Love as Sakura | 爱如樱

21 第19章 Me segure em seus braços


Chao Ya colocou as chaves no aparador e a bolsa sobre o sofá. Sentia dor de cabeça, mas antes de tomar qualquer analgésico queria checar se Yan Da estava bem. Mais cedo, Pian Feng havia mandado uma mensagem toda em caixa alta dizendo que "YAN DA NÃO ME LIGA HÁ 20 MINUTOS, VOCÊ JÁ ESTÁ EM CASA?!". Com um suspiro, a cantora voltou o mais depressa possível, diante das circunstâncias era natural que todos se sentissem preocupados com o casal do qual suas vidas dependiam e agora estava tão perto, não podiam arriscar perder tudo.

Entrando no quarto cautelosamente, ela viu que a princesa do fogo dormia, ao seu lado, espalhado na cama, estavam várias fotos de quem ela imaginava ser Peng Peng, havia também outras coisas como tickets, canhotos de ingresso e uma caixinha de madeira muito bonita que, mesmo sendo amiga de Yan Da a um tempo considerável, ela não tinha visto ainda. Abaixando-se ao lado dela, Chao Ya notou o inchaço no seu rosto bonito e soube que ela havia chorado por horas. Mandou uma mensagem rápida para Pian Feng acalmando-o e começou a guardar tudo de volta na caixinha de modo que Yan Da pudesse ficar mais confortável.

Chao Ya se preocupava com Yan Da. A vida que ela levava naquele mundo não era muito diferente daquela no reino do fogo, ela sempre fora a mais forte dos filhos de Huo Yi, mas era sempre subestimada ou escanteada pelo simples fato de ser mulher. Mesmo salvando a vida do pai, ele ainda escolhera sacrificá-la para atingir Ying Kong Shi e este, sabendo dos sentimentos dela, ainda escolheu Ka Suo e condenou-a a uma morte dolorosa e uma existência de tristezas. Mesmo agora, diante da chance de recomeçar, a princesa do fogo era empurrada na direção do sofrimento e mesmo fingindo que tudo estava bem, Chao Ya sabia do seu coração cansado e ferido.

Seus dedos pousaram em um pedaço de papel com vincos profundos de dobra, ela o pegou e olhou outra vez para se certificar que a amiga dormia. Abrindo, a cantora encarou as palavras em uma letra bonita.

"Sabe por que seu sorriso é o mais bonito de todo o país? Por que ele é o mais raro. Sorria mais. Sorria para mim!"

Havia o desenho de um rostinho sorridente no final. O coração da musicista apertou, compadecida pela dor da princesa, ela mesma sentia a ausência de alguém que nunca conheceu apenas pela importância que ele tinha na vida de Yan Da. Terminando de guardar tudo, depositou a caixinha sobre o criado mudo e cobriu a princesa tomando o cuidado de não acordá-la. Chao Ya acariciou os sedosos cabelos de Yan a antes de sair do quarto com um nó na garganta.

Seu celular começou a tocar, o nome de Pian Feng aparecia no display, os olhos de Chao Ya arderam, mas ela mordeu o lábio para evitar as lágrimas. Atendeu.

— Ela está bem. — Disse a ele. — Provavelmente não ligou porque pegou no sono.

E você, está bem? Sua voz está estranha.

— Sim, tudo em ordem. — Mentiu.

— Chao Ya, se não está bem apenas diga. — Ele suspirou. — Sinto muito, eu não devia ter feito aquilo, foi estúpido e impulsivo da minha parte.

Chao Ya fechou os olhos, as palavras presas na sua garganta. De qualquer forma que respondesse aquilo poderia soar rude ou dar a ele esperanças que talvez ela ainda não conseguisse cumprir. A verdade é que não estava com raiva dele por tê-la beijado — apesar de ter sido um tanto chocante — estava com raiva de si mesma por ter correspondido e, sobretudo, por desejar mais.

— Você vem cozinhar? — Mudou de assunto. — Sabe que não sei nada de cozinha.

Ouviu Pian Feng suspirar outra vez.

Vou, ela chamou Ying Kong Shi para o jantar. Estou no mercado agora, devo chegar aí em meia hora.

— Pian Feng...

Sim?

Méishénme.* — Meneou a cabeça, desistindo do que ia falar. — Te vejo daqui a pouco.

Desligou.

Não podia ceder. Ainda não.

※ ※ ※

Shi estava perdido em pensamentos. Não sabia ainda como havia se metido naquela confusão, mas enquanto não encontrasse Ka Suo, não podia deixar que ninguém soubesse sua identidade. Por sorte, ele era um dos príncipes do gelo mais reclusos, de modo que não havia muitas pessoas que conheciam seu rosto. Tateando as roupas que recebera, se deu conta que havia perdido a flauta dada por seu irmão, precisava encontrar uma maneira de se comunicar com ele e dizer que estava bem.

