Love as Sakura | 爱如樱

46 第41章 Queime tudo


No momento que Chao Ya abriu a porta e flagrou o momento do casal, rapidamente empurrou Pian Feng e fechou a porta outra vez. Mas era tarde demais. Ao se virar para o guerreiro, viu que ele estava catatônico pelo choque e assim permaneceu por alguns minutos enquanto ela tentava fazê-lo reagir. Aos poucos, seu rosto começou a se tingir de vermelho, começando pelo pescoço e subindo até as orelhas, a cantora segurou os dois braços dele com força impedindo-o de quebrar a porta como era sua vontade.

— Como ele se atreve?! — Esbravejou, furioso. — Ele estava... a minha fadinha...

— Pian Feng, volte a si! — Chao Ya sacudiu-o. — Você sabia muito bem que eles ficariam juntos.

— Mas eu nunca disse que concordava! — Rebateu. — E certamente não concordo com aquelas mãos bobas na minha fadinha! Vou matá-lo!

— Não, não vai! — Ela o puxou de volta quando ele fez menção de entrar no apartamento. — Vamos deixá-los sozinhos para aproveitar o momento.

Pian Feng respirou fundo e anuiu em concordância, mas tão logo Chao Ya o soltou ele fingiu que a acompanharia, mas deu a volta e irrompeu no apartamento, Shi e Yan Da — que agora disputavam mais uma batalha no jogo, ergueram as cabeças assustadas para ele. O guerreiro ergueu um dedo na direção do príncipe que o olhava confuso.

— Pian Feng! — Chao Ya gritou atrás dele.

— Ying Kong Shi! — O guerreiro ignorou-a. — O que pensa que está fazendo?

— Hum... perdendo para Yan Da no jogo? — Ele lhe ofereceu um sorriso.

— Não banque o engraçado comigo! — Rosnou. — Eu tenho todas as razões e o direito de arrancar sua cabeça bem aqui!

—Pian ge! — Yan Da finalmente levantou para intervir. — Antes de tudo mantenha a calma, por favor. Por que está agindo como um pai desonrado?

Pian Feng apertou a ponte do nariz e respirou fundo várias vezes, Yan Da olhou para Chao Ya que fez um gesto com a cabeça para que a acompanhasse. Olhando para Shi, ele assentiu e a princesa desapareceu com a cantora para um dos quartos. Pondo-se de pé, o príncipe encarou Pian Feng por longo tempo enquanto ele recobrava a calma.

— Sinto muito. — Disse, por fim. O guerreiro ergueu o olhar para ele, ainda furioso. — Sei que ainda não confia em mim e que deveria ter pedido sua permissão, mas não vejo muito tempo disponível para formalidades.

Formalidades? — Pian Feng riu sem humor. — Ying Kong Shi, você está vendo a situação como um todo por aqui? O que, em nome do carvalho sagrado, você fez com a minha fadinha?

— Nada. — Deu de ombros com uma calma inabalável. — Nada além do que você viu, pelo menos. Até ela saber quem é de verdade não me atrevo a pedir nada mais que pequenos momentos em que possa amá-la e ganhar espaço em seu coração.

— Então o que? Você se ajoelha e pede perdão depois? — Ironizou o guerreiro. — Para começo de conversa tudo isso é culpa sua. Se desde o início você não tivesse sido tão...

Interrompeu-se. Pian Feng respirou fundo sabendo que era errado culpar Shi daquela maneira — por mais que a culpa fosse dele até certo ponto —, todos eles haviam prometido avaliar o contexto como um todo sem condenar. Shi congelou no lugar sentindo a culpa apertar o nó na sua garganta, Pian Feng estava certo, se ele não tivesse sido cego e egoísta daquela maneira talvez não estivessem naquela situação agora.

— Pian Feng, mesmo que você não acredite em mim, se Yan Da desejar minha morte, quando recuperar as memórias, vou aceitar isso dela sem protestos.

— Me escute bem, er dianxia, não importa quanto respeito eu tenha pelo seu irmão, não espere qualquer ajuda minha e mantenha suas mãos longe da minha fadinha até que ela saiba quem é e as aceite por sua conta em risco.

E sem dizer mais nada, virou as costas para o príncipe e bateu a porta ao sair.

※※※

Chao Ya fechou a porta do quarto atrás das duas e suspirou. Era melhor deixar Pian Feng se entender com Shi de uma vez e aceitar que mesmo seus sentimentos parternais para com Yan Da não iam impedir o príncipe de cumprir seu destino. Ainda assim, mesmo a cantora se via um pouco preocupada com o avanço dos dois, Yan Da ainda não era dona de suas memórias o que, de algum modo, tornava aquele romance com Ying Kong Shi uma ilusão.

— O que há com Pian ge? — A princesa quis saber. — Nunca o vi furioso desse jeito.

— Você sabe que ele te vê como uma irmã mais nova, não é? — A cantora tentou contornar. — Por vezes como uma filha. Ele só está preocupado com você, querida.

— E o que ele acha que Ying Kong Shi pode fazer?

