Love as Sakura | 爱如樱

29 第27章 Uma Batalha Predestinada


Já era quase dez horas quando Yue Shen finalmente chegou em casa. Estava mais mental que fisicamente cansada. Pelas luzes apagadas soube que Huang Tuo ainda não havia chegado, era estranho, pois ele lhe dissera que não faria plantão naquela noite. Esperava que não demorasse muito, havia sido um dia cansativo e ela queria se aconchegar nos braços dele e esquecer as mortes e os problemas que certamente ainda estavam por vir.

Ela acendeu a luz da frente ao entrar, deixou os sapatos na sapateira e ignorou os chinelos, entrando descalça em casa, a sensação do piso frio sob sua pele quente era deliciosa. Havia algo incomodando a ex-assassina, mesmo que claramente Shuo Gang tenha mandado homens atrás da irmã — se com o intuito de repetir a crueldade que fizera com Peng Yan, ela não podia afirmar — parecera... fácil demais. Os homens não eram nada perigosos, apesar de alguns deles estarem armados a sensação que ela teve era que eles nunca haviam sequestrado alguém antes.

Com um meneio de cabeça, Yue Shen deixou apenas a luz da sala acesa e subiu as escadas na direção do quarto. Não queria pensar naquelas coisas agora, na sua mente a única coisa certa era o banho quente à espera dos seus músculos doloridos pelo esforço. Estava prestes a tirar a roupa quando sentiu, forte tal qual um soco, a sensação de perigo correu seu corpo como uma carga elétrica de alta voltagem, a tal ponto que Yue Shen se dobrou. Sem hesitação, ela deu meia volta e correu escada abaixo, pegando as botas sem sequer calçá-las e ganhando a rua outra vez.

O carro de Huang Tuo vinha parando na entrada quando a viu e buzinou para ela, reconhecendo-o, ela não perdeu tempo e entrou no veículo.

— Depressa, dirija para a casa dos pais de sua majestade.

Ele não fez perguntas, deu a ré e acelerou enquanto ela calçava as botas outra vez. Apenas pelo tom de voz de Yue Shen, Huang Tuo já presumia que algo ruim acontecera ou estava prestes a acontecer, usou todos os atalhos que já conhecia bem para evitar o trânsito, seu coração batia acelerado tomado pela tensão, tinha conhecimento de que boa parte da família do rei estaria reunida na mansão àquela noite e nenhum deles conhecia seu passado, a última coisa que precisavam agora era de uma confusão e o perigoso trabalho de mentes para apagar.

— É ela. — Disse a guerreira após um longo silêncio. — Nada me faria sentir esse presentimento intenso ao ponto de doer.

— Está atrás de Shi wàngzi? — O médico virou em uma curva fechada aumentando mais a velocidade.

— Não tenho certeza, mas não duvidaria, se ela o pegar antes que ele se lembre é fim de jogo. — Ela deu um soco na própria perna. — Maldição!

— Não é lógico, pensei que ela iria atrás de Yan Da primeiro, a menos que ela saiba.

— É impossível. — Meneou a cabeça. — Apenas você, Xing Jiu, o rei e eu sabemos disso. Lian Ji pode ser poderosa, mas não é onisciente. Pelo menos não neste mundo.

— Aqui ela não dá as cartas e é por isso que sabemos nas mãos de quem o veado morrerá!* — Anuiu Huang Tuo.

— Mas até lá ela pode causar muitos estragos. Será que Xing Jiu sentiu também?

— Não sei, até ver você não recebi nenhum alerta.

— Quando chegarmos, bloqueie a casa, não podemos deixar os residentes ouvirem nada. Especialmente se, como presumo, houver embate.

— Não se preocupe, amor, vou cuidar de tudo. Manterei o príncipe seguro.

— Tão importante quanto isso é ficar dentro da sua própria proteção, entendeu? — Advertiu. — Se eu vir um único arranhão em você teremos problemas. Quero você inteiro, os únicos arranhões em você serão meus.

Huang Tuo deu uma risada baixa diante da clara provocação.

— Sim senhora.

※※※

Conforme avançava no escuro, Ka Suo apertava o cabo de róngyù bīng*, sua espada, com mais força, a massa negra parecia palpável de tão densa, ele não conseguia ver praticamente nada diante de si e quanto mais adiante ia, mais escuro ficava. Por um instante pensou se ainda estava no jardim da mansão ou se já passara para uma dimensão diferente, contudo, podia sentir com nitidez o miasma que advinha do breu, a força maligna que se dirigia de encontro a ele de forma ameaçadora.

Uma espécie de névoa gelada começou a subir como vapores letais de um pântano envenenado, o rei do gelo parou e fechou os cinco sentidos apurando cada pequeno movimento à sua volta numa tentativa de identificar a origem do miasma que se espalhava por todo lugar que um dia fora o jardim dos seus pais. Uma camada fina de suor se formava em sua testa e Ka Suo podia sentir o fedor acre e mordente que dominava suas narinas e se instalava na sua corrente sanguínea como gelo derretido, ele lutou contra o torpor que nublava seus pensamentos tentando projetar a imagem de Shi sobre a fraqueza que acometia seu corpo e vacilava a mão que segurava a espada.

