Love as Sakura | 爱如樱

22 第20章 Confiança e Lágrimas


Huang Tuo não largou Shi até que ele se acalmasse completamente. O médico permaneceu dando tapinhas confortadores e murmurando palavras de consolo para o amigo enquanto, do lado de fora do quarto, seu rei e sua futura esposa conversavam. Ka Suo estava aliviado pelo curso dos seus planos estar caminhando bem, Huang Tuo imaginava que ele não estava mais preocupado com o irmão porque confiava que Yue Shen era capaz de protege-lo com eficiência — ainda que isso deixasse o médico preocupado — e o próprio Huang Tuo não duvidava disso, ela era a assassina mais eficiente que ele já vira e a guerreira mais poderosa.

Desde o início, o curandeiro não entendia a escolha do monarca em retardar as memórias de Yan Da, mas incitar as do irmão a virem à tona, não importava de que ângulo ele olhasse aquilo, parecia cruel da parte de Ka Suo submeter Ying Kong Shi àquele sofrimento. De algum modo, talvez o rei do gelo imaginasse que fazendo o irmão encarar as consequências das suas escolhas passadas ele seria capaz de agir de modo diferente agora. Mas vendo-o daquela forma, Huang Tuo se perguntava se a verdade não seria demais pra ele.

— Eu sei que dói. — Disse baixinho. — Mas vai ficar tudo bem no final, você vai ver.

Shi estava tão atordoado pela dor que sequer percebeu o médico falando como se soubesse o que ele estava passando. O som da chuva continuava violento do lado de fora como uma sinfonia fúnebre para o canto doloroso de sua alma. Ele soluçou ao ponto de sufocar — e o curandeiro teve de lembra-lo a manter os pulmões com ar —, chorou pelo que pareceram horas e, quando finalmente conseguiu se acalmar mais, agradeceu por Huang Tuo permanecer sério e não dizer nada que lhe deixasse constrangido com sua demonstração de emoção tão intensa. Era raro ver o médico daquela forma, se por um lado Shi sentia falta do carisma brincalhão dele nesses momentos, por outro era bom ver que podia confiar nele para situações onde o riso não tinha espaço. Ainda que amasse Ka Suo, o curandeiro vinha em segundo lugar como um irmão para Shi.

— Aqui, beba um pouco. — Ele passou um copo com água para ele. — Se sente um pouco melhor?

Shi anuiu.

— Lembra de alguma coisa antes de desmaiar?

— Senti uma dor muito forte no peito, então vieram algumas imagens... — Ele olhava o copo nas mãos enquanto tentava ordenar os acontecimentos. — Foi quando ficou difícil respirar e eu apaguei.

— Fisicamente você está bem. Yue Shen me disse o que houve em frente à empresa, o choque pode ter desencadeado uma reação de estresse e você teve um ataque de pânico, é normal.

— Meu irmão te contou que ela era minha guarda-costas?

— Não com essas palavras. — Sorriu. — Só me disse que tinha alguém de olho em você, por precaução.

— Por que ele colocaria alguém de olho em mim, você sabe?

— Shi, seu irmão sabe o que faz. — Huang Tuo segurou o ombro dele. — Há coisas que não podemos contar, só esperamos que você confie em nós até estar pronto.

— Pronto para quê? — A voz de Shi soou incisiva.

— Para lidar com a verdade. — Respondeu o médico. — Nesse momento, você não está e não sabe nem metade dela ainda.

— Huang Tuo, o que está acontecendo?

— Eu não posso te dizer. Só quero que saiba de uma coisa com toda a certeza: pode contar comigo. Desde o início eu estou do seu lado e permanecerei do seu lado até o fim, hǎo bù hǎo?

O jovem príncipe do gelo estava confuso e apreensivo, seu coração se enchia de medo das coisas que seu irmão estava escondendo, ele pensou em várias possibilidades desde envolvimento com a máfia — que descartou por causa das flechas, quem no mundo ainda usava flechas contra pessoas?! Não a máfia, certamente. —, problemas com drogas, jogos, extorsão, mas nada parecia ser possível para o todo certinho Ka Suo que ainda era controlado pelos pais. Ainda assim, ele nunca teve qualquer motivo para desconfiar do irmão, tampouco de Huang Tuo que sempre o tratou como um irmão mais novo. Havia perguntas que ele queria fazer, mas estava disposto a ser paciente, mesmo que isso exigisse muito dele.

