Love as Sakura | 爱如樱
43 第38章 Perdido
Pian Feng agradeceu ao príncipe quando teve seus poderes restaurados. Ele havia se acostumado de tal forma a ser um mortal comum que a sensação de força fluindo do seu núcleo dourado e o vento obedecendo ao seu comando era uma novidade estranha. Os dois continuaram no café por um tempo, incialmente em um silêncio perturbador e, depois, em uma conversa até muito tranquila sobre Yan Da e as pretensões de Shi sobre o relacionamento. O guerreiro fazia um esforço para dar algum crédito ao príncipe, ainda que fosse difícil confiar nele realmente, ele amenizava um pouco por causa de certas atitudes que Shi havia tido para com Yan Da fosse no hospital, na maneira como cuidou dela durante a viagem para a montanha ou na empresa.
Todavia, o receio que Shi acabasse virando as costas para sua fadinha era real e insistente, Pian Feng não conseguia se manter tranquilo e ficaria atento a cada movimento do príncipe até se sentir confiante de que Yan Da estava em boas mãos. Sobretudo, ainda havia o problema das memórias dela, em algum momento Ka Suo teria de parar de suprimir as lembranças dela e toda aquela amargura do passado voltaria para assombrá-la juntamente com as do presente. Ele temia não apenas a reação dela para com Shi, mas para com ele mesmo e Chao Ya, não importava que os dois tenham sido seu suporte naquela vida, no passado eles eram inimigos e a trataram como tal, o coração do guerreiro apertava diante da possibilidade de um dia sua fadinha lhe olhar com desprezo ou pior, medo.
— Posso perguntar uma coisa? — Shi cruzou os braços encostando-se no encosto da cadeira.
— Claro que sim, de todo modo o resultado será o mesmo: vou decidir se respondo ou não. — Deu de ombros.
— Por que você salvou Yan Da e Peng Yan naquela época? Ainda não era seu dever protegê-la.
Ele ergueu uma sobrancelha estranhando a pergunta. Ponderando se deveria ou não responder, Pian Feng rememorou aquele dia no qual tivera uma violenta discussão com Ka Suo e, não fosse por Huang Tuo, ele não teria conseguido. Olhando bem o rosto de Shi, Pian Feng conseguia distinguir traços do príncipe que ele fora no passado, frio, direto e implacável, contudo havia uma suavidade e, ele podia dizer, humanidade nele que outrora não era visível. Ying Kong Shi estava mais empático, mais sensível, mais consciente do que jamais fora. A perspicácia e inteligência do príncipe aliada ao coração reconstruído de quem ele era agora o tornaram alguém melhor — ainda que Pian Feng odiasse admitir esse fato e nunca o fizesse em voz alta —, foi por causa disso que ele decidiu contar a verdade a ele.
— Você está certo, naquela época eu ainda não era o guardião dela. — Assentiu, mesmo que não houvesse animosidade em sua voz, ele soava um tanto áspero. — Quando chegamos a este mundo, recebemos através de Xing Jiu parte da nossa história, alguns de nós, como Chao Ya e Yue Shen, bloquearam a outra parte por si mesmas, alguma coisa relacionada a autoproteção de dores muito fortes. Entre essas memórias, readquiridas dessa vez em terceira pessoa, estava a maneira como as coisas se desenrolaram nos últimos anos do império do gelo. Isso incluía Yan Da e foi assim que todos nós ficamos sabemos pelo que ela passou. Claro que Xing Jiu usou uma antiga magia das estrelas para revelar informações que mesmo ele não tinha conhecimento.
“Peng Yan fazia parte da tribo do espírito do vento. Ele era nosso comandante mais jovem e mais talentoso, lutamos lado a lado várias vezes. Nosso líder o mandou como espião para a tribo do fogo como forma de sondar as intenções de Huo Yi, isso foi um pedido do seu pai, por sinal. Contudo, ele acabou se tornando o braço direito da princesa e atraiu a atenção de Shuo Gang. Nunca soube como ele havia morrido, naquela época, quando ele desapareceu nós o procuramos durante trezentos anos, nesse entremeio a tribo do espírito do vento foi destruída por Huo Yi e os poucos de nós que sobreviveram se refugiaram na tribo de música xamã.