— Realmente prefiro não responder essa pergunta. — Fez uma careta. — O jovem Ying não viveria para contar a história se fizesse as coisas que se passam pela cabeça de Pian Feng.

Yan Da arqueou a sobrancelha sem entender exatamente o que a amiga queria dizer.

— Vocês dois brigaram de novo e por isso ele está de mau humor?

— Isso não tem nada a ver, ele pode estar no melhor dos humores até alguém tentar algo com você e ele perder qualquer senso de razão. — Revirou os olhos. — Queria que ele fosse seu pai de verdade, assim você não teria passado por tudo isso.

Jie, você está estranha... o que está acontecendo?

— Deixe que eles conversem um pouco. — Meneou a cabeça e afastou-se, sentando na cadeira da penteadeira. — Yan Da, responda-me algo e quero toda a sua sinceridade. O quanto você gosta de Ying Kong Shi?

— E isso pode ser medido como uma xícara de farinha? — Ela cruzou os braços. — O quanto você gosta do Pian ge?

— Deixe-me colocar isso de outra forma. — Pediu ela com uma expressão séria. — Você seria capaz de perdoá-lo se ele lhe causasse uma dor tão profunda ao ponto de matá-la?

Os braços de Yan Da caíram ao lado do seu corpo enquanto ela olhava para Chao Ya com uma expressão confusa e chocada. Que tipo de pergunta era aquela? De algum modo, a cantora parecia realmente preocupada com alguma coisa e, antes que a princesa conseguisse pensar em uma resposta, continuou.

— Não estou querendo dizer que você precisa ser complacente com os erros ou se faça de cega tampouco, mas o perdão, Yan Da, é a forma mais difícil de amor. Apenas um sentimento tão profundo ao ponto de vencer a morte seria capaz de perdoar uma dor muito grande. Sei que não entende o que quero dizer, mas ainda assim, use isso como uma hipótese e me responda.

— Eu não sei! — A princesa se encolheu. — Okay? Não posso afirmar, isso já é bem caótico sem eu ter de pensar nesse tipo de hipótese. Depois do Peng Peng, eu realmente não sei direito se entendo esses sentimentos.

Como eu pensei. Disse a cantora internamente com um suspiro preocupado. O som da porta batendo lhe disse que a conversa na sala havia acabado e, sem dizer mais nada a Yan Da, Chao Ya deixou o cômodo e foi atrás de Pia Feng, ao passar pela sala, entretanto, meneou a cabeça para Shi e com os lábios, sem qualquer som, disse-lhe: ela não está ainda não está pronta. E saiu sem olhar novamente para trás. Shi ficou parado sentindo o peso opressor no seu peito afundar com mais força, a ampulheta do tempo continuava derramando areia e lhe lembrando que o final da peça estava próximo.

Yan Da apareceu no corredor e os dois se olharam por longo tempo. Ela desejando entender o que estava acontecendo e ele temendo que muito em breve não pudesse mais contemplar aquele doce olhar voltado na sua direção.

※※※

Mais cedo, Yue Shen, Liao Jian e Xing Jiu estavam reunidos na espaçosa sala do advogado quando o astrólogo, que parecia inquieto, encolheu-se como se estivesse sofrendo uma dor extremamente violenta. Preocupados, os amigos tentaram socorrê-lo e foram surpreendidos quando Xing Jiu vomitou uma grande quantidade de sangue. Yue Shen e Liao Jian trocaram um olhar e este último estava prestes a telefonar para Huang Tuo quando o astrólogo o impediu afirmando que estava sob controle.

Após isso, ele pediu que Liao Jian lhe cedesse um quarto e lá trancou-se sozinho pelo resto do dia preocupando os outros dois na sala. Yue Shen tinha algumas suposições sobre o que havia acontecido, mas preferia não dividir suas preocupações com o advogado, especialmente por saber que Liao Jian não se importava realmente com tudo aquilo, o que todos encaravam como uma situação de vida e morte, para ele era nada mais que um dia atrás do outro em um lugar que não gostava.

— E Lan Shang? — Perguntou, mais para quebrar o silêncio na sala que por estar de fato interessada na princesa sereia.

— No quarto dela. Desde que Ka Suo a deixou aqui ela não sai de lá. — Soltou uma lufada de ar. — A avó dela também não faz muita questão de vê-la, já telefonei para avisar que ela estava aqui, mas não me deu muito crédito.

— Isso é um tanto quanto controverso quando ela mesma incitou a obsessão de Lan Shang pelo rei. — Apontou a ex-assassina. — Mesmo com todas as convenções da época, ela devia saber que colocar aquelas ideias na cabeça de uma adolescente cabeça de vento só podia dar errado. Agora que ela comete idiotices catastróficas ela quer dar uma de velha demais para ser responsável.

— Falando assim parece muito pior do que é. — Liao Jian fez uma careta.

— Esse silêncio de Lian Ji também está me preocupando... me pergunto que tipo de passos ela está dando nas sombras.

— Algo me diz que não vamos demorar muito para descobrir.