Hǎo. — Anuiu. — Wǒ xìnrèn nǐ.*

— Obrigado. — O curandeiro lhe ofereceu um sorriso sincero. — Vou assinar a sua alta.

Ele estava quase na porta quando a voz de Shi o deteve.

— Eu ouvi você chamar a senhorita Yue pelo nome?

— Quando?

Huang Tuo sorriu e piscou para ele antes de sair.

※ ※ ※

Aquele médico é escorregadio como um sabonete! Pensou Shi enquanto voltava para sua casa, seguido de perto por Yue Shen no carro de trás. Ainda estava se acostumando com a ideia de ter um guarda-costas, mas não contestou a decisão do irmão — grande parte por causa da influência do pedido de Huang Tuo.

Ele acenou para ela antes do carro entrar no estacionamento interno. Ficaram acordados de que Ka Suo dividiria o apartamento com ele e Yue Shen o encontraria na empresa pela manhã quando chegasse para trabalhar, permanecendo com ele ao longo do dia e levando-o de volta para casa no fim da tarde, dessa forma Shi não sentiria sua privacidade invadida e ela poderia ter um pouco da própria liberdade — implícito nas entrelinhas estava seu tempo livre para ver Huang Tuo, mas nenhum dos outros sabia disso ainda.

O jovem príncipe cumprimentou o porteiro na guarita e correu para fugir da chuva, atravessando as portas de vidro do saguão. Por sorte, não se atrasara para o compromisso com Yan Da, era impossível evitar o nervosismo que girava seu estômago, tanto quanto entender a razão de se sentir como um adolescente na puberdade prestes a encontrar com a primeira namorada. Suspirou, estava começando a se tornar ridículo aquilo. Contudo, foi apenas ver a delicada figura de Yan Da encostada na parede ao lado do elevador que seu coração subiu pela traqueia bloqueando a respiração. Maldição, como ela faz isso?! Ele apressou o passo na direção dela imaginando se havia acontecido algo grave.

— Yan Da, você não devia estar de repouso agora? — Quis saber vendo a palidez mortal no rosto dela. — O que aconteceu?

Ela não respondeu, seus olhos avaliaram Shi por algum tempo, havia hesitação e medo neles, ele estava prestes a reforçar a pergunta quando ela cobriu a pouca distância que os separava e o abraçou. O jovem príncipe do gelo ficou em choque, sem saber se deveria fechar seus braços em torno dela ou permanecer imóvel como uma estátua. Quando Pian Feng lhe dissera que aquele não era um dia fácil para Yan Da, ele imaginou a reação de pessoas em dias nublados, uma melancolia amena, mas ela parecia realmente deprimida naquele instante. Com o coração apertado, ele envolveu-a em seus braços rezando para que seu coração se comportasse e não denunciasse sua euforia.

"Yan Da não é uma pessoa simples. Ela tem muitas feridas não cicatrizadas. Você é capaz de entender isso?" A voz de Chao Ya reverberou na mente dele, as lágrimas de Yan Da começavam a fazer sua camisa grudar no corpo, ele murmurou uma promessa de que tudo ficaria bem — mesmo que ele não soubesse se era verdade, faria o possível para tornar aquilo real. "Ela usa uma máscara todos os dias para dizer que é forte e consegue fazer qualquer coisa, quando na verdade está muito assustada por dentro." Repassou na sua mente todos os momentos desde que conheceu Yan Da, a maneira como ela se portava e o modo como parecia mantê-lo sempre a uma distância segura, uma pessoa de fora como ele nunca diria que ela estava segurando um tanto de sofrimento dentro de si.

Por sua sugestão, eles entraram no elevador e foram para o apartamento dele. Shi presumiu que, se ela estava fora de casa, algo deveria ter acontecido e ela não queria voltar, mas não fez perguntas, sabia que ela lhe diria se desejasse. Yan Da se acomodou no sofá grande abraçando uma das almofadas pretas, ele depositou as coisas na ilha da cozinha e serviu um pouco de chá para que ela se acalmasse. Sentando ao lado dela, ainda sem questionamentos, arriscou segurar a mão dela fazendo um carinho suave e deixando-a livre para chorar, gritar, bater nele ou que desejasse. Mas ela apenas bebeu o chá em um silêncio melancólico e fechou os dedos em torno da mão dele.

