Love as Sakura | 爱如樱

32 第30章 Memória reiniciada


A primeira coisa que Shi sentiu, após a luz cegar seus olhos e a inconsciência engoli-lo, foi a dor. Era como se seus músculos estivessem se partindo e os ossos quebrando de uma só vez simultaneamente, um fluxo de imagens que à princípio não fazia qualquer sentido passava caoticamente em sua cabeça e seu coração doía como se esmagado por uma rocha. Ele não tinha lembranças de ter gritado, mas sabia que abriu a boca embora não conseguisse ouvir qualquer som.

Então, quando a agonia infinita se tornou demais para sua mente, tudo parou. Uma escuridão sombria e assustadora envolveu-o amainando a dor pungente que minutos antes rasgava seus sentidos. Ele não tinha certeza de por quanto tempo adormeceu, mas quando seus olhos finalmente voltaram a abrir, diante de si havia um campo gelado cercado por árvores que desafiavam o frio glacial e mantinham-se floradas no frescor primaveril. O cheiro suave e adocicado das cerejeiras inundava o ar conforme os galhos farfalhavam na dança da brisa gélida que soprava.

Mesmo com o corpo caído sobre a camada fria de neve, ele surpreendeu-se ao notar que não sentia frio. Dando uma olhada mais cuidadosa em si mesma, notou mais ainda que suas roupas haviam se transformado no que parecia uma variação do hanfu*, era branco com bordados prateados e azuis nas barras, punhos e colarinhos, ele usava botas também imaculadamente brancas. Um zumbido agudo fez sua cabeça doer quando se apoiou no braço para levantar, tudo aquilo era muito confuso e, quando uma mecha de longos cabelos brancos caiu de seus ombros para o peito, a surpresa de Shi se tornou choque ao perceber que as mechas eram dele.

Er dianxia. — A figura apareceu diante dele segurando um cajado e fez uma reverência para Shi, aproximando-se em seguida e ajudando-o a levantar.

O jovem príncipe do gelo reconheceu-o como sendo a figura em seu apartamento e, de outras vezes, o espectro fantasmagórico seguindo-o por toda parte. Se não estivesse se sentindo tão fraco naquele momento, Shi o teria segurado pelo colarinho das roupas estranhas e sacudindo-o até que ele lhe contasse o que estava acontecendo. Era um sujeito jovem, seus cabelos eram longos e brancos, tal qual a neve que os cercava, tinha um rosto delicado de linhas suaves, os olhos eram de um tom de azul intenso que, de longe, pareciam pretos. Ele trajava roupas da cor de seus olhos, um azul petróleo com bordados prateados em todo o manto e os desenhos, Shi notou, eram constelações que ele nunca antes vira. Também usava botas como as dele, contudo, as do estranho eram pretas. O cajado que ele trazia tinha uma pedra roxa no topo, cercada por fios intrincados que desciam por toda a peça.

— Quem é você? — Após um tempo de silêncio, Shi finalmente conseguiu encontrar sua voz.

— Meu nome é Xing Jiu, eu sou um astrólogo pertencente à tribo do gelo. — Respondeu o estranho em tom reverente. — Gostaria de me desculpar com a segunda alteza por tê-lo ferido.

— Tribo do gelo? — Shi murmurou para si mesmo. — Astrólogos? Do que está falando, que lugar é esse?

— Vossa alteza se encontra agora nas suas memórias de quatro mil anos atrás. — Explicou Xing Jiu. — Esta era a tribo do gelo, o reino dominante sobre as demais tribos existentes no mundo dos imortais. Você é o segundo príncipe herdeiro desta tribo ao lado do seu irmão, o rei Ka Suo.

— O quê? — Ele meneou a cabeça, ainda mais confuso e cambaleou. A cabeça ainda doía e as informações pareciam fazê-la piorar.

— Por quatro mil anos, mantive suas memórias guardadas dentro do cubo das estrelas esperando o momento em que sua majestade, Ka Suo, me permitiria devolvê-las para vossa alteza. — Continuou. — Tenha em mente, ér dianxia, que o que verá aqui é sua própria jornada do destino, nada pode ser mudado no passado, mas pode ser refeito no futuro onde vossa alteza se encontra.

— Eu não entendo...

— Vossa alteza compreenderá. — Xing Jiu lhe ofereceu um sorriso afetuoso. — Conforme as lembranças se descortinarem diante de si. Infelizmente não posso guia-lo, é uma jornada que precisará cumprir sozinho. Não lute contra si mesmo, isso só tornará a dor pior e poderá causar danos ao seu espírito.

