Love as Sakura | 爱如樱

36 第32章 É minha culpa


Chao Ya sentiu o coração acelerar assim que a porta se fechou às costas de Liao Jian. A respiração tornou-se difícil conforme o coração batia mais depressa e aos poucos a dor começou a deixa-la atordoada. Com as mãos trêmulas, ela alcançou o botão de emergência e apertou algumas vezes, em alguns minutos uma enfermeira apareceu no quarto e rapidamente chamou por um médico já que Huang Tuo não atendia ao chamado dos autofalantes.

Como não era responsável por ela, o médico que veio não aplicou um sedativo, mas apenas ministrou um calmante ajudando a cantora a recobrar a respiração regular. Aos poucos, Chao Ya se sentiu mais tranquila, embora a dor na sua alma não tenha de modo algum diminuído. A última coisa que desejava era magoar Liao Jian, sabia quão devotado a ela o advogado era, mas enganá-lo seria muito pior e ela já havia cozinhado aquilo em "banho maria" por tempo demais. Chorando de modo menos intenso, a cantora fechou os olhos e acabou adormecendo.

※※※

Pian Feng sentou em um dos bancos no jardim lateral do hospital e encolheu-se, não sabia sequer por que estava chorando daquela maneira. Não percebeu quando Huang Tuo se aproximou e colocou a mão em seu ombro apertando-o levemente, o guerreiro do vento ergueu o rosto para o amigo que o abraçou afetuosamente.

— Não era para você estar sorrindo nesse ponto? — Indagou dando tapinhas nas costas do guerreiro. — Não me diga que ela dispensou vocês dois.

Apenas Huang Tuo tinha aquele poder de amenizar situações complicadas. Pian Feng o invejava, mesmo quando Yue Shen maltratara seu coração com a distância, ele se agarrara ao bom humor, insistindo em ver o universo pela ótica positiva. Ao contrário dele, Pian Feng só conseguia reagir com raiva, recolher-se na sua própria dor e comprimi-la até esquecer que ela estava ali. Ele riu das palavras do médico, agradecendo por ele estar ali ao seu lado.

— Você esperou muito por isso. Milênios, sendo específico, como pode dar as costas agora que a oportunidade apareceu? Ela escolheu você, isso estava claro desde o início, a diferença é que agora esse poder está nas mãos dela e não da mãe.

— De alguma forma, é como se não conseguisse acreditar nisso. — Desabafou. — Tudo parece tão repentino e ao mesmo tempo tão tardio.

— Pian Feng — Huang Tuo suspirou. — Perceba isso antes que seja tarde de verdade, nós só temos essa existência, essa chance e ela ainda não tem garantias de que irá perdurar. Mesmo Ka Suo não pode prever o que Shi fará ao acordar. A qualquer momento, podemos simplesmente desaparecer como a poeira que somos. Se quer realmente viver o que há no seu coração, pare de perder tempo tentando racionalizar as coisas e ame Chao Ya como vocês dois merecem.

O guerreiro sabia que o médico estava certo. Contudo, além de pensar em Liao Jian, ele ainda sentia uma certa culpa assombrando seu coração quando pensava no que acontecer algum tempo atrás entre ele e a cantora. Na verdade, no que não acontecera porque ele interrompera e fora embora deixando-a sozinha.

Aya, pare de ficar pensando no que passou ou não pode ser mudado, aja agora, homem! — Sacudiu o médico. — Bem, talvez não exatamente agora, Ka Suo quer falar com ela, mas depois dele. A eternidade é um tempo muito longo pra se arrepender, meu amigo.

— Obrigado, Huang Tuo. — Sorriu.

— Não por isso. — O médico lhe ofertou um afetuoso sorriso brilhante. — Agora me deixe ir antes que alguém sob minha responsabilidade morra lá dentro.

— Metido. — Provocou o guerreiro.

— Ei, não se atreva a falar de mim, seu barril de pólvora! — Apontou o dedo para ele em sinal de advertência.