Contudo... considerando sua situação atual, "bem" era um termo relativo.

— Yun Fei. — Um dos guardas apareceu na sua tenda. — Yun Fei! A princesa mandou que levasse o jantar dela.

— Oh, estou indo.

Ele rapidamente se pôs de pé e correu até as cozinhas da tribo do guardião do oeste. Havia várias mulheres ao redor de panelas e mesas — todas olharam para ele com uma estranha admiração — era certo que ele ainda não havia se visto em nenhum espelho, então não tinha certeza do que elas estavam vendo. Meio desajeitado, fez o pedido do jantar de sua nova "mestra", uma das mulheres mais velhas se encarregou de organizar tudo numa bandeja e pareceu ter deixado claro que ele era muito bem vindo para comer com ela.

Shi ergueu uma sobrancelha, meio confuso, mas apenas sorriu e deixou o lugar com a bandeja em mãos. A tenda de Yan Da ficava no centro do acampamento, ele não conhecia pessoalmente a princesa do fogo, só seus odiosos irmãos, de modo que precisava ser cauteloso, não tinha certeza do tipo de temperamento que ela tinha.

— Gongzhu. — Chamou-a.

— Estou aqui, entre.

Ele hesitou. O cheiro de lavanda e jasmim que vinha lá de dentro era um indicativo em alguma parte do seu cérebro que lhe dizia para ficar longe.

— Por que está parado aí fora? Entre. — Ordenou ela.

Shi entrou na tenda e qual não foi sua surpresa ao ver, por trás de diáfanas cortinas vermelhas, uma grande tina de madeira onde Yan Da estava sentada enquanto duas criadas despejavam água sobre seu corpo. Como princesa do fogo, ela gostava de banhos muito quentes, já que o calor era parte de sua natureza e não agredia sua pele. Shi engoliu em seco e precisou apertar as alças da bandeja com força sempre evitando olhar na direção dela.

— Gongzhu, seu jantar está pronto. — Ele balbuciou.

— Coloque sobre a mesa. — Pediu.

O príncipe do gelo estava com pressa para sair dali, não queria ter parte com as consequências de ver uma princesa sem roupa. Na verdade, ele nunca havia visto mulher nenhuma nua, isso não fazia parte das suas prioridades de vida e, com certeza, não estavam nos planos do momento. Mas, antes que conseguisse chegar em metade do caminho para a saída, a voz meiga de Yan Da o deteve.

— Deng deng.

— Há algo mais? — Perguntou.

— Venha aqui. — Ordenou.

— Quais são suas ordens, alteza? — Shi se recusava a dar mais um passo na direção daquela tina.

— Minha ordem é para que venha aqui. — Ela soou impaciente. — Rápido.

Shi amaldiçoou sua sorte — ou azar, ele ainda não estava certo —, enquanto caminhava na direção da tina evitando de todas as maneiras olhar na direção da princesa. Seriam todas as mulheres tão desinibidas daquela maneira ou ela o estava tratando assim por acreditar que ele era um mortal? Não sabia. Shi havia ouvido falar várias vezes de imortais que iam ao reino dos humanos em busca de diversão, normalmente deixavam uma prole sem controle por onde passavam, mas ele não via qualquer utilidade ou sentido em agir daquela forma.

— O que vossa alteza deseja? — Inquiriu forçando a voz para não gaguejar.

— Lave as minhas costas. — Ordenou ela.

"O quê?!" Shi quase pediu que ela repetisse temendo não ter entendido o comando. Havia duas criadas ao lado dela, mas queria que ele lavasse as costas dela?! Qual o problema da princesa do fogo para gostar de deixar os outros inquietos e constrangidos daquela maneira? Reprimindo um suspiro, ele caminhou até o lado da tina onde havia uma esponja vegetal e sabão de banha* com pétalas de rosas. Yan Da se inclinou para frente deixando as costas expostas, Ying Kong Shi mergulhou a esponja na água evitando olhar para ela, pedia a todos os deuses do taoísmo que não lhe permitissem corar.

Ela, é claro, percebeu que ele a estava evitando. Yan Da soltou um sorriso divertido, ao contrário dos outros imortais, ela não via muita graça em se envolver com humanos, especialmente pelo fato de eles terem uma vida tão curta, mas no momento que seus olhos encontraram o rosto de Yun Fei ela sentiu algo diferente, alguma coisa que lhe faria dar a ele metade da sua vida apenas para tê-lo mais um dia ao seu lado. Provocá-lo era quase uma necessidade dela, nunca antes Yan Da desejou receber a admiração de um mortal como queria naquele momento, ao ver o rosto dele, sua expressão de desconforto e constrangimento, ela se divertiu ao mesmo tempo em que se compadeceu dele.

