Love as Sakura | 爱如樱

2 第2章 O Sacrifício de Ka Suo, a lótus escarlate


Com a derrota de Huo Yi, Ka Suo ficou gravemente ferido e caiu em um sono profundo. Ele havia pedido a seu irmão, Shi, que assumisse o trono da cidade Ren e cuidasse de Li Luo e Lan Shang, mas o jovem príncipe tinha seus próprios planos.

Quando a alma de Yan Da se dissolveu em fuligem flutuando no ar como fogos de artifício, ele enterrou seu corpo sob a enorme cerejeira da floresta. A mesma onde Ka Suo lhe presenteou com a flauta, aquela que nunca deixava de florescer não importava a passagem do tempo. Por ter sido incapaz de responder a pergunta dela, Shi julgou ser aquilo a única coisa que podia fazer para retribuir seu sentimento. Seu coração ainda tinha um dever para com seu irmão.

Os resquícios da sangrenta batalha eram como uma mancha cancerígena por toda a cidade Ren. Pessoas feridas, corpos espalhados inertes como bonecos macabros, nada restava àquelas pessoas cujo rei havia adormecido com a alma fragmentada e seu antecessor, junto com os demais filhos, estavam todos mortos. O próprio Shi não tinha mais nada a perder. Lian Ji estava morta, Yan Da também se fora, a única pessoa naquele mundo que nutria o mínimo amor por ele — e por quem ele faria qualquer coisa — era Ka Suo. Salvar seu irmão vinha antes de tudo, incluindo Yan Da.

Parte dele se sentia culpado por dispender algum tempo para cuidar do corpo dela, mas diante de tudo que a princesa havia feito por ele, era impossível que Shi largasse ali seu corpo por mais que seu coração urgisse pelo irmão. Todos os lideres das tribos morreram e apenas Xin Jiu remanescia ainda que muito machucado. O jovem príncipe estava satisfeito, o astrólogo era o único que poderia auxiliar Ka Suo em seu reinado.

A neve caía sobre a cidade Ren, acentuando o silêncio sorumbático que se espalhava por todos os lugares. No alto da torre leste do castelo de gelo, Li Luo e Lan Shang vigiavam o sono do marido com devotada melancolia. Ao longe, nas montanhas do Mar de Gelo, um pássaro da neve se chocava contra as pedras e seu sangue vertia criando rubros cristais de gelo. No instante dado de sua morte, Ka Suo abriu os olhos.

※ ※ ※

"Ge, por favor, seja livre." A voz de Shi ecoava nas paredes da mente de Ka Suo como um lembrete sombrio da ausência do irmão e era como se uma parte dele mesmo faltasse. Não importava o quanto amasse Li Luo ou fosse amado por Lan Shang, sem Shi, sua vida permanecia solitária e sem sentido. Havia pedido inúmeras vezes a Xin Jiu que encontrasse seu irmão, mas este lhe dizia que as estrelas de Shi haviam desaparecido e era impossível localizá-lo.

A verdade é que Xin Jiu, assim como Feng Tian, sabiam que o preço para manter o rei vivo era o sacrifício de Shi. Por isso, Xin Jiu buscava dia e noite, sem descanso, uma forma de interromper o curso da roda do destino e, assim, libertar os irmãos do curso do destino. Ele pesquisou na biblioteca dos astrólogos e na enorme biblioteca da cidade Ren. Enquanto isso, todos no reino do gelo se empenhavam em manter o segredo de Ka Suo que reconstruíra a cidade e renovava os líderes das tribos.

Porém, como era de se esperar, um dia a verdade veio à tona. Em uma ida ao Mar de Gelo, Ka Suo se deparou com a visão de um pássaro de neve chocando-se contra a rocha, o sangue escorria pelas pedras e formava cristais de gelo carmesim, imaginou Shi morrendo repetidas vezes e recordou-se do sonho que Xin Jiu lhe deu na primeira vez que ele matou seu irmão. Sua mente, contudo, se recusava a crer que aquilo era verdade e o silêncio enlutado que cobria toda a cidade Ren desde o fim da guerra foi quebrado pelo grito do seu rei chamando em desespero seu precioso irmão.

De volta ao palácio, Ka Suo convocou Xin Jiu sem demora. O astrólogo se apresentou diante do rei com uma ideia do motivo de ter sido chamado.

— Xin Jiu, você não pode mesmo localizar Shi? — Indagou Ka Suo.

— Meu rei, a estrela do jovem príncipe não é vista no céu. — Respondeu Xin Jiu. — Talvez por sua majestade e o jovem príncipe ainda estarem presos à roda do destino, o príncipe Shi tenha cumprido sua sina.

— Xin Jiu, durante todos esses anos você foi meu precioso amigo. — Continuou o rei, em tom sereno. — Confiei em você sem questionamentos. Diga-me a verdade, Shi é aquele pássaro de neve no mar de gelo.

— O jovem príncipe usa sua vida para mantê-lo vivo, meu rei. É o preço a pagar para a roda do destino. — Confessou o astrólogo. Ka Suo se pôs de pé, a indignação expressa em seu rosto. — Porém — Xin Jiu apressou-se em completar antes que seu rei se tornasse imprudente. — Estive todos esses anos em busca de uma maneira de libertá-los do destino imposto. Encontrei uma forma, meu rei.