“Chao Ya apelou para a mãe por nós e os guerreiros da tribo de música nos ajudaram a continuar procurando por ele, mas nunca conseguimos o menor sinal então o demos como morto. Continuamos na tribo de música xamânica e nos integramos ao exército da mãe de Chao Ya. Só quando recebi essas memórias descobri que na verdade Peng Yan havia sido assassinado por Shuo Gang como uma maneira de atingir Yan Da. Ele mentiu para ela dizendo que Peng Yan havia ido embora porque não desejava ser amigo dela ou qualquer outra coisa. Ao que parece, aqui as coisas não são muito diferentes, o príncipe Shuo Gang continua fazendo o possível para destruir Yan Da.
“Quando tomei conhecimento disso, decidi investigar a situação aqui por conta própria. Não foi muito difícil com a ajuda de Xing Jiu, ele me ajudou sem o conhecimento de Ka Suo. Nesse mundo, as almas de Peng Yan e Yan Da trouxeram o vínculo de quatro mil anos atrás, não sei como Xing Jiu conseguiu trazer a alma dele de volta pelo sacrifício e realmente não me importo, ela estava feliz ao lado dele. Naquele dia eu os segui secretamente com Huang Tuo, confesso que não foi muito fácil convencê-lo a me ajudar, especialmente por ser algo que Ka Suo não havia aprovado, você e seu irmão tem uma aura que parece tornar leal até o mais dissimulado dos imortais. Obviamente, não contava que ele precisaria de mim naquele dia, então quando ele descobriu o que estávamos fazendo digamos que não lidou muito bem com a desobediência.
“Mas tudo mudou no momento que a vida da princesa entrou em risco. Não tínhamos muita opção e mesmo com um portal, seria difícil para Ka Suo chegar a tempo ao local exato já que o carro estava em uma velocidade absurda. Minhas opções eram salvá-los ou deixá-los morrer, mas precisava intervir de uma maneira que não chamasse atenção demais. Huang Tuo não concordou muito, ele sabia que no momento que eu usasse meu poder para intervir em uma vida humana normal como a que Peng Yan tinha eu poderia acabar anulando minha alma. É de conhecimento geral que imortais não podem se intrometer no destino humano. Contudo, a importância que ele tinha para Yan Da era demais para ignorar, então Ka Suo e eu tivemos uma discussão e fui um tanto quanto rebelde nas minhas escolhas.
“Abdiquei da minha essência mágica para salvá-los, criei um escudo em torno deles quando pularam do carro amenizando o impacto, no momento que Peng Yan protegeu Yan Da com o corpo um pedaço do carro voou em sua direção, era o destino dele ter morrido naquele instante, mas o protegi, desviei a ameaça para o carro de Shuo Gang e livrei-os das chamas. Não queria que ela ficasse sozinha, que passasse pelo horror de perdê-lo outra vez. Quem imaginaria que alguns meses depois ele acabaria morto de todo jeito, ao que parece a morte é uma entidade persistente e não perde nenhum dos seus. Duas semanas depois acordei na casa de Huang Tuo sem nenhum poder. Ka Suo notou meu ato em favor de Yan Da e, alguns anos depois, me designou como guardião dela junto a Chao Ya. Voltar para cá me transformou em uma das testemunhas do infortúnio de Yan Da quatro mil anos atrás, jurei a mim mesmo que nunca permitiria que ela sofresse aquilo outra vez.”