— Olhe pra mim. — Pediu. Ele fitou-a diretamente nos olhos, a expressão impassível. — Você já viu alguma mulher tão linda quanto eu?

"Além de escravo eu tenho de alimentar o ego dela? Isso não é um pouco demais?" Shi pensou, contrariado. Ele não tinha certeza se já vira uma mulher tão linda, seu repertório feminino se limitava na sua mãe, na madrasta e nas irmãs de Ka Suo. Havia algumas belas flores no império da neve, mas ele não dava muita atenção ao assunto. Romance não estava nos planos de Shi, sua única preocupação era ajudar o irmão. Contudo, a obstinação o fez contrariar a princesa do fogo, ela o estava provocando premeditadamente.

— Já. — Respondeu com convicção.

Yan Da empertigou-se, irritada.

— Comparada a mim? Como ela é?

— Vossa alteza não pode se comparar a ela. — Um sorriso zombeteiro brilhou no rosto dele.

A princesa do fogo ficou de pé e Shi deu um passo para longe. Por alguma razão seu coração bateu depressa, ela não tinha pudores? Mesmo a visão periférica que a mostrava com o deslumbre da própria Guan Yin* era evitado por ele. Yan Da estava frustrada, como ele podia não mostrar qualquer reação? Era insultante.

— Como se atreve?! — A expressão mortal nos olhos dela quase fez Shi gargalhar. — Diga, quem ela é, vou matá-la!

— Ela é alguém que vossa alteza não será capaz de conhecer. — Retrucou, incisivo. — É minha mãe.

Claro que Shi não estava falando sério. Apesar de ser uma sereia, sua mãe era como todas as outras, tinha uma beleza mediana. Na verdade, ele não era muito bom em julgar o belo, acreditava que aquilo era muito subjetivo, Ka Suo se encantara por Li Luo, mas, aos olhos do jovem príncipe do império da neve, ela não era nem bonita, nem interessante. A herdeira do trono das sereias, Lan Shang, era insípida e sem viço, ainda que todos escrevessem poemas acerca de sua "beleza estonteante".

— Sua mãe? — Ela parecia confusa e ao mesmo tempo desconfiada. — Por que não posso vê-la? Ela morreu? Oh, é verdade, ouvi dizer que as mulheres mortais envelhecem e morrem muito rápido. Ei, como ousa me comparar a uma mulher velha e morta?!

"Vista uma roupa em nome de Buda, mulher!" Shi gritou em pensamento, apesar de não se interessar por romance e mulheres, ele ainda era um homem e admitia que Yan Da não era nada feia ou insípida. Ele se orgulhava por ser alguém em total controle de suas emoções, nunca cedia a sentimentos inúteis ou demonstrava qualquer tipo de fraqueza, sabia que para proteger Ka Suo precisava se tornar invulnerável, contudo, por alguma razão — e ele era incapaz de explicar isso — a presença despida e molhada de Yan Da despertava nele sensações muito desagradáveis e ameaçadoras para o controle do qual tanto se orgulhava. Sentiu sob todas as suas camadas de gelo, pela primeira vez, surgir um avassalador e inevitável calor.

— Alteza, é melhor colocar uma roupa ou pode apanhar um resfriado. — Aconselhou, fechando as mãos em punho para manter a impassividade.

— Fèihuà*! — Contestou. — Como eu, a princesa do fogo, posso ficar resfriada?

Shi pensou que era divertido irritá-la, mas estava ficando cada minuto mais difícil continuar ali dentro. Buda deve ter atendido suas preces porque uma mensageira entrou na tenda avisando que havia uma mensagem de Huo Yi e ela devia receber imediatamente, levando-a a dispensá-lo por hora. Ele se apressou em sair da tenda e voltar para seu próprio alojamento, deu batidas leves no próprio rosto para recobrar a compostura, se não encontrasse seu irmão depressa, aquela princesa impaciente e desinibida poderia acabar deixando-o balançado.

— ... retardar as memórias. Ele... lembrar.

— Mas... quer... er?

As vozes baixas falavam palavras fragmentadas aos ouvidos doloridos de Shi. Estavam abafadas de modo que ele não conseguia entender sobre o que falavam ou totalmente o que diziam. A realidade foi retornando devagar, primeiro as sensações à sua volta, como o frio do ar-condicionado, a maciez de algum tipo de tecido sob sua pele, algo fofo onde sua cabeça repousava, um incômodo na mão esquerda e o cheiro forte de álcool. O som da chuva contra a janela.