— Eu sei que é você. — Disse em voz calma sabendo que não precisava gritar para ser ouvido. — Finalmente decidiu se mostrar.

— Você sempre foi assim, Ka Suo, tão impaciente.

A voz que ecoou do manto negro fez o corpo do monarca congelar. Ele sentiu o coração pular uma batida e, abrindo os olhos, buscou no meio da névoa pela dona das palavras. Era impossível. A parte racional da sua mente se recusava a acreditar naquilo. Num átimo de segundo, sua guarda baixou diante do choque, foi nesse momento que a onda de energia veio mortal na sua direção saída dos confins daquela jaula tenebrosa, era tarde demais para Ka Suo bloquear, mas o impacto nunca veio, uma luz dourada surgiu como lâminas perfurando a penumbra e a energia ricocheteou sem ao menos chegar perto de atingi-lo. Abrindo os olhos ele viu a figura vestida de escuridão parada diante de si.

Yue Shen.

Tão logo Huang Tuo parou diante da mansão, os dois saíram do veículo apressados e se precipitaram através dos portões de metal com pontudas lâminas no topo. O coração da guerreira estava inquieto e ela sentiu-se enjoada diante do peso da energia do local que a oprimia como uma enorme rocha sobre o corpo. O médico viu quando a tez da esposa empalideceu e tornou-se lânguida, segurando a mão dela com delicadeza, ele enviou sua magia através da pele em uma onda dourada que fluiu como um bálsamo no corpo de Yue Shen.

Com um sorriso agradecido, a maga negra puxou uma arma de dentro do sobretudo escuro que vestia, particularmente ela não gostava daquelas invenções cruéis, mas valia-se de todo e qualquer subterfúgio que mantivesse o marido vivo. Ela virou a palma da mão dele que segurava a sua e depositou o objeto nela sentindo o coração apreensivo.

— Presumo que saiba usar isso a essa altura. — Disse baixinho, uma mistura de urgência ansiosa e preocupação conflitando no seu peito. — Se tiver de escolher entre lutar e fugir, fuja. Mas se tiver de escolher entre lutar e morrer, lute e mate. Não importa o que aconteça, Huang Tuo, volte pra mim, hao ma?

A hesitação que fazia a voz dela tremular enquanto dizia aquelas palavras tocou o coração do médico com uma dolorosa guinada. Ele puxou a esposa em um abraço apertado e beijou-lhe o topo da cabeça com uma ternura profunda tentando dissipar seus temores.

— Não se preocupe, minha Luna, eu não estou nem um pouco tentado a me ferir a menos que sejas pelas suas habilidosas mãos. — Ele sorriu. — Seja cuidadosa, estarei esperando você em frente à mansão, é uma promessa.

— Fique dentro do escudo, e falo sério.

Ela advertiu surpreendendo-o com um leve beijo nos lábios antes de correr na direção dos jardins. Huang Tuo sentiu a avalanche de amor misturar-se com a preocupação que o momento exigia, ainda era difícil acreditar na reciprocidade de Yue Shen aos seus sentimentos, especialmente quando ela agia de maneira tão doce com ele. Talvez uma vida não fosse o bastante para viver aquele sentimento que explodia no seu peito cada vez que ela o olhava.

Aproximando-se da entrada da mansão, ele fechou os olhos e se concentrou, ergueu os braços com as mãos espalmadas na direção do palacete, as ondas douradas do escudo começaram a cobrir a construção como uma redoma e, mantendo-se como prometido dentro dela, Huang Tuo orou a qualquer que fosse a força movendo os céus que protegesse sua esposa e o seu rei daquela força sombria que se escondia no âmago do blecaute.

A chegada de Yue Shen tirou Ka Suo do estado inicial de choque, ainda que o torpor causado pelo miasma da neblina continuasse a drenar seus movimentos de maneira lenta. A maga negra puxou sua espada, Dú fēng*, e com um movimento intrincado começou a dissipar a névoa absorvendo-a na sua lâmina, em proveito disso, Ka Suo reuniu sua energia mais uma vez na busca de Lian Ji, uma risada debochada veio de dentro da escuridão.

— Você acha que venceu esse jogo, Ka Suo, mas eu já cumpri o propósito do que vim fazer aqui. — Disse ela. — Acha que o está protegendo, mas ele será meu brinquedo outra vez e irei usá-lo contra você para vencer essa guerra. Se pensa que destruindo meu mundo pode me anular, mostrarei a você subvertendo este mundo que nada no universo é capaz de me deter.

— Eu não cantaria vitória antes do tempo se fosse você, Lian Ji. — Um sorriso frio cruzou o rosto do monarca do gelo, ele ergueu róngyù bīng na direção da entrada dos fundos e lançou uma rajada de energia, o guincho de dor e surpresa que veio da penumbra disse que ele havia acertado o alvo. — Dessa vez sou eu que dou as cartas.

Mas a resposta nunca veio. Lentamente, as lamparinas espalhadas pelo jardim começaram a voltar à vida iluminando os canteiros de flores coloridas e as cercas vivas, bancos e árvores frondosas bem podadas, a escuridão foi engolida pela luz, mas não havia qualquer sinal de Lian Ji. Yue Shen não esperou pela ordem do monarca, se ele conseguira feri-la ela não iria longe tão rápido então a maga saiu correndo na direção de onde ouvira o guincho de dor anteriormente.