Shi não o interrompeu em nenhum momento. Pian Feng notou que ele parecia absorto na sua narrativa e ponderava sobre algo com o olhar fixo sobre a mesa entre eles. Rememorando aqueles dias, ele não encontrava dentro de si qualquer resquício de arrependimento, era certo que, no início, agira em favor de Yan Da apenas por simpatia pelo passado trágico dela e sua vida difícil naquela vida. Entretanto, conforme convivia com ela e a conhecia ainda melhor, seu carinho e reverência por ela cresceram gradativamente ao ponto de ele se tornar protetor e tomar completamente seu partido a despeito da aprovação ou reprovação de Ka Suo. O centro da sua lealdade se convertera unicamente nela e isso independia do seu futuro depender dos sentimentos dela por Shi, Pian Feng estava convicto que não permitiria a aproximação do príncipe se isso tivesse qualquer chance remota de machucar Yan Da outra vez. Porém, também não podia tolher as escolhas dela e se tornar autoritário, mas vigiaria Shi de perto e tomaria providências se percebesse que o coração de sua fadinha estava em risco.
— Durante esse tempo que ficou ao lado dela, Lian Ji tentou algo contra ela?
— Invadiu os sonhos dela uma vez. — Contou Pian Feng. — Quase não conseguimos trazê-la de volta. Depois disso, Xing Jiu conseguiu um colar para bloquear a entrada dela nos seus sonhos e nos dela. O que está em volta do seu pescoço não vem do bom gosto do seu irmão.
Instintivamente, Shi levou os dedos a corrente em volta do seu pescoço.
— As memórias dela estão sendo retardadas por Huang Tuo, ele nos dá poções para colocar na comida ou no chá dela, contudo, de tempos em tempos Xing Jiu a faz rememorar alguma coisa a pedido de Ka Suo. No dia que você recuperou as memórias e a abraçou, ela conseguiu absorver uma das suas memórias porque Xing Jiu conectou suas mentes no momento errado ao que parece. — Explicou. — Ela me disse que tem pesadelos com você desde criança, mas nunca havia conseguido ver seu rosto neles até o dia do acidente.
— Por que ge faria isso, fazê-la rememorar aquilo tudo não é como uma maneira de tortura-la? — Shi indagou mais para si mesmo que para o guerreiro.
— Já tem um tempo que eu desisti de entender a mente de Ka Suo. — Resmungou Pian Feng. — Não me entenda mal, não estou te contando tudo isso para te ajudar ou porque estou confiando em você. Se quer chegar a Yan Da ainda vai ter que passar por mim e eu não vou facilitar para você.
— Eu não esperava que o fizesse, nem quero tampouco. — Anuiu ele com um sorriso. — Fique de olhos bem abertos, Pian ge, vou demonstrar meus sentimentos sem reservas.
Eles saíram do café, Shi se sentindo um pouco mais leve e Pian Feng mais aliviado por ter dito tudo que queria dizer. Shi o levou de volta para o hospital já que o guerreiro havia deixado seu carro lá e ainda precisava pegar Yan Da quando esta terminasse sua visita. Quando o jovem príncipe do gelo estacionou diante do hospital, Pian Feng soltou o cinto de segurança e lhe lançou um olhar duro:
— Se me chamar de ge de novo eu arranco as suas pregas vocais e uso como cordas para minha guqin*[1]. — Advertiu.
Shi deu uma risada enquanto ele saía do carro. Pian Feng não disse mais nada e apenas acenou levemente com a cabeça antes de se dirigir para o prédio do hospital sem olhar novamente para trás.
※※※
Yan Da saiu para o jardim do hospital enquanto Chao Ya fazia alguns exames pedidos por Huang Tuo. Quando chegara mais cedo, fizera todo o possível para esconder suas emoções conflituosas da amiga, embora não tenha dado muito resultado e a cantora tivesse notado que havia algo errado. Ainda assim, não foi tão difícil quanto imaginava despistá-la, algo que não funcionava consigo mesma.
As palavras de Shi reverberavam na sua mente como ecos fantasmagóricos que evocavam os mais diversos tipos de sensações dentro dela. Em seu coração, Yan Da sabia que aquele sentimento era recíproco, ela estava igual e inevitavelmente apaixonada por ele, mas por algum motivo não conseguia aceita-lo. Parte disso era pelo pedido codificado de Pian Feng, a outra parte estava ligada àquele sonho estranho que tivera no dia em que fora cuidar dele a pedido de Ka Suo.