— O que você pode fazer comigo? — Zombou o guerreiro.

— Eu nada. — Deu de ombros.

— Foi o que pensei. — Assentiu Pian Feng.

— Mas minha esposa pode fazer muita coisa. — Deu um sorriso travesso. — E garanto que não vai ser agradável.

— Seu traiçoeiro desgraçado. — Riu o guerreiro.

Huang Tuo acenou e deixou-o sozinho com a certeza que o amigo se sentia melhor. Enquanto voltava ao hospital, lembrava-se do seu pai, muitos milênios atrás, quando ainda era apenas um talentoso príncipe aprendiz que um dia herdaria o trono da tribo xamã.

— Nosso dever, meu filho, não se resume apenas em curar o corpo. — Dizia-lhe, carinhosamente. — Mais importante em nosso ofício está em ofertar a cura para as almas abatidas. Nem sempre, Huang Tuo, as pessoas precisam de uma poção, às vezes elas só precisam de palavras e acredite, estas são a magia mais poderosa que existe desde o início dos tempos. Capazes de curar ou matar sem retorno. Tenha sempre consigo palavras de afeto e encorajamento, meu filho, isso o tornará não apenas um poderoso curandeiro, mas um sábio rei.

Com um sorriso nostálgico, o médico vestiu sua postura de profissional e adentrou seu novo reino com mãos ávidas para curar e um coração aquecido para acolher e ajudar todos que pudesse e precisassem dele.

※※※

— Eu nunca fiz isso antes... posso acabar falhando.

Lan Shan olhou duvidosa para Lian Ji no corpo de sua rival. Sobre a mesa de centro na opulenta sala de estar, a lágrima ancestral refletia a luz. A sereia estava nervosa, sempre ouvira histórias tenebrosas da avó a respeito daquela pedra, era o artefato mais poderoso da tribo das sereias e a origem de seu clã. Era a lágrima da primeira sereia, a que dera origem a todos os costumes mágicos de seu povo, derramada em um momento doloroso e cruel. Franzindo o cenho, Lian Ji arqueou a sobrancelha enquanto encarava a princesa com ar de impaciência.

— Você é a princesa das sereias, a futura rainha! — Rebateu. — Além da sua avó é a única que pode fazer isso. Já expliquei como usar, não seja medrosa, Lan Shang, medo nunca dará a você nada do que quer.

— Eu sei, mas... — Choramingou.

— Estamos mais perto que nunca! Quando Ka Suo fizer o que tenho certeza que fará a seguir, esse será nosso trunfo, eu terei o que desejo e você terá o seu homem.

— Como sabe que ele será capaz de matar Li Luo?

— Se ele me atacou mesmo ouvindo essa voz irritante dela, não tenho dúvidas que o fará se necessário. — Deu de ombros. — Contudo, não sera a primeira estratégia, claro.

— Você acabou de se recuperar do golpe de róngyù bing. — Mordeu o lábio. — Acha que consegue suportar a separação?

— Claro que sim. Não sou fraca como essa meio bruxa tola. Ela talvez não sobreviva, mas isso não é problema meu.

Lan Shang hesitou mais uma vez diante daquelas palavras. Ka Suo nunca a perdoaria se algo acontecesse com Li Luo por causa dela, não conseguia suportar a ideia dele odiando-a sem retorno. Contudo, estava em um impasse uma vez que não podia apenas dizer não para Lian Ji àquela altura do campeonato, não apenas porque sua vida dependia disso, mas por ser sua únic achance de ter Ka Suo para sempre. Com um suspiro, ela anuiu.

— Tudo bem.

— Vamos dar a eles a maior e melhor das surpresas.