Os olhos de Ka Suo ficaram presos em nenhum ponto específico do lugar à sua volta. Se o que achava fosse verdade, provavelmente o final feliz do seu irmão não se estenderia para ele mesmo. Lian Ji era de fato cruel.

A voz na escuridão, ele tinha certeza, pertencia a Li Luo.

※※※

Quando Shi acompanhou vovó de volta para a sala de estar não havia qualquer sinal de Ka Suo. Intrigado, ele ajudou a avó a se sentar dando-lhe um carinhoso beijo na cabeça, o conhecido cheiro de lima impregnando suas narinas. Ele se despediu dos pais e da irmã, desta última com especial pesar uma vez que via as irmãs com muito pouca frequência já que moravam muito longe para viagens frequentes. Deu mais um beijo na avó e trocou um frio cumprimento com Lan Shang antes de ir dar um beijo nos sobrinhos que partiriam com a mãe já na manhã seguinte.

O ar gelado da noite o recebeu quando atravessou as portas da mansão, era uma noite escura e sem estrelas. Ele olhou a caixinha em suas mãos e decidiu deixá-la no carro antes de ir à procura do irmão. Qual não foi sua surpresa quando avistou o carro de Huang Tuo parado na entrada, erguendo uma sobrancelha, Shi desativou o alarme do veículo, depositou com cuidado o presente da avó no porta-luvas e saiu em busca de Ka Suo no jardim intrigado com a presença do médico ali.

Encontrou os dois no meio do jardim, Huang Tuo segurava o pulso de Ka Suo parecendo muito concentrado e sério — duas coisas raras na sua expressão sempre brilhante e brincalhona — o irmão, contudo, parecia tenso e mortalmente pálido, sob as luzes fracas das lamparinas, Shi viu o brilho do suor em seu rosto. Ele precipitou-se até os dois tomado pela preocupação.

— Ge, o que aconteceu?

— Não é nada demais. — Ka Suo sorriu. — Me senti indisposto e vim tomar um pouco de ar.

— Huang Tuo.

Shi chamou pelo médico como um pedido de confirmação, mas levou alguns minutos até receber a resposta. Ele não sabia explicar como, quando Huang Tuo soltou o pulso do seu irmão, a aparência de Ka Suo voltou ao normal, mesmo a camada de suor pareceu ter desaparecido por completo.

— Foi uma queda de pressão. — Anunciou o médico trocando um olhar intenso com o monarca. — Descanse bem esta noite e coma algo um pouco mais salgado pela manhã, está tudo bem. Mas vá ao meu consultório para fazermos alguns exames mais detalhados.

— Você está trabalhando demais outra vez. — Reclamou Shi. — Com os últimos acontecimentos eu não tenho te ajudado como deveria. Sinto muito.

— Não se martirize dessa maneira, Shi. — Pediu ele, tranquilizando-o. — Provavelmente deveu-se ao fato de eu ter pulado o almoço hoje.

— Fora de questão, vou pedir a Yan Da que vigie você. — Ameaçou. — Quanto ao problema no shopping, cuido disso, papai não precisa saber.

— Obrigado. — Havia uma alívio nítido na voz do rei do gelo. — Assim aproveito para ir fazer meus exames logo pela manhã.

— Vou reservar um horário para você. — Anuiu Huang Tuo, ainda sério.

Shi não deixou de perceber o tom ambíguo que aquela conversa parecia ter, não era normal Ka Suo esconder coisas dele e aquilo o deixou preocupado, até mesmo um pouco enciumado pelo fato do médico saber algo sobre o irmão que ele mesmo não sabia.

— Leve-o para casa, Shi, é perigoso dirigir nesse estado. — Aconselhou o médico. — Pedirei a alguém para levar seu carro para o prédio.

— Obrigado. — Agradeceu o jovem príncipe.

Os irmãos se despediram e foram embora. Ka Suo ainda olhou o amigo uma vez mais num silencioso agradecimento.

※※※

Xing Jiu olhou a movimentação das estrelas mais uma vez sem conseguir acreditar. Não podia ser possível.

Quando sentiu o estremecimento, minutos atrás, correu para localizar a estrela de Ka Suo e descobrir sua movimentação, nesse instante a estrela referente à Li Luo tinha um pesado brilho violeta que contrariava completamente sua aura azulada. Erguendo o cubo dos sonhos ele tentou rastrear a energia e seu coração deu um salto ao se dar conta que a noiva de seu rei podia estar abrigando a inimiga que todos procuravam.

Por mais que não quisesse pensar naquela hipótese, explicaria porque não haviam conseguido localizar a energia dela antes, sendo tão poderosa como era, Lian Ji não conseguiria esconder sua aura a menos que usasse a alma de outro imortal para tal fim, mas o que surpreendia o astrólogo era o fato de Li Luo ter cedido seu corpo para isso. Nenhum imortal podia parasitar outro sem permissão do corpo. Por que a feiticeira mestiça se daria a esse papel?