Seu coração chegava a doer quando ele não estava por perto, ela pensava nele mais vezes do que queria, sentia saudade e buscava-o em seus sonhos. Entretanto, ao mesmo tempo em que esses sentimentos vinham com violência dentro de seu coração, ela não queria vê-lo, temia seu próximo encontro, sentia uma insistente vontade de colocar um abismo entre eles, sempre com aquele medo inexplicável e irritante de deixá-lo entrar verdadeiramente na sua vida. Passando as mãos pelo rosto, se forçou a recobrar a calma e fazer seu coração parar de bater enlouquecidamente, ela não era o tipo que se deixava mover por palavras bonitas, precisava se lembrar disso para não desmoronar completamente com aquela confissão ardorosa de Shi.
— Deveria separar um quarto particular para a senhorita?
A voz conhecida a arrancou dos seus pensamentos conflituosos e ao erguer a cabeçaela se deparou com o sorriso brilhante de Huang Tuo. Ele usava um jaleco branco impecável, segurava uma prancheta, prestando um pouco mais de atenção, ela notou que o médico tinha uma aura que atraía as pessoas, era difícil resistir a ele e involuntariamente ela acabou sorrindo para ele. Huang Tuo se aproximou mais e sentou ao lado dela no banco apoiando a prancheta no colo.
— Esse dia bonito não combina com a sua aura triste. — Brincou. — Algo que eu possa ajudar?
— Seria realmente muito bom se esse problema pudesse ser resolvido com uma injeção. — Lamentou olhando para as próprias mãos.
— Hum... no seu lugar eu não me subestimaria, tenho injeções que a ciência desconhece. — Disse ele. — A injeção de “escutar sem interromper” costuma amenizar os primeiros sintomas da doença.
Yan Da deu uma leve risada. Além de Pian Feng e Chao Ya, era sempre difícil ela conseguir se sentir confortável perto de outras pessoas, mas com Huang Tuo isso foi tão imediato que era como se ela conhecesse o médico a vida inteira. Ele emanava confiança e tranquilidade, como se nada no mundo fosse capaz de abalá-lo. Huang Tuo era o tipo de pessoa que sorria com os olhos, estar ao lado dele lhe dava a mesma sensação de estar com Pian Feng, só que de uma forma mais descontraída.
O sentimento de estar em casa em qualquer lugar.
— Não está com pressa? — Perguntou ela, um tanto apreensiva.
— Oh, há muitos médicos e enfermeiras competentes por aqui, claro que eu levo vantagem sobre eles, mas podem sobreviver algumas horas sem mim. — Disse em tom de brincadeira. — Até porque ouvir as pessoas é o trabalho primordial dos médicos. Não vamos poder descobrir magicamente a doença se não escutarmos o que eles sentem. Palavras são poderosas, xiaojie.
Yan Da sorriu.
— Todo esse tempo e ainda esqueço de pedir que não me chame desse jeito. Apenas Yan Da, já está ótimo.
— Isso muito me honra, Yan Da. — Respondeu o médico e apesar do tom de brincadeira, ela notou que ele falava com sinceridade. — Então, agora que já somos amigos próximos, que tal me contar o que está acontecendo, aí eu vejo se você precisa ou não de uma injeção especial.
Ela hesitou apenas por um momento, mas antes que percebesse a necessidade de aliviar aqueles sentimentos que a oprimiam se sobrepôs à prudência ou ponderância e as palavras pareceram sair sozinhas, amontoando-se e colidindo umas nas outras sem que ela fosse capaz de saber se faziam sentido, externando sua própria confusão e frustração com tudo aquilo. Yan Da contou a Huang Tuo sobre seus sentimentos conflituosos e desconcertantes, ocultou os sonhos estranhos, mas falou sobre a confissão de Shi — e não achou haver problemas já que os dois pareciam amigos muito próximos —, sobre aquele medo no seu coração impedindo-a de permitir que ele entrasse na sua vida ou ultrapassasse a linha.
