Love as Sakura | 爱如樱
40 第35章 Perdoe, mas nunca esqueça

Ka Suo e Yue Shen chegaram nos limites da tribo de música xamânica sem conseguir qualquer sinal de Lian Ji. Frustrada, a assassina murmurou uma imprecação enquanto usava seus sentidos para tentar rastrear a mulher, o monarca, por sua vez, suspirou e usou o cubo dos sonhos para entrar em contato com o astrólogo.
— Xing Jiu, você consegue localizar a estrela de Lian Ji?
— Meu rei, Li Luo desapareceu, mas a estrela de Lian Ji está em algum lugar aqui neste plano.
— Tente rastrear os traços dela e procure por Lan Shang, diga a Liao Jian para ir atrás dela e traga-a para junto do outro sujeito.
— Shi, wang.
Yue Shen guardou a espada que trazia desembainhada e Ka Suo desmaterializou a sua. Havia preocupação no rosto da maga negra, vendo o abatimento em seu rei, ela não ousou dizer nada por algum tempo, mas não podia deixar de lado a gravidade do assunto, muitas coisas a estavam preocupando naquele momento e eles precisavam o quanto antes discutir a respeito, especialmente se Lian Ji tivesse conseguido, junto com o corpo, os poderes de volta.
Seguindo o olhar de Ka Suo, ela fitou ao longe a tribo de música xamânica. Em algumas tribos daquele mundo ainda havia remanescentes, contudo, com a morte deles, Yue Shen não sabia mais como eles se relacionavam ou a quem obedeciam. Não fazia mais parte daquele capítulo da sua história, era uma vida que ficara para trás. Contudo, não podia deixar de se perguntar se aquelas pessoas ainda pensavam na sua rainha Chao Ya, se sentiam falta das notas melodiosas e poderosas da sua harpa.
Naquele caso específico, a ignorância era uma bênção. Desvincular-se completamente do mundo imortal era a única maneira de eles conseguirem seguir em frente e recomeçar abandonando todas as dores e complicações da vida que conheceram ali. Ela não tinha qualquer pretensão de voltar, tudo que queria — caso sobrevivessem naquele mundo — era viver pacificamente ao lado de Huang Tuo. Sem mais guerras, sem hierarquia, sem impedimentos.
— Luna. — A voz de Ka Suo a tirou dos seus devaneios. — Por favor, cuide de Li Luo.
— Yue Shen cumprirá suas ordens, majestade.
— Eu a esperarei no declive das cerejeiras. — Informou. — Depois disso, vamos para casa.
※※※
Ying Kong Shi sorriu para Huang Tuo quando os dois chegaram ao seu apartamento, apesar de tentar se manter positivo, o médico sabia que o conflito dentro do coração do príncipe não estava nem perto de ser amenizado. Contudo, o trunfo de tê-lo ao lado deles o tranquilizava, poderoso como era, não haveria qualquer chance de Lian Ji sair vitoriosa naquela batalha. Todavia, não era apenas com a ex-deusa que eles deviam se preocupar, as coisas entre Shi e Yan Da não estavam nem perto de se resolver, embora a aproximação fosse encorajadora.
Quando o portal se fechou na parede pintada com a cerejeira, o príncipe do gelo tomou a mão de Huang Tuo entre as suas e começou a lhe passar energia espiritual para equilibrar aquela perdida por ele ao restaurar o controle da sua alma. De início, o curandeiro se recusou, mas diante da insistência de Shi, acabou cedendo. Ao terminar, os dois foram até a sala onde o príncipe ofereceu chá para o médico.
— Imagino que deva ter muitas perguntas na cabeça. — Sorriu.
— Sim, mas não sei se sou capaz de verbalizá-las agora. — Recostando-se na poltrona, o jovem se encolheu. — Me sinto péssimo.
— Shi, nós, que fomos as vítimas indiretas, não culpamos você, por favor, perdoe a si mesmo, mais do que nunca precisamos de você agora e autocomiseração não vai ajudar.
— O que está acontecendo?
— Muitas coisas, mas prefiro que você as ouça pela boca do seu próprio irmão, só posso adiantar que me sinto aliviado de ter você do nosso lado.
— Bem, agora eu faço uma ideia do motivo de Pian Feng me odiar daquele jeito toda vez que me aproximo de Yan Da. — Fez uma careta e encolheu os ombros.
— Ele abraçou a causa da sua missão com afinco. — Huang Tuo lhe ofereceu um sorriso compassivo. — Mas ele não te odeia. Nenhum de nós odeia.
Mas deveriam, pensou o príncipe, talvez me sentisse menos miserável assim. Sempre que lembrava do rosto de Yan Da torcido pela dor, Shi tinha vontade de morrer. Não tinha ideia de como conseguiria continuar com a sua vida carregando aquele peso no coração, mas estava disposto a tentar o que estivesse ao seu alcance para se redimir com todos que ferira, especialmente Yan Da. Ela era a principal vítima da sua crueldade no passado. A parte difícil é que ele não tinha ideia do que fazer.
Huang Tuo tomou um gole do seu chá apreciando a bebida aos poucos, observando-o, Shi lembrava-se do belo homem com longos cabelos escuros e vestes douradas. Ele sempre tivera um ar aristocrático, mas nunca esnobe. Naquela época, os dois não eram próximos como agora, mas o jovem príncipe do gelo sempre nutriu uma admiração singular pelo príncipe dos curandeiros. Se estava sentado ali ponderando como tocar sua vida dali por diante, tinha que agradecer ao médico por isso.
— O que pretende fazer agora? — Indagou.
— Tentar achar onde deixei minha cabeça e trazê-la de volta para cima do meu pescoço. — Respondeu, passando as mãos pelos cabelos.
— Vou precisar trazer o modelo anatômico da universidade para ajudar a sua busca? — Provocou Huang Tuo.
