Love as Sakura | 爱如樱

4 第4章 Destinos Entrelaçados


— Ge!

Ying Kong Shi deu uma leve corridinha pelo corredor executivo a fim de alcançar o irmão mais velho que deixava a sala da presidência. Ao ver a expressão séria de Ka Suo, seu sorriso morreu diante do desânimo que emanava do irmão. Normalmente, o irmão mais velho era uma pessoa tranquila, precisava muito para irritá-lo, mais ainda para magoá-lo ou deixá-lo chateado daquela forma. E, quando acontecia, tinha a ver com o pai deles.

— Estou indo almoçar, me acompanha? — Ofereceu numa tentativa de distrair Ka Suo.

— Não posso. — Suspirou o mais velho. — Estou de saída para o aeroporto, acabei de ser enviado à Los Angeles para negociar um restaurante.

— Ge, não se sobrecarregue assim. — Shi tocou o ombro do irmão em solidariedade. — Uma hora o pai vai ter de perceber que você tem uma vida fora da empresa, mas você precisa se impor mais para que ele se lembre disso.

— Eu sei. — Anuiu. — Não se preocupe comigo, Shi. Ah, antes que esqueça, preciso que encontre a senhorita Yue Shen sobre o projeto do hotel, não vou poder estar lá.

— Ela vai ficar decepcionada. — Shi sorriu. — As mulheres sempre preferem você.

— Não exagere. — Ka Suo ofereceu um sorriso brincalhão ao irmão. — Não sou eu que vivo nas listas de solteiros cobiçados.

Shi fez uma careta e Ka Suo deu uma leve risada. Os dois se despediram e ele viu o irmão desaparecer atrás das portas do elevador executivo. Ling Chao sempre colocava pressão sobre os ombros de Ka Suo por ser o filho mais velho e seu sucessor. Embora achasse injusto com o irmão, Shi sabia que não podia fazer nada para aliviar seu fardo — tampouco o irmão permitiria que ele se sacrificasse daquela forma.

Ele se sentia mal por Ka Suo. O irmão nutria um amor profundo por uma mulher de origem humilde chamada Li Luo, que trabalhava em um shopping pertencente ao pai deles, mas nunca tentara se aproximar dela pela certeza de que Ling Chao não permitiria o relacionamento. Shi havia tentado pensar em várias alternativas para ajudar o irmão mais velho, mas conhecendo o temperamento do pai sabia que as suas chances de sucesso seriam nulas.

Reprimindo um suspiro, ele seguiu pelo corredor e entrou em uma das salas deixando a pilha de pastas que carregava com uma das jovens atrás de um balcão. Ela lhe sorriu com doçura ao que Shi lhe retribuiu com educação.

— Chao Mei, por favor, me envie a localização do encontro de Ka Suo com a senhorita Yue e entregue esses documentos no departamento de logística.

— Sim, senhor.

Olhando o relógio de pulso, Shi notou que ainda tinha tempo para se permitir uma boa refeição antes de precisar lidar com os burocráticos trâmites que envolviam as negociações com uma obstinada filha de família rica que certamente estava vendo no seu irmão a chance de um casamento vantajoso. Ka Suo era constantemente submetido àquele tipo de encontro de "negócios", o próprio Shi não escapava das tentativas matrimoniais de sua mãe e o menor pensamento lhe causava calafrios.

A Senhora Ying não era muito participativa nos assuntos da empresa, deixando tudo a encargo do marido, mas no que dizia respeito em casar os filhos ela se tornava uma guerreira implacável lutando pela dinastia. Ele alcançava a calçada em frente ao prédio da Zhang Ying quando seu celular começou a vibrar no bolso do paletó. Ao ver o nome de Lan Shang no visor ele revirou os olhos pensando se iria ou não atender.

— Em que posso te ajudar, senhorita Lan? — A voz transparecia frieza.

Ying Kong Shi, não consigo falar com Ka Suo, ele ainda está na empresa? — A voz irritante da garota explodia do outro lado da linha.

— Meu irmão está em uma viagem de negócios. — Explicou. — Receio que ficará incomunicável por um tempo já que está usando apenas o número americano.

Você não tem esse número? — Pediu ela com voz manhosa. — Eu preciso falar com ele!

— Lan Shang — Shi suspirou —, espere ele voltar. Se ele quiser vê-la vai procura-la. Sinto muito, mas tenho uma reunião agora e preciso desligar.

Os pais de Lan Shang eram donos de uma cadeia de parques aquáticos muito promissora na Ásia e América. Ying Chen Tong achou que seria uma boa ideia apresenta-la aos filhos e ela acabou se interessando por Ka Suo em um nível quase obsessivo. Mesmo que ele não nutrisse qualquer afeição por ela e nem alimentasse suas esperanças, a mãe deles continuava alimentando a cabeça da mimada garota com ideias de um casamento que, se dependesse da vontade do irmão dele, nunca aconteceria.