Um frio subiu pela espinha da envenenadora e, impaciente, ela decidiu ver como estava a condição de Xing Jiu, o astrólogo estava trancado havia muito tempo e ela começava a ficar inquieta com a atitude dele. Bateu na porta algumas vezes e não obteve resposta, cautelosa, uma de suas mãos materializou sua espada enquanto a outra abriu devagar a porta apenas para ter uma visão estarrecedora dentro do cômodo.

Estrelas. Era como se o céu inteiro estivesse comprimido dentro daquele cômodo, no centro dele, Xing Jiu estava concentrado movendo-as de um lado para o outro como um técnico manipulando alta tecnologia. Yue Shen sentiu o toque gelado dos pequenos pontos prateados conforme seus pés avançavam para onde ele estava, a escuridão a fez tropeçar em um pufe no caminho e só então Xing Jiu se deu conta da sua presença.

— Luna. Não a vi chegar.

— O que está havendo? — Quis saber. — Tem certeza que está bem?

— Yan Da está despertando. — Disse ele, abrupto. — Os encantamentos que colocamos nela com frequência para retardar suas lembranças estão enfraquecendo cada vez mais depressa. Ela teve um novo vislumbre do passado hoje, receio que em breve um novo caos se abaterá sobre nós e não sei se estaremos aptos a protegê-la de Lian Ji.

— Às vezes queria me preocupar apenas com grampos de cabelo e tinta para os lábios como Yue Zhao. — Suspirou. — Há algum sinal da estrela de Lian Ji?

— Não. Desconfio que ela esteja em algum lugar no reino imortal, não posso acessá-la daqui. — Suspirou. — Contudo nada impede que ela aja através de outros, esses mortais têm espíritos fracos, são fáceis de manipular pelas suas ambições desmedidas e sede cega de poder.

— Precisamos falar com sua majestade. — O rosto dela ficou sombrio. — Se perdermos o controle da situação e Yan Da explodir, isso pode facilitar que Lian Ji assuma o controle sobre ela, não podemos permitir isso.

※※※

— Pian Feng, pare agora mesmo! — Ordenou Chao Ya.

O guerreiro já tinha alcançado o final da rua quando Chao Ya correu para acompanha-lo. Ouvindo a voz dela o coração dele acalmou mais um pouco, não podia evitar tornar-se cada vez mais preocupado com Yan Da e a possibilidade de seu coração se partir. Da primeira vez, ela deu sua vida por Shi, mas diante de tudo que ela havia vivido ali ele não tinha certeza de quão grande seria o peso de suas memórias mais um coração partido novamente e desconfiava que ela não pudesse ser salva caso acontecesse. A cantora parou diante do marido e qual não foi sua surpresa ao vê-lo chorando. Chao Ya só vira Pian Feng chorar uma única vez, muitos séculos atrás, quando sua tribo foi dizimada por Huo Yi.

Wǒmen zěnme bàn ne?*[1] [o que nós devemos fazer?]— Indagou enquanto tentava engolir as lágrimas. — Gàosù wǒ, Chao Ya, wǒ zěnme bàn?*[2] [Me diga, Chao Ya, o que eu devo fazer?]

O coração de Chao Ya apertou ao vê-lo daquela maneira e ela o abraçou apertado prometendo que tudo ia ficar bem, mesmo que ela mesma não tivesse certeza disso. No fundo, a cantora também tinha medo como ele, Yan Da não estava segura dos próprios sentimentos apesar de admitir sentir alguma coisa por Shi isso não era suficiente para conter os sentimentos que explodiriam na sua alma quando despertasse.

Ela não estava pronta para lembrar e o tempo estava esgotando.

※※※

Shi deixou a casa de Yan Da com a promessa de que se veriam no dia seguinte. Ele queria leva-la a um lugar especial e mesmo que não fosse seu desejo deixa-la sozinha no apartamento, havia algumas coisas que precisava resolver. Respostas que necessitava. Desde que despertara, muitas questões ele descobrira sozinho, outras não perguntara porque o caos na sua mente era maior que as demais preocupações, mas agora precisava saber tudo desde que despertara para saber como agir.

Todavia, não queria essas respostas de Ka Suo. Apesar de confiar no irmão, havia uma questão em especial que ele não sabia como fazer a ele e, desse modo, recorreria à pessoa em quem mais confiava além dele. Ao sair do estacionamento conseguiu ver Pian Feng e Chao Ya voltando juntos para o condomínio e sentiu-se mais aliviado. Yan Da estava segura.

A fachada do hospital avolumou-se diante dele quando parou o carro no estacionamento externo e percorreu a entrada de emergência nos fundos. Iria direto para o consultório do médico, já que sabia onde ficava, e a enfermaria da emergência era o atalho mais próximo. Como esperado, Huang Tuo não estava na sua sala, mas uma enfermeira, que fazia vezes de secretária, no balcão daquele piso, prontificou-se a chama-lo e pediu a Shi que esperasse dentro do consultório. Levou alguns minutos até o curandeiro finalmente aparecer.

— Sentiu minha falta tanto assim para me procurar duas vezes no mesmo dia? — Cumprimentou-o com um sorriso deslumbrante depositando um prontuário sobre a mesa e sentando em uma poltrona diante de Shi.

— Preciso falar com alguém e no momento a única pessoa em que posso confiar cegamente é em você.