A estrela de Li Luo desapareceu junto com o rastro violeta, ele viu o curso de Ka Suo junto à estrela de Shi, ambas emanando um brilho azul esbranquiçado. Preso na incerteza de ir atrás do monarca ou esperar ser chamado, o astrólogo caminhou pela sala do apartamento em que habitava a apenas alguns quarteirões do condomínio de Shi — uma oferta de Ka Suo diante da necessidade do astrólogo permanecer naquele mundo junto aos demais.

Incomodava-lhe o fato de acreditar ter cometido um erro. Xing Jiu sempre fora meticuloso em tudo que fizera, calculava cada passo e palavra para nada sair errado, desde o que acontecera com Xing Gui ele não queria correr o risco de deixar passar qualquer espécie de brecha que pudesse acarretar em dor para aqueles a quem protegia. Pensar na irmã ainda era difícil, os dois compartilhavam um vínculo tão profundo que era como se partilhassem a mesma alma, o momento mais difícil de sua existência — longa demais para esquecer ou ignorar — foi aquele no qual desintegrou a alma de Xing Gui pela eternidade.

Colocando-se em posição de lótus, o astrólogo reuniu sua energia e refez seus passos numa viagem ao passado, com sorte encontraria a chave para resolver o enigma daquele presente turbulento e do futuro incerto de todos eles.

※※※

Yue Shen voltou sem sucesso na sua busca pela sombra da mulher que atacara o rei do gelo. Olhando para o jardim opulento do palacete ninguém diria que, minutos atrás, um ar venenoso subiu ali, tão forte que seria capaz de destruir qualquer resquício de vida num raio de sete quilômetros. Mas não era apenas a frustração da busca infrutífera que a preocupava e sim a voz que ouvira vir do blecaute.

Silenciosa, ela abraçou Huang Tuo com força após certificar-se de não haver um único arranhão no seu médico. Eles seguiram de volta para casa e, em nenhum momento, ele fez qualquer pergunta, respeitando a contemplação solitária da esposa, coisa que Yue Shen agradeceu.

Nunca havia lhe passado pela cabeça que Li Luo poderia ser capaz de cometer um ato tão estúpido quanto ceder seu corpo para outro imortal, mesmo correndo o risco de, com a energia do parasita, sua própria essência ser anulada. Ela já vira aquilo acontecer antes. Aquilo mudava o curso das coisas, caso fosse verdade. Todos eles sabiam que a razão para Ka Suo evitar encontrar-se com ela era o fato de sua presença trazer à tona todas as lembranças suprimidas de quatro mil anos atrás.

Uma irônica parcela do sacrifício dado o que ele passara antes na armadilha de Lian Ji para reaver suas esposas e seu irmão. Entretanto, se era verdade que a feiticeira cedera o corpo para a vilã, o impasse do rei do gelo estaria entre tentar fazer com que a memória de ambos fosse capaz de expulsar Lian Ji do corpo dela — e isso daria uma ínfima chance de destruírem-na — ou sacrificá-la, algo que a guerreira duvidava ele ser capaz.

Tão logo o carro do marido parou diante da bela casa em que moravam, eles desceram e ela segurou a mão dele, Huang Tuo lhe ofereceu um sincero sorriso de companheirismo dizendo sem palavras que estaria ao seu lado quisesse ela falar ou não o que tinha em sua mente. Yue Shen fechou a porta atrás de si e beijou o médico ardorosamente, ignorando o cansaço, a frustração e o medo que serpenteava as paredes da sua mente, aquele poderia ser seu último dia — todos eles ameaçavam ser os últimos — ela deixaria as preocupações para mais tarde.

Se ainda estivesse viva para tal.

※※※

Yan Da acordou sentindo suas forças renovadas. Parecia fazer anos que não dormia pacificamente sem ser assombrada por algum pesadelo. Apesar da tristeza no seu coração continuar remanescente como uma ferida que nunca fechava, contar para Shi sua história com Peng Yan atuara tal qual um curativo, embora sentisse o latejar, impedia que agentes externos fizessem a dor piorar.

Talvez fosse do que ela estava precisando, afinal, desabafar. Por anos guardara aquele segredo consigo, mesmo Hu Bing não conhecia os pormenores intricados da história, tampouco Pian Feng. Dando batidinhas leves no rosto, ela deixou a cama e tomou um banho rápido, prendeu os cabelos em um coque severo e optou por um terno preto composto de calça flare e blazer, com uma blusa de botões branca.

Deixando o quarto, o cheiro de torradas frescas, café recém-feito e sopa a recebeu como o bom dia de Pian Feng. Sorrindo, a princesa do fogo deixou a pasta sobre o sofá e caminhou até a cozinha onde o agente de Chao Ya cozinhava com o manejo de um chef — e ele bem podia ser um não fosse o desejo enlouquecido de viver perto da cantora.

— Bom dia, minha fadinha. — Sorriu afetuoso para ela. — Seu rostinho está muito melhor hoje, mostra que descansou bem.

— Nem me lembro como cheguei em casa... — Fez uma careta. — A última coisa que recordo é de apagar no banco de trás do carro.

— Ying Kong Shi te trouxe para casa. — A reprovação na voz de Pian Feng ao dizer o nome dele não passou despercebida por ela. — Pelo menos mostrou prudência em não acordar você, nunca te vi dormir tão pacificamente.