Lembrando dela pela manhã, quando passara em seu apartamento, ela parecia invicta. Sorria, apesar de estar um pouco abatida, conversou normalmente como uma anfitriã recebendo um convidado de honra. Foi gentil e educada, ele só sabia que era um mau dia por causa de Pian Feng. Olhando-a naquele momento, Shi sentiu-se tolo e impotente. Não sabia por que estava sonhando com ela tão frequentemente, ou mesmo a razão de sentir tanto a falta dela mesmo quando estavam no mesmo cômodo como agora. Seus pensamentos e sentimentos o estavam enlouquecendo. Por um longo tempo, o único som no apartamento eram as grossas gotas de chuva martelando o vidro das janelas e os trovões esporádicos que faziam o corpo dela estremecer.

— Obrigada. — Disse Yan Da, quebrando o silêncio e depositando a xícara na mesa de centro.

— Se sente melhor?

— Você quer ouvir a verdade ou a resposta padrão? — Ela sorriu.

— Sempre prefiro ouvir a verdade, mesmo quando sei que não vou gostar dela.

— Pois bem — anuiu — a verdade é que não acho que tenha como melhorar disto.

Shi levantou por um momento e voltou com a caixa e o buquê, deu a ela as flores e colocou a caixa diante dela na mesa de centro.

— Dizem que flores são confidentes silenciosas que crescem conforme o amor de seus cultivadores. — Contou. — Eu não sei pelo que você está passando, mas se não puder me contar, conte a elas sob a garantia de que seu segredo nunca será exposto. E, também dizem que nada é capaz de consolar tão bem uma mulher quanto chocolate, eu não sei se essa regra se aplica a você, mas decidi trazer o bolo com mais chocolate que encontrei na padaria.

Yan Da sorriu, tocada pelo gesto. Em muitos aspectos, Ying Kong Shi agia como Pian Feng, sempre muito atencioso e gentil. Entretanto, ao contrário do seu amigo de longa data, ela notava a forma como ele a olhava, mas a parte racional da sua mente lhe dizia para ignorar, mantê-lo longe pelo bem dele mesmo e do seu próprio coração. Ainda assim, Yan Da sentia uma inclinação tão forte por ele que era cada encontro mais difícil dar ouvidos aos alertas do seu inconsciente. Ela queria confiar em Shi, ele já havia dado diversas mostras de seu interesse e compromisso em aproximar-se dela, então por que era tão difícil deixa-lo fazer parte da sua vida?

Por que ela tinha tanto medo de deixá-lo entrar?

— Posso fazer uma pergunta?

— Quantas quiser. — Ele virou de frente para ela.

— Por que orquídeas brancas?

Shi ficou vermelho e Yan Da fez uma nota mental de procurar aquilo na internet na primeira oportunidade. Ele desviou o olhar como se o peso da expressão dela lhe tirasse a coragem de responder a pergunta. Yan Da estava começando a se interessar pelo significado das flores, se elas passavam uma mensagem e Shi estava tentando lhe dizer algo através delas — embora as rosas vermelhas fossem declaradamente fortes — queria saber como responder à altura.

— Hmm... orquídeas são flores raras e muito graciosas. — Começou ele, ainda muito corado. — As orquídeas brancas, em especial, representam a paz, a pureza e a eternidade. Além do mais, figuram entre as flores mais belas, combinam com você.

Deveria haver algo mais, claro. A omissão, no entanto, era desconhecida por Yan Da que permanecia apenas na desconfiança, Shi, por sua vez, se via incapaz de dizer o contraste com as flores da manhã, as orquídeas brancas — muito comuns em casamentos — simbolizavam também o amor puro. Com aquelas flores, ele esperava dizer a extensão dos seus sentimentos, não apenas pautado no desejo e paixão enlouquecedores, mas em um sentimento fundamentado na sinceridade e no respeito. Yan Da aproximou as flores do rosto e aspirou o perfume, era muito agradável.

— Sabe de uma coisa, Ying Kong Shi — ela ergueu o olhar para ele —, é sempre muito difícil interpretar você. Nunca sei se está me elogiando ou flertando comigo.

Ambas as coisas. Admitiu Shi em pensamento, o coração acelerando no peito. E parece que não sou muito bom em nenhuma delas. Parte de si gostaria de contar na íntegra a Yan Da como se sentia em relação a ela, sobre aquela saudade incompreensível que sentia e o desejo insano de estar sempre ao lado dela. Mas não achava que existiriam palavras capazes de externar tudo aquilo. Ele queria que ela confiasse nele.