A sereia tinha as mãos trêmulas quando segurou a caixa antiga contendo a lágrima ancestral e seguiu Lian Ji até um corredor largo cheio de pinturas abstratas dos dois lados, a iluminação era dada por pequenas luzes redondas embutidas nas cornijas, no final uma porta de carvalho pintada em um vivo tom de vermelho podia ser avistada e fez a sereia se encolher. Ninguém disse nada enquanto faziam o percurso. Em seus pensamentos, Lan Shang buscava uma saída para toda aquela bagunça, começava a se dar conta que Ka Suo e a avó estavam certos, ela não podia confiar em Lian Ji, nunca conseguiria o que queria, pois, por mais poderosa que fosse, a deusa não podia obrigar uma pessoa a amar alguém.

Quando Li Luo não existisse mais, Ka Suo não a procuraria, era uma ilusão pensar dessa forma. Mesmo no passado, quando ela foi morta por Ling Chao, o príncipe não aceitara seu casamento com ela. Lan Shang morrera com a certeza de que seu amor nunca seria correspondido, mas a esperança faz esse tipo de coisa com as pessoas, deixa-as cegas para a realidade, agarradas àquele fino fio que as faz acreditar na força de seus sonhos e seus esforços em alcança-los. Mas era uma piedosa mentira que contava a si mesma, ela bem sabia, quando Ka Suo descobrisse que Li Luo morrera graças a ela, nem a eternidade seria tempo suficiente para aplacar seu ódio por ela.

A porta vermelha foi aberta e cedeu vista à uma belíssima sala com estantes altas cheias de livros, um divã de veludo azul ficava sobre um tapete felpudo, ao lado dele alguns almofadões. No cômodo, a iluminação era dada por um pesado lustre pendurado em uma corrente e vários abajures de chão, não havia janelas e a sensação era de estar no subsolo, mesmo Lan Shang sabendo que não era o caso. No canto da enorme sala, havia um espaço vago, era como se ela tivesse sido metade decorada e metade deixada para algum tipo de ideia que o proprietário viesse a ter futuramente, aquilo era algo que a intrigava nos mortais, mesmo não tendo uma eternidade diante de si, eles estavam constantemente preocupados com o dia posterior.

Lian Ji caminhou até o lado vazio da sala e, usando seu poder, criou uma barreira em volta dela e de Lan Shang, nesse momento, a seria teve um insight, poderia haver uma maneira. O abismo do tempo. Era arriscado, inclusive para si mesma, mas era a única saída que lhe restava diante de toda a situação que armara. Ela não tinha poder contra Lian Ji, nem Ka Suo. Sua única esperança era que Shi fosse capaz de cumprir seu destino, do contrário, todos eles morreriam.

A sereia abriu a caixa e a outra deitou no chão, Lan Shang ligou à lágrima ancestral aos seus poderes e a pedra flutuou acima do corpo de Lian Ji, uma forte luz branca emanava dela.

Então, a sereia cantou.

※※※

Ka Suo se despediu de Liao Jian no corredor do quarto de Chao Ya, o advogado — já com um semblante mais tranquilo — acenou agradecido para seu rei e foi embora. O monarca sabia que o amigo teria um longo caminho pela frente, não seria fácil desistir do amor que guardara por séculos em seu coração, mas tinha confiança que ele conseguiria e, se tudo desse certo, concederia a ele seu desejo de voltar para casa. Não desejava afastar-se dele, mas se era sua vontade, ele respeitaria.

Entrando no quarto da cantora, ele viu Huang Tuo usando os poderes nela e se perguntou se algo dera errado, contudo, decidiu não interferir no trabalho do curandeiro. Ao terminar o processo de cura, o médico virou-se, sobressaltando-se por não esperar a presença do outro no local. Um sorriso brilhante mascarava a preocupação que o monarca via em seus olhos. Sem pedir explicações, Ka Suo caminhou até ele e, segurando seu pulso, equilibrou sua energia. Sempre que Huang Tuo usava seus poderes, ele perdia certa energia espiritual que o esgotava e, em demasia, poderia mata-lo.

— Não se esforce demais. — Pediu em tom carinhoso. — O que aconteceu?