— Você precisa superar essa cisma que tem com ele. — Yan Da deu uma risadinha.

— Quando ele mostrar que merece isso pensarei no assunto. — Retrucou o guerreiro sem dar o braço a torcer.

Jiejie na'r? — Quis saber olhando em volta a procura de Chao Ya.

— Saiu mais cedo, há uma sessão de fotos para a ELLE China hoje, encontrarei com ela dentro de meia hora, queria preparar seu café da manhã. — Explicou.

— Obrigada, não sei o que seria de mim sem você.

— Provavelmente estaria casada com algum idiota pançudo de cerveja sendo sustentado por você que, minha preciosa, é boa demais para reclamar. — Provocou.

— Você me superestima, Pian ge. — Yan Da sorriu.

O guerreiro fez uma expressão incrédula e deu um beijo na testa da protegida enquanto tirava o avental e pendurava no gancho ao lado do armário.

— Deixe-me ir antes que aquela estrela obcecada acabe passando o dia inteiro a base de alface.

— Vejo você no jantar.

Os dois se despediram com beijos soltos no ar e ele saiu. Pela janela, Yan Da viu a sombra do temporal se estender como um manto cinza sobre o firmamento, ela tentou se manter otimista e não encarar aquilo como o prenúncio de algo ruim prestes a acontecer. Especialmente pelo sinistro fato de ser outra chuva fora de estação. Mas, afinal, o clima do mundo estava mesmo louco.

Voltando-se para seu café da manhã, ela mudou seus pensamentos para seu companheiro de viagem, não tivera tempo de se despedir e ele tampouco cumprira a promessa de acordá-la ao chegarem em casa. Yan Da não sabia por que, mas sentia uma estranha saudade dele, não uma dolorosa como a De Peng Yan, mas um tipo de saudade que suas palavras também não eram capazes de explicar.

Uma saudade, ela admitiu, perigosa.

※※※

Chao Ya quase sentia câimbras no rosto enquanto sorria a quase duas horas inteiras sem descanso. Uma leve tontura pela refeição que pulara começava a deixar sua visão turva, mas se manteve altiva enquanto o fotógrafo lhe ditava várias poses e a entrevistadora cuspia perguntas sem pausa. Se perguntava onde estava Pian Feng que ainda não chegara para colocar ordem naquela bagunça.

Sem suportar mais, ela pediu uma pausa e surpreendeu-se por ser atendida. Tomou um pouco de água trazido pela sua assistente e informou que sairia para pegar um pouco de ar antes de retornar para a conclusão da entrevista. Dez minutos deveriam ser suficientes. Ela atravessou as portas do estúdio 9 e caminhou por um corredor largo e mal iluminado, a manhã parecia transcorrer em ritmo lento e, por um momento, Chao Ya sentiu o corpo ceder apoiando-se na parede para não perder o equilíbrio. Há quanto tempo não se alimentava para estar daquela forma?

Tudo bem, pensou, só preciso de um pouco de ar fresco e vou me sentir melhor. Cumprimentou os funcionários da empresa enquanto saía dos becos intrincados do estúdio e alcançava o saguão da produtora. O lugar era gigante e labiríntico, mas Chao Ya se cumprimentou por conseguir encontrar a saída sem precisar de informações. Pôs seus óculos escuros na tentativa de não ser reconhecida — e ela sabia que era um tanto quanto inútil —, um céu cinza-chumbo cobria a imensidão como uma penumbra sombria, a cantora sentia os vapores pluviais soprando no ar o característico cheiro adocicado que precede a tempestade.

O vento frio, contudo, amenizou o mal estar da artista, que encolheu-se dentro do blazer branco que usava e procurou um local mais reservado onde pudesse descansar. Não viu Pian Feng que vinha chegando com um reforçado — e levemente calórico — café da manhã, seguindo seu caminho para o lado leste do prédio onde havia uma pequena praça para funcionários. Aquele era um dia estranho, não somente pela atmosfera que parecia deslocada tal qual o clima, mas pela incômoda sensação que agulhava em seu estômago — e não era fome.

Ela fechou os olhos deixando-se inebriar pelo cheiro da prometida chuva, os sons de carros apressados, passos, conversas aleatórias, as árvores cujos galhos balançavam com o vento provocando um adorável e calmante farfalhar nas folhas, ela sentiu, pela primeira vez desde que chegara ali, saudade de casa. Do som da cítara da mãe ecoando pela floresta, dos animais que lhe cumprimentavam em silenciosa reverência, de correr com Pian Feng nos entornos de xiānnǚ sēnlín*, escondendo-se atrás de suas árvores altas, voando sobre a cachoeira, acordando as flores na primavera.

Um tempo em que não havia preocupações, ela não era a rainha de uma tribo com o mundo em seus ombros. Um tempo onde tudo que importava era a música do seu coração. O rosto de Chao Ya baixou em um sorriso triste, sempre que pensava nesses dias havia uma mescla de amargor ressentido e carinho nostálgico e ela não era capaz de dizer qual das emoções era prevalente. Sentindo os olhos ardendo em decorrência das lágrimas que se recusava a derramar, ela afastou as lembranças e olhou em volta, avistando Pian Feng, ao longe, vindo em sua direção. O sorriso iluminou o rosto da cantora que se pôs de pé para recebê-lo.