Shi esboçou um fraco sorriso, ter o médico brincando com ele daquela maneira fazia tudo parecer tão normal, como se nada tivesse mudado, como se ele não tivesse aquele passado, fosse puro e limpo do mesmo modo qual fora quando criança.
— Não se cobre tanto assim, você é quem é e recebeu essa segunda chance, aquela vida não é mais sua então não define você. Aqui você é apenas Ying Kong Shi, segundo herdeiro da ZhangYing, irmão de Ka Suo, meu pirralho favorito e pretendente de Meng Yan Da. — Sorriu. — Se é disso que está precisando para continuar vivendo, então siga esse caminho.
— Quem dera fosse tão simples.
— Se a vida pudesse ser facilitada eu escreveria enciclopédias sobre o assunto e não seria um médico que trabalha quase 36 horas por turno. — Soltou uma lufada de ar.
— Mentira, seu instinto de salvar vidas é mais forte. — Retrucou Shi com uma risadinha.
— Você está certo, estou falando hipoteticamente. — Recostou-se no sofá tomando outro gole do chá. — O que quero dizer é que você está evoluindo ainda mais como pessoa e isso causa dor. Mesmo alguém tão poderoso quanto você precisa sofres para transcender.
— Era isso que você queria dizer aquele dia no hospital, sobre eu estar pronto?
— Bem, nós tivemos que adiantar um pouco o momento, mas era sobre isso sim. — Admitiu. — Nunca duvidei da sua força, então não duvide de si mesmo, hao bu hao?
— Vou tentar. — Prometeu a ele e a si mesmo.
— Acho melhor você descansar um pouco agora, durma e quando acordar vai se sentir renovado e pronto para dar os primeiros passos que precisa.
— Pode me dar uma ajuda? Não sei se vou ser capaz de me entender com o sono com a cabeça tão cheia.
— Advirto que só durmo de conchinha com a Yue Shen. — Brincou.
— Huang Tuo! — Shi passou as mãos pelos cabelos desejando muito bater naquele médico pervertido quando se deu conta do que ouvira. — Espera, você e a Yue Shen...
— Ora e quem você achava que eu namorava, o Liao Jian? — Fez uma careta. — Eu esperei quatro mil anos por aquela mulher, tempo suficiente para saber que desperdiçar oportunidades é estupidez, não cometa esse erro.
O jovem príncipe olhou para o curandeiro que, incomumente, estava sério ao dizer aquelas últimas palavras. Com um aceno, Shi recebeu o carinho do médico na sua cabeça e foi seguido por ele até seu quarto, Huang Tuo tocou sua testa e murmurou um pequeno sutra que em alguns minutos levou Shi para o mundo dos sonhos.
— Descanse bem, seu pequeno causador de problemas. — Sorriu o curandeiro acariciando suavemente os cabelos do príncipe.
※※※
Lan Shang estava com medo. Quando Li Luo abrira os olhos sombrios de Lian Ji, ela sabia que mesmo seu plano tendo dado certo de alguma forma abrira uma cratera que Ka Suo teria que fechar, precisava de uma forma de avisar a ele sobre o que fizera, talvez fosse tarde demais para se redimir, mas ela precisava tentar.
Era sua única chance.
Apesar da lágrima ancestral possibilitar a Lian Ji a chance de recuperar sua forma original após sair do corpo de Li Luo — e a própria sereia não sabia exatamente como essa parte funcionava — não podia prever até que ponto os poderes dela também voltariam com o corpo. Mesmo não havendo risco de descobrir sobre o abismo do tempo, Lan Shang não queria estar por perto quando ela retornasse.
Tão logo despertara, Lian Ji conseguira acessar a mente de Shi dentro do reino imortal, Lan Shang não sabia que ela ainda mantinha conexão com o mundo imortal, mas não levou muito tempo para abrir um portal e partir ainda usando o corpo de Li Luo. Mordendo o lábio, a sereia viu nesse momento sua chance de escapar, não tinha muita esperança de conseguir se esconder da mulher, mas tentaria.
Refez o caminho pelo corredor sombrio tentando não ser refém dos seus próprios pensamentos obscuros, o que mais assustava a sereia era a incapacidade de deduzir o que viria a seguir, ela temia o que a mulher poderia fazer e se sentia culpada por não ter avisado a Ka Suo ou qualquer um dos outros sobre o fato de ela ter ido atrás de Shi.
"Se eu conseguir despertar o lado sombrio de Ying Kong Shi, ele será meu e não importa o que faça, não haverá possibilidade de Ka Suo vencer essa guerra. Ele estará fadado ao mesmo fim."
Parte da sereia queria perguntar a ela o motivo de ela desejar tanto destruir Ka Suo, não podia ser apenas por ele ter sido rebelde antes e destruído a ilusão que ela criara com o império de neve usado como um fantoche sob seu comando. Contudo, não se atrevia a fazê-lo; seria muito pior se ela irritasse Lian Ji e sofresse as consequências de sua fúria. Àquela altura era um fato a mentira contada para manter a sereia ao seu lado, mesmo sendo grande o desejo no coração de Lan Shang em acreditar na possibilidade de ter Ka Suo ao seu lado, estava passando da hora de encarar os fatos, aquilo nunca ia acontecer.
Ela sequer podia culpar Lian Ji por ter lhe feito acreditar naquela mentira. Ela mesma mentira para si.
Lan Shang alcançou a rua após pegar suas coisas, precisava pensar para onde iria, não se atrevia a voltar para a casa da avó depois do que fizera. A avó, é claro, não lhe expulsaria, ela bem sabia, todo aquele tempo ela não cancelara nenhum dos cartões de crédito de Lan Shang ou mesmo vetara sua entrada nos hotéis onde a família costumava ficar — alguns deles, inclusive, pertencentes a família de Yue Shen —, então ela sabia que podia voltar, mas sua face não era tão grossa* àquele ponto.