— Espera! — Ele chamou quando a figura do astrólogo começou a evanescer. — Do que está falando, o que eu devo fazer?!

— Encare a verdade. Enfrente as consequências. Aceite sua natureza e mude o curso do destino. — A voz de Xing Jiu tornava-se um eco. — O passado não pode ser desfeito, mas o futuro se constrói com os erros de outrora.

Então ele sumiu.

Shi olhou em volta pensando que não havia qualquer sentido nas palavras dele. O cheiro adocicado das cerejeiras começava a surtir um efeito entorpecente em seus sentidos conforme ele cambaleava floresta adentro, alguns passos adiante — e suas botas surpreendentemente não afundavam na neve — ele viu a silhueta alta de longos cabelos brancos, suas roupas se assemelhavam as que ele usava naquele momento, uma coroa prateada com cristais azuis adornava sua cabeça, os ombros largos sustentavam o manto branco com fractais bordados em prata e azul, as mudanças em sua aparência não eram suficientes para que Shi não o reconhecesse.

Ge!

Ka Suo se virou em sua direção e sorriu. Shi correu até ele e o abraçou apertado, as mãos de Ka Suo afagaram as costas e os enormes cabelos prateados do irmão mais novo com carinho paternal, lágrimas quentes percorreram o rosto de Shi e se tornavam cristais de gelo quando tocavam o solo, o mais velho afagou o rosto do irmão com delicadeza enxugando as gotas quentes.

— Bem vindo de volta. — Cumprimentou-o com sua habitual voz calma.

— Que lugar é esse, ge, o que está acontecendo?

— É a nossa casa. O lugar de onde viemos. Chegou a hora de descobrir quem você é, Shi, qual é a sua história.

— Como assim nossa casa, por que você está falando coisas estranhas como aquele outro homem?

— Você é Ying Kong Shi, o príncipe mais jovem da tribo do gelo que governa com bondade sobre as demais tribos existentes, são elas Tribo do Fogo, Música Xamânica, Espírito do Vento, e Tribo Bruxa Xamã. Estamos quatro mil anos no passado, é aqui que verdadeiramente começa a sua história e as memórias que tirei de você como forma de protegê-lo.

Conforme a voz do irmão soava em sua mente, Shi se via reconhecendo aqueles nomes embora não fosse capaz de lembrar onde já os tinha ouvido. Era loucura, tinha de ser. Ele era Ying Kong Shi, um diretor executivo de empresa com uma família tradicionalista e um irmão carinhoso. Ka Suo fez um movimento com a mão direita e uma luz azul pairou no ar formando uma espécie de tela bruxuleante diante deles, imagens de uma batalha sangrenta surgiram, soldados vestindo branco lutavam contra outros vestindo preto e vermelho, sangue prateado e rubro se fundia no chão.

— Milhares de anos atrás, a tribo do fogo se rebelou em busca do poder sobre as demais, atacando a tribo do gelo para assumir o trono. Nossos irmãos foram mortos na batalha e, temendo nosso destino, nossos pais nos enviaram para o mundo mortal... foi quando nossa história teve início, a partir daquele momento éramos apenas nós no mundo e precisávamos sobreviver pelo bem do nosso povo, daquilo que acreditávamos erroneamente ser real.

※※※

Ka Suo não perdeu tempo. Tão logo ouviu as palavras de Xing Jiu ordenou que Liao Jian e ficasse com o astrólogo vigiando o bandido e reuniu Pian Feng, Yue Shen e Huang Tuo para acompanha-lo através de um portal. Na sua mente passavam os piores cenários, não acreditava que Shuo Gang se atrevesse a desafiar Yue Shen, então se era alguém com energia mágica só podia ser Lian Ji. O coração do monarca apertou.

O portal os deixou no saguão do prédio, rapidamente, os quatro correram para o elevador, Ka Suo e Huang Tuo iriam para o apartamento de Shi enquanto Yue Shen e Pian Feng ajudariam Yan Da. Mil coisas passavam pela mente do rei do gelo, nenhuma delas era boa. Estavam chegando tão perto, não queria acreditar que seriam derrotados quando suas mãos estavam prestes a alcançar a vitória.

— Luna. — A voz imperiosa soou gélida. — Não importa quem seja, se for uma ameaça, destrua. Me unirei a vocês tão logo verificar se Shi está bem.

A maga negra ficou um tanto surpresa com as palavras do monarca, mas não fez objeções, ela acharia extremamente satisfatório se conseguisse destruir Lian Ji, apesar de, para isso, precisar matar Li Luo no processo. Contudo, tão bem quanto seu rei, ela sabia que as guerras exigiam sacrifícios. Ka Suo estava ciente que tivera sua chance, esta era a vez de Shi e todos ali estavam empenhados em prol da felicidade do jovem príncipe do gelo e da princesa do fogo.