Yan Da olhou o relógio de pulso, fazia apenas dez minutos desde que deixara o apartamento sob a promessa de voltar em meia hora. Contudo, conhecendo a personalidade de Pian Feng e o gênio de Chao Ya, talvez pudesse levar mais algum tempo. Ela pousou o bonito buquê ao seu lado no sofá e respirou fundo, estava arriscando demais ao contar aquilo para Ying Kong Shi, uma parte do seu cérebro lhe dizia que podia estar sendo precipitada, mesmo tendo aquele sentimento de conhecê-lo há muito tempo, a realidade era muito menor, semanas apenas. Ainda assim, o peso no coração da princesa do fogo era muito grande naquele instante, o dia em si era pesado demais para ela e, mesmo amando Chao Ya e Pian Feng, ela desejava desesperadamente acreditar que tinha mais alguém no mundo a quem recorrer, alguém sempre perto.

Além disso, contar a ele aquela verdade era também uma forma de protegê-lo. Yan Da sabia o risco que corria de nunca mais vê-lo ao dizer seu segredo, mas seria desonesto da sua parte mantê-lo e acabar vivendo o mesmo pesadelo outra vez. Ela não suportaria passar por aquilo de novo. E não era justo com Shi deixa-lo vendado quando claramente ele demonstrava certo interesse nela — em qual intensidade ela ainda não estava totalmente certa. Afugentando o peso no seu coração, ela fez o melhor que pôde para aparentar calma, já se constrangera demais chorando daquele jeito na frente dele. Não podia ser fraca.

— Acho melhor pegar dois pratos e alguns talheres... — pediu — o que vou contar é um pouco comprido e vamos mesmo precisar do consolo desse bolo.

※ ※ ※

Pian Feng ficou parado diante da porta do quarto de hóspedes por longo tempo. Por vezes, tentou bater, mas os nós dos dedos nunca encontravam a madeira, chamar não era uma opção e entrar parecia difícil demais. Sempre que lembrava a sua ousadia em beijar os lábios da rainha da tribo xamânica toda a sua lendária coragem se tornava um grão de mostarda. Com um suspiro, ele deu meia volta e sentou numa poltrona da sala olhando as sacolas de compras na ilha da cozinha, já fazia dez minutos que Yan Da havia saído e ele ainda se via incapaz de dar um passo na direção de Chao Ya mesmo preocupado com o que a mais nova dissera sobre a cantora ter se machucado.

Passando as mãos pelo cabelo, ele se ergueu, frustrado, e se pôs a guardar as compras de maneira metódica, mas dentro dele havia uma ansiedade crescente que o impedia de focar em qualquer outra coisa. Que teria acontecido à musicista para Yan Da dizer que ela se machucara? E mais, estaria tudo bem com Yan Da? Ela parecia pálida quando saiu e ele sabia que aquele dia em particular era muito difícil para ela. Deixando os legumes de lado, ele pegou o celular e telefonou, ela atendeu no segundo toque.

— Fadinha, onde você está? Foi comprar o molho de soja direto do Japão?

Pian ge, estou bem, pare de se preocupar assim. — Tranquilizou-o. — Estou na casa de Ying Kong Shi, apenas um andar acima.

— Argh, de todos os lugares, por que logo aí? — Reclamou. — Ainda não confio nele.

Oh, me desculpe, mas meus outros cem amigos estavam ocupados nesse horário. — Ironizou ela. —Apenas pare de me usar como desculpa e vá logo conversar com a jiejie. Faça isso a tempo de cozinhar os jiaozi*, convidei Ying xiansheng para jantar e não para o café da manhã.

Ele fez uma careta, como ela podia conhecê-lo tão bem? Pian Feng não fazia ideia que a princesa do fogo era tão sagaz, mas também, não a havia conhecido a fundo no passado. Resmungando uma despedida, ele encerrou a chamada e bebeu um copo com água antes de voltar à porta do quarto de hóspedes e, após duas batidinhas, entrar.

Chao Ya estava encostada na cabeceira com as costas apoiadas em vários travesseiros, a mão enfaixada com gases segurava uma xícara com tampa, os cabelos castanhos estavam soltos e seus lindos olhos concentrados em algum ponto na parede à sua frente. Pian Feng hesitou quando, dando dois passos para dentro, avistou o colar de flor de borboleta com sua asa dourada sobre o tapete, o coração do guerreiro do vento pulou uma batida. A musicista não lembrava da sua morte e sua vida anterior eram apenas fragmentos na sua memória, talvez, se ele fingisse não perceber conseguisse desviar a atenção dela.