Chegando ao seu carro, estacionado do lado de fora da mansão onde Lian Ji vivia e onde ela ficara hospedada durante aquele tempo, ela depositou a mala no banco de trás e, ao abrir a porta do motorista, alguma coisa foi pressionada contra seu rosto, um cheiro forte fez a cabeça da sereia doer, ela lutou para se soltar, mas logo seus sentidos perderam força e ela sentiu o corpo desmoronar.
※※※
Pian Feng entrou no hospital acompanhado por Yan Da. Mais cedo, após preparar uma refeição reforçada para ela, ele havia recebido uma ligação de Liao Jian pedindo que deixasse Yan Da com Chao Ya para se reunir com eles em sua casa. Com uma desculpa, o guerreiro não teve muita dificuldade em conduzir a princesa no seu plano, Yan Da pareceu muito feliz em finalmente poder visitar sua amiga e cuidar dela enquanto o guerreiro estivesse fora.
Ainda receoso de ver a cantora, Pian Feng apenas parou na frente do quarto e ajeitou os cabelos da sua fadinha com as mãos, sorrindo ternamente para camuflar seu nervosismo.
— Bem, o doutor Huang não está no plantão hoje, mas há um médico de confiança encarregado dela caso seja necessário. — Avisou. — Se precisar de qualquer coisa, me ligue na hora, tudo bem?
— Pian ge, eu não tenho mais seis anos, tudo bem? Posso me cuidar.
— Sei que pode, mas se não mimar você como uma criança descuidada me sinto negligente. — Fez uma careta.
— Se você e Hu Bing continuarem me tratando assim nunca serei capaz de me casar. — Provocou ela.
— Eu não vou permitir que você se case a menos que seu marido esteja disposto a lhe tratar com ainda mais zelo que eu próprio. — Advertiu. — Não importa o que seu irmão diga, se eu não aprovar, não tem casamento. Jamais entregaria minha fadinha nas mãos de um idiota qualquer.
— Hum, então preciso procurar um idiota qualificado? — Ergueu a sobrancelha, brincando com ele.
— Não brinque com isso, vou impedir os idiotas de se aproximarem de você, apesar de já ter um na sua cola.
Yan Da revirou os olhos.
— Ying Kong Shi roubou sua esposa na vida passada para você odiá-lo desse jeito?
— Se ele tivesse roubado minha esposa ainda seria capaz de perdoá-lo mais facilmente do que o que ele fez de verdade. — Murmurou o guerreiro.
— O que isso quer dizer? — Ela o olhou séria.
— Ah, suan le*, hum? Entre agora ou vou me atrasar. — Pian Feng acariciou o rosto dela. — Mais tarde trago algo quentinho para que você coma.
Yan Da, para surpresa dele, inclinou-se na ponta dos pés e depositou um beijo carinhoso na sua bochecha, afastando-se com um sorriso travesso e carinhoso, ela parecia uma adolescente às vezes e isso só fazia com que Pian Feng desejasse ainda mais protegê-la.
— Não esqueça de comer também, hum? E tente não dormir de madrugada. — Aconselhou-o. — Vejo você mais tarde, Pian ge.
Ele anuiu e a viu entrar no quarto de Chao Ya. Por um momento, Pian Feng ficou parado ali olhando a porta, tantas coisas haviam acontecido desde que ele chegara naquele mundo, que descobrira toda a história acerca da vida que tivera e agora sequer parecia sua. Sua mão ergueu até sua bochecha onde Yan Da havia acabado de depositar um beijo cheio de carinho.
Ying Kong Shi, como posso te perdoar por ter ferido essa criança tão doce? Como posso ficar tranquilo sabendo que você ainda pode fazer isso outra vez?
Com um suspiro, ele virou as costas e foi embora com o coração cheio de apreensão e dúvidas.
※※※
— Jiejie!
Yan Da correu até o leito da cantora que lhe recebeu com um sorriso quando a viu. Além de uma palidez extrema no rosto bonito, não tinha aparentemente nada mais errado com Chao Ya, ainda assim, a princesa foi cautelosa quando a abraçou suavemente temendo machuca-la. Foi inevitável derramar algumas lágrimas, parecia fazer muito tempo desde que vira a amiga pela última vez e saber que Chao Ya havia levado um tiro no peito — além de ter visto a reprise daquilo na televisão — deixara o coração de Yan Da inquieto durante todo aquele tempo, mesmo Pian Feng tendo garantido várias vezes que a cantora estava fora de perigo.
Delicadamente, a musicista acariciou os cabelos de Yan Da cuja cabeça apoiara-se com cuidado em sua barriga. Mesmo que não estivesse sentindo mais dor — presumia ser graças a Huang Tuo —, ela ainda evitava tocar a ferida em seu peito. A presença da princesa aqueceu o coração da cantora, se dera conta naquele momento do quanto sentira saudade de Yan Da.
— Sinto muito ter preocupado você, minha pequena. — Disse em um tom de voz baixo.
— Preocupar? Jie, você quase me matou de susto. — Devolveu com a voz trêmula sublinhando as palavras. — Fiquei com tanto medo de...
— Shh... está tudo bem agora, não vou a lugar nenhum. — Sorriu. — Como poderia deixar minha menininha para trás aos cuidados sufocantes de Pian Feng? Alguém precisa frear os instintos paternais exagerados dele ou você nunca vai me dar sobrinhos.
— Jie! — Yan Da se afastou enxugando as lágrimas para esconder o constrangimento. — Se alguém ouvir vocês dois vai pensar que são meu pai superprotetor e ciumento e minha mãe casamenteira louca por netos.