Durante toda a narrativa de palavras amálgamas que ora tinham sentimentos em demasia e ora perdiam sentido, Huang Tuo manteve-se em silêncio e, discretamente, impediu que três infermeiras, em momentos diferentes, atrapalhassem sua conversa com Yan Da. Ele deixou que ela falasse sem interrupções, dando-se conta dos efeitos das feridas do passado e do presente sobre o medo que a fazia erguer muros para impedir a aproximação de Ying Kong Shi, contudo também notou o progresso fantástico dos sentimentos da princesa em relação a ele mesmo antes do príncipe recuperar as memórias — e se aquilo não era destino ele não sabia mais o que era.
— Estou ficando maluca. — Suspirou, a voz já se tornando trêmula enquanto ela lutava para reprimir as lágrimas. — É tudo tão cansativo. Não consigo deixar de pensar se era melhor apenas tornar-me entorpecida para não ser capaz de sentir nada.
— Entendo como se sente. — Disse por fim quando ela ficou algum tempo em silêncio. — O centro da questão, Yan Da, é que você não pode tentar resolver todos os problemas de uma vez usando o mesmo método. Não é assim que funciona. Nó a nó a corda tem de ser solta aos poucos, alguns nós dispendem mais esforço que outros, mas todos são dados e desatados de modos diferentes.
Ela não respondeu mantendo a cabeça ainda baixa, os olhos nas mãos trêmulas sobre o colo. Huang Tuo acariciou levemente a cabeça dela sentindo-se paternal e entendeu um pouco como Pian Feng se sentia em relação a ela.
— Vamos pensar assim: você tem medo de agulhas, certo? — Ela anuiu. — Talvez seja porque você só viu agulhas sendo usadas de forma ruim, é o mesmo com uma pessoa que tem medo de facas após presenciar um assassinato. Contudo, apesar dos traumas serem semelhantes, o tratamento de cada um funciona de modo distinto. Olhando sob seu ponto de vista, já parou para pensar que as agulhas podem ajudar a salvar a vida de uma pessoa? Como é impossível fazer alguém beber sangue, nós fazemos transfusões através de agulhas, quando a pessoa não consegue se hidratar, nós mantemos seu corpo hidratado através de uma agulha.
“Ou pense, por exemplo, nos benefícios da acumpuntura para tantas pessoas com problemas musculares e ósseos, até mesmo em sintomas mais leves como enjoos, dores de cabeça ou no corpo. Se uma agulha foi usada de modo errado, você pode demonizar todas elas? Não o objeto que você teme, Yan Da, é a pessoa que o manuseia. Tenho certeza que, por mais receosa que estivesse, se eu me aproximasse de você com uma agulha você não entraria em pânico, entraria? — Ela negou. — Por que você confia em mim. O mesmo vale para a pessoa que presenciou um assassinato, não significa que ele nunca mais conseguirá ver uma faca novamente, ele vai entender que o problema não é o objeto, mas a pessoa que o usou de maneira errada. É assim que nós soltamos os nós das cordas, entendendo a dinâmica que foi usada para atá-los.
“Não estou dizendo com isso que ignore completamente seus instintos e se jogue de cabeça sobre o problema, mas tente pesar os dois lados do problema, o medo que você sente tem uma explicação que, talvez, você apenas não consiga alcançar no momento. Por isso, tente olhar pelas ações de Ying Kong Shi, antes dessa confissão, se ele fez alguma coisa que merecesse esse temor. E, sobretudo, quais das suas atitudes para com você validam essas palavras. Muitas vezes, Yan Da, nosso medo tem raízes em acontecimentos que não desejamos que se repitam, outras vezes são apenas fruto do nosso pessimismo com relação a nós mesmos. Se acha que não pode lidar com isso agora então apenas deixe de lado um pouco e foque nos problemas que você pode alcançar. Está tudo bem dar um tempo a si mesma para assimilar as coisas desde que você confie que vai conseguir solucioná-las, porque eu confio que você pode.”