Um pouco desengonçado, ele caminhou até a cama e segurou a mão enfaixada dela, os olhos de Chao Ya continuaram fixos na parede diante dela. O quarto de hóspedes do apartamento de Yan Da era um tanto simples, as paredes pintadas de um tom discreto de bege e sem adornos, os quadros que havia ali — duas pinturas de Monet — foram escolhidos e pendurados pela cantora. A cama era uma box de solteiro e ficava no centro do quarto sobre um enorme tapete marrom felpudo, ao lado uma mesa de cabeceira com um abajur. Do lado esquerdo, uma saleta com duas poltronas brancas e uma mesinha estava ao lado da enorme janela com vista para o jardim do condomínio. Havia também um banheiro privativo e um armário de sete portas. As luzes eram embutidas em uma cornija que circundava todo o teto, mergulhando o ambiente numa claridade pálida e aconchegante em tons de amarelo e branco.

— O que houve com a sua mão? — Pian Feng perguntou em tom baixo.

Por um instante, Chao Ya não disse nada. Então puxou sua mão para longe de Pian Feng e voltou seu olhar aquoso e acusador na direção dele.

— Creio que você deve saber disso melhor que eu — começou, seu tom de voz era baixo e gélido deixando Pian Feng com um sentimento aziago a respeito das próximas palavras —, mas por mais que pareçam bastante, as penas das suas asas não são iguais.

— Chao Ya...

— O raque das penas direitas são mais dourados que os da esquerda, que pendem mais para um tom de laranja. As cores do vexilo também são mais intensas no lado direito, o cálamo é mais rígido e alongado, por isso elas são mais fortes e por isso você sempre leva os impactos maiores sobre essa asa, porque os danos são menores.

Ele permaneceu em silêncio. Naquele momento, qualquer coisa que dissesse seria usada contra ele, conhecia Chao Ya bem o bastante para saber disso. Com um suspiro, Pian Feng baixou a cabeça.

— Sempre me perguntei como Li Tian Ji havia conseguido atingir você. — Continuou. — Quando Liao Jian me deu o colar antes de morrer, ele não me disse nada, e eu, estúpida, não fiz perguntas.

— Era para ele ter protegido você, mas claro, ele escolheu a saída mais fácil. — Sibilou, com raiva.

— Pian Feng... — a voz de Chao Ya tremulou fazendo o guerreiro fitá-la. — Até meu último suspiro fiquei me culpando. Se eu não tivesse feito aquilo... se eu não o tivesse magoado...

— A culpa de nada é sua, majestade.

— Não me chame assim! — Bradou. — Por que você não consegue entender...

— Entender o que, Chao Ya?! — Exasperou-se, ficando de pé e se afastando dela. — Não está muito claro desde o começo? Você fez sua escolha por ele, eu soube disso no momento que ele conseguiu me derrotar com a única fraqueza que só você conhecia! Não estou te culpando por ter se apaixonado por ele, fui eu quem foi embora e te deixou pra trás ao invés de ter ficado ao seu lado até o fim.

— E por causa disso você decidiu dar sua armadura para ele e ir encontrar a morte, é isso?! — Ela saiu da cama e ficou diante dele. — Pensou que se eu acreditasse que Liao Jian havia me protegido o tempo inteiro eu seria mais feliz?

— Se você tivesse sobrevivido e ele também, não era o que teria feito? — Pian Feng desafiou-a. — Você teria se casado com ele e seguido sua vida como se nada tivesse acontecido.

— Pian Feng, é isso mesmo que você pensa? — O olhar dela era duro. — Essas palavras estão saindo do fundo do seu coração?

Ele se afastou novamente indo em direção à porta do quarto.

— Apenas vamos parar com isso, não vai levar a nada.

Chao Ya segurou-o pelo braço com toda sua força e virou-o de frente para ela, a atadura em sua mão se tingiu de vermelho na palma para espanto de Pian Feng, mas a cantora parecia não sentir a dor. Primeiro, ela lhe deu um tapa no rosto, o choque do guerreiro do vento foi tamanho que ele não conseguiu se mexer, o sangue da mão dela, vazando pela gaze, deixou uma marca vermelha e grudenta no seu rosto, Chao Ya parecia fora de si, o rosto riscado pelas lágrimas, o lábio trêmulo, mesmo sendo menor que ele, Pian Feng nunca duvidou da força ou da coragem dela.