— Bem, eu não acharia nada ruim um ou dois sobrinhos. — Ela deu uma risadinha leve. — Além do mais, se um dia eu tiver uma filha quero que ela seja adorável como você, então não seria nada ofensivo se achassem que sou sua mãe. Eu te amo o suficiente para isso.
— Olhando para você, claro que ninguém pensaria isso, você teria que ter dado à luz aos doze anos para ter uma filha na minha idade. — Fez uma careta. — Mas tenho certeza que, onde quer que esteja, minha mãe está muito feliz por eu ter você e Pian ge ao meu lado.
Chao Ya deslizou um dedo pelo rosto de Yan Da, muitas vezes não conseguia conceber como aquela criatura podia ser tão meiga, era muito injusto que a vida tivesse sido cruel com ela daquela maneira (duas vezes!). Puxando uma cadeira, ela sentou ao lado da cama da cantora escrutinando-a por um momento, ultimamente, sempre que o nome de Pian Feng era mencionado, a musicista parecia entristecer.
Yan Da queria encontrar um modo de ajudar os dois a se entender, mesmo não desejando se meter nos assuntos deles e espera-los resolver as coisas sozinhos, sentia aquela situação saindo um pouco do controle. Com um suspiro, ela segurou a mão de Chao Ya.
— Ele está muito preocupado com você, jiejie, vem todos os dias ao hospital saber como você está, talvez ele não entre para te ver, mas ele se importa.
— Eu sei, meu anjinho. — Sorriu. — A coisa entre Pian Feng e eu... é um pouco mais complicada do que parece.
— Não queria me meter nos assuntos de vocês, mas quanto mais vejo vocês se afastando assim, mais triste eu fico. — Suspirou.
— Está com medo que papai e mamãe se divorciem e você não consiga escolher com quem de nós vai morar? — Brincou.
— Você e o doutor Huang devem ter feito o mesmo curso avançado de gracinhas, não é?
As duas deram uma risadinha e uma enfermeira veio checar Chao Ya e trocar o curativo. Yan Da permaneceu ao lado da amiga se sentindo um pouco melhor ao ver o brilho voltar aos olhos da cantora. Seu coração apertava sentindo-se estranhamente negligente com ela, apesar de ter desejado ir até ela antes e ser impedida por Pian Feng dado o estado da cantora, além disso, mesmo que não soubesse explicara razão, também se sentia responsável pelo que acontecera com ela.
Quando os olhos de Chao Ya se voltaram para ela, Yan Da não se deu conta que estava chorando.
※※※
Ka Suo e Yue Shen apareceram no quarto de Shi pelo portal, o príncipe dormia pesadamente e, após um gesto discreto de cabeça, a maga negra deixou o cômodo. O monarca se aproximou do irmão e tocou-lhe o rosto com cautela, se perguntava que tipo de sonho ele estaria tendo depois de recuperar todas aquelas memórias dolorosas. Segurando o pulso de Shi, Ka Suo mediu sua energia espiritual satisfeito ao constatar que o príncipe estava tão ou mais poderoso que antes.
— Shi, eu espero que dessa vez você consiga ser forte por si mesmo, que faça as escolhas certas e siga seu próprio caminho. — Sussurrou. — Desde o início, cada um de nós é responsável pela própria felicidade, você nunca deveria ter priorizado a minha e eu nunca deveria ter permitido. Dui bu qi, Shi... Wǒ zhēn de duìbùqǐ hái xū nǐ.* Mas eu te prometo, vou dar tudo de mim para que você e Yan Da sejam finalmente livres.
Deixando o cômodo, ele encontrou Yue Shen na sala de estar. A maga negra fitou seu soberano por um instante sem saber o que dizer a ele, desejava ter um sonho de Li Luo para lhe dar e assim aplacar um pouco a dor que sabia estar cravada no coração do rei. Por mais que sua mão não tivesse hesitado e sua expressão tivesse se mantido impassível, ela sabia quão difícil fora para Ka Suo tirar a vida de Li Luo, além de benevolente, o monarca era um defensor árduo da vida, mesmo possuída por Lian Ji, a feiticeira era o amor da vida dele, vê-la sucumbir pelas suas próprias mãos não era algo que ele pudesse apenas esquecer. Contudo, não havia outra chance para Li Luo, se ao ver Ka Suo ela não expulsou Lian Ji do seu corpo, a única forma de libertá-la era matando-a. Ele sabia disso.
— Zou ba.
Ela anuiu quando o ouviu chama-la, os dois pararam um instante e deram outra olhada na porta do quarto de Shi, então partiram, tendo como destino a casa de Liao Jian, seus corações cheios de determinação assassina, o cerco estava fechando e o confronto final se aproximava.
Shi abriu os olhos assim que ouviu o som da porta fechando. Sentando na cama, o jovem príncipe refletiu sobre as palavras do irmão, inflamadas de afeto e arrependimento, ele não sabia como encarar a situação, havia algo que ninguém estava lhe contando.
Por algum tempo, ele encarou a cerejeira pintada na sua parede, as mãos fechando em punho enquanto se questionava se deveria seguir o irmão ou não. Ele desejava ir atrás de Yan Da, mas não achava uma boa ideia vê-la enquanto seus sentimentos ainda estivessem tão latentes, Shi estava disposto a tentar encarar a si mesmo e, como Huang Tuo lhe dissera, se perdoar, mas isso não era necessariamente fácil.
Com um suspiro, ele levantou sabendo que não importava o quanto tentasse não conseguiria dormir de novo. Parando diante da cerejeira, Shi concentrou seus poderes no centro da sua testa, tinha por certo que Xing Jiu estaria observando as estrelas e sua melhor chance era ocultar a sua. Apenas os astrólogos conseguiam rastrear uma pessoa pelas estrelas, mas Shi tinha um modo de rastrear o irmão através do seu poder espiritual. Como o laço afetivo entre eles era muito forte, o jovem príncipe aprendeu a ler e distinguir o poder do irmão mesmo em uma multidão.