Yan Da ergueu a cabeça para o médico ao mesmo tempo agradecida e tocada pelas palavras dele. Huang Tuo sorriu para ela que, com os olhos marejados, sorriu-lhe de volta dessa vez com mais vontade, sentia o coração aquecido e mesmo que os problemas continuassem diante de si, pelo menos tinha em si confiança de ser capaz de resolvê-los.
— Obrigada, Huang yisheng.
— Oh, o mesmo vale para você, só Huang Tuo está ótimo. — Ele deu uma risadinha. — Me sinto menos velho assim.
— Como você poderia ser velho? — Yan Da riu. — Deve ser o que, dois ou três anos a mais que eu?
— Três. — Sem contar os milênios. Pensou ele fazendo uma careta.
— E como se chama essa injeção de agora? — Quis saber.
— Hum... costumo apelidá-la de carinho. — Brincou. — Se sente melhor?
Um sorriso tão doce se formou no rosto de Yan Da que Huang Tuo sentiu seu corpo inteiro derreter.
— É realmente muito eficiente. — Anuiu pondo-se de pé. — Não vou tomar mais o seu tempo, acredito que a jiejie já tenha voltado para o quarto.
— Vou avaliar os resultados e dependendo do que vir, darei alta a ela.
Os dois se despediram e ele a observou seguir pelo corredor com uma postura mais relaxada, nesse momento, Huang Tuo agradeceu aos céus por ter nascido um curandeiro. Yan Da, por sua vez, seguia com um sorriso, determinada a manter-se forte, por si mesma, por Pian Feng, Chao Ya e Huang Tuo. Ela podia fazer aquilo.
Podia ser feliz.
※※※
Shi seguiu para casa e, no caminho, deixou uma mensagem para que Liao Jian o encontrasse lá. Havia muitas coisas passando pela sua mente naquele momento após a conversa com Pian Feng, mas o príncipe sentia que os dois haviam chegado a um ponto comum: a felicidade de Yan Da. Desde que ele não se desviasse daquele caminho, o guerreiro não atravessaria seu caminho e isso já era muito dado o fato de ele não acreditar nas intenções de Shi. Por mais que tentasse, não conseguia pensar em uma maneira de provar a Pian Feng que dizia a verdade, sem o apoio dele seria difícil conquistar a confiança de Yan Da. Mas, no fim, admitia que a culpa era dele mesmo. Se ele não a tivesse ferido no passado não estaria passando por isso agora. Havia muito a ser feito, ele tinha pendências a resolver e não era apenas pelo perdão, mas havia aquelas pela justiça.
Alguém precisava aprender a não deixá-lo irritado.
Ka Suo estava em casa quando ele chegou, tinha sobre o colo um tablet onde analisava alguns documentos e nsa mãos algumas folhas e uma xícara de café. A postura relaxada era pacífica como se nada no mundo fosse capaz de abalá-lo, ao vê-lo, ele sorriu despreocupadamente.
— Espero que o almoço tenha corrido bem.
— Ge, quantos anos você tem para criar esse tipo de armadilha? — Disparou Shi.
— Se eu deixasse as coisas por sua conta a princesa ainda estaria com medo de você até agora. — Deu de ombros voltando a olhar os documentos. — Convenhamos, Shi, você é capaz de lidar com um exército inteiro usando uma só mão, mas não consegue sentar diante de Yan Da dez minutos sem suar frio como se temesse a morte.
— Feihua! — Protestou Shi. — Eu sou apenas cauteloso com ela. Só isso.
— Cauteloso. — Anuiu Ka Suo com uma leve risada. — Avalie bem a situação, Shi, nós temos uma bomba relógio sobre nossas cabeças prestes a explodir sem aviso prévio. Você realmente tem tempo de ser “cauteloso”?
Ele soltou uma lufada de ar, frustrado, e caiu no sofá. Em parte, Ka Suo tinha razão, se ele não fizesse alguma coisa, Yan Da desapareceria antes que ele tivesse a chance de alcançá-la, pelo menos conseguira dizer a ela seus sentimentos, se tudo desse errado, ela saberia. O que lhe entristecia era o fato de, mesmo sabendo, ela não acreditar.