— Ao que parece, ela ficou um pouco agitada depois da conversa com Liao Jian. — Suspirou. — Antes estava tudo bem, mas o coração dela sobrecarregou, se o meu colega não tivesse agido rápido, ela teria tido uma parada cardíaca.

— Essa é outra razão pela qual quero Shi de volta. — Ka Suo anuiu, preocupado. — Ele é capaz de devolver os poderes deles. Não quero nenhum de vocês vulnerável com Lian Ji agindo dessa forma.

— Isso não foi culpa sua, meu rei. — Huang Tuo apertou levemente o ombro dele. — Chao Ya vai ficar bem, sei que ela vai se recuperar depressa.

— Deixe-me fazer algo por ela. — Pediu. — Seja meu catalisador, não tenho nenhuma pedra dos espíritos comigo.

O curandeiro anuiu, ficando entre o monarca e a cantora, ele estendeu as mãos sobre o corpo de Chao Ya enquanto Ka Suo passava energia espiritual para ela através dele. A energia de gelo era, graças aos poderes de Huang Tuo, convertida em magia de cura enquanto penetrava no corpo dela. Desse modo, o médico não se sobrecarregada e o processo de cura era acelerado.

— Creio que não seja uma boa ideia deixa-la a par das novidades. — Concluiu ele, ao terminarem.

— Veremos como ela acorda, se a condição estiver estável, não vejo problema. Já Pian Feng...

— Ficarei com ela, acho melhor manda-lo para casa por hoje. — Sugeriu. — Um tempo para pensar também lhe será benéfico.

— Tem razão. Então, chame se precisar.

Com um sorriso largo, o médico deixou rei e súdita sozinhos e voltou ao mundo onde vidas ainda precisavam ser salvas. Ka Suo sentou-se ao lado da cama da cantora que permanecia num sono pacífico, segurando a delicada mão dela ele sorriu ternamente.

— Não se preocupe, não vou falhar com vocês de novo. Eu prometo.

※※※

Era sua culpa.

Shi decidiu isso enquanto assistia, atormentado, Yan Da morrendo em seus braços. Nenhum dos seus pesadelos anteriores fazia jus a dor daquele momento, ao gelo em volta do seu coração quando nem se dignara a olhá-la, quando sua mão frágil — que acariciou seu rosto nos momentos finais — caiu inerte no chão e ela se dissolveu em faíscas e fogos de artifício.

Conforme as lembranças finais iam evanescendo, ele se via diante do corpo inerte de Ka Suo, dos súditos feridos da tribo do gelo, dos amigos mortos pelas suas próprias mãos, do rio de sangue que fluía sobre a neve e do poder do fogo ainda remanescente no seu ser. Vivo e inflamado como nunca antes. Sentiu a dor excruciante do seu corpo chocando-se contra a rocha da punição, então tudo acabou.

Nesse momento, veio à sua mente a forma como Yan Da sempre o mantinha longe mesmo quando seu corpo involuntariamente ia para mais perto dele. O modo como ela temia seus sentimentos e não confiava nas pessoas. A maneira como seus olhos tristes encaravam a vida. A dor que espetava sua alma como uma agulha atravessada que ela não conseguia alcançar. Era tudo por causa dele, porque ele a enganara, a iludira, brincara com seus sentimentos e conseguira destruí-la sem qualquer tipo de piedade. Envergonhava-se de si mesmo, enojava-se das suas atitudes egoístas e cruéis. Como ele pudera agir daquela forma?

Queria nunca ter lembrado.

Desejava mais que tudo desaparecer. Apagar aquele passado.

Ele não merecia Yan Da.

A consciência ia se desvinculando daquele mundo aos poucos, a paisagem glacial desaparecia de modo gradual, ele se sentia quente de uma forma quase dolorosa e, ao mesmo tempo, gelado como se tivesse hipotermia. Não entendia o que estava acontecendo, algo frio pressionava-se contra sua pele e sua cabeça doía horrivelmente, então, a voz dela soou alta e clara no meio do turbilhão de pensamentos e sensações.