Deixando o apartamento, ele hesitou um pouco diante da vontade de ver Yan Da, mas deixou o sentimento de lado e seguiu seu caminho, se estivesse se guiando direito o poder de Ka Suo emanava a direção da casa de Liao Jian. Ele precisava entender o que estava acontecendo antes de tomar decisões, sobretudo, antes de ter coragem o bastante para lidar consigo mesmo e aquela confusão de quem foi e quem era. Por vezes, ele já não sabia mais. Toda a sua vida parecia uma peça encenada por outra pessoa.
A luta interna havia recomeçado, ele queria saber o que Ka Suo estava escondendo para descobrir de que lado ia jogar aquele jogo. Mas Shi estava certo de uma única coisa: dessa vez, ele venceria.
※※※
— Anjinho, por que está chorando?
Chao Ya indagou quando viu as lágrimas escorrendo pelo rosto de Yan Da. Aturdida, a princesa passou as mãos pela própria face e sentiu as gotas molharem seus dedos, um aperto forte prendia seu coração e ela não entendia o motivo, era como se em algum momento tivesse perdido a cantora, mas não conseguia conectar aquele pensamento a nada racional. Talvez fosse apenas o medo que lhe dominou quando a musicista foi baleada.
— Não é nada. — Forçou um sorriso voltando a segurar a mão da amiga. — Acho que só me dei conta do quão perto estive de perder você. Quantas vezes já disse pra contratar seguranças?
— Quem precisa de segurança com Pian Feng por perto? Quando ele está irritado a cara dele é o bastante para espantar qualquer um. — Soltou uma lufada de ar. — Não fique pensando demais, hum? Estou bem aqui e não vou a lugar nenhum.
— Jie... gege e você não são de ferro, sabia?
— Eu tenho minhas dúvidas se a bala não ricochetearia caso tivesse acertado o coração de Pian Feng. — Ironizou. — Logo a polícia vai encontrar esse maluco, meu amor, até lá serei mais cuidadosa, prometo.
Yan Da cruzou os braços como uma criança birrenta olhando para a cantora com incredulidade.
— Não tenho mais tanta certeza de quão válidas são as suas promessas, jie. — Contrapôs. — Foi um fã maluco que matou John Lennon, ainda assim você quer agir como se não tivesse nada errado.
— Olhe pra você, parece uma criança mimada. — Chao Ya deu uma risada. — Pare de pensar tanto, hum? Provavelmente Pian Feng vai suspender minha agenda até isso ser resolvido.
A princesa anuiu aproximando-se novamente e apoiou a cabeça no colo da cantora e agradeceu mentalmente por ela estar viva.
※※※
Shi seguiu o fluxo de poder do irmão e, como pensava, ele o levou para a casa de Liao Jian. O jovem príncipe já havia estado na casa do advogado antes, mas olhando sob a perspectiva de suas lembranças recém-recuperadas, toda a opulência e elegância daquela mansão parecia não combinar em nada com o guardião do norte rústico e guiado pela força que um dia ele conheceu. Franzindo a testa, Shi afastou aqueles pensamentos e se aproximou da casa circulando o local em busca da reunião secreta, contudo, não havia sinal de ser vivo dentro da casa. Erguendo a sobrancelha, o jovem fechou os olhos e tentou acessar a essência mágica do irmão novamente, dessa vez de modo mais específico, a energia parecia estar mais forte alguns metros ao fundo.
Ao redor da mansão de Liao Jian crescia um jardim que, de fora, podia ser confundido facilmente com um bosque, árvores altas de diferentes espécies, cercas vivas separando mesinhas de ferro com duas cadeiras no melhor estilo vitoriano, um lago artificial, vários canteiros com diferentes tipos de flores que perfumavam os caminhos labirínticos até a construção que se escondia nos fundos das imediações do lote do advogado.
Shi avaliou o galpão por longo tempo imaginando porque Liao Jian teria algo como aquilo próximo à sua casa. Se ele fosse um soldado e não um advogado, ele imaginaria que aquele era o tipo de local perfeito para estocar armas e ogivas nucleares. Dando a volta na construção, ele percebeu surpreso que não havia janelas ou quaisquer outras entradas além das enormes e pesadas portas de metal trancadas por código. Pensativo, o príncipe avaliou por um instante como faria para descobrir o que estava acontecendo no interior se as grossas paredes não deixavam passar um único ruído.
Tomando impulso, o príncipe concentrou seu poder e avançou até o teto do galpão para verificar a cobertura, contudo, não havia ali qualquer espécie de fresta ou claraboia que lhe permitisse ver o interior. Suspirando, ele pensou que era uma segurança realmente reforçada para um advogado. De volta ao chão, o príncipe andou até o lado esquerdo do lugar e, apoiando a mão direita sobre a parede, murmurou um sutra. Uma espécie de janela se abriu e ele pôde ver, no interior, Liao Jian, Xing Jiu, Yue Shen, Huang Tuo, Pian Feng e Ka Suo reunidos em volta de uma cadeira onde, amarrada, estava uma mulher.
Lan Shang!
Ao lado da princesa sereia, o príncipe viu outro homem também preso a uma cadeira, Shi tinha a leve suspeita de já tê-lo visto antes, mas com o rosto tão machucado quanto ele estava, era difícil dizer com certeza. Mas o que realmente lhe surpreendeu foi a expressão de Ka Suo, seu irmão sempre bondoso, generoso e tranquilo exibia um rosto sério, frio e impaciente enquanto encarava Lan Shang com algo que Shi só podia definir como ódio.
— É melhor você falar. — Ameaçou ele. — Talvez eu não seja baixo ao ponto de bater em uma mulher, mas Yue Shen é uma mulher e não vou impedi-la de usar violência para te obrigar a abrir a boca.