— Dui, dui, dui*[2]... você venceu. — Admitiu. — Xie le.*[3]
Havia certo sarcasmo na sua voz quando disse aquelas palavras fazendo o irmão rir.
— E Lan Shang? — Ele quis saber e viu o rosto do irmão endurecer.
— Deixei Liao Jian de olho nela. A casa dele é grande o suficiente para viver doze pessoas e tem uma segurança verdadeira rigorosa. — Explicou. — Apesar do meu desejo ser matá-la com minhas próprias mãos, levo em consideração de que o que houve com ela também é culpa minha.
Ele apertou a ponte do nariz, dando um suspiro.
— Além disso — continuou — ela é a melhor fonte que temos de Lian Ji.
— Xing Jiu a está monitorando?
— Parece que ela aprendeu com você a esconder o rastro. Ela pode ter vindo com menos poder, mas ainda tem truques na manga.
— Temos de descobrir até onde a teia dela se estender para poder cortar os fios. — Concluiu Shi. — Especialmente agora, se Yan Da é o alvo não posso permitir que Lian Ji continue viva.
— Como está a princesa?
— Ainda com medo de mim. — Fez uma careta. — Mas pelo menos sabe como me sinto, acredito que o resultado final virá do meu próprio esforço.
— Por isso mantive as memórias dela trancadas durante todo esse tempo, para que você pudesse ganhar terreno com as suas atitudes e reparar as feridas em seu coração. — Ka Suo apertou o ombro do irmão. — Mas entende que não posso fazer isso para sempre, não é? Privar Yan Da das suas memórias é como privá-la de si mesma.
— Eu sei... — Suspirou. — Tudo que posso fazer é tentar que ela me odeie menos quando se lembrar.
— O amor é poderoso, Shi. Confie nisso.
Batidas na porta encerraram a conversa entre os irmãos. Ainda havia coisas que Shi queria perguntar a Ka Suo, mas aquilo teria de esperar. Sua última tarefa havia chegado. Do lado de fora, com um rosto inexpressivo, Liao Jian esperava.
※※※
Pian Feng esperava no corredor enquanto, dentro do quarto, Yan Da ajudava Chao Ya a se vestir. A mala da cantora estava pronta e ele já a havia posto no carro. Os dois haviam trocado apenas meias palavras um com o outro, mas aparentemente a cantora não estava mais chateada com ele, algo pelo qual o guerreiro era grato. Quando as duas saíram já prontas, Yan Da entregou a bolsa de Chao Ya para ele com um sorriso travesso e Pian Feng imediatamente olhou-a com uma advertência silenciosa de que, fosse lá o que ela estivesse planejando, não colocasse em prática.
Ele ajudou a musicista a entrar no carro e colocou a bolsa dela no banco de trás, mas Yan Da não o acompanhou. Afastando-se um pouco ela olhou os dois e esboçou um sorriso matreiro.
— Hum, Pian ge, jiejie, preciso ir resolver um assunto urgente na ZhangYing, devo voltar para casa no começo da noite. — Mentiu. — Pian ge, conto com você para cuidar da jiejie!
— Espere, Yan Da!
Mas ela já estava se afastando apressada na direção oposta que levava à Avenida Ren Xue. Pian Feng olhou brevemente para Chao Ya que apenas deu uma risada baixa.
— Ela deve ter herdado a sua teimosia. — Comentou o guerreiro.
— Minha teimosia? Sem dúvida ela herdou a sua teimosia e a minha sagacidade. — Rebateu a cantora.
— Ah, certamente, essa sua sagacidade demoníaca é igualzinha! — Apontou.
— Ya, Pian Feng, não vamos começar a comparar qualidades aqui. Agradeço aos céus ela não ter herdado esse seu mau gênio! — Reclamou a cantora cruzando os braços.
— Aqui estamos nós falando como se fôssemos pais dela.
Os dois se olharam um instante e começaram a rir.