O quarto demorou alguns minutos para entrar em foco, o ambiente estava levemente escuro devido as cortinas fechadas que permitiam apenas uma luz diáfana, as paredes nuas e os móveis simples fizeram-no perceber que não estava mais na ZhangYing, então onde? Shi experimentou virar a cabeça, uma porta de madeira branca com viseira de vidro escondia duas silhuetas, o material fosco não permitia ver quem estava do outro lado, não havia aparelhos ao lado da cama, mas tudo que lhe cercava era branco, poderia ser o hospital? Há quanto tempo ele estava desacordado? Sua mão esquerda tinha uma agulha de soro sob vários esparadrapos, não conseguia ver a hora, seu relógio havia desaparecido, Yan Da... será tarde demais para o compromisso marcado com ela?

Mas o que deixava Shi mais perturbado era aquela saudade esmagadora pressionando seu peito.

A porta abriu e uma enfermeira entrou no seu campo de visão, ele queria perguntar a quanto tempo estava ali, mas sua voz parecia ter se perdido e tudo que saiu foi um ruído seco. Era como se sua garganta estivesse cheia de areia.

— Ying xiānshēng, nǐ xǐngle.* — Ela sorriu enquanto trocava a bolsa de soro. — Como se sente?

Horrível. Pensou Shi.

A mulher chamou por Huang Tuo avisando que o paciente havia acordado, o médico veio de imediato seguido por Ka Suo e Yue Shen. Shi ainda não acreditava que ela era sua guarda-costas. "Ela seria mais bonita se sorrisse mais." Disse a si mesmo, a aura intimidadora e mortal circundando Yue Shen lhe remetia, de algum modo, ao quadro no consultório de Huang Tuo e se perguntou se não havia alguma ligação. Pela primeira vez, o médico não lhe fez qualquer provocação, algo do qual surpreendentemente Shi sentiu falta, a expressão de Huang Tuo era séria e compenetrada enquanto o examinava.

Ying Kong Shi não soube o motivo — talvez fosse o som da chuva ou o longo sonho que tivera —, mas ele inesperadamente começou a chorar. Huang Tuo e Yue Shen ficaram chocados, Shi nunca chorava. Não importava a situação, mesmo nos momentos que se sentia oprimido ao ponto de não poder respirar, ele mantinha suas lágrimas dentro de si, eles eram testemunhas disso, pois acompanharam o segundo príncipe do gelo durante boa parte de sua vida, no entanto ali estava ele, mergulhado num pranto copioso e angustiado. Nem mesmo Ka Suo com toda sua calma, soube o que fazer diante daquela situação. O médico foi o primeiro a se recuperar da surpresa e sem hesitação, puxou o jovem príncipe para um abraço apertado, dando tapinhas confortadores nas costas dele.

Méishì ba.* — Murmurou. — Méishì.

Ka Suo e Yue Shen olhavam a cena meio aturdidos, por ser um evento raro, era sempre difícil saber o que fazer quando Shi estava naquele estado. Desde que se lembrava, Ka Suo só vira o irmão chorar duas vezes, uma quando criança e a outra quando acordara de uma memória acreditando que havia matado Yan Da. A forma como as mãos do irmão apertavam o jaleco do médico — como se estivesse sentindo uma dor insuportável — lhe diziam que Shi estava quase pronto. No momento em que recuperasse toda a sua memória anterior, a verdadeira batalha começaria. Por mais que odiasse ver o irmão sofrendo daquela forma, Ka Suo se sentiu satisfeito.

Apenas pessoas de verdade sentiam dor.

Shi estava se tornando real.

※ ※ ※

— Programação de sistema? — Liao Jian ergueu a sobrancelha contendo a vontade de gargalhar. — Você ao mesmo sabe o que é um computador?

Xing Jiu bebericou o café apreciando o sabor forte e amargo da bebida — fora uma das coisas que mais gostara naquela realidade. Ele sentiu o tom zombeteiro do amigo, mas não podia censurá-lo, havia muitas coisas naquele mundo que eram desconhecidas a ele, o clima havia sido o mais difícil de acostumar — e ele passara alguns bons dias dormindo dentro do freezer —, ou o monte de roupas que os mortais daquele mundo costumavam usar e, de início, foi bem complexo de aprender, especialmente as nomenclaturas estranhas jaqueta, blazer, sobretudo, camisa, regata, pólo, fraque...

Mas se havia algo com o qual se acostumara muito depressa eram as comidas. Café encabeçava a lista de bebidas novas que se tornaram suas favoritas, o sorvete seguia de perto em especial pela temperatura. Se houvesse um meio de recuperar a Cidade Ren, ele certamente tentaria reproduzir a iguaria lá. Contudo, havia sim muitas coisas com as quais se acostumar naquele mundo, entretanto, Xing Jiu era uma pessoa curiosa por natureza e aprendia tudo com uma facilidade impressionante, não fora diferente com computadores, desde que Ka Suo mostrara-lhe um ele ficara encantado com aquela espécie de tecnologia que interconectava o mundo inteiro dentro de um universo paralelo.