— Tudo bem, Ying Kong Shi, estou aqui com você.

O coração dele doeu ao ouvir os acordes melódicos da voz dela penetrando seus ouvidos e percorrendo toda sua pele, não precisava abrir os olhos para visualizar aquele rostinho de boneca que minutos atrás estivera sujo de sangue e torcido pela agonia enquanto ela morria em seus braços. Mas ali estava ela, ao seu lado, o toque suave em sua pele, a voz musical, o coração pulsante como um presente da vida lhe dizendo para não falhar outra vez.

Ele precisava vê-la, sentir seu coração bater, seu peito se movendo com a respiração, o viço da sua pele, as chamas dos seu olhar. Yan Da estava segurando uma toalha quando ele finalmente abriu os olhos, o rosto dela congelou com o choque e, antes que fosse capaz de escapar, Shi a segurou, puxando-a contra si e a abraçando como se sua vida dependesse daquilo. O calor que emanava dela lhe aquecia, sem conseguir conter-se, o príncipe do gelo permitiu que as lágrimas vertessem pelo seu rosto.

Chorava por culpa.

Por medo.

Chorou a dor que oprimia seu coração, feria-lhe a alma. As consequências dos seus atos que machucaram as pessoas mais importantes da sua vida e da vida do irmão. Shi chorou o monstro que foi. Ele apertava Yan Da com tanta força que temia a estar machucando, de modo que afrouxou o aperto e, nesse mesmo instante, ela levantou, uma mistura de choque e confusão transparecendo no seu rosto quando, largando a toalha no chão, saiu correndo do quarto sem dizer nada.

Você está certa, Yan Da, , eu também fugiria de mim se fosse você.

Ele voltou a se encolher na cama e chorou amargamente sem saber o que fazer a seguir. Shi nunca sentiu antes uma dor tão intensa, nem mesmo se todos os seus ossos e músculos se partissem ao mesmo tempo conseguiria chegar perto da intensidade do que doía seu coração. Tão violentamente que ele desejou morrer apenas para nunca mais sentir aquilo outra vez. A febre fazia com que as lágrimas parecessem ácido cortando sua pele, contudo, muito mais dolorosas eram aquelas que choravam sua alma.

Ela vivia perdida em negação. Negava-se a felicidade, o amor, negava a si mesma a chance de se libertar da dor. Ele havia plantado aquele medo e aquela dor em seu coração. Yan Da viveu uma vida amarga e uma morte cruel por causa dele, mesmo naquela vida as coisas não parecem ter sido melhores para ela e agora ele era capaz de ver os resquícios que suas ações deixaram como efeitos colaterais na alma dela.

Haveria um dia qualquer chance de ele conseguir alcançar perdão pelo que fizera?

※※※

Chao Ya abriu os olhos e encontrou Ka Suo ao seu lado, fez menção de erguer o tronco, mas ele a impediu, pressionando-a levemente contra o leito.

— Não há necessidade disso. — Tranquilizou-a. — Estou aqui como seu amigo, não como seu rei.

— Yan Da...

— Ela está bem. — Sorriu. — E Shi também. Vim visita-la para coloca-la a par da reunião que não pôde ir, mas antes quero saber como se sente.

— Estou bem, meu rei. — Assegurou. — Sinto muito preocupa-lo.

— Não diga isso, eu sinto muito por não ter podido protege-la. — Suspirou. — Isso nunca deveria ter acontecido e vou garantir que não aconteça novamente.

A cantora piscou enquanto olhava para o monarca, nunca imaginou que Ka Suo se posicionasse de forma tão humilde. Claro que ele sempre fora uma pessoa modesta e extremamente bondosa, mas seus modos eram sempre aristocráticos, de modo que vê-lo se colocando de igual para igual com ela chegava a soar estranho. Puxando na memória, ela realmente lembrava que deveriam se reunir na casa de Liao Jian para interrogar uma testemunha, mas há quanto tempo havia sido? Ela não conseguia lembrar.