Shi, certa vez, até cogitara em dar em cima dela só para tirá-la do pé de Ka Suo, mas ela era tão insuportável que ele desistiu antes de tentar. O belo jovem, cobiçado por muitas mulheres, ainda não havia encontrado ninguém que balançasse de verdade seu coração. Ele repelia todas as candidatas que a mãe colocava no seu caminho, por mais lindas que fossem todas pareciam iguais diante dele. Obcecadas na busca do casamento vantajoso e idealizado.

No caminho para o restaurante, ele entrou em contato com a senhorita Yue para explicar sobre a mudança de planos e recusou outras quatro ligações insistentes de Lan Shang quando uma garota entrou na frente do seu carro e o impacto aconteceu antes que ele pudesse impedir. Atordoado, Shi praguejou baixinho enquanto soltava o cinto com mãos trêmulas e saía do carro já telefonando para a emergência.

— Ei, você está bem? — Perguntou abaixando-se ao lado dela.

A garota abriu os olhos por um momento, ela tinha íris de um curioso castanho avermelhado e fitava Shi com confusão. Diante daquele olhar, ele era incapaz de entender a estranha sensação que subia por cada terminação nervosa do seu corpo. Com lábios em um tom delicado de vermelho, a garota balbuciou alguma coisa ininteligível antes de fechar os olhos outra vez. Por sorte, ele não dirigia em alta velocidade ou poderia tê-la matado.

Uma pequena multidão começou a se formar em torno deles e Shi já começava a inquietar-se com a confusão que aquilo ia dar. Tentou nem pensar na imprensa tirando fotos ou colocando microfones no seu rosto porque temia que atraísse as más energias e concretizasse aquele pesadelo. Havia apenas um fino fio de sangue saindo pela cabeça da garota, de modo que, apesar do choque, ele não se permitiu entrar em pânico. O universo parecia estar ao seu favor, pois a emergência, juntamente com a polícia, chegou antes da imprensa, ele deu uma rápida declaração para aos policiais e seguiu a garota até o hospital.

Lá se ia sua refeição!

Sempre que olhava as feições daquela pessoa ele não conseguia conter a sensação de que a conhecia de algum lugar, mesmo seu cérebro insistindo em afirmar que ele nunca a vira na vida. Ela tinha um rosto bonito, traços bem desenhados e delicados, lábios cheios e olhos muito expressivos, mesmo fechados eles exalavam certo ar imperial. Os cabelos escuros caíam com graça pelos ombros até as costelas mesmo estando um pouco desgrenhados pelo acidente lhe conferiam uma expressão adorável.

Shi balançou a cabeça, confuso. Era impossível estar encantado com aquela estranha. Preencheu alguns papéis na recepção, uma das enfermeiras havia solicitado dados da paciente, mas ele não a conhecia de modo que se apresentou como responsável. Levou meia hora até que o médico e amigo de sua família, Huang Tuo, viesse lhe tranquilizar sobre o estado da paciente. Ela provavelmente poderia ter sofrido uma concussão, mas não era nada grave de fato. Shi pagou as contas do hospital e deixou um cartão com uma das enfermeiras pedindo que entregasse-o para a garota. Ela poderia entrar em contato com ele caso precisasse de alguma coisa.

Sentiu-se mal por deixar o hospital antes que ela acordasse, mas não podia cancelar o compromisso com a senhorita Yue Shen e findar por despertar a irritação do pai, colocando o irmão em problemas. Apertando a ponte do nariz antes de entrar no carro, Shi suspirou e lançou um último olhar para o hospital, dizendo para si mesmo que a garota ficaria bem e telefonaria nem que fosse para reclamar com ele ou pedir uma indenização. O que importava era mantê-la longe das lentes da imprensa ou ele teria problemas e o pai ficaria tecendo a conhecida litania sobre a imagem da empresa e as consequências das ações dele e de Ka Suo sobre todos. Mesmo não tendo um espírito indômito, ele estava longe de compartilhar a personalidade vetusta e leniente do irmão.

Quando parou diante do local marcado por Ka Suo para se encontrar com a senhorita Yue Shen, ficou feliz por ser um restaurante. Com toda a confusão não tivera tempo para almoçar e a irritação proveniente do estômago vazio ameaçava deixá-lo fastidioso. Um garçom o acompanhou até a mesa e ele sorriu para a jovem sentada à mesa que levantou para cumprimenta-lo.

— Yue xiaojie*, é um prazer. — Apertou a mão dela.

— Igualmente. — Declarou ela com impassividade.

Shi fez um sinal para que ela voltasse a sentar. Yue Shen era a filha de um magnata do petróleo conhecido por fazer altos investimentos em diversas áreas diferentes. Tê-lo como investidor no projeto do hotel que eles pretendiam construir brevemente em Ren Xue Cheng* seria não apenas muito vantajoso para ambas as empresas, mas garantiria o sucesso do empreendimento. Ele pensou que Yue Shen seria mais bonita se não mantivesse a expressão tão fechada. Ela tinha belos cabelos negros que, sob a claridade diáfana que circundava o restaurante, cintilava como se tivesse algumas matizes azuladas. Os olhos castanhos eram argutos e penetrantes e seus lábios cheios, pintados com um brilhante batom arroxeado, seriam sedutores não fosse a rigidez com que se moviam.