Wa*, ge, se você fosse feroz assim antes a guerra teria acabado antes mesmo de começar... Pensou enquanto tentava reconhecer seu irmão benevolente naquela pessoa que mais lhe parecia um estranho. Nem mesmo o rosto lacrimoso de Lan Shang parecia amolecer o coração do monarca do gelo e Shi imaginou que o pai ficaria extremamente orgulhoso de ver aquela expressão impassível e impiedosa no rosto do irmão quatro mil anos atrás.
— Lan Shang gongzhu, não dificulte as coisas para nós, apenas diga a verdade e a deixaremos ir. — A voz de Yue Shen soava quase suave, algo extraordinário quando relacionado a mulher impassível e implacável que ela era.
— Me deixar ir? — A voz de Lan Shang tremulou e a risada de escárnio soou estranha. — Para onde eu poderia ir? Não tenho mais nada a perder, então não importa o que vocês façam, por que eu devia ajudar mais do que já fiz?
— Ajudar? — Liao Jian cuspiu com desprezo. — Todo esse tempo você esteve ao lado daquela cobra e quer dizer que fez isso em nosso benefício? Se queria mesmo ajudar por que não contou antes que ela estava usando o corpo de Li Luo?
— Porque eu sabia que não ia adiantar nada! — Rebateu aos gritos de histeria. — Não importava o que ele ou qualquer um de vocês fizesse, ninguém poderia tirá-la do corpo de Li Luo.
— A imperatriz está morta agora e Lian Ji escapou. — Informou Xing Jiu com mais delicadeza. — Não adianta mais mencionar esse assunto.
— Ela não está morta. — Contestou Lan Shang. — Por isso eu fiquei o tempo todo ao lado de Lian Ji, sabia que ela nunca deixaria Li Luo ir do mesmo modo que sabia do fato de ela estar mentindo quando disse que poderia me dar Ka Suo.
Shi franziu o cenho, se estava entendendo bem a conversa, Li Luo cedera o corpo para Lian Ji, mas por que ela faria aquilo? Era suicídio.
— O que quer dizer com isso? Eu mesma vi o rei mata-la. — Yue Shen estava confusa.
— Eu usei o ritual da lágrima ancestral para que Lian Ji tivesse seu corpo de volta — explicou a sereia —, mas durante o processo, sem que ela se desse conta, liguei a alma dela e a de Li Luo a um abismo do tempo.
— Shen me?!* — Huang Tuo soou incrédulo e preocupado. — Lan Shang, ni feng le ma?!* Faz ideia do que é um abismo do tempo, sua criança imprudente?!
O tom de voz do médico chegou até mesmo a assustar Shi. Ele tinha ouvido por alto sobre abismos do tempo, era um tabu no reino imortal, ninguém era tolo o bastante para arriscar abrir um, mas julgando pela reação do seu amigo parecia muito mais sério do que aquilo.
— O que isso significa? — Pian Feng quis saber.
— Abismos do tempo são tabus no nosso mundo. — Explicou Xing Jiu, apesar da postura tranquila Shi podia perceber a preocupação em sua voz. — Muitos milênios antes da tribo de gelo ocupar a liderança de todas as tribos, a tribo dos astrólogos era a mais poderosa entre todas pela sua capacidade de ler as estrelas e controlar os sonhos. Contudo, seu líder Ling Yi, cometeu um pecado que devastou quase toda sua geração.
"Sua esposa, Ling Shi, faleceu após dar à luz ao filho deles, Ling Qi, ao contrário dos demais clãs que mantinham relações entre imortais, Lin Yi se casou com uma mortal mesmo sabendo dos riscos que corria de perdê-la mais cedo se comparada às mulheres imortais. Inconformado com a perda dela, ele ligou sua alma a um abismo do tempo. Funciona como uma espécie de fenda entre os espaços, a alma fica presa no vácuo sem poder avançar para a próxima vida ou ir para os céus. Contudo, o abismo do tempo também tem um preço, a alma ligada a ele não pode permanecer muito tempo no vácuo sem estar ligada a algo material.
"Lin Yi não levou em consideração que sua esposa era a imperatriz da tribo e, por isso, tinha um vínculo com eles. Quando completou o prazo para trazer de volta o espírito dela, ele não tinha um corpo pronto para coloca-lo e o dela havia sido sepultado em sua terra natal, o mundo mortal, de modo que estava corrupto e inábil para que ela retornasse. Dessa forma, o abismo do tempo abriu expulsando a alma dela que se fragmentou em milhares de partes, incapaz de renascer, além de sugar para dentro de si todos os pertencentes a tribo dos espíritos que se desintegraram perdidos para sempre no buraco negro das fendas do tempo.
"Lin Qi, contudo, conseguiu escapar por estar escondido nas cavernas dos sonhos no momento em que isso aconteceu. Ele foi criado por um dos ancestrais de Huang Tuo, na tribo xamã, até que estivesse apto a retornar e reerguer a tribo dos astrólogos outra vez."
— Então... — O olhar transtornado de Ka Suo virou para Xing Jiu.
— Isso mesmo, Ka Suo, se exceder o tempo de estada do espírito de Li Luo no vácuo, o abismo do tempo vai ser aberto e todos nós vamos ser o preço disso. Dependendo do tamanho empregado nele, todo esse mundo pode desaparecer. — Disse Huang Tuo.
— Quanto tempo?
— É impossível precisar. Especialmente por ter sido feito num reino humano como esse. — O astrólogo meneou a cabeça. — O tempo aqui não passa como no nosso mundo. Com sorte podemos ter meses, com azar dias ou horas.
Do lado de fora, o príncipe do gelo estava estarrecido. As informações davam nós na sua mente e ele não sabia o que devia assimilar primeiro. Que espécie de confusão era aquela armada ali?