— Tem certeza que está bem? — Inquiriu ao ver o semblante dela. — Sente dor em algum lugar?

— De modo algum. — Ela sorriu. — Apenas estava pensando em algumas coisas. Mas, diga-me, por favor, o que descobriram?

— O sujeito não falou muito. Contou que fora contratado por um intermediário, mas recebia ordens diretas de Shuo Gang. — Contou. — Entretanto, segundo ele, o próprio Shuo Gang parecia receber ordens de outra pessoa, mas ele não sabia de quem, apenas recebia o dinheiro e executava ordens.

— Acha que pode ser Lian Ji?

— Não descarto a possibilidade, mas além de Shuo Gang, ninguém parece saber quem é essa pessoa. Do mesmo modo, o bandido afirmou que o dinheiro pago pelo resgate de Yan Da foi enviado em malotes por navio.

— Estranho... ele sabe para onde?

— Não foi específico, mas pelo que ouvira, ele acredita que possa ter sido em algum lugar nos Estados Unidos.

— Hm... isso não faz muito sentido, contudo, não sabemos por onde Lian Ji andou antes de chegar aqui.

— Se Xing Jiu estiver certo e ela sempre esteve no corpo de Li Luo, sei que ela nunca saiu daqui. Entretanto, uma mulher como ela pode facilmente expandir sua teia em qualquer direção.

— Meu rei, precisamos descobrir quem está por trás disso. Se não é Shuo Gang, essa pessoa pode tentar atacar o príncipe outra vez.

— Ah, você realmente não precisa se preocupar com Shi nesse momento.

— Ele...

— Ainda não. Mas acordará em breve. O processo está quase completo e, bem, nós dois sabemos que poucas coisas podem feri-lo quando ele voltar a ser quem é. — Ele lhe ofereceu um sorriso terno. — E quando ele estiver bem, pedirei que devolva seus poderes, os de Pian Feng e Liao Jian também. Não quero mais vê-los vulneráveis dessa maneira, se isso foi um aviso de Lian Ji, quer dizer que ela vai tentar derrubá-los para me atingir.

— Meu rei, você... sabe que na situação atual, não há quase nenhuma chance de Li Luo ser salva.

— Sim. — Anuiu. — Não sei por que ela fez o que fez, gostaria pelo menos dessa resposta, mas quando o momento chegar, eu mesmo vou matá-la, então tudo isso termina. Pian Feng foi para casa hoje, pedi a Huang Tuo que o dispensasse, não queremos que você tenha emoções muito fortes por enquanto. Ele voltará amanhã, é uma promessa. Por enquanto descanse, precisamos de você.

— Obrigada, meu rei.

Ele afagou paternalmente a cabeça da cantora antes de deixar o quarto.

※※※

Yan Da entrou em casa afobada, todo seu corpo tremia como se ela estivesse tendo convulsões, o coração batia tão apressado que sua respiração se tornava difícil. A sensação dos braços de Shi em torno do seu corpo ainda era vívida e parecia ter restado um rastro de fogo onde ele tocara, mas o sentimento que prevalecia era o medo. Ela não conseguia esquecer o que vira — e aquele tipo de sonho lúcido fora um dos mais reais que ela já tivera e o amargor ainda era palatável.

A princesa não sabia a razão do rosto de Shi aparecer naquele tipo de sonho, mas era inegável que se sentia frustrada e magoada sempre que ele aparecia logo após ela passar por aquela experiência desagradável. Se um dia ele fizesse algo do tipo com ela — algo sobre o qual ela não se preocupava já que não lhe daria essa chance — nunca seria capaz de perdoá-lo.

Em parte, Yan Da acreditava que a causa da sensação de relutância e até medo que ela sentia em relação a Shi tinha a ver com aqueles sonhos. Desde criança ela tinha aquele tipo de sonho lúcido, mas nunca via o rosto do homem de longos cabelos brancos. Entretanto, desde que fora atropelada por ele, o rosto do herdeiro mais jovem da ZhangYing passara a ocupar esse homem em seus sonhos — ou, melhor referindo-se, pesadelos. Claro, isso podia ser causado pela tensão da situação em si, tal como a antipatia que ela sentira por ele quando o vira pela primeira vez.

