ele finalmente conseguiu convergir os dois mapas dos mundos e analisou melhor, foi capaz de encontrar a estrela morta. — Continuou a envenenadora. — Ela manipulou o fantoche para conversar com Ka Suo e Yan Da, nenhum dos dois conseguiria identificar a farsa, isso também explicaria por que ela nunca aparecia para buscar Lan Shang mesmo as duas estando no mundo mortal.
— Precisamos voltar. — Concluiu Huang Tuo sentindo um gelo subir pela espinha.
※※※
Ka Suo voltou para a sua sala após uma exaustiva reunião de duas horas com investidores e mal ouviu o que sua secretária lhe disse quando passou em direção à sua sala de tão forte que era a dor de cabeça explodindo seu crânio. Por isso, qual não foi sua surpresa quando abriu a porta e se deparou com Yan Da sentada em sua saleta de visitas degustando uma xícara de chá. Ele paralisou com a surpresa, a princesa do fogo ergueu a cabeça por um momento e depositou a xícara no pires que estava na mesa à sua frente.
— Precisamos conversar.
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