A expressão de Ka Suo suavizou e ele voltou a sentar-se em seu trono. Dispensou os guardas que ali estavam e também Li Luo que sentava-se ao seu lado. Sozinho com Xin Jiu, após garantir que ninguém ouvia, ele deu ordem para que o astrólogo prosseguisse.

— A Roda do Destino foi ativada no momento que Lian Ji traiu o clã das sereias e concebeu Yin Kong Shi fazendo-o se passar por um príncipe do gelo, os sete santos sabiam disso e por essa razão vetaram a ascensão do jovem príncipe ao trono. — Explicou. — Porém, a lótus escarlate pode reverter isso e libertá-los desse destino onde um precisa morrer para que o outro sobreviva.

— Qual é o preço? — Perguntou Ka Suo.

— Meu rei... — Xin Jiu se curvou com a mão em punho no peito e manteve a cabeça baixa — você teria que sacrificar seu trono, metade da sua essência e todo o reino do gelo.

— Faça os preparativos. — Ordenou Ka Suo.

— Mas majestade, está disposto a sacrificar tudo pelo que seu irmão lutou para lhe dar? — Quis saber o astrólogo.

— A Cidade Ren nunca existiu de verdade. — Retrucou o rei. — Uma cidade de fantasia, com um rei de fachada. Se eu não posso ter Shi ao meu lado, qual a razão de continuar essa farsa? Eu nunca serei feliz.

※ ※ ※

Ka Suo fez uma longa viagem até a montanha Huan Xue na qual havia colocado a lótus escarlate. Por sorte ele mesmo não a havia destruído séculos atrás, agora ela finalmente poria um fim ao sofrimento do seu precioso irmão. Se Shi alcançasse a felicidade, Ka Suo não se importava de perder tudo, seu propósito de vida desde o começo sempre foi a felicidade do irmão. Mesmo sua liberdade perdia o sentido se Shi não pudesse viver e, enquanto tivesse aquela coroa pesando em sua cabeça, mesmo numa cidade de fantasia, Ka Suo sabia que nunca seria livre.

O lugar escolhido foi o Monte Luo Ying, um lugar sagrado na montanha da neve mágica e onde cresciam as cerejeiras. O mesmo lugar onde, centenas de anos atrás, Shi sepultou o corpo de Yan Da. Ka Suo fez uma magia com a mão e a lótus escarlate surgiu pairando alguns centímetros acima de sua palma, ele a entregou a Xin Jiu que, junto com seu cajado, começou a entoar um feitiço tão antigo quanto o próprio tempo.

Shi, as flores de cerejeira voam no céu da colina espalhando seu cheiro adocicado no ar, e de repente é como se você estivesse aqui. Por todos esses anos eu te procurei, incansável, por todas as tribos e todos os recantos do mundo mortal. Que me resta, Shi, além de você? Nem mesmo meu amor por Li Luo é capaz de suprimir o vazio que a sua ausência abre no meu coração a cada segundo. Queria ver o seu sorriso mais uma vez, carregá-lo nos meus ombros como fazia quando você era criança, protegê-lo com um escudo quando a neve caísse apenas para ouvi-lo reclamar comigo. Queria tocar aquela canção outra vez com a esperança que você respondesse...

O meu mundo não pode continuar sem você porque você é meu mundo, Shi. E a minha existência não vale o seu sacrifício. Durante toda a minha vida eu falhei em protegê-lo, você sempre se mostrou mais forte que eu. Me perdoe por não ter sido o irmão que você merecia, espero que em uma outra vida você tenha a felicidade que merece.

Ka Suo fitou o céu azul de onde a neve brotava como pequenos algodões do mundo mortal. Ele não usou um escudo para impedir os fractais gelados de tocarem sua pele. Fechando os olhos ele pensou no pequeno Shi correndo pela floresta, derrubando as flores de cerejeira com sua magia e fazendo-as flutuarem no ar como os flocos de neve que agora caíam. Shi que sempre o amou de forma incondicional.

Uma dor muito profunda penetrou pela pele de Ka Suo, mas ele a suportou sem esboçar qualquer som. As palavras murmuradas por Xin Jiu pareciam elevar-se em crescente dentro da sua cabeça, ecoando nas paredes de sua mente como um mantra. Ele sentia a magia envolvendo-o como uma corrente cada vez mais apertada, a memória de Shi se tornando mais vívida conforme ele sentia sua alma se rompendo em milhões de pedaços. Recordou-se do momento que atravessou Shi com a sua espada ao descobrir que ele havia sido o causador da morte de Lan Shang. Como se arrependia. Como sempre se arrependeu. Será que havia dito vezes suficientes o quanto o amava?

Seu maior desejo era que eu fosse livre. Eu desejo o mesmo agora, Shi...

O mundo foi escurecendo aos poucos e a neve ao seu redor desaparecia devagar conforme o manto negro cobria a colina nevada e as flores de cerejeira. As palavras de Xin Jiu saltavam no ar, mas agora soavam distantes. Ka Suo esboçou um último sorriso.

Voe livremente e se permita ser feliz.