De todo modo, Shi sempre a tratara com gentileza e carinho, ela não apagara da memória os dias que ele passara com ela no hospital, a forma doce como prendia seus cabelos e sempre lhe trazia flores com os mais diversos significados. A preocupação que demonstrava com seu bem estar e o interesse singular que mostrava por ela, por isso não conseguia entender a maneira como sempre ansiava fugir dele quando estava por perto apenas para sentir sua falta depois. Não tinha sentido.

Aquela escuridão... o tédio... talvez apenas vivendo daquela maneira ela fosse capaz de se sentir segura, tentando não se apaixonar, tentando desesperadamente manter aquilo escondido dos outros, acostumara-se de tal modo a não nutrir aquele tipo de sentimento que agora ele a aterrorizava. Era a coisa mais racional que ela encontrava para explicar o caos na sua mente naquele instante. Sentiu-se mal por tê-lo abandonado naquele estado de nervos, mas não conseguiu racionalizar outra ação além de fugir. Yan Da se sentia tão confusa que mal lembrava como ligar para Pian Feng.

O celular escorregou das suas mãos suadas quando tentou pegá-lo na bolsa, mal havia se dado conta que estava chorando até as lágrimas começarem a nublar sua visão. Por que estava chorando? Irritada, ela estapeou a si mesma com força até sentir a razão fluir novamente na sua cabeça e, bem nesse instante, Pian Feng entrou em casa, vendo chocado a cena.

— Fadinha, o que está fazendo?!

Ele largou as chaves na ilha da cozinha e correu até ela segurando o pulso de Yan Da com firmeza para evitar que ela continuasse batendo em si mesma, seu rosto já estava vermelho. Confuso diante do comportamento incomum e agressivo da princesa consigo mesma, Pian Feng apenas a puxou contra si e a abraçou apertado.

— Está tudo bem agora, seja o que tenha acontecido, você está segura agora.

O corpo inteiro dela tremia dentro do seu abraço e ele começava a ficar preocupado enquanto afagava-lhe os cabelos e murmurava palavras tranquilizadoras.

Yan Da fechou os olhos tentando concentrar-se no calor do abraço do seu amigo, se continuasse a permitir àqueles pensamentos a descontrolarem-se na sua mente, tinha certeza, enlouqueceria. Calou em si a vontade de voltar para o apartamento de Shi e pedir uma explicação, checar se ele estava bem, secar suas lágrimas e dizer que tudo ficaria bem como Pian Feng estava fazendo com ela, mesmo que isso fosse mentira.

※※※

Ka Suo estava preso no trânsito, havia uma ansiedade incomum incomodando-o enquanto tamborilava os dedos no volante tentando se convencer que tudo estava bem. O celular começou a tocar, o nome de Xing Jiu aparecia no painel do carro, ele colocou o fone e deu o comando de voz para atender.

— Meu rei, algo aconteceu.

— Relate.

Cumpri suas ordens, linkei a mente da princesa à do príncipe Shi e saí por um momento para chamar Huang Tuo temendo que, ao voltar à realidade, ela colapsasse. Mas quando retornei ao quarto, a princesa estava saindo nervosa para o elevador e, entrando no apartamento não encontrei sua alteza.

— O quê? — O coração de Ka Suo pulou uma batida. — Como isso é possível?! Para onde ele foi?

— Tentei buscar nas estrelas a localização de sua alteza, meu rei, mas não consegui encontrá-lo. Temo que ele tenha deliberadamente escondido sua posição, entre nós ele é o único que pode fazê-lo. Não sou capaz de dizer para onde ele foi.

Um desespero aterrador cobriu Ka Suo como um manto negro.

Shi havia desaparecido.