— Lamento profundamente por meu irmão não poder ter tido o prazer de discutir os trâmites com a senhorita — disse ele tentando soar o mais simpático possível. — Infelizmente, ele precisou fazer uma viagem de última hora.

— Não há qualquer inconveniente nisso, senhor Ying. — Garantiu ela, impassível. — Meu pai está interessado no projeto e, seja o senhor ou seu irmão, creio que o resultado do acordo será o mesmo.

Diante da casmurrice da jovem, Shi teve certeza que a mãe não estava envolvida naquele projeto e tampouco naquele encontro. Ela costumava prezar a beleza das candidatas dos filhos, mas garantia que todas fossem maleáveis, de espírito fútil e inteligência mediana. Por isso os dois insistiam em continuar solteiros. Ele reprimiu uma risada do próprio erro e começou a discorrer sobre o projeto — do qual se inteirara horas antes — respondendo as perguntas incisivas dela e negociando algumas mudanças no processo.

Já era fim de tarde quando deixou o restaurante sob a promessa de um contrato entre as duas empresas. O sol brilhava em matizes pastéis e o ar tornava-se gelado. Shi olhou para as nuvens em tons de rosa e amarelo, deixou a brisa beijar seu rosto enquanto sua mente vagava, por um momento, para algum lugar distante. Uma cerejeira derramava suas flores que dançavam no ar glacial enquanto um jovem de longos cabelos prateados segurava uma mulher adormecida. O chão sob eles estava vermelho e uma lágrima escorria pelo rosto do jovem quando pronunciou um "obrigado" para ninguém.

Quando abriu novamente os olhos, atordoado pela visão, do outro lado da rua havia um homem que o encarava com um sorriso indecifrável. Shi tinha certeza que nunca o vira antes e a maneira como o estranho lhe olhava deixava-o inquieto. Apressou-se em entrar no carro e ligou para Huang Tuo a fim de ter notícias da paciente.

— Ela recebeu alta algumas horas atrás. — Contou ele. — Não havia nada realmente grave, a concussão pode causar alguns sintomas incômodos, mas ela ficará bem.

— Obrigado, Huang Tuo, por toda a ajuda.

— Sabe que não precisa agradecer. — Shi podia visualizar o sorriso carismático do médico mesmo sem vê-lo. — Acho que você vai ficar mais surpreso quando eu disser quem ela é.

— Como assim, quem ela é?

— Você atropelou ninguém menos que Meng Yan Da. — Anunciou ele com a voz mais baixa. — A filha de Meng Huo Yi.

Ying Kong Shi engoliu um palavrão quando deu sinal e parou no acostamento. De todas as pessoas!

— Ela deixou algum telefone para contato? — Quis saber ele.

Nada. Quando soube que você pagou a conta, apenas deixou o hospital sozinha e pegou um táxi. — Explicou Huang Tuo. — Por sorte, nem o pai nem o irmão irritante apareceram ou você teria problemas.

— Não é como se ela fosse manter segredo. — Ele fez uma careta. — Se ela tiver o mesmo temperamento de Shuo Gang haverá mais repórteres que funcionários na empresa amanhã!

Ele bateu as mãos no volante e apoiou a cabeça sobre elas tentando pensar em alguma coisa que o tirasse daquele problema. Já até imaginava a manchete na primeira página do jornal matinal anunciando o "inconsequente herdeiro mais jovem da Zhang Ying" e revivendo a antiga rivalidade entre a empresa de seu pai e a Huo Enterprises.

— Vamos lá, não entre em pânico ainda. — Huang Tuo tentou animá-lo. — Não sei se foi a concussão, mas ela não agiu em nada como o pai ou o irmão, mostrou mais educação que a família inteira junta. Com sorte ela vai te ligar e pedir algum favor sórdido que beneficie o pai dela e o assunto estará encerrado.

Shi quase riu. Sorte era um item inexistente na lista que Beiji Dadi* escreveu para sua vida. Ele agradeceu mais uma vez a Huang Tuo e desligou, dirigindo para casa. Ignorou mais quatro ligações de Lan Shang e já estava atordoado quando estacionou na garagem do condomínio onde morava. No saguão, enquanto caminhava para o elevador, Shi viu o mesmo homem de horas atrás olhando-o com um sorriso enigmático e, para sua surpresa ainda maior, Yan Da que entrava num elevador que acabava de fechar.

Beiji Dadi, que tipo de piada você escreveu promeu destino?

Notas:

*Xiǎojiě (小姐) — senhorita

*Rèn xuě chéng (刃雪城) – Significa Cidade da Neve

*Beiji Dadi (北极大帝) — Na mitologia taoísta é o deus das estrelas, logo, do destino.