— Se alguém como você foi capaz de assimilar as leis que regem esse mundo, por que eu não seria capaz de entender linhas de código? — Retrucou, calmamente, sem demonstrar-se ofendido.

— Mesmo eu ainda não me entendo direito com aquelas coisas, você chegou aqui quase ontem e quer se tornar um programador? Não me culpe por achar engraçado.

— Bem, eu já sei dirigir e não encontrei muita dificuldade nisso mesmo nunca tendo visto as carruagens estranhas desse mundo. — Admoestou. — Posso não ter a sua força, mas lembre-se que eu sou o mais poderoso astrólogo do império da neve, ascendi ao posto como o mais jovem da minha tribo.

— Ok, ok, me perdoe por insultar sua inteligência. — Liao Jian foi sincero ainda que não conseguisse ver o astrólogo atrás de uma máquina. — Confesso que vai ser muito útil para nós ter alguém que saiba lidar com essas máquinas. Os mortais desse mundo não se parecem em nada com os do império do gelo.

Xing Jiu anuiu. Em alguns pontos era uma desvantagem viver naquela realidade caótica, havia pressa demasiada, exigências que o astrólogo não via com qualquer sentido, pessoas discutiam mais, eram incapazes de parar para ver as estrelas — e era impossível vê-las com o excesso de luzes —, ninguém apreciava mais a natureza, os afetos eram instantâneos e sem alicerce. A falta de compaixão e empatia que gerava desigualdade e ódio, embora não fosse muito diferente do seu tempo, era pior.

— Chao Ya se adaptou bem aqui. — Continuou o advogado. — Mas não consigo encarar esse lugar como uma casa, tudo aqui é tão fora dos eixos.

— Toda realidade tem suas vantagens e desvantagens. — Comentou o astrólogo. — Yue Shen, apesar de fingir muito bem, ainda age como uma guerreira do nosso mundo. A assassina dentro dela é mais forte.

— Se ela não tivesse um caráter tão íntegro, se daria bem nesse mundo. Assassinos são quase deuses aqui. — Liao Jian fez uma careta.

— Muitas vezes me pergunto se valeu a pena tudo que sacrificamos quando se corre o risco de termos o mesmo fim.

— Bem, se ajuda, eu agradeço por não estar morto. — Ele ergueu o copo de cerveja em um brinde ao companheiro.

— De nada. — Ironizou. — Isso não quer dizer que eu garanta que você permaneça assim. Isso depende deles.

— E a maldita Lian Ji não pretende facilitar nosso trabalho.

— Ainda não entendo como ela conseguiu passar pelo sacrifício. — Xing Jiu afundou na cadeira soltando uma lufada de ar para expressar sua frustração. — Tomei todos os cuidados para que nada saísse errado.

— Se ela realmente possuiu outra pessoa a culpa não é sua. Não haveria como você detectá-la.

— Estive pensando nisso... — o astrólogo baixou o tom de voz aproximando-se de Liao Jian. — Se a frequência mágica de Lian Ji pode ser camuflada no corpo de outro imortal, para haver equilíbrio, ela precisaria usar alguém com capacidade espiritual menor que a dela.

— O que seria, praticamente, qualquer um de nós excetuando èr diànxià. — Observou o advogado.

— Pense um pouco melhor. Sua majestade recebeu os poderes de Ying Kong Shi, Chao Ya era a rainha da tribo de música xamânica, Huang Tuo ascendeu como rei da tribo xamânica e era o mais poderoso curandeiro de todos os reinos. Eu não poderia estar possuído para realizar o sacrifício ou ela teria me impedido e você era o guardião do norte, Yue Shen tinha o poder espiritual mais forte depois de Ying Kong Shi e èr diànxià além de ter recebido a proteção de Huang Tuo, seria impossível ela estar possuída. — Ele foi listando os nomes com movimentos das mãos e Liao Jian começou a compreender.

— Está dizendo...

— Precisa haver concessão para a possessão ou, em um caso extremo, subjugo do poder espiritual, se o oponente não for forte o bastante espiritualmente pode ser subjugado, mas Lian Ji, por mais poderosa que fosse, não conseguiria fazer isso com nenhum de nós, além de...

— Não acredito. — Meneou a cabeça. — Como não pensamos nisso antes?!

— Vou investigar isso mais a fundo, por enquanto é melhor não perturbar ainda mais sua majestade com suposições sem provas.

— Se você estiver mesmo certo, nosso rei vai ter problemas.

— Todos nós.