— Devo dizer que isso é uma lisonja sem precedentes considerando que, alguns milênios antes, seria Ka Suo a ouvir isso. — Apontou o médico, sério.

— Eu sei que você me dirá a verdade sem tentar me proteger de nada. — Shi deu de ombros e passou as mãos pelos cabelos. — Sendo sincero, se não fosse por você provavelmente eu ainda estaria louco nas ruínas da cidade Ren.

O médico não respondeu, apenas ficou escrutinando-o por algum tempo. A confiança de Shi àquele ponto era algo realmente inesperado para ele, em momentos de angústia imaginava que o príncipe recorreria ao irmão. Huang Tuo não tinha irmãos, de modo que tinha Shi como um e ficava realmente tocado com aquela demonstração de respeito e amizade vindos do príncipe. Levantou e pegou o telefone, discou um número e pediu a alguém que colocasse outro médico nas suas funções e lhe levassem café para dois, voltando à poltrona, olhou para Shi e lhe ofereceu um sorriso sincero.

— Sou todo ouvido.

— Comece por toda essa confusão com Lian Ji e Li Luo. Diga tudo que eu não estou sabendo desde que acordei.

※※※

Yan Da se pôs de pé assim que ouviu a porta do apartamento abrir, quando entraram ela não pôde deixar de notar os olhos vermelhos de Pian Feng e aquilo a deixou momentaneamente chocada. Pian Feng nunca chorava. Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, ele cobriu a distância que os separava e abraçou apertado, tão forte que ela quase perdeu o ar, mas não o afastou, ao invés disso retribuiu o abraço encaixando-se nos braços dele e se deixando ser preenchida pelo seu carinho.

— Piang ge — disse baixinho, a voz abafada pelo rosto escondido contra o peito dele. — Não sei o que está preocupando você, mas te tenho como um irmão, você é tão importante pra mim quanto Hu Bing, então seja o que for, pode me dizer e eu prometo que vou te ouvir.

Em resposta ele a apertou um pouco mais. Chao Ya, sentindo os olhos ardendo pelas próprias lágrimas, saiu da sala e os deixou a sós. Assim como o marido, ela estava com medo de perder Yan Da, tinham a angustiante sensação de que a princesa estava, lentamente, partindo longe do alcance deles. Não seriam capazes de salvá-la. Mas Pian Feng queimaria o mundo para tentar e ela o ajudaria no processo.

Pian Feng deu seu melhor para conter as lágrimas enquanto abraçava Yan Da fortemente, mas com cuidado para não machuca-la, ele absorvia cada pequeno sinal de vida que ela emanava agarrando-se àquilo para continuar suportando a incerteza. Queria tanto poder dizer tudo a ela e, ao mesmo tempo, desejava que ela nunca se lembrasse, que permanecesse naquela paz inocente e tivesse apenas os traumas daquela vida aos quais vencer. Mas, gradualmente, ele sentia que a estava perdendo, como um pai quando a filha se casa e segue seu caminho. Entretanto, no que dizia respeito a Yan Da, aquele caminho podia não ter volta.

— Fadinha... — Ele fungou, a voz embargada, o rosto escondido nos cabelos dela. — Me prometa que não importa o que aconteça, você vai continuar confiando em mim, confiando que é forte o suficiente para superar seja o que for. Me prometa que vai continuar vivendo não importa o que...

— Eu prometo. — Afirmou, com convicção, apesar de não entender o que ele estava dizendo. — Não vou a lugar nenhum, gege.

— Mesmo que doa ao ponto de querer morrer, pense em mim também, hao bu hao? Se você quiser queimar o mundo eu serei seu lança-chamas. Se quiser matar alguém, eu serei a sua arma. Mas por favor, por favor, não desista nunca.

Partia o coração de Yan Da ver Pian Feng angustiado daquela maneira e ela concordou várias e várias vezes, e concordaria quantas fossem preciso só para vê-lo sorrir outra vez. Os dedos de Yan Da fecharam-se no casaco que ele vestia e ela o confortou até seu próprio coração ficar inteiro novamente.

※※※

Shi anuiu, pensativo, ao ouvir toda a história do médico. Realmente, havia muitos detalhes que ele não sabia, entretanto, o curandeiro não lhe contou o ponto mais crucial de suas dúvidas.

— Você é o mais próximo de Ka Suo, então deve saber isso. Por que ele não interferiu no sequestro de Yan Da? Quer dizer, ele tinha Xing Jiu, Yue Shen... por que ele não impediu que ela passasse por tudo aquilo?

Huang Tuo ficou sério e em silêncio por um longo tempo o que deixou Shi preocupado com o que viria a seguir. Conhecia bem o caráter de Ka Suo, ele jamais permitiria que Yan Da passasse por aquilo sem fazer nada. Não fazia sentido. Ela podia ter morrido nas mãos daqueles homens e todo o esforço do sacrifício teria sido em vão. Então por que ele não fez nada? A reação do curandeiro não estava ajudando a melhorar suas expectativas. Finalmente, após longo tempo, Huang Tuo suspirou e começou a falar.