O elevador parou, ela lançou um olhar significativo para Pian Feng e os dois saíram.

※※※

Xing Jiu deixou o corpo cair no sofá da sala de estar de Liao Jian tentando processar as informações que ouvira minutos atrás do sujeito capturado. Havia algumas pequenas lacunas, mas não era muito difícil imaginar como elas poderiam ser preenchidas. O advogado voltou até seu convidado e serviu-lhe uma xícara de café, algo que o astrólogo agradeceu com um gesto de cabeça.

— Você está quieto desde que os outros saíram, devo me preocupar?

— A princesa está segura por hora. — Anunciou ele. — Estava pensando no que Liu Wang Ren disse lá dentro. Se ele estiver mesmo certo, faço uma ideia de como Peng Yan desapareceu no passado.

— Pian Feng não vai ficar parado depois disso, tenho certeza.

— De que adianta? — Xing Jiu meneou a cabeça. — Shuo Gan não lembra de nada, seria uma vingança inútil. O que me intriga é a pessoa por trás de dele nisso tudo.

— Também fiquei curioso quanto a isso, será Lian Ji?

— Que razão ela teria para torturar Yan Da daquela forma e pedir dinheiro? — O astrólogo cruzou os dedos e apoiou as mãos sobre o peito, pensativo. — Não faz sentido. Se o intuito dela era atingir a princesa ela teria pego a oportunidade para devolver as memórias dela ou matá-la.

— Se aquele sujeito não estiver mentindo precisamos descobrir quem é essa pessoa, ela já tentou de novo e agora que o príncipe é um suposto alvo precisamos evitar problemas. — O advogado sorveu de uma só vez a dose de uísque em seu copo. — Já temos o bastante para lidar com esses mortais gananciosos.

— Há outra coisa que me preocupa.

— Sabe que isso é muito assustador, não sabe? — Liao Jian fez uma careta. — Quando algo te preocupa geralmente envolve a morte de todos nós e morrer uma vez foi o suficiente para mim.

— Durante o sacrifício, os termos estavam claros e a maldição que envolvia os dois príncipes foi revertida. Pensei com isso ter acabado com a roda do destino.

— E não acabou?

— Li as estrelas quando percebi que alguém tinha invadido o campo de proteção da princesa. A roda do destino não foi destruída. — Ele ergueu um olhar sombrio para Liao Jian. — Temo que ela apenas mudou de curso.

※※※

Diē?*

Yan Da observou enquanto o pai entrava no apartamento e acomodava-se na cadeira sem pedir licença. Parecia fazer anos desde a última vez que o vira e a presença dele ali não podia ser por outra razão que não o ridículo plano de espionagem da ZhangYing que, apesar de não ter lhe informado, ela se recusava a cumprir.

Isso ou ele tinha recebido o que ela enviara ao escritório da empresa dois dias atrás...

— O que significa isso? — Ele atirou um envelope sobre a mesa de centro, a expressão carrancuda em seu rosto dizia que estava furioso.

A jovem princesa encarou o papel por algum tempo sem dar qualquer explicação. Sobre o envelope, impresso em tinta preta, estava escrito "DEMISSÃO". Ela havia pensado muito sobre o assunto há algumas semanas. Quando deixara a Huo Enterprises para cumprir as ordens de Huo Yi, de início tinha mesmo a intenção de se submeter ao plano sórdido do pai, mas após conhecer Ying Kong Shi e a política correta de sua empresa, ela havia desistido daquilo.

Sua primeira carta de demissão, meses atrás, havia sido falsa e orientada por Huo Yi em cada pequeno detalhe. Contudo, aquela jogada diante dela era verdadeira e aprovada por seu advogado, e não era apenas o fato de estar cansada que a levava finalmente a desligar-se de qualquer vínculo que tivesse com os parentes, mas tudo que já havia conseguido naqueles anos se submetendo a Shuo Gang, finalmente Yan Da podia escolher um caminho para seguir, livre daquela que deveria ser sua família, mas que nunca lhe tratou como tal.

—Significa que estou me demitindo da empresa. — Respondeu simplesmente. — Pensei que tivesse sido clara, mas devo ter me enganado.

— E quem disse que você pode fazer isso?!

— Por que não posso? — Rebateu. — Sou adulta, tenho liberdade e direito de fazer minhas próprias escolhas e nesse momento escolho não trabalhar mais para o senhor.