※ ※ ※

Com as mãos trêmulas e a cabeça cheia de pensamentos conturbados, Chao Ya fechou a porta do quarto atrás de si e reprimiu as lágrimas que ameaçavam escapar de seus olhos. Não sabia por que, de repente, havia se lembrado daquilo, mas caminhou até o closet e abriu um fundo falso que havia em uma das gavetas tirando de lá uma pequena caixinha de madeira, dentro o colar com pingente de jade repousava. A jade era trabalhada na forma de flor borboleta — sua favorita— com detalhes em ouro, estava presa em uma fina corrente dourada, fora o último presente que recebera como noiva de Liao Jian, pouco antes da morte dele e de Pian Feng.

Apesar de não lembrar como morreu a primeira vez, ela lembrava com nitidez da sensação que tinha toda vez que segurava aquela joia. Em algum lugar da sua mente estava registrado reconhecimento daquela impressão. Quando chegara àquela realidade, Chao Ya enterrou no fundo da sua mente tudo relacionado ao passado, incluindo a cítara e o colar. No que dizia respeito a Yan Da, a cantora realmente se apegara a ela como uma irmã mais velha, queria cuidar e proteger a princesa do fogo para evitar ao máximo que as dores do passado reverberassem nessa nova chance que ela recebera, mas em respeito a Liao Jian e Pian Feng, a antiga rainha da música xamânica não os via como nada além de companheiros de missão.

Outrora, ela sempre se sentiu sufocada com sua posição e as exigências desta. Apesar de saber que a rainha a amava, a cantora nunca pôde deixar de se ressentir com ela por ter sido tão inflexível e rígida em tudo que lhe dizia respeito. Essa marca a levara a fazer escolhas as quais agora eram cicatrizes dolorosas em volta do seu coração. Ironicamente, agora que todas as decisões caíam nas suas mãos ela estava com medo demais para assumir a responsabilidade sem ter ninguém além de si mesma para culpar. Um sorriso amargo se formou nos lábios da musicista enquanto apertava o pingente de jade com força o bastante para machucar a mão.

Então ela sentiu.

Primeiro o sangue.

Depois o clique.

A delicada peça de jade abriu em duas metades iguais, dentro havia uma bela pena de ouro. O choque que acometeu Chao Ya foi tão grande que, não estivesse sentada, teria caído. Era um artefato mágico que havia sido refinado para caber dentro do pingente alterando sua forma. Ao cair no chão, o tamanho original foi restaurado e a musicista sentiu seu coração pesar. Ela reconhecia aquela pena como reconhecia as linhas das suas mãos.

Era uma pena da asa direita de Pian Feng.

Havia um resquício amarronzado na ponta do cálamo onde ele a puxara — e Chao Ya era incapaz de imaginar a dor que o gesto causara — era alongada e perfeita, bem dourada no raque e alongava-se em tons de dourado distintos pelo vexilo. Pensando melhor, agora fazia um pouco mais de sentido. Nunca entendeu por que Liao Jian havia lhe dado aquela peça, tampouco como ela a protegera quando foi atacada, a força do guerreiro do norte estava sobretudo em sua força física, ela devia ter se dado conta desde o início.

O tempo todo era Pian Feng que a estava protegendo.

Chao Ya engasgou com as próprias lágrimas. O choro convulsivo e copioso escapava como cascatas enquanto seu coração parecia se rasgar com violência dentro do peito. Ela queria gritar, mas sua voz não emitiu mais que um gemido angustiado. Com a mão sangrando fechada em punho ela batia com força no próprio peito chamando-se de idiota.

— Jie?! — Yan Da gritou correndo até a amiga. Abaixando-se ao lado dela, segurou-a pelo pulso para evitar que ela continuasse batendo em si mesma. — Tian de, o que está fazendo?!

A blusa da cantora estava suja com o sangue que escorria do corte na palma, mas a dor dentro dela era tão mais intensa que ela sequer sentia o arder da laceração. Yan Da estava muito assustada, nunca vira Chao Ya daquela maneira antes. Com cuidado, ela pegou um lenço para segurar o sangramento enquanto tentava convencer a outra a colaborar com ela. Após certa persuasão, a musicista acompanhou a princesa até o banheiro onde Yan Da lavou a ferida com delicadeza vendo que era mais profunda do que pensava.

De volta ao quarto, a princesa do fogo sentou a amiga sobre a cama e cobriu-a com cuidado, acariciando o rosto meigo de Chao Ya, cujas lágrimas ainda caíam, embora mais calmamente, ela saiu do quarto, pegou a caixinha de remédios, colocou água morna* numa xícara e um sachê de camomila. O susto inicial deu espaço para a preocupação, a cantora parecia catatônica e, no chão, um colar com duas metades de jade e uma pena de ouro que ela nunca vira antes. Yan Da colocou o chá sobre a mesa de cabeceira e sentou ao lado da musicista, começando a cuidar da ferida.