— Quando Yan Da foi sequestrada você ficou doente. No começo nenhum de nós estava entendendo, eu não conseguia achar a falha no seu equilíbrio e, por alguma razão, a estrela dela estava inacessível. Ela ficou nublada. Mais tarde, Xing Jiu veio descobrir que a razão disso é que ela se fundiu com a sua. Naquele ínfimo momento, poderíamos ter perdido vocês dois.

“Você deve se lembrar de que, quatro mil anos atrás, Yan Da doou metade da sua alma para que você pudesse viver após ser torturado por Shuo Gang na sua forma mortal. Com seus poderes selados, seu corpo foi muito ferido, mesmo que aquilo não pudesse realmente te matar, a atitude dela foi um ato de amor que conectou vocês dois com um laço que nem mil mortes romperiam. Claro que, naquela época, você não aceitava o que sentia por ela como faz agora, de modo que essa conexão não foi poderosa o bastante para te derrubar quando ela deu a vida por você. Ou pelo menos você fez parecer que não.

“A coisa é que aqui a sua alma a reconhece como uma parte de você. Mesmo que em circunstâncias diferentes, vocês nasceram com o mesmo propósito: amar um ao outro. Então, enquanto ela sofria nas mãos de Shuo Gang, você sofria junto com ela. Isso não está nas suas memórias porque Xing Jiu, a pedido de Ka Suo, removeu essas lembranças de você. Yue Shen, Pian Feng, Liao Jian e Chao Ya procuraram por semanas em todos os lugares, mas não conseguiam localizar a princesa. Você ficava cada vez pior e mesmo eu não conseguia trazê-lo de volta. Então, finalmente me dei conta que era a essência do fogo no seu corpo que estava respondendo a alguma coisa que acontecia com Yan Da.

“A alma da princesa, diante de toda aquela barbárie, estava começando a despertar, as memórias forçando espaço na barreira de proteção que colocamos, isso gerava efeito em você, porque há uma parte dela dentro do seu corpo. Ka Suo e eu te levamos para o reino do fogo, você deve estar lembrado que um dia esteve lá como príncipe do fogo, o quinto nível da montanha era proibido a qualquer um, era o local onde o fogo sagrado residia, por isso muitas pessoas da própria tribo acreditavam que só haviam quatro níveis no reino de Huo Yi. Yan Da, sem o pai saber, foi a única pessoa que conseguira acessar o local além de mais uma.”

— Mais uma? — Shi ergueu a sobrancelha. — Huo Yi?

— Não. — Huang Tuo lançou-lhe um olhar penetrante. — Você. O fogo sagrado reconhece não apenas o poder espiritual, mas o coração daqueles que pertencem à tribo do fogo, ele é a mais pura essência crescida através dos líderes antigos, mais antigos que o próprio tempo. Uma das essências mágicas que criou o mundo que um dia chamamos de lar. Huo Yi nunca foi digno de estar na presença do fogo sagrado. Você e Yan Da foram os únicos. Nela, ele reconhecia o coração corajoso, resiliente e generoso. Em você, como Li Tian Ji, ele reconhecia o poder, o orgulho, mas, sobretudo, a essência de quem você realmente era. Apenas acessando essas memórias foi que tivemos a ideia de leva-lo até lá.

“Mas isso não deu muito certo. Ka Suo, Xing Jiu e eu não conseguimos entrar. Desacordado como estava, você também não podia ir adiante sozinho. Ficamos sem opção. Tentamos de todas as maneiras nos comunicar com o fogo sagrado mesmo através de você. Xing Jiu entrou nos seus sonhos e tentou encontrar uma conexão, mas não fomos capazes. Contudo, ficar na caverna ajudou a reduzir os sintomas e eu fui capaz de te manter estável. Porém, quanto mais Yan Da sofria, mais fraca sua alma ficava. Ka Suo chegou a cogitar despertar suas memórias naquele momento como um ato de desespero, com a sua essência restaurada, você poderia ter acesso aos seus poderes e se reestabelecer, mas tanto Xing Jiu quanto eu vetamos a ideia.

“Todavia, ainda havia o problema da estrela de Yan Da estar inacessível. Enquanto não conseguíssemos localizá-la, dado o seu estado, todos corríamos sério perigo. Passei os dias com você diante da caverna do fogo sagrado enquanto Ka Suo e Xing Jiu corriam contra o tempo em busca de respostas, mas nem as magias antigas diziam uma maneira de salvá-lo. Precisávamos reunir você e Yan Da, mas era impossível quando não sabíamos onde ela estava. Na época, não fazíamos ideia que Lian Ji havia passado pelo sacrifício, quando relembro esses dias agora, me pergunto se ela não teve algo a ver com tudo isso.

“Yue Shen apareceu semanas depois com notícias de Yan Da. Ela havia sido libertada, mas mesmo diante disso você não acordou. Shi, todos nós pensamos que havia acabado, que você morreria e fomos de volta para o mundo imortal. Por um ano você ficou inconsciente demonstrando um sofrimento que eu não conseguia conter, exatamente o ano que Yan Da levou para mostrar sinais de melhora no seu estado emocional. Após isso, sua condição se tornou estável e você despertou mergulhado em pavor, sem saber quem era. Ka Suo fez com que Xing Jiu retirasse da sua mente qualquer resquício daquele ano, sentimentos, sensações, lembranças.