— Por que está fugindo de novo? — Acusou ela, furiosa. — Desde que voltamos tudo que você faz é fugir! Fingindo ser gay, achou que eu não saberia? Que eu não seria capaz de ver através de você? Que nunca notaria a maneira como me olha? Até quando você vai continuar fingindo que não sabe, Pian Feng? Em que momento pretende me encarar de verdade?

— E você? — Rebateu. — Quando vai finalmente escolher um lado e parar de plantar flores e grama?*

Chao Ya riu sem humor.

— Escolher um lado? Estou sem saber se você é cego ou apenas tolo. Nunca houve dois lados, sempre foi você!

— Mas...

— Eu estava presa pelo dever. Confesso que cheguei a sentir algum carinho por Liao Jian, mas nunca foi além disso, carinho. — Revelou. — A minha casa, as criaturas da minha tribo, a minha família, tudo que eu acreditava ser real e depender de mim pesava mais do que meu desejo egoísta de ir embora com você, foi como fui criada, era o que esperavam de mim.

A incredulidade atingiu Pian Feng como um soco no estômago, não conseguia acreditar que Chao Ya estava dizendo aquilo, não depois de tudo que aconteceu no passado, do que ela fez para si mesma e para ele. Como agora, depois de tanto tempo, ela podia dizer que nunca houve dois lados?

— Eu fui fraca e covarde, admito, mas você pode me culpar por pensar no povo da minha tribo? Se a tribo do espírito do vento ainda existisse, você teria me escolhido deixando-os para morrer?

— Por que você contou a Liao Jian a minha fraqueza?

— Aquela foi a coisa mais difícil que já tive que fazer. — Ela baixou a cabeça. — Não tinha a ver apenas com você, era o destino de todo o império da neve em jogo, eu não queria que Liao Jian vencesse você, mas queria que Ying Kong Shi subisse ao trono. — Fez uma pausa analisando a expressão do outro. — Liao Jian era meu noivo, tivesse eu escolha ou não, ele me pediu o segredo como uma prova de lealdade entre nossas tribos, o que mais eu poderia fazer além de concedê-lo?

Pian Feng fechou as mãos em punho, havia tantas coisas passando pela sua mente, imagens de um passado que ainda parecia recente, uma vida na qual ele acreditou com tudo de si para descobrir não ser real. Tanta dor, tanto sofrimento, tanta mágoa... vãs emoções. Mas talvez fosse verdade que aqueles que não amam até perder a sanidade não são dignos de dizer que um dia amaram. Ele era praticamente uma prova da veracidade de tal afirmação. Antes que conseguisse racionalizar uma resposta para a cantora, Chao Ya se adiantou e, ficando na ponta dos pés, pressionou seus macios lábios contra os dele. Foi suave como o pouso de uma libélula, mas suficiente para deixa-lo paralisado pela estupefação.

— Eu já te alertei para não me provocar.

Enlaçando-a pela cintura, Pian Feng puxou-a para junto de si, colando seu corpo ao dela, de início, sua intenção não era muito gentil movido pela mágoa de longo prazo e todo maremoto de emoções que conflitavam dentro de si. Entretanto, quando beijou Chao Ya de verdade, seus modos suavizaram guiados pelo profundo amor que levava em seu coração por ela, ele sabia que em nenhuma circunstância, não importava em que existência fosse, seria capaz de machucá-la ou permitir que ela se ferisse.

Ele esperou que ela resistisse, afastasse-o ofegante e se desculpasse por ter se entregado ao momento. Mas não aconteceu. Ao contrário. Chao Ya envolveu os braços em volta do seu pescoço, os dedos delicados apertando sua pele enquanto abria os lábios permitindo que ele explorasse cada canto da sua boca. Por muito pouco, Pian Feng não perdeu a cabeça, ele passara a vida inteira sonhando com aquele momento e nem mesmo mil vidas conseguiriam superar a plenitude de seu espírito naquele instante, eles se afastaram apenas por um átimo de segundo para tomar ar, mas ele viu nos olhos da cantora um brilho intenso e apaixonado nunca antes permitido.