Tudo aconteceu rápido demais. Chao Ya deu dois passos na direção do guerreiro quando algo a atingiu com força, jogando-a para trás, ela cambaleou, inicialmente sem saber o que havia acontecido, até a sensação de queimação ter início, como se tivesse um ferro em brasa sobre sua pele, junto a queimação veio a dor, tão intensa que ela mal conseguia — ou se atrevia — a se mexer. Viu o instante que Pian Feng começou a correr na sua direção, mas a imagem dele foi se apagado de maneira gradual conforme ela sentia seu corpo pesar e a mente ser levada pelo vazio infinito.

Pian Feng estacionou junto ao carro de Chao Ya e pegou a sacola no banco do carona, gostaria que ela não fosse tão voluntariosa e lhe desse ouvidos quando ele lhe dissesse para comer algo mais que um copo minúsculo de iogurte. Com sua constituição frágil, a cantora provavelmente deveria estar quase desmaiando naquele momento, já fazia mais de doze horas que ela não comia nada. Ele suspirou e se dirigiu ao prédio da produtora onde estava acontecendo a sessão de fotos e entrevista para a ELLE. Contudo, mal avançou o estacionamento e viu Chao Ya sair do prédio com a graciosidade de uma fada em direção à área leste, onde havia uma praça de repouso e alimentação para funcionários, era um local arborizado e circundado por um jardim que ele vira previamente quando fora negociar a entrevista com a empresa.

Tanto melhor, disse a si mesmo e começou a seguir aquela direção. Aquilo lhe pouparia o trabalho de pedir uma pausa no estúdio e discutir o "bem estar da artista" enquanto brigava com o produtor e o fotógrafo. Avaliando a postura dela — e ele conhecia bem seus trejeitos — o guerreiro notou a aura de melancolia que a envolvia, algo incomum visto que Chao Ya não era dada a soturnidade. Talvez fosse a fome que a estivesse deixando deprimida, ele sabia quão importante era uma boa refeição e os efeitos que a falta de nutrição provocava no corpo e na mente.

Andou mais depressa pronto para dar-lhe um sermão sobre a relevância da primeira refeição do dia, ao avistá-lo ela se pôs de pé e acenou, nesse momento, uma espécie de estouro surgiu no meio da confusão de sons que cercava o ambiente externo, Pian Feng não entendeu até ver o corpo de Chao Ya vacilar, um esguicho saiu pela ferida e o blazer branco imaculado tingiu-se de vermelho. A sacola que ele segurava caiu esquecida enquanto ele corria depressa na direção dela, sem tempo de impedi-la de sucumbir à escuridão. Gritos ecoaram ao longe, um segundo tiro foi disparado e pegou em um dos bancos, as pessoas começaram a se abaixar e o pânico caótico se estendeu.

— Chao Ya! — Chamou ao lado dela erguendo com cuidado seu pescoço. — Chao Ya, pode me ouvir?

A cantora abriu os olhos apenas um segundo, como se não fosse capaz de mantê-los abertos por mais tempo, o tiro a atingira no peito, mas ele não era capaz de precisar a gravidade já que a mancha de sangue crescia no tecido da blusa que ela usava, o desespero ameaçou tirar o controle de Pian Feng, mas ele respirou fundo sabendo que não podia ajudá-la se estivesse enlouquecido. Com mãos trêmulas pegou o celular e pressionou a tela no número 7, o atalho de emergência para Huang Tuo. Balbuciou a situação para o médico que lhe deu algumas instruções e garantiu que o socorro estava a caminho.

Ele tirou o paletó e embolou uma parte pressionando contra a ferida, lágrimas quentes escorriam pelo seu rosto enquanto pedia ao universo e quem quer que respondesse por ele que salvasse a vida de Chao Ya. A respiração da cantora se tornava mais e mais devagar, apalpando com mãos instáveis o pescoço dela, ele pôde sentir sua pulsação desacelerando devagar e apertou ainda mais a ferida implorando que Huang Tuo se apressasse.

— Eu sinto muito, Chao Ya... me perdoe... você precisa acordar e perdoar esse idiota que eu sou! Por favor, por favor! — Chorou.

Chao Ya teria sorrido se ouvisse aquelas palavras, mas naquele momento ela estava onde desejara estar minutos atrás: voltando para casa.

※※※

Logo mais à noite

Shuo Gang estava irritado quando entrou em sua sala e seu humor piorou ainda mais quando notou o blecaute das janelas ativado. Certamente descontaria sua frustração na secretária incompetente que não as abrira. Ele gostava da vista panorâmica que sua sala oferecia da cidade ao anoitecer, as centenas de luzes que não permitiam que se contemplasse as estrelas, o céu como uma capa negra que se dobrava diante da luminosidade humana. Era como ele pensava a respeito do mundo e de si mesmo.

E não importavam os rumores, o mundo era dele.

Desde que Yan Da fora para a ZhangYing ele passara a ter mais responsabilidades dentro da empresa, não queria dar o braço a torcer e admitir que a irmã era realmente competente para lidar com uma carga tão absurda de trabalho e, incapaz de lidar com isso, ele contratara um verdadeiro time de profissionais competentes para fazer o que ele nunca se dignara a aprender.