“De início, ele não queria fazer isso, mexer nas memórias de alguém é um ato perigoso, isso pode destruir alguém se um erro, por menor que seja, for cometido. Contudo, não tínhamos escolha, você não seria o mesmo caso não fizéssemos isso. De minha parte, coloquei uma espécie de escudo em você, isso impediria que algo assim acontecesse de novo. Por isso, quando ela sofreu aquele acidente, agora sabemos ter sido provocado pela Lan Shang, você não foi afetado. Mas a ligação entre vocês permanece aí, e quanto mais perto Yan Da chega de recuperar suas lembranças, mais forte essa ligação se torna. Nenhum de nós sabe o que você viu ou sentiu enquanto dormia. Mas se posso dar um palpite, eu acredito que durante aquele tempo as almas de vocês se fundiram e o quase despertar da princesa foi um quase despertar para você também. Claro que não posso ter certeza. Inclusive, não diga a Ka Suo que te contei nada disso, ele não gosta de mencionar esse assunto. De algum modo, todos nós nos sentimos responsabilizados pelo que aconteceu a Yan Da, mas acredite em mim, Shi, seu irmão não interviu porque não pôde. Ele não conseguia encontrá-la. Nenhum de nós conseguiu.”

O príncipe ficou em silêncio enquanto processava todas aquelas informações, parecia que estava descobrindo a própria vida de novo. Huang Tuo deixou sua poltrona e sentou ao lado dele bagunçando seus cabelos e lhe oferecendo um sorriso.

— Yan Da é forte, resiliente. Não se preocupe, ela vai conseguir superar isso e tenho certeza que com seu apoio ela é capaz de vencer qualquer coisa.

Shi anuiu desejando acreditar que o curandeiro estava certo.

※※※

Na noite anterior, após tantas emoções que a deixaram exausta, Yan Da foi dormir sem abrir o presente recebido de Ying Kong Shi. A caixinha trabalhada reluzia na sua mesa de cabeceira. Pensou em abri-lo quando acordasse no dia seguinte, mas acabou dormindo demais e se atrasaria para o compromisso com Shi. O cheiro delicioso de café de Pian Feng preenchia o ar e ao cumprimenta-lo parecia que o episódio do dia anterior fora um sonho distante. Chao Ya estava ao lado dele com um avental como se soubesse fazer algo na cozinha e a princesa não conseguiu deixar de sorrir.

— Pensei que não ia trabalhar hoje, por que está vestida assim? — Perguntou a cantora quando a viu usando o terninho maligno. — Você não tinha queimado isso?

— Por sorte não, ele ganhou um significado interessante. — Sorriu.

— Imagino que sim. — Resmungou Pian Feng.

Gege, pode não ficar chateado desse jeito, juro que não vou acabar grávida antes do casamento.

— Não sei qual das duas ideias é mais alarmante, grávida ou casamento. — Ele fez uma careta e seu corpo tremulou por um segundo.

Hao de, pare de pensar ou vai acabar errando o ponto dos bolinhos. — Censurou Chao Ya.

Os três tiveram uma refeição tranquila juntos, qualquer um que os visse não os tomaria por menos que uma família e, não fosse a idade não muito grande entre eles, Pian Feng e Chao Ya faziam as vezes de bons pais para a jovem princesa do reino do fogo e ela não podia ser mais grata por isso.

— Se aquele Ying fizer qualquer coisa estranha, me ligue imediatamente e vou busca-la. — Aconselhou Pian Feng.

Míngbáile, bàba!*[3] — Provocou ela dando um beijo no rosto dele.

Shi apareceu para busca-la pouco depois do café da manhã e sorriu ao ver a roupa que ela estava usando.

Boas recordações. — Brincou.

Yan Da sorriu. Os dois seguiram de carro até a cidade vizinha então Shi entrou numa sequência intrincada de ruas que os levou até um bairro residencial afastado da cidade. Ele estacionou na última casa da enorme rua, uma cerejeira majestosa esperava pacientemente para florescer, o jardim ocupava a maior parte da entrada, era fechada por um portãozinho cuja cerca rodeava todo o jardim e a residência. Ela não fazia ideia da razão de ele a ter levado até ali.

Quando ele tocou a campainha uma enfermeira abriu a porta e o cumprimentou com um sorriso.

— Ying xiansheng, você veio. Ela ficará muito feliz em vê-lo.

Ele olhou para Yan Da e segurou sua mão pedindo que entrasse. Os dois calçaram chinelos e deixaram seus sapatos no gekan e, curiosa, a princesa seguiu o namorado pela luxuosa casa.

— Pode ir em frente, ela está na cozinha.

— Ela deveria estar na cozinha? — Shi franziu o cenho.

— E alguém consegue pará-la? — Sorriu a enfermeira.