— Está me desafiando? — Ele se pôs de pé e Yan Da fez um grande esforço pra não se mexer e se manter firme no lugar sem demonstrar medo. — Virando as costas para sua família?

— Família? — Ela riu sem humor. — Quando eu fui uma família para qualquer um além de Hu Bing ge? Se há uma razão para o senhor me querer de volta deve ser porque Shuo Gang está mostrando sua real competência no trabalho.

— Quer dar uma de vítima agora? — Huo Yi riu. — Você deve estar dormindo com um daqueles farsantes do Ling Chao, é uma perdida como a sua mãe foi!

— Não coloque na minha mãe uma culpa que sempre foi sua, pai! — Devolveu Yan Da ferozmente. — Desde o começo era sempre você tendo mulheres e mais mulheres por aí, como a mãe de Shuo Gang! Achou que eu não descobriria nunca? Sua crueldade matou a minha mãe antes do câncer e você deixou Shuo Gang me acusar disso todos esses anos. Agora vem aqui me chamar de família? Você nem sabe o que é isso.

Huo Yi tinha os olhos em chamas, era a primeira vez que a filha o enfrentava daquela maneira, Yan Da, tal como a mãe, era sempre submissa e acatava suas ordens — ainda que se opusesse a elas em boa parte das vezes — a fúria cresceu pelo seu corpo como labaredas e, como se estivesse ciente disso, ela não poupou de atiça-lo ainda mais.

— Vá em frente, bata em mim, é o que quer fazer, não é? Essa sempre foi sua resposta para tudo que não te agrada e foi o que você ensinou a Shuo Gang, a Ya Xing e a Xin Jue, se Hu Bing não fosse criado pela mamãe, você teria feito o mesmo com ele também!

No instante que a mão do homem se ergueu, Yan Da fechou os olhos esperando o golpe que nunca veio, ao invés disso, uma voz conhecida preencheu o silêncio.

— Eu não faria isso se fosse o senhor, Huo xiansheng, a menos que queira estar na primeira página amanhã por violência doméstica. Especialmente porque essa casa não é sua.

Abrindo os olhos, a figura alta e esguia de Pian Feng segurava o braço do pai com força, atrás dele estava Yue Shen, a mulher que ela vira mais cedo com Ying Kong Shi. Huo Yi puxou o braço com força olhando os dois em sinal de desafio, mas vendo que ninguém estava disposto a ceder — e Yue Shen tinha uma pose muito intimidadora — ele apenas olhou para Yan Da outra vez antes de se dirigir à porta.

— Se essa é sua decisão, nunca mais apareça na minha frente de novo, eu a desconheço como minha filha.

— Depois de todos esses anos, não é como se eu já tivesse sido um dia.

Ele fez menção de voltar até ela, as mãos fechadas em punho, mas Yue Shen ficou em seu caminho como se o desafiasse a tocar em um fio de cabelo da princesa. Huo Yi não sabia quem era aquela mulher, não estava acostumado com mulheres daquele tipo, mas algo dentro dele lhe dizia que era melhor recuar.

Pian Feng correu para o lado de Yan Da quando as pernas desta cederam e ela pendeu, ele a ajudou a sentar enquanto Yue Shen, após fechar a porta atrás de Huo Yi, levou um copo com água para a princesa. Com as mãos trêmulas, ela pegou o corpo e bebericou o líquido lutando contra as lágrimas que ameaçavam irromper, Pian Feng acariciou seu rosto com devoção colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha.

— Minha fadinha, você está machucada? Ele agrediu você? — Ele inspecionava com olhares preocupados os braços, o pescoço e o rosto de Yan Da que meneou a cabeça afirmando estar bem.

— Chao jie, onde ela está, preciso vê-la, Pian ge...

— Shh... — Sentando ao lado dela, o guerreiro segurou suas mãos acalmando-a. — Ela já está fora de perigo, não se preocupe Huang Tuo a operou e por enquanto ela não pode receber visitas. Vou levar você para vê-la quando ela estiver em um quarto, prometo.

Como ela ainda estava muito pálida, Pian Feng a abraçou afagando-lhe a cabeça suavemente, o corpo da princesa tremia em seus braços ainda pelo embate com o pai, de todo modo mesmo não desempenhando o papel que deveria, ele não deixava de ser uma figura significativa na vida dela, alguém de quem ela desejara receber afeto e reconhecimento, mas só recebera indiferença. Enfrentá-lo daquela maneira não foi fácil e o guerreiro do vento tinha plena consciência disso, ainda que não pudesse precisar, imaginava quanto exigira de Yan Da e quão assustada ela deveria estar. Cortar laços daquela maneira era doloroso mesmo que tais laços nunca tivessem sido realmente presos.