Os dedos delgados e suaves de Chao Ya deslizaram pelo seu rosto num carinho silencioso e provocante, os olhos flamejantes de desejo enviavam faíscas por todo corpo de Pian Feng, ele acariciou a bochecha dela e suas bocas se procuraram mais uma vez, sedentas e irascíveis como apenas a paixão pode torar alguém. Ele mal se deu conta do momento em que caminharam até a cama e ele pressionou o pequeno corpo da musicista contra o colchão, o coração saltando dentro do peito, ela deslizou os dedos pelos seus cabelos enquanto a outra mão, impaciente, penetrava dentro da sua camisa e afagava os músculos rijos do seu abdome, foi nessa altura que ele se deu conta do que estava prestes a fazer — e do que ela estava pedindo dele. Atordoado, ele se afastou dela certo de, mesmo desejando-a com todo seu ser, sabia que não podia agir daquela maneira, não enquanto não estava claro para si mesmo os próprios sentimentos. Chao Ya olhou-o com tristeza, embora parte de si entendesse a razão de Pian Feng agir daquela forma, ainda lhe doía ser rejeitada daquela maneira.

O guerreiro ficou realmente comovido com as lágrimas que brilhavam nos olhos de Chao Ya, se o que ela dizia era mesmo verdade — e parte dele ainda se recusava a acreditar — então ambos foram tolos. Continuavam sendo. Não obstante, o passado ainda doía como o sangue pulsando sob um hematoma, ele não poderia esquecer tudo com tanta facilidade, era indubitável que mesmo amando um ao outro, Chao Ya ainda havia escolhido Liao Jian no passado. Não havia mais hierarquia para separá-los, os sentimentos permaneciam tão fortes quanto antes, mas Pian Feng não tinha certeza se seria capaz de perdoá-la e tampouco certeza se ela ainda manteria aquela mesma escolha no final.

— Eu preciso de tempo. — Disse baixinho. — Por mais que eu ame você, Chao Ya, essa dor ainda vive em mim, enquanto não conseguir vencê-la, não serei capaz de ver em você alguém além da minha soberana.

Rapidamente, ele deixou o quarto com a respiração agitada. Correu para o banheiro e lavou o rosto várias vezes numa tentativa de retomar a razão e afastar o desejo cego que queimava suas veias.

No quarto, Chao Ya colocou o braço sobre os olhos para impedir, em vão, que as lágrimas caíssem. Uma mistura de humilhação e mágoa oprimindo seu coração.

※ ※ ※

Huang Tuo entrou com a última das malas de Yue Shen — que eram bem menos do que ele esperava para uma mulher. Depois de tudo esclarecido entre eles, o médico não perdeu tempo em pedir que a antiga assassina se juntasse a ele, queria poder vê-la todos os dias antes de dormir e ao acordar, mesmo passando uma boa parte do tempo no hospital enquanto Yue Shen protegia Ying Kong Shi, cada átimo de liberdade que ambos tivessem ele desejava passar ao lado dela e a bela envenenadora concordava com isso.

Ela lhe ofereceu um sorriso meigo quando ele colocou a bagagem dentro do quarto onde ela já arrumava as roupas — e armas — dentro do armário. Morar juntos seria uma descoberta mútua, mesmo tendo convivido por algum tempo não sabiam praticamente nada um do outro, eram dois estranhos apaixonados aprendendo sobre si mesmos e sobre aquele sentimento que os unia. Contudo, não importava o que tivesse de suportar ou aprender, Huang Tuo estava disposto a tudo para ficar ao lado dela, esperara demais.

Muitas vezes, quando a olhava, ainda não conseguia acreditar que estavam juntos, que Yue Shen dissera, com todas as letras, que o amava. Se precisasse passar toda aquela existência incerta pedindo perdão pela sua escolha no passado — a qual faria novamente se isso garantisse que ela vivesse —, ele não se importava. Só queria continuar tendo a permissão de amá-la sem obstáculos e mesmo não desejando forçar a situação, dentro de si ele alimentava a esperança de tudo se resolver entre Shi e Yan Da para poder continuar com Yue Shen para o sempre que aquela existência lhe permitisse.

— Você quer comer alguma coisa? — Ela perguntou a ele.

— Tenho um prato em mente. — Huang Tuo sorriu maliciosamente.

Yue Shen riu, para surpresa dele, e levantou do seu assento deixando as coisas de lado e cobrindo a pouca distância entre eles, passou os braços pelo pescoço dele e deu-lhe um selinho.

— Você é insaciável. — Provocou-o com uma voz baixa.

— Eu esperei mais de quatro mil anos, não me culpe por ser grudento. — Fez biquinho.

— Nem que quisesse, você é adorável quando está assim. — Ela deu uma risadinha e o empurrou na cama. — Vou alimentar você, então.

Huang Tuo não teve tempo de responder, os lábios dela capturaram os seus e logo as roupas que vestiam juntaram-se àquelas que estavam sendo arrumadas. O jovem casal cobriu-se pele a pele para sanar o longo tempo de espera.