Ela era cuidadosa enquanto trabalhava, soprando o machucado para não arder enquanto desinfetava — como lembrava da mãe fazendo —, em nenhum momento fez qualquer pergunta sobre o motivo da mais velha estar naquela situação. Yan Da conhecia a dor intensa capaz de fazer alguém se machucar apenas para ter uma distração momentânea daquela agonia interior, era o fato de Chao Ya sempre ter sido tão segura de si e forte que vê-la frágil daquela maneira parecia antinatural. Ela recriminou a si mesma, talvez a cantora estivesse guardando todas as suas feridas dentro de si o tempo todo enquanto cuidava dos machucados dela e Yan Da foi incapaz de perceber que ela também estava sofrendo.

— Me perdoe... — Sibilou passando uma pomada sobre o corte e colocando um curativo para enfaixar com gase. — Tenho sido falha com você e já tem muito tempo. Você sempre cuidou de mim, mas quem cuida de você, jiejie? Eu sequer consegui perceber o quanto você sofria calada esse tempo todo. Sou muito egoísta.

— Shh. — Chao Ya ergueu o rosto da mais jovem fazendo-a encará-la. — Não diga bobagens. Meus problemas nem de longe podem ser comparados aos seus.

— Não diminua sua dor. — Censurou. — Se ela te leva a se machucar dessa maneira não importa se a razão é menor ou igual a outra.

— Eu apenas fui imprudente, meu anjinho... — Mentiu, acariciando o rosto de Yan Da. — Sinto muito ter preocupado você dessa maneira.

— Jiejie, sei que não sou a pessoa mais sensata ou madura aqui, mas você pode confiar em mim. — A princesa do fogo era sincera e Chao Ya conteve a vontade de apertá-la, Yan Da conseguia ser adorável de uma forma inumana. — Talvez eu não possa te ajudar a resolver os seus problemas, mas posso te ouvir. E se eu posso, me deixe pelo menos fazer isso por você.

A cantora sorriu, tocada. Aquele pequeno passarinho ferido e cheio de dor estava deixando de lado sua tristeza para abraçar a dela. Como não amar Yan Da? Como não querer protegê-la de todo o mal daquele mundo e de todos os outros que existissem? Yan Da sempre teve um coração generoso, mesmo quando era a princesa do fogo e se escondia sob as camadas de orgulho, desejando mais que qualquer coisa provar o seu valor, ela não era realmente cruel como os demais da sua família. Soube amar Ying Kong Shi com tudo que tinha, quando ele era humano, quando ele era seu inimigo. Suas palavras naquele instante eram apenas mais uma prova de que mesmo sem ter recebido o amor que merecia, aquele pequeno passarinho era cheio dele e Chao Ya garantiria que ela não se machucasse de novo.

Mesmo que isso custasse a sua vida.

Ela puxou a princesa para um abraço — lembrando de se conter para não apertá-la como realmente queria — e acariciou os macios cabelos dela, depositando um beijo suave na sua têmpora esquerda. Ela mediu as palavras com cuidado, não podia dizer nada sobre o passado real de ambas, de modo que teceu primeiro uma história lógica na sua mente e depois começou a expor a situação em que se encontrava com Liao Jian e Pian Feng. Tentou ser o mais honesta possível com Yan Da — e consigo mesma — que em nenhum momento lhe interrompeu, deixando que as palavras fluíssem entre elas. Chao Ya se sentiu mais aliviada, como se um enorme fardo fosse tirado dos seus ombros.

— Você sabia o tempo todo que ele não era gay, não é? — A princesa do fogo encarou-a.

— Claro que sabia. — A musicista sorriu. — Por isso me sinto ainda mais miserável, parece que estive brincando com ele esse tempo todo.

— Jie, se quer minha opinião, acho que você tem brincado consigo mesma, não com eles. — Yan Da apoiou a cabeça no ombro de Chao Ya, sentando ao lado dela. — Pela forma como descreveu tudo está claro que você já escolheu, mas ainda está com medo. Não se force assim, apenas deixe que as coisas sigam seu curso, quando estiver pronta para encarar sua escolha vai conseguir deixar o outro para trás sem arrependimentos.

A cantora suspirou, mas sorrindo tocou o nariz da mais jovem passando um braço em torno dela.

— A minha anjinha é a mais sábia! — Elogiou-a. — Obrigada por me ouvir, mei'er.

— Pare de guardar tudo com você, hum? — Brigou. — Não quero te ver se machucando assim outra vez.