As lágrimas vieram vagarosas e furtivas como ladrões invadindo uma casa abrigados na escuridão da noite. Os trovões ainda rugiam do lado de fora e, a cada novo berro bestial, Yan Da estremecia novamente no abraço protetor do amigo. Os braços de Pian Feng apertaram-na com suavidade e Yue Shen sentou ao lado dela, tocada pela cena, sem jeito para tocar na princesa do fogo, ela apenas falou em voz suave — ao ponto de surpreender o guerreiro que nunca a havia ouvido ser tão gentil com alguém.

— Você foi muito corajosa enfrentando seu pai dessa maneira, Yan Da. Imagino como deve estar sendo difícil cortar esses laços familiares, poucas pessoas teriam a força de enfrentar essa situação como você teve, fez muito bem.

— Exatamente! — Concordou Pian Feng. — Estou muito orgulhoso de você, minha fadinha. Você foi maravilhosa.

— Nesse momento pode parecer difícil, mas logo você verá que isso é só a abertura de várias possibilidades à frente, você é finalmente livre para trilhar o próprio caminho e com a sua inteligência, não vai ser nada difícil alcançar o sucesso que merece.

— Você me conhece? — Yan Da perguntou com a voz trêmula enquanto se afastava de Pian Feng e aceitava o lenço que Yue Shen lhe ofereceu.

— O jovem Ying fala muito a seu respeito. — Mentiu a maga negra. — Ele teceu vários comentários elogiosos a respeito de sua inteligência e competência no trabalho mesmo diante de tantos acontecimentos turbulentos.

A jovem princesa anuiu oferecendo um tênue sorriso para a outra. Pian Feng, como um pai coruja, segurou o rostinho dela entre as mãos e secou-lhe as lágrimas suavemente com os dedos.

Hao, hao, hao, bu ku le.*— Pediu ele. — Nada consegue destruir mais meu coração que ver você tristinha desse jeito. Tudo vai ficar bem, não vamos deixar você sozinha. Sinto muito ter me atrasado, deveria ter voltado quando a tempestade começou, sei que você não gosta de ficar sozinha com o tempo assim.

— Não tem problema, você estava com a jiejie, ela precisava mais de você do que eu. — Meneou a cabeça. — Quando vou poder vê-la?

— Huang Tuo afirmou que o estado dela está estável, mas ele a deixou em observação para ver como progride, a bala não atingiu nenhum órgão vital.

— A polícia já tem alguma pista do atirador?

Ele trocou um breve olhar com Yue Shen.

— Ainda não. — Suspirou. — As câmeras de segurança não captaram nada, fazendo o trajeto da bala a partir das imagens, eles suspeitam que o sujeito se escondeu bem.

— Isso pode ser obra de algum fã maluco. — Yue Shen tentou desviar a atenção da princesa. — Tem desses em todo lugar e Chao Ya é famosa em vários países.

Yan Da anuiu, fazia sentido. Com orientação de Pian Feng, ela foi para o quarto tomar um banho, sentindo-se mais leve e reconfortada com a presença dele em casa, o encontro com o pai foi um pouco melhor do que ela esperava, não tinha certeza se por Pian Feng ter chegado no momento oportuno ou pelo fato de ela ter tirado coragem — ainda não sabia de onde — para encará-lo daquela maneira e a surpresa o ter desarmado. O fato é que, além de Hu Bing e dos dois amigos, Yan Da não tinha mais qualquer família e, em parte, era muito assustador. No fundo do seu coração, ela queria ter o afeto e dar orgulho ao pai, desde a morte da mãe, Yan Da fez tudo ao seu alcance para que Huo Yi gostasse dela, mas isso nunca aconteceu.

Deixando o corpo relaxar na banheira com água quente, ela encolheu as pernas e chorou baixinho a estranha sensação de perder algo que nunca possuiu.

※※※

Huang Tuo segurou o pulso de Shi enquanto Ka Suo caminhava pelo apartamento procurando indícios de que alguém havia passado por ali. O alívio do monarca ao encontrar o irmão bem não poderia ser colocado em palavras e, a julgar pelo silêncio além das portas, a pessoa com Yan Da não deve ter sido problema para Yue Shen — poucas coisas eram um real desafio para a ex-assassina.

Voltando ao quarto, ele viu quando o médico colocou dois dedos sobre a testa do jovem príncipe, um pequeno feixe de luz dourada faiscando através do toque das peles, não disse nada por um instante até Huang Tuo se afastar.

— Como ele está?

— O processo está correndo em um ritmo mais normal agora. — Anuiu. — Ainda vai ser um pouco doloroso para ele, mas ficarei de prontidão para amenizar como puder.