— Bem, dadas as circunstâncias, somos alguns milênios mais velhos que ela, idade suficiente para esse papel. — Chao Ya olhou para a rua onde a princesa já era um ponto diminuto desaparecendo entre os transeuntes. — Às vezes gostaria de ter recebido esse destino.
— Ela não teria sofrido os horrores que sofreu, estou certo disso. —Pian Feng deu a volta e tomou seu lugar no assento do motorista. — Não gosto da ideia de ter ela andando sozinha na rua com Lian Ji em seu encalço.
— Era muito óbvio que ela estava mentindo, acho melhor ligar para Ka Suo e pedir que envie alguém atrás dela por precaução.
— Mande mensagem para Yue Shen. Shi está em casa, ela deve estar livre agora. — Orientou enquanto dirigia. — Quanto a nós, vamos fazer o que ela quer de uma vez por todas, também acho que essa situação está fora de controle.
— Você está pronto para isso? — Indagou ela, com certa ansiedade.
— Eu tenho que seguir meus próprios conselhos, afinal. — Resmungou ele.
※※※
Shi guardou a esfera da tribo do gelo de volta na caixinha de madeira e Liao Jian fechou a mão em punho sentindo seu velho poder fluir por suas veias novamente. Sem cerimônias, ele agradeceu a Shi e se manteve imóvel, como se esperasse uma ordem do príncipe.
— Eu gostaria de me desculpar com você.
— Imaginei que diria algo assim. — O advogado sorriu. — Não dou muito bom com toda essa coisa de conselhos e autoajuda, você sabe. Se posso te dizer algo a respeito disso é que preferia o príncipe do gelo que não devia satisfações de seus atos.
— Mesmo que esses atos envolvam matar inocentes?
— Ying Kong Shi, não cometa o erro do seu irmão de se culpar por coisas que estão fora do seu controle. — Aconselhou ele. — Sabe do que realmente me ressinto de você? O fato de você não ter ido atrás daquela vadia da Lian Ji antes de decidir que era legal pintar rochas com o seu sangue.
Shi não sabia se estava mais surpreso por Liao Jian usar um termo tão ofensivo quanto aquele ou por falar daquela maneira tão agressiva. De todo modo, o fato do advogado tratá-lo como um igual o agradou muito.
— Você não me deve nada. — Continuou ele. — Mas se quer mesmo me fazer um favor, quando tudo isso acabar, me deixe ir para casa.
— O que o leva a crer que estou prendendo você aqui? — O príncipe ergueu a sobrancelha, sem entender.
— Enquanto o sacrifício não for pago, nenhum de nós pode sair permanentemente daqui. — Ele sorriu. — Então, eu conto com você.
— É uma promesa. — Shi sorriu de volta.
Nesse momento seu celular vibrou. Ele o tirou de dentro do bolso e viu uma chamada perdida de Yan Da. Pelo tempo, parecia que ela havia ligado e desligado na mesma hora, como se tivesse se arrependido de fazer a ligação. Com um sorriso, ele ligou de volta.
“O número chamado está desligado ou fora da área de cobertura.”
Erguendo a sobrancelha, Shi tentou novamente, mas ouviu a mesma mensagem. Um frio subiu pela sua espinha e ele saiu apressado do quarto seguido de perto por Liao Jian, na sala, Ka Suo falava com alguém ao telefone, sua expressão séria.
— Entendi, envie agora, por favor.
— Ge...
— Yan Da está com problemas — interrompeu antecipando o que ele ia dizer — pedi a Xing Jiu para rastrear a estrela dela, se apresse.
Ele não pensou duas vezes, pegou o blazer, as chaves do carro e saiu correndo do apartamento, o coração batendo acelerado imaginando o que havia acontecido. Ela devia estar com Pian Feng e Chao Ya, segura. A ansiedade e preocupação o devoravam e, sem conseguir esperar, Shi se concentrou evocando o poder do fogo que corria nas suas veias, a essência dela dentro dele. Abrindo um portal ele chegou a tempo de segurá-la bem no momento que o tiro explodiu e o mundo pareceu desaparecer sob os seus pés.
— Yan Da!
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