— Eu prometo. — Apertou a bochecha dela com a mão boa. — Se sente melhor? Chorou tanto que dormiu.

— Ah, foi você que guardou minhas coisas. — Ela ficou vermelha. — Estou bem... apenas sinto falta dele. Sempre sinto falta dele.

— Tenho certeza que, onde quer que Peng Peng esteja, ele está olhando por você e não ficaria feliz em te ver triste assim. Eu digo isso porque também me machuca. — Chao Ya colocou uma mecha de cabelo de Yan Da atrás da orelha. — Mas você tem direito a sentir essa tristeza, saiba apenas que não tem de passar por ela sozinha, hum? Jiejie está aqui pra você, sempre vou estar.

O som da campainha impediu Yan Da de responder, ela engoliu o nó na garganta e sorriu. Prevendo que seria Pian Feng, ela deixou Chao Ya com o chá descansando e foi abrir, o amigo havia deixado sua cópia da chave para a cantora. Ele ergueu a sobrancelha logo que ela abriu a porta detectando os sinais de choro e o rosto inchado pelo sono, não fosse as mãos cheias de sacolas, a teria abraçado de imediato. Pian Feng sabia que aquele era um dos dias mais difíceis no ano para Yan Da, largou as bolsas sobre a ilha da cozinha e se aproximou dela escrutinando-a melhor.

— Oh, minha fadinha... ver seu rostinho assim quebra meu coração em milhões de pedacinhos, sabia? — Ele passou os dedos por baixo dos olhos dela com delicadeza. — Vem aqui.

Ele abraçou Yan Da com carinho, lembrando-se de não apertá-la. Por sua vez, ela encostou a cabeça no peito largo do agente e fechou os olhos, embalada pelas batidas de seu forte coração. Queria, mais que a si mesma, ver Pian Feng feliz.

— Se houvesse uma maneira, eu juro que o traria de volta só pra ver seu sorriso nunca mais desaparecer, minha pequena fadinha. — Beijou o topo da cabeça dela. — Sabe disso, não sabe?

Yan Da assentiu.

— Chore o quanto precisar. Você não precisa ser forte o tempo todo. Enquanto eu respirar, vou continuar dando o melhor de mim para que você não chore mais que esse dia do ano. — Sorriu olhando para ela. — E o melhor jeito de fazer isso é cozinhando absolutamente tudo que você gosta de comer.

— Parece mesmo ter trazido todo o supermercado com você. — Yan Da sorriu, os olhos brilhando pelas lágrimas não derramadas. — Mas acho que esqueceu de comprar o molho de soja.

— Lógico que não, eu sempre pego primeiro para não...

— Esqueceu sim, Pian ge. — Insistiu Yan Da. — Vou comprar pra você.

— Mas...

— Prometo que não vou me esforçar demais, nem me cansar, nem me exceder e ligarei ao menor sinal de perigo. Tudo bem assim? — Sorriu. — Jiejie se machucou, acho que vocês deveriam conversar. Voltarei em meia hora, me mande mensagem se precisar de mais do que isso.

Antes que ele pudesse protestar muito mais, ela pegou a bolsa e saiu.

Quando chegou ao saguão do prédio, Yan Da se sentiu cansada e encostou-se na parede para recuperar as energias. Bem nesse momento, Ying Kong Shi surgiu através das portas de vidro, a tez muito pálida, um buquê de orquídeas brancas e uma caixa de doce na outra mão. Ele ficou surpreso ao vê-la ali e apressou o passo na direção dela.

Yan Da não tinha ideia do motivo real, mas quando ele a alcançou elajogou os braços em volta dele num abraço mais apertado do que ela deveriapegando Shi completamente de surpresa.

Notas:

*Méishénme [没什么] — Nada; Não é nada;

*Sabão de banha — Antigamente o sabão era feito com gordura animal. Tentei pesquisar algumas coisas sobre o assunto especificamente na China, mas não encontrei, então "dei meus pulos".

*Guan Ying [观音] —deusa budista da fertilidade, da compaixão, da misericórdia e do amor. O nome Guanyin e uma abreviação de Guanshiyin (观世音; pinyin: Guānshìyīn;) que significa "Observar os Sons (ou Gritos) do Mundo". Resumindo, ela é a Afrodite dos budistas.

*Fèihuà [废话] — só relembrando, fèihua quer dizer "absurdo", "besteira","tolice", etc.

*Nǐ xǐngle [你醒了] — você acordou.

*Méishì ba [没事吧] — Tudo bem. Essa expressão também funciona com outros significados, mas, nesse contexto, quer dizer isso.

*Isso aqui é curiosidade mesmo, na China eles só tomam água morna. A cultura chinesa acredita que água fria ou gelada faz mal à saúde, então eles sempre tomam água morna não importa o horário do dia.