— Ele vai conseguir lidar com isso. — O rei do gelo sentou ao lado do irmão e segurou a mão dele. — Por mais difícil que seja, confio que dessa vez ele fará a escolha certa.

— Preciso ver a princesa... a essa altura, a poção que dei para retardar as memórias dela pode estar enfraquecendo.

— Sim, vamos descer. — Anuiu. — É importante que ela não recupere as memórias, pelo menos não por enquanto.

— Se me permite perguntar, meu rei, por que está devolvendo as memórias do jovem príncipe, mas reluta em devolver as da princesa?

Ka Suo virou as costas olhando para a enorme cerejeira pintada na parede negra do quarto de Shi, imaginava que em algum momento Huang Tuo faria aquela pergunta, de todos os companheiros que ele tomou como amigos em sua jornada para a montanha Huang Xue, o curandeiro se tornara seu amigo mais próximo, além de Xing Jiu que gozava de sua inteira confiança. Contudo, na passagem que os conduziu até ali no sacrifício, o chefe da tribo bruxa xamã havia demonstrado uma lealdade admirável para com Shi e o monarca gostava muito disso apesar de se sentir levemente enciumado.

A ligação entre ele e o irmão continuava tão forte quanto antes, entretanto, Ka Suo concedera mais liberdade para Shi naquela vida, permitindo-o tomar as próprias decisões e cometer erros aprendendo com eles, mesmo protegendo-o de longe, não se permitiu repetir o erro de superprotegê-lo tolhendo sua vontade e vinculando-o a ele com um laço eterno de gratidões e débitos.

Era essa também a razão da escolha de não devolver as memórias de Li Luo. O monarca tinha em mente que, a partir do momento no qual estivesse decidido a enfrentar os pais para viver seu romance, Shi poderia tomar à sua frente e começar a ignorar seus desejos em prol da felicidade dele correndo o risco de repetir a história passada. Todavia, ao direcioná-lo para o caminho do seu próprio coração, Ka Suo esperava que o sentimento despertasse dentro dele um pouco do egoísmo próprio pedido pela felicidade.

— Yan Da morreu com o coração muito ferido. — Começou ele, respondendo a pergunta de Huang Tuo. — As escolhas do meu irmão, movidas por minha própria culpa, culminaram em um final injusto e trágico para ela. Se devolver as memórias dela agora não haverá qualquer esperança de redenção para Shi.

Ele se virou para o médico.

— Se escolho fazer ele se lembrar agora é porque preciso não somente de um aliado contra Lian Ji, mas preciso que ele passe pelo processo de se perdoar para alcançar o perdão de Yan Da. — Explicou. — A escolha dele mudará tudo para todos nós, por mais que a princesa do fogo tenha sua parcela de responsabilidade, Shi é nossa chave de mudar o jogo.

— Já pensou que ele pode culpa-lo?

— Estou preparado para isso. — O monarca sorriu. — Ele não estará errado se o fizer, afinal, foi culpa minha. Até chego a desejar que ele o faça se isso o levar para o caminho certo.

"Ge, se eu amo alguém, estou mais que disposto a desistir de tudo." Aquele garotinho poderoso deu ao futuro rei do império da neve uma lição poderosa, desde criança Shi era o maior ilusionista entre todas as tribos, não apenas em poder, mas em sabedoria. Ka Suo desejava, no mais profundo do seu ser, que ele se lembrasse dessas palavras e corresse na direção certa quando abrisse os olhos e encarasse seus pecados.

※※※

Yue Shen se recostou no sofá e cruzou os braços. Na cozinha, Pian Feng preparava uma refeição leve para todos eles, incluindo Huang Tuo e Ka Suo que deviam chegar a qualquer momento.

— Com toda essa maluquice sobre Chao Ya não tive cabeça para te perguntar sobre Peng Yan. — Disse ela da sala. — O que pretende fazer a respeito?

— Mesmo que minha vontade seja tirar a pele de Shuo Gang, não adiantaria nada, além de não trazer meu irmão de volta, ele sequer se lembraria o motivo de estar sendo punido. — O guerreiro suspirou. — Pelo menos isso explica como ele desapareceu dez mil anos atrás.

— Começo a entender um pouco melhor sua devoção pela princesa. — Ela caminhou até a ilha da cozinha de modo que pudesse falar mais baixo. — Foi ela quem mais sofreu injustiças em toda essa história e não parece ter tido uma sorte melhor nessa nova oportunidade.

Pian Feng anuiu, sentindo o coração apertar.