Não conseguia, ele bem sabia. Sempre segurando a mão de Yan Da, ele a guiou por um corredor estreito ao lado de duas salas, uma de estar e outra de música, na direção de uma espaçosa e bem equipada cozinha, era toda em madeira envernizada desde seus armários modernos que destoavam da arquitetura antiga, até os eletrodomésticos e a ilha que claramente havia sido colocada ali. Vovó estava mexendo uma panela quando eles entraram, o coração de Yan Da enterneceu-se ao ver os brancos cabelos da velhinha baixa e esguia, ela não havia conhecido seus avós de modo que invejou Shi nesse momento.

— Vovó! — Ralhou Shi. — A senhora deveria estar com um livro na sala e não mexendo panelas.

— Ah... meu menininho! — A velhinha se virou encantada ao ouvir a voz do neto e prontamente o abraçou. — Você finalmente veio, meu menino!

— Por que está cozinhando? É para isso que pagamos empregados.

— Não me culpe por querer cozinhar para você. — Fez beicinho. — Não importa quão talentosas sejam elas não podem imitar meu tempero.

Só então ela se deu conta da presença de Yan Da e, com olhinhos brilhantes, aproximou-se dela segurando-lhe as mãos entre as suas. A princesa ficou encantada, a fragilidade das mãozinhas da senhora eram como seda nas suas, ela tinha olhos castanhos como Shi, com algumas matizes azuis muito singulares. Seu sorriso era tão genuíno que gradualmente o constrangimento de Yan Da foi se desfazendo em uma imediata simpatia.

— É ela não é? — Perguntou a Shi, mas seus olhos não deixavam Yan Da. — Sim, sim... tem de ser, é única. Venha, minha querida, sente-se aqui.

Puxou Yan Da para um dos banquinhos na ilha da cozinha e parecia fascinada e muito feliz com a presença dela ali embora nunca antes a tivesse visto.

— Ah, certamente formam um perfeito casal. — Salientou olhando dela para o neto. — Obrigada, minha querida, por aceitar o coração do meu menino. Estou muito feliz por finalmente conhecê-la.

— O prazer é todo meu, nǎinai.*[4] — Sorriu docemente. — Se ele tivesse me avisado que viríamos visita-la teria lhe trazido um presente.

— Ora, mas não é necessário, o presente já está aqui e é você. — A velhinha deu leves tapinhas na mão dela. — Esperei muito tempo para finalmente conhecer a dona do coração desse menino. Confesso que estava perdendo as esperanças.

Enquanto elas conversavam, Shi mexia as panelas e provava o ponto delas algo que logo chamou a atenção de vovó. Virando-se, ela surpreendeu-se ao vê-lo ali como se fosse seu ambiente natural.

— Não me diga que aprendeu a cozinhar? — Quis saber. — Você não sabia nem ferver o leite e agora sabe quando um cozido está pronto?

— Vovó... — As orelhas dele ficaram vermelhas. — Ka Suo está me ensinando.

— Ora, e com quem você acha que ele aprendeu? — Provocou a velhinha. — Venha direto à fonte, menino e traga esta adorável menina com você, quero vê-la mais vezes antes que me dê netos e não consiga mais sair de casa.

Yan Da sentiu o rosto e o pescoço inteiro queimarem, desconfiava que até mesmo seus cabelos deviam ter se tingido de vermelho nesse momento. Shi tentou contornar a situação provocando a vovó e todos acabaram rindo. Ela ensinou a ele alguns truques de suas receitas favoritas e até mesmo Yan Da, que não sabia fritar um ovo, quis compartilhar do conhecimento da velhinha. Passaram um dia agradável ao lado dela, vovó estava entusiasmada para mostrar a Yan Da fotos da infância de Shi — e ela surpreendeu-se ao ver Ka Suo em tão poucas delas — e era sempre atenciosa e contava histórias para ela, tratou-a como se fosse sua própria neta e pediu-lhe que voltasse mais vezes com aquele neto desnaturado que a visitava tão pouco, ao que ela se prontificou em fazer. No fim da tarde eles se despediram da velha senhora com muito carinho e gratidão pelo dia tão adorável e Shi, ao abraçá-la, agradeceu por aprovar Yan Da.

— Como não aprovaria? — Sussurrou no ouvido dele. — Ela é perfeita.

※※※

Ao ver o prédio da ZhangYing diante de si, Yan Da não entendeu e olhou interrogativamente para Shi, ele, contudo, apenas sorriu e abriu a porta para que ela descesse fazendo as vezes de misterioso. Ele cumprimentou o vigia que fez um discreto aceno de “ok” indicando que o que ele pedira estava pronto, não importaram quantas vezes ela lhe perguntara o que faziam ali, ele não respondeu. Como estava frio, Shi colocou sua gabardina sobre ela, e os dois seguiram de elevador até o andar da presidência. Dali, eles pegaram outro elevador, um privativo, e subiram até o térreo do prédio, era também um heliporto particular. A vista lá de cima era fabulosa, sobre a nuvem de luzes, Yan Da conseguia ver o céu com nitidez, as estrelas brilhando majestosas.

Duas cadeiras estavam dispostas no centro e ele a conduziu até lá convidando-a a sentar, nada se podia ouvir ali de cima além do uivo do vento gélido que soprava em todas as direções. Eles sentaram lado a lado e Shi segurou a mão dela.