— Precisamos encontrar Lian Ji, o quanto antes. — Murmurou Ka Suo.
— Eu não sei onde ela está. — Lan Shang afirmou. — Estava exatamente fugindo dela quando me pegaram... tudo que sei é que ela tentaria despertar a aura negra de Shi para usá-lo como arma outra vez.
— Bem, ela falhou. — Gabou-se Pian Feng. — O que mais você sabe?
— O alvo dela pode ser Yan Da. Ela ainda está com a lágrima ancestral, mesmo que não possa desencadear todo seu poder, como membro do clã das sereias, ela ainda pode usá-la.
O coração de Shi pulou uma batida. Afastando-se da parede, ele correu de volta refazendo seu caminho tendo em mente que precisava encontrar Yan Da. Pensaria no que fazer depois, no momento precisava apenas garantir que ela estaria segura. O destino deles não podia se repetir, ele não ia permitir, Shi lutaria com todas as suas forças para salvar a mulher que amava.
※※※
— Era a única maneira de salvá-la, Ka Suo! — Lan Shang tentou se explicar. — Ela está ligada ao próprio corpo, agora que Lian Ji se separou dela, se conseguir mata-la, ela vai conseguir acordar.
— Você foi imprudente, Lan Shang, colocou não apenas todos nós em risco, mas esse mundo também! — Censurou Huang Tuo. — Sabe que sua alma será a primeira destruída se essa coisa abrir, não é?
— Huang Tuo. — Yue Shen segurou o braço do marido com carinho, a voz suave em um pedido.
Ele suspirou e se afastou, incapaz de olhar para a sereia por mais um minuto que fosse. Ka Suo estava pensativo, mil coisas passavam pela sua mente, precisava pensar rápido, sentia como se tivesse uma corda presa no seu pescoço que se apertava um pouco mais a cada minuto. Sentia vontade de gritar e arrancar os próprios cabelos, mas perder o controle não ajudaria em nada.
— Pian Feng, volte para cuidar de Yan Da. — Ordenou ele. — Huang Tuo, você e Liao Jian vão cuidar de Li Luo na floresta do nevoeiro. Yue Shen, vá atrás de Shi, entre nós você é a mais capaz de protegê-lo. Xing Jiu continue rastreando Lian Ji e me mantenha informado.
Todos reverenciaram Ka Suo e saíram para cumprir suas missões. O monarca olhou para o outro sujeito e, com um único golpe do seu poder, o deixou inconsciente. Lan Shang gemeu baixinho de medo, nunca imaginaria que Ka Suo pudesse agir daquela forma. Ele lhe dirigiu um olhar gélido e implacável e ela percebeu que se não quisesse ter o mesmo fim do sujeito na outra cadeira deveria obedecer.
— O que mais deveríamos saber e é melhor não mentir porque não estou de bom humor hoje.
※※※
Os amigos deixaram o galpão e, após pegar algumas coisas, Liao Jian entrou no portal aberto por Huang Tuo após se despedir da esposa. Antes de ir, o advogado atirou uma chave para Pian Feng.
— O que é isso? — O guerreiro olhou a chave automática, confuso.
— Leve o Chery 5*, já passa da hora de você ter um carro decente. — Brincou.
Antes que o guerreiro pudesse responder, o ex-guardião do norte já havia atravessado atrás do curandeiro desaparecendo diante deles. Pian Feng franziu o cenho quando ouviu algo ainda mais extraordinário que o fato de ter ganhado um carro novo. A risada de Yue Shen. Por vezes era fácil esquecer que a maga negra podia rir como uma pessoa normal dada a sua personalidade retraída.
— É uma reação um tanto incomum para alguém que acaba de ganhar um carro. — Apontou ela enquanto o acompanhava até a garagem de Liao Jian que mais parecia uma concessionária.
— Quanto mais eu olho, mais vejo Liao Jian como um peixe fora d'água aqui.
— De fato ele parece uma foca fora de habitat. — Concordou. — Mas temos coisas mais importantes para nos preocupar agora, o que Lan Shang fez muda tudo, não é só com Shi e Yan Da que temos que contar para continuar existindo.
— Quando eu penso que não pode piorar... — Suspirou o agente.
— Sempre pode piorar, Pian Feng. — Yue Shen sorriu.
Ele apertou o botão do alarme e se deparou com um esportivo vermelho. Yue Shen assobiou em aprovação o que fez Pian Feng fazer uma careta. Não entendia nada de carros, o assunto não lhe interessava, se eles se movessem e transportassem coisas e pessoas era o bastante. Geralmente, usava a van de estrela de Chao Ya quando a acompanhava ou algum dos dois carros dela.
— Liao Jian é um camarada generoso. — Yue Shen apontou.
— Devo me sentir mal por ainda preferir cavalos?
— Desde que não aja como um, acho que está tudo bem. — Disse em tom incinsivo. — Já resolveu as coisas com Chao Ya?
— Hao, hao, hao, seu marido já me ofereceu a cota de sermões.
— Pian Feng, tem um abismo do tempo prestes a abrir sobre nossas cabeças, pare de ficar como madeira* e faça alguma maldita coisa.
Ele revirou os olhos e Yue Shen estava quase dando uma tapa na sua cabeça quando ele voltou a olhá-la com uma expressão séria no rosto.
— O que acha que Ying Kong Shi vai fazer dessa vez?
— Pelo que eu tenho observado, acredito que ele vai fazer a coisa certa.
O julgamento da ex-assassina era considerado por todos como um dos melhores em se tratando de pessoas e situações, Yue Shen era perspicaz e sempre criteriosa quanto aos detalhes. Por isso, suas palavras tranquilizaram o coração de Pian Feng. Eles se despediram e cada um seguiu seu destino. No carro, o guerreiro ligou para Yan Da.
— Fadinha, ainda está no hospital?
— Sim, você já terminou?