— Antes nenhum de nós fazia ideia do que ela havia passado, nós a víamos apenas como uma integrante do clã inimigo. — Suspirou. — Não posso deixar de me sentir culpado em parte pelo fim que ela teve.

— Não existem culpados e inocentes em uma guerra, Pian Feng. — A maga negra apontou. — Só existem lados. Você não pode ser responsabilizado por nada. Nenhum de nós. Contudo isso acabou agora e sinceramente torço que ela encontre a felicidade, mais que qualquer um o destino deve isso a ela.

— Tenho firme a consciência de servir a Ka Suo como meu rei, mas minha lealdade está com a princesa. — Apontou ele, com convicção. — Se precisar escolher um lado, ficarei do dela, não importa se minha existência acabar com isso.

— Você teme que er dianxia repita as escolhas do passado, não é? — Ela anuiu. — Isso também me preocupa, mas não podemos prever isso. Apesar de ter voltado, ele não passou pelas mesmas experiências, não teve a mesma criação e nem é o mesmo de antes. Ainda há uma esperança, mesmo fracos todos nós vimos progressos entre eles.

— Só espero que ele não a machuque outra vez. Do contrário, vou esquecer a quem eu sirvo. — Deu de ombros.

Batidas na porta anunciaram a chegada dos demais convidados. Yue Shen recebeu Ka Suo e Huang Tuo no lugar de Yan Da que ainda não saíra do banho. Pela expressão grave no rosto do marido, ela notou que Shi não apresentara mudanças, mas tampouco o processo estava sendo gentil com ele. O pequeno grupo combinou uma desculpa para justificar a visita do monarca e, quando Yan Da saiu, não fez muitas perguntas. Mostrou-se feliz por rever Huang Tuo, ela gostava muito do médico, agradeceu a visita de seu chefe já aproveitando para atualizá-lo a respeito do caso de seu shopping e perguntar por Shi, para quem ela tentara ligar e não conseguira.

Huang Tuo inventara uma mentira dizendo que o jovem príncipe do gelo havia contraído um forte resfriado e estava de cama. Ele e Ka Suo haviam voltado do apartamento onde o médico lhe dera um forte remédio para dormir que o ajudaria a descansar e aceleraria o processo de cura. A princesa se mostrou preocupada e perguntou se poderia visita-lo, ao que o médico não objetou, sabia que o monarca daria um jeito de desviar a atenção dela na ocasião. Ela também pediu notícias de Chao Ya e escutou uma versão parecida com a de Pian Feng, apenas com alguns poucos detalhes adicionais sobre o caso e a renovação da promessa de sua permissão em vê-la tão logo fosse possível.

A tempestade ainda estava forte do lado de fora, mas Yan Da se sentia confortável com seu apartamento rodeado de pessoas por quem nutria carinho, sentiu falta da companhia de Shi e Chao Ya para completar aquele momento, o grupo teve um jantar agradável, mesmo um tanto quanto contemplativo por causa da situação da cantora, mas ela se sentiu acolhida. Huang Tuo fez um breve exame nela e disse a Pian Feng que ministrasse certo "chá" nos próximos dias, mas assegurou que a recuperação dela estava completa (sem mencionar o óbvio fato de ter usado poderes para acelerar o processo e muito).

No fim, Huang Tuo e Yue Shen se despediram. Ka Suo reiterou o convite para a visita ao irmão, de quem cuidaria nos próximos dias e, com a ausência de Chao Ya, Pian Feng ficaria com ela até a cantora poder voltar para casa. Como a chuva não parecia dar sinais de trégua durante a noite e os trovões soavam cada vez mais ameaçadores, Yan Da pediu a Pian Feng que dormisse com ela em seu quarto, temendo não conseguir pegar no sono por causa dos sons assustadores e da cabeça recheada de preocupações. Ele não objetou.

Não era a primeira vez que dividiam a mesma cama, o guerreiro do vento, mesmo sabendo que era convencionalmente errado, não tolhia de Yan Da o capricho de ser mimada por ele já que ela recebera pouco afeto durante a vida. Ele a via como uma irmã mais nova e a amava como tal, sem haver qualquer espécie de risco ou sentimentos desconfortáveis naquele tipo de carinho. Por isso, após um banho revigorante e bem merecido naquele dia turbulento, ele deitou ao lado dela e a abraçou. A princesa do fogo apoiou a cabeça no peito dele aconchegando-se nos seus braços.

— Você me lembra muito Hu Bing ge nessas horas. — Mesmo sem olhar para ela, podia ver o sorriso pela sua voz e esse fato fez ele mesmo sorrir. Yan Da já não tremia, estava calma. — Sinto falta dele.