O relógio digital marcava onze horas em números vermelhos na estante nos fundos da sala quando ele entrou e acendeu o abajur de mesa. O pai havia pedido uma série de relatórios que um dos empregados incompetentes ainda não havia terminado e, para fingir que trabalhava, ele fora forçado a ficar ali até o trabalho ser concluído. Era apenas um preço a pagar para chegar ao seu objetivo. As coisas seriam diferentes quando ele colocasse as mãos na Huo Enterprises.

— Sua incompetência não mudou nada ao longo do tempo, não é mesmo, Shuo Gang?

A voz veio da saleta que havia perto das janelas onde normalmente, ao invés de receber clientes, Shuo Gang dormia com mulheres fúteis que se deixavam enganar por sua aparência e riqueza. Assustado, ele se virou na direção da pessoa que falava, a figura vestindo um terninho preto impecável, cabelos soltos e botas de saltos altos como só uma mulher conseguiria se equilibrar, estava de braços cruzados olhando para ele na escuridão. Por causa do sobretudo escuro que usava, era impossível para ele dizer se tinha um belo corpo ou não.

— E quem é você? — Ele perguntou com um sorriso cínico nos lábios.

— Não acho que quer a resposta dessa pergunta. — Ela sorriu. — Mas estou aqui unicamente para sua diversão.

Por isso os blecautes estavam ativos. Pensou ele.

— Volte mais tarde, não estou no clima agora.

A risada fria dela ecoou pela sala, Shuo Gang nunca vira uma mulher agir com tamanha petulância na sua frente, elas eram tímidas e amedrontadas diante dele, sempre, era como devia ser. Mas a risada gélida daquela mulher — muito bonita, por sinal — era uma afronta às suas ordens.

— Não se preocupe, eu tenho séculos de prática em deixar gente como você no clima. — O sarcasmo na voz dela o incomodou.

A mulher levantou e deu alguns passos na direção dele, a raiva que Shuo Gang sentia naquele momento não podia ser medida. Por mais ameaçadora que sua postura aparentasse, ela não se dobrava, não mostrava qualquer temor diante dele. Aquilo o frustrou, ele era o dominador, ele se impunha e elas, reles pó em seus sapatos, se curvavam e obedeciam.

— Escute aqui, sua vadia interesseira, quem você pensa que é para falar comigo nesse tom? Eu estou muito acima de você, com um movimento da minha mão você pode...

Ele não foi capaz de terminar a frase quando o tapa sonoro queimou e torceu seu rosto para o lado. O rosto belo da mulher era inexpressivo, mas havia uma chama de raiva cintilando em seus olhos à baixa luz do cômodo.

— Sabe, uma das coisas que mais me enoja são coisas como você se denominarem homens. — Disse ela. — Quem você pensa que é, seu pedaço de lixo?

Yue Shen olhou para ele e sentiu o nojo de quatro mil anos atrás ser renovado com sucesso. Mesmo passar pela morte não ensinara Shuo Gang a ser uma pessoa decente, ele continuava baixo, impiedoso e hipócrita. Mais do que nunca sentiu vontade de fazer valer o pedido que fizera a Ka Suo e ensinar àquele facínora quem é que dava as cartas agora, seu prazer se tornou ainda maior diante da misoginia dele, ser mulher nunca foi tão maravilhoso.

— Como se atreve, sua...

Yue Shen o calou com outro tapa, este mais forte fez o príncipe do fogo cambalear e quase cair sobre sua mesa. Ela sorriu, satisfeita, quando ele olhou para ela incrédulo e furioso.

— Cale a droga da sua boca antes que eu tire sua língua fora. — Ameaçou. — Sua voz me irrita.

— Quem mandou você?

— Eu mandei se calar! — Ordenou Yue Shen e ele se encolheu. — Você se acha muito melhor que as mulheres, não é? É mais forte que elas, então pensa que tem o direito de subjugá-las, fazê-las sofrer só porque sua mãe não teve dignidade o bastante para dizer não ao imbecil do seu pai que é tão lixo quanto você.

— Dobre sua língua para falar do meu pai!

Irritada, Yue Shen segurou-o pela lapela e usou o salto para pisar com força no pé dele. Shuo Gang se recusou a gritar, mas seu rosto inteiro ficou vermelho pela dor e a fúria. Ela subiu a mão para a garganta dele e o ergueu sem dificuldade vendo-o lutar por ar, o medo começando a brilhar nos seus olhos.

— Isso mesmo, é exatamente assim que quero ver sua cara nojenta. — Ela sorriu largando-o no chão. — Como é a sensação de ser tratado do mesmo modo como trata sua irmã?

— Aquela idiota da Yan Da mandou você aqui? — Ele perguntou entre arfares enquanto tossia sentindo a garganta queimar. — Quanto ela te pagou? Eu dobro.