— Ainda pouco, estou indo te buscar.
※※※
Lan Shang estava cansada. Mais emocionalmente que fisicamente, não adiantava mais mentir ou esconder coisas de Ka Suo, quanto mais informações ele tivesse mais perto ficaria daquele pesadelo ter um fim.
— As flechas que atacaram Shi wangzi, foi ela usando as habilidades de Li Luo. Eram flechas embebidas na erva do abismo...
— Onde ela conseguiu isso?
— Eu não sei. — Respondeu com sinceridade. — Ela já deu mostras de conseguir transitar entre os dois mundos. Talvez tenha conseguido ir ao nosso, nem sempre eu estava ao lado dela.
— Por isso usou flechas e não balas?
— As flechas causariam uma morte mais lenta, ela queria que você tivesse tempo de ver Shi antes de ele morrer.
As mãos de Ka Suo fecharam em punho e foi preciso muito autocontrole para não se entregar à raiva.
— O carro que atropelou Yan Da, era eu quem dirigia... — Confessou. — A ordem que ela me deu era para matar a princesa, mas como vi que Shi a estava seguindo, usei a oportunidade para aproximá-los.
— Você quase a matou de verdade.
— Eu precisava ser realista, se Lian Ji não acreditasse que eu realmente tinha tentado, ela desconfiaria de mim. Eu sabia que o príncipe ia socorrê-la a tempo.
— Responda ao que eu realmente preciso saber, Lan Shang, por que Li Luo cedeu o corpo para Lian Ji?
— Porque ela odiava você. — Respondeu imediatamente. Era a forma mais eficiente de te ferir.
Ka Suo cambaleou diante do choque provocado pelas palavras de Lan Shang. Por mais que tentasse, acreditar naquilo parecia impossível. Li Luo não podia odiá-lo, por quê? Ele não conseguia entender.
— Quando o sacrifício começou, Lian Ji sabia que não seria capaz de passar por si mesma, ela estava fraca com a destruição de Snowblade e mesmo que tivesse forças, o astrólogo não permitiria que ela passasse, Xing Jiu ainda não tinha secado o lago de lótus, então ela usou uma delas para trazer Li Luo de volta, não foi muito difícil e os termos eram claros: ela queria o corpo dela para ser capaz de passar pelo sacrifício sem ser notada. Li Luo teve um dia para pensar nisso, ela não tinha nada a perder, mesmo que Lian Ji a matasse outra vez, ela ainda seria trazida de volta por Xing Jiu por causa do sacrifício de Ka Suo. Ainda assim, ela aceitou como uma forma de se vingar de você.
"No início, me recusei a acreditar em Lian Ji, mas ela me mostrou o sonho de Li Luo, só assim eu soube que era verdade. Apesar de ter morrido por você na guerra contra Li Tian Ji, Li Luo se ressentia da vida que você a fez levar nos últimos séculos quando nos tomou como esposa, mas não foi capaz de reconhecer nossas almas em corpos trocados. Ela não era capaz de falar, por isso não disse a você a verdade e eu... sim, fui egoísta e me recusei a ajudá-la. Ela teve seu coração desde o primeiro momento, eu dei tudo a você e aproveitei a chance de ser amada um pouco, mesmo usando o corpo dela.
"Para Li Luo você não a amava de verdade, você era apaixonado pelo corpo dela, porque quando ela usava meu rosto, Ka Suo, você não foi capaz de enxerga-la, ela estava o tempo inteiro ao seu lado, mas era eu quem você abraçava todas as noites, minha personalidade, minhas palavras, na casca da mulher que você dizia amar, enquanto ela passava as noites sozinha no palácio. Mesmo tendo nascido com meu berço e imortalidade ela perdeu o único tesouro que realmente possuía: você. Alguém pode culpa-la por guardar escuridão no seu coração? Por se ressentir de você, Ka Suo? Assumo minha parcela de responsabilidade ao não contar a verdade, mas antes de qualquer uma de nós, era você que deveria ter visto a verdade.
"Lian Ji se aproveitou dessa escuridão na alma dela para incitá-la a colaborar, você deve saber quão persuasiva ela pode ser, já que a viu quase corromper a alma do seu irmão diante dos seus olhos. Para ela, isso ainda é um jogo, a única coisa que ela precisa é retomar o controle das cordas que nos move. Foi assim que Li Luo cedeu seu corpo e anulou sua alma para ela, sabia que não havia retorno, que a única forma de ser livre era ser morta e Lian Ji foi cruel o bastante para fazê-la morrer pelas suas mãos."
Bu xin...* Ka Suo meneou a cabeça enquanto se afastava de Lan Shang, os olhos enchendo de água enquanto o filme dos seus últimos anos passava pela sua mente, ele só soube da troca quando as duas já estavam mortas e seu coração se arrependeu de modo tão amargo nos últimos momentos da sua vida que quando Shi o matou ele recebeu seu fim como um castigo merecido. Mas nunca imaginou que Li Luo pudesse ter partido odiando-o daquela maneira, nada no sonho que recebeu dela indicava algo além de ternura e gratidão. A melancolia nas entrelinhas fora o que realmente lhe ferira, mas jamais sequer cogitou a ideia de que houvesse mágoa em seu coração nos momentos finais de seu sacrifício.
— Bu keneng*. — Murmurou para si mesmo.
A dor veio em espasmos alternados pelo seu corpo, o monarca paralisou próximo à mesa onde Xing Jiu costumava ficar dentro do galpão, no silêncio completo que se fez, ele podia ouvir as batidas irregulares do seu coração, as guinadas da pulsação latejando nas suas têmporas e ouvidos. Ele não teve oportunidade de implorar pelo perdão dela, por muito tempo culpara apenas Lan Shang pela sua própria culpa, era mais fácil assim, mais cômodo para si mesmo.
Ele era um covarde.
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