— Sei que ele também sente sua falta, minha fadinha. — O guerreiro depositou um beijo no topo da cabeça dela. — Você é responsável por ter sido um tanto quanto dura nos seus termos.

— Fiz isso para proteger nós dois. — Rebateu. — E nossos esforços trarão resultados. Devo isso ao Peng Peng.

— Tenho certeza que Peng Yan está tão orgulhoso de você quanto eu. Um dia, vocês se encontrarão novamente em outra vida.

— Se tiver mesmo uma outra vida, espero que você possa estar nela de novo.

— Seria minha maior felicidade. — Ele sorriu. — Descanse agora, nada de ruim vai acontecer, eu prometo.

— Obrigada, Pian ge. — A voz de Yan Da soou ainda mais doce. — Não sei o que faria sem você.

— Não agradeça por ser amada, minha fadinha. Isso é o mínimo que você merece. E eu sempre vou cuidar de você independente do que aconteça.

A princesa do fogo apertou-se mais dentro do abraço do amigo sentindo o coração aquecido com aquelas palavras. Seus olhos se fecharam e a imagem de Ying Kong Shi preencheu sua mente, mesmo que o tivesse visto àquele dia, sentia uma estranha falta dele, o que era paradoxal já que quando ele estava perto parte dela queria que fosse embora. Devia estar se acostumando com sua constante presença na vida dela considerando o incômodo que lhe engolia quando ele estava longe.

Enquanto se abandonava nos braços arenosos de Morfeus, Yan Da temia o curso dos próprios sentimentos, uma guerra eterna entre o desejo da sua mente e do seu coração. Seria isso se apaixonar?

※※※

Quanto mais Shi via aquela vida estranha descortinar-se diante de si, mais aterrorizado e confuso se sentia e isso aumentava violentamente a dor espalhando-se pelo seu corpo. Ka Suo o havia deixado e ele seguia o fluxo das memórias atrás de cada porta lúcida que surgia em seu caminho, envolta em personagens conhecidos como Huang Tuo, Yue Shen, Chao Ya, Liao Jian, todos eles vinham e iam evanescendo como fumaça diante dos seus olhos numa história macabra contada por alguém que ele não podia ver. A cada nova porta aberta, as outras desapareciam e as paredes de escuridão que lhe cercavam pareciam fechar-se mais à sua volta. Gritos silenciosos e atormentados ecoavam na mente do jovem príncipe, ele não entendia o que diziam, mas sua alma pareceria reconhecer as acusações enfurecidas.

E havia também Yan Da.

Esta última mostrava-se mais surpreendente dentre todos, quanto mais adentrava nas portas da sua mente, mais compreendia ser ela a resposta do desejo oculto e inominável que crescia no seu coração desde que viera ao mundo. A sombra que não desaparecia mesmo na escuridão seguindo seu coração silenciosamente, desejando sem nunca pedir.

Ele encarava suas escolhas, cada ferida profunda talhada no coração generoso e leal dela. Conforme avançava, por vezes Shi não conseguia mais saber quem era, ao mesmo tempo em que se via diferente, encarava a si mesmo como aquele ser de um passado familiar que lhe fora arrancado.

"Você não é meu escravo, é meu único amigo."

— Yan Da...

Sua voz pronunciou o nome dela como uma oração. Ele podia ver a tristeza suplicante em seus olhos, os sacrifícios a que ela se impôs por ele e viu a si mesmo traindo-a, dando as costas ao que sentia. Reprimindo no mais profundo do seu ser os sentimentos que era incapaz de compreender e de aceitar. Uma lágrima quente nublou a visão dela diante de si, Shi gritou no vazio sentindo a dor parti-lo ao meio.

Aquela era apenas uma pequena rachadura no seu castelo de vidro que estava por ruir.

Notas:

*Hanfu [漢服/汉服] — É a roupa tradicional da dinastia Han e considerada a mais antiga vestimenta da cultura chinesa. Embora adaptada em outras dinastias, a maior parte dos dramas utiliza essa vestimenta como base para a indumentária. As roupas de Ice Fantasy não seguem exatamente esse código, mas tem similaridades e por isso escolhi essa roupa para utilizar aqui. O Hanfu, com pequenas modificações, era usado por homens e mulheres. Inclusive, é o tipo de roupa usado pelos atores em Ten Miles of Peach Blossoms! Essa vestimenta foi utilizada como base para os quimonos japoneses e hanboks coreanos.

*Diē [爹] — Pai

*Hao [好] significa bom, bem, boa, nesse caso pode ser traduzido como okay ou certo. Bu ku le [不哭了] significa "não chore"