— Se você não calar essa maldita boca eu juro que vou arrancar sua língua! — Ela puxou um punhal de dentro do sobretudo e o rosto de Shuo Gang esbranquiçou pelo terror. — Você é incompetente, covarde, nojento, assassino e hipócrita, uma praga parasitando a terra, riscar você do mapa seria um favor à humanidade. Considere-se sortudo por este ser apenas um aviso, da próxima vez que eu vir a sua cara será sua última contemplação do mundo e quero muito ver se seu dinheiro vai te salvar, seu facínora escroto.

Ela segurou a gravata dele e o arrastou até a salinha, Shuo Gang sufocou enquanto tentava se equilibrar, segurou na mão dela numa tentativa de detê-la, mas Yue Shen, percebendo que ele tentava dominá-la, segurou o pulso e o torceu arrancando um grito de dor do príncipe. Temendo atrair atenção, ela o jogou na saleta e caminhou até a porta, trancando-a, um aviso silencioso que o "chefe" não queria ser incomodado. Ao voltar, Shuo Gang estava de pé, segurava o poste de um abajur de chão e tentou atacá-la, mas a maga negra era mais veloz e desviou do ataque com graça e facilidade tomando o objeto e batendo nele em retorno.

O corpo do irmão de Yan Da caiu no chão com um baque surdo e ele cuspiu uma porção de sangue. Yue Shen anuiu, pelo menos um dente devia ter sido arrancado, era suficiente para começar.

— Eu estava errado! — Ele gemeu ficando de joelhos. — Eu estava errado!

— Não estou aqui para ouvir seu arrependimento falso — ela se abaixou diante dele segurando o queixo dele levemente com claro sinal de nojo —, você só fica com medo quando está do lado que apanha, mas é muito corajoso quando está do lado que bate, não é mesmo?

— Não vou fazer de novo, eu juro...

— Claro que não vai. Eu vou me certificar disso.

Yue Shen esboçou um sorriso diabólico, pegou uma cadeira com hastes de metal e sentou-o nela amarrando-o pelos pulsos e tornozelos com força. Depois, tirou a gravata que ele usava e amordaçou-o com ela, usou tanta força no aperto que os cantos da boca de Shuo Gang quase se partiram.

— Vamos ver se com uma dose do seu próprio veneno você aprende a sensação de ser o lado fraco da corda.

E, erguendo a mão, mostrou a Shuo Gang o que ele mais temia: uma agulha. Ela quase riu quando, apavorado, ele começou a negar com a cabeça, lembrou das lágrimas no rosto de Yan Da enquanto contava a Shi o horror pelo qual havia passado, não havia qualquer resquício de compaixão em Yue Shen quando ela ergueu a manga do paletó e enfiou na pele dele, o grito de Shuo Gang foi abafado pela mordaça.

— Essa é só a primeira de outras 15 que tenho aqui e considere-se sortudo por não serem 72. — Ela segurou o rosto dele com força. — Ouça com muita atenção o que vou dizer agora se não quiser ver meu rosto de novo, fique longe de Yan Da e de Ying Kong Shi, eu cuidei dos seus coleguinhas, você achou que ia repetir o que fez com Peng Yan? Não conte com isso. Se eu souber que você ficou a um metro que seja de qualquer um dos dois, e acredite eu vou saber, não vão ser apenas 16 agulhas no nosso próximo encontro.

Um novo grito abafado encheu a sala quando ela puxou a segunda agulha e enfiou com força no braço dele, assim prosseguiu com toda calma até que as 16 agulhas estivessem alojadas nos braços, pernas e abdômen do príncipe do fogo que se contorcia em agonia, o suor gelado escorrendo pelo seu rosto enquanto Yue Shen nem tinha cansado. Ficando de pé, tranquila e graciosa como uma borboleta, ela fechou o sobretudo com delicadeza e, só depois, desamarrou o príncipe sem qualquer pressa.

Ela tirou a mordaça dele e amarrou de novo a gravata em torno do seu pescoço com um sorriso malicioso no rosto, Shuo Gang estava trêmulo, aterrorizado e gemia de dor. Yue Shen aproximou o rosto dele e falou bem próximo ao seu ouvido.

— Qual é a sensação de ser uma almofada de agulhas? Lembre-se bem dela sempre que olhar para sua irmã, ela suportou sua tortura por horas e eu só te presenteei com uma amostra grátis. Acho que a vergonha não vai te permitir espalhar o meu feito, afinal, eu sou uma mulher, não é mesmo? —Deu uma leve risada. — Mas caso decida contar isso a alguém eu vou ficar muito feliz, assim vou ter uma excelente desculpa para o nosso próximo encontro.

Dando um leve tapinha no rosto dele, Yue Shen virou as costas e saiu caminhado altiva, destrancou a porta e deixou o prédio da Huo Enterprises como uma sombra cujo único resquício da realidade era o mimado e arrogante príncipe aterrorizado que ficava para trás.

*saber pelas mãos de quem o veado morreria — usado quando, numa batalha entre duas pessoas muito poderosas é impossível precisar quem é mais poderosa e vencerá. Essa referência é da novel Mo Dao Zushi.

*Róngyù bīng [荣誉冰] — Honra de Gelo

*Dú fēng [毒风] — Vento venenoso. A espada de Yue Shen, até onde sei e me lembro, não tem nome, eu nomeei por conta própria.

*Xiānnǚ sēnlín [仙女森林] — Floresta das fadas