— Obrigada por esse dia incrível. — Disse. — Eu adorei conhecer a sua avó.

— A opinião dos meus pais não é realmente importante. — Explicou Shi. — Mas eu dou muito valor às coisas que a vovó diz. Por isso queria que ela conhecesse você, porque ela é a pessoa mais importante pra mim além de você e de Ka Suo.

— Ela é maravilhosa. — Concordou Yan Da sem deixar de notar que ele a colocara antes do irmão na ordem de importância.

— Yan Da, isso pode parecer bem maluco... — sorriu — mas uma vez, sonhei com uma princesa que me dava fogos de artifício quando eu estava triste. Ela se parecia muito com você no meu sonho. Para ela, aqueles fogos de artifício eram como amigos silenciosos que aqueciam seu coração solitário.

Nesse momento, inúmeros fogos de artifício coloridos brilharam no céu enchendo-o de luz. Dali, a vista era exuberante e Yan Da sentiu seu coração dar um salto sem acreditar que Ying Kong Shi havia feito aquilo para ela. De todos os lados, vindos de prédios ao redor, eles continuavam surgindo em diferentes cores e formas, um verdadeiro espetáculo de luz. Shi puxou-a para perto de si e sua mão tocou seu rosto ganhando sua atenção por um momento.

— Mesmo que o mundo desabe, você nunca mais vai ficar sozinha.

E enquanto as luzes explodiam no céu, ele a beijou. Suave e docemente. Era impossível não recordar o passado conforme, abraçado a ela, ele olhava os fogos explodindo no ar. Quase podia sentir o cheiro de sangue e fumaça espalhando-se por todos os lados. Shi, inconscientemente, abraçou-a mais forte ao seu lado, tinha consciência de que muito em breve, sem qualquer beleza, os céus explodiriam outra vez e tudo seria queimado até o chão. Nesse momento, Yan Da não teria por ele nada mais que o ódio das chamas.

Haveria alguma esperança para ele naquele coração machucado?

※※※

Era tarde quando ela finalmente chegou em casa. Ainda sob efeito da noite mágica proporcionada por Shi, Yan Da quase flutuou até a cama e então se deu conta da caixinha que ele lhe dera no dia anterior. Sentando na beira da cama, ela segurou-a e abriu, dentro havia um papel cuidadosamente dobrado e uma bolsinha de veludo. Inicialmente, ela pegou o papel e encarou a letra de Shi.

Yan Da,

Muitos anos atrás, meus avós se apaixonaram, mas como era comum naquela época, a diferença de classes os impedia de ficar juntos por mais que minha avó estivesse disposta a abdicar de qualquer coisa por ele. Então, após vinte anos de muito trabalho duro, meu avô comprou para ela essa pedra como um presente de casamento. Foi o maior símbolo de amor dos dois durante toda a sua vida juntos e, para minha avó, essa é uma joia que traz o amor. Talvez ela tenha razão, afinal, pois quando me presenteou com ela não tive dúvidas que sua nova dona seria você e fico feliz por tê-la aceitado. Para mim, contudo, ela não vale mais que o seu sorriso. Amo-a incondicionalmente.

Ying Kong Shi.

Dentro da bolsinha de veludo havia um diamante em forma de lágrima, era uma joia linda e ela imaginava que de grande valor, Yan Da a ergueu para a luz pálida do lustre do seu quarto e viu as cores do arco-íris dançando diante dos seus olhos, bem nesse momento ela sentiu como se algo a atingisse no estômago, fechando a mão em volta da pedra, ela se encolheu e tentou gritar por Pian Feng, mas tudo que conseguiu foi dar um gemido baixo enquanto seu sangue parecia ferver nas veias.

— Pian Feng!

Ela gritou quando a dor se tornou tão insuportável que não conseguiu mais, nesse momento, seu corpo já estava no chão e ela segurava a pedra com tanta força que sua mão sangrava, mas não importava o quanto tentasse, não conseguia soltá-la. Pian Feng e Chao Ya irromperam no quarto em desespero sem entender o que estava acontecendo. O guerreiro correu direto até ela e a segurou nos braços enquanto a cantora ligava para Huang Tuo, Yan Da agarrou a camisa de Pian Feng e seus olhos encheram de lágrimas que mais pareciam ácido corroendo sua pele.

— Yan Da! — Ele chamou seu nome, mas a voz não foi nada mais que um ruído abafado e distante.

A dor cresceu mais até Yan Da sufocar e desejar morrer para não sentir mais nada. Então o mundo foi perdendo o foco, um zumbido agudo cresceu nos seus ouvidos como se fosse rachar seu crânio, o calor do corpo de Pian Feng foi esfriando gradualmente até ela não sentir mais nada e a escuridão vencer.



Notas finais
[1] *Wǒmen zěnme bàn ne? [我们怎么办呢?] — O que nós devemos fazer? [2] *Gàosù wǒ [告诉我] — Me diga [3] *Míngbáile bàba [明白了爸爸] — Entendi, papai [4] *Nǎinai [奶奶] — vovó (mãe do seu pai)