— Agora acho que quero comer algo. — Riu Huang Tuo.

— Diga o que você quer, me tornei proficiente na cozinha desses mortais. — Ela deslizava o dedo em círculos no peito despido dele.

— Hmm... — Ele pensou um pouco. — Frango xadrez?

Yue Shen se inclinou um pouco e beijou os lábios dele sorrindo docemente.

— Deixa comigo.

— Arrumo o resto das suas roupas para você.

Ela vestiu algo fácil e deixou no quarto um satisfeito e feliz Huang Tuo no seu conto de fadas particular. Yue Shen ainda guardava dentro de si alguma preocupação, por mais que o jovem príncipe e a princesa do fogo mostrassem algum progresso positivo, tudo estava sendo, de certa forma, fácil demais. O instinto da assassina lhe alertava que aquela paz mantida com o suor de todos eles estava rumando para um precipício.

Ainda assim, não perderia mais tempo pensando no que poderia dar errado. Se fosse mesmo seu destino finalmente partir, ela não queria ter nenhum arrependimento e, dessa vez, garantiria que sua mão estivesse segurando a de Huang Tuo firmemente. Yue Shen não era muito boa em demonstrar ou admitir sentimentos ou em relações interpessoais, mas mudaria isso por ele — e por si mesma —, não pediria mais perdão a ninguém por ser feliz.

※ ※ ※

Ying Kong Shi colocou os pratos e os talheres na mesa diante de Yan Da que arrumava as orquídeas dentro de um bonito vaso emprestado. Ele estava curioso quanto ao que ela prometera lhe contar, imaginava que seria algo relacionado à Peng Peng, por quem ela tanto chamava — e chorava naquele dia —, uma parte dele acreditava que se soubesse mais sobre aquela pessoa poderia descobrir o que ele significava para Yan Da e isso abrandaria o sabor amargo e ácido do vinagre que ele bebia desde que a ouvira chama-lo pela primeira vez.

— Hmm — ela olhou uma mensagem que havia chegado em seu celular — acho que não vamos ter tanto tempo quanto planejei, Pian ge começou a cozinhar, então talvez tenhamos que terminar essa conversa depois. Você está livre...

— Quando você quiser e precisar. — Prontificou-se ele, ansioso demais, arrancando uma risada baixa dela.

— Pois muito bem. — Yan Da anuiu. — Ainda não devo me esforçar em demasia, mas ligarei para o doutor Huang e verei se ele me permite uma pequena viagem. Gostaria que fosse a um lugar comigo. Tudo bem amanhã?

— Claro. Sem qualquer inconveniente.

Ele conseguiria adiar à ida obrigatória para casa em algumas horas, com certeza. Yan Da pareceu hesitante por um momento, a expressão do seu rosto voltou a tornar-se nublada e ela respirou fundo, unindo as mãos com a cabeça baixa.

— O que eu vou contar a você...

— Nunca vai sair daqui, eu lhe asseguro. — Completou. — Yan Da, sei que é difícil acreditar em mim dado o pouco tempo que nos conhecemos, mesmo eu acho uma loucura, mas eu te garanto, nunca vou trair a sua confiança. Se ainda não dei mostras suficientes da minha sinceridade, apenas me diga o que posso fazer para que acredite em mim.

Ela ergueu a cabeça e esboçou um fraco sorriso. Estava arriscando demais, sabia, mas daria aquele voto de confiança a Shi, era sua última tentativa de se conectar a alguém. A memória dele parando o braço de Shuo Gang quando este estava prestes a estapeá-la foi o momento em que ela decidiu que queria lhe contar a verdade, porque apenas uma pessoa fizera o mesmo por ela. E era o medo de perder essa nova pessoa que lhe levava a correr aquele risco. Os olhos de Yan Da estavam brilhantes de lágrimas que ela retia bravamente quando o olhou.

— Vou contar para você sobre a pessoa mais importante da minha vida. —Começou e Shi se recostou no sofá. — O nome dele era Peng Yan...

Notas:

*Wǒ xìnrèn nǐ [我信任你] — Eu confio em você

*Jiaozi [饺子] — Também conhecido como guioza é um prato típico da culinária chinesa que se difundiu para a culinária japonesa e do resto da Ásia. Consiste tipicamente de um recheio de carne moída e/ou de legumes dentro de um fino invólucro de massa, que é então selado através da pressão em suas extremidades e cozido ou frito.

*Plantar flores e grama — Brincar com os sentimentos dos outros.