Love as Sakura | 爱如樱

16 第14章 Não me deixe


Huang Tuo se aproximava pelo corredor e viu Shi do lado de fora do quarto de Yan Da parecendo ansioso. Olhando o relógio, o médico viu que ainda faltava meia hora para o fim do horário de visitas e, pela cara do amigo, supôs que ainda não tivera chance de ver Yan Da. Um sorriso travesso iluminou o rosto do médico, ele sentou ao lado do distraído Shi e cutucou-o com o cotovelo.

— Eh, ainda não conseguiu ver a amada? — Provocou.

— Huang yīshēng, deve ser uma dádiva ter a sua personalidade. — Shi lhe ofereceu um sorriso irônico. — Isso provavelmente sempre o salva de levar os bons socos que merece.

— Aya, Ying Kong Shi, por que você tem que ser sempre tão violento? — Brincou. — Está aqui ansioso como um pai de primeira viagem, o que quer que eu diga?

— Pai meu traseiro! — Ele fez uma careta erguendo um punho ameaçador para o médico. — Há um amigo dela lá dentro, não sei se ela vai aceitar me ver.

— Bem, não vai precisar esperar muito mais, vou entrar agora para verificar como ela está e vender o seu peixe. — Piscou para Shi de modo sapeca.

— Eu juro que não sei mais o que faço com você! — Suspirou.

— Me agradeça depois. Hmm... que tal algo ocidental como cozinha francesa?

— Sai logo daqui antes que eu te envoi pra França aos pontapés.

O médico deu uma risada baixa e levantou bagunçando carinhosamente o cabelo de Shi. Segurando o tablet com as informações de sua paciente ele entrou no quarto e sorriu para Pian Feng anunciando o fim da visita. O agente de Chao Ya deu um beijo na mão de Yan Da e se despediu. Huang Tuo checou os níveis e a pressão dela, seu semblante tranquilo e bonito mantinham Yan Da tranquila, a intuição dizendo que podia confiar no médico e, quando ele estava por perto, ela se sentia segura. Ele ainda fez algumas anotações no tablet antes de se dirigir a ela com seu habitual sorriso brilhante.

— Então, como estamos nos saindo?

— Muito bem. — Ela retribuiu o sorriso. — Obrigada por tudo, doutor Huang.

— Aya, não precisa me agradecer por nada. Foi sorte Ying Kong Shi ter agido rápido.

— Ying xiansheng?

Dāngrán a!* Ele a tirou do carro a tempo e a acompanhou até o hospital, também foi ele que assinou o termo de responsabilidade para que a senhorita fosse operada. — Ele falava as coisas com uma ênfase sutil de modo que Yan Da não notava o que ele estava fazendo. — Quase tive que expulsá-lo do hospital para que voltasse para casa e dormisse, ele não queria sair daqui mesmo não podendo ficar com a senhorita.

Então não era jogada da mídia nem exagero da Chao Chao? Yan Da sentiu o rosto queimar enquanto desviava o olhar de Huang Tuo para suas próprias mãos, ainda era uma constante batalha interna não enlouquecer com as agulhas, ela evitava olhar o cateter em sua mão, lembrava-se sempre do pedido do médico para que suportasse, ele lhe dissera com tanta convicção que ela podia fazer aquilo que Yan Da acreditou nele, sentindo-se orgulhosa de si mesma por ter sobrevivido, por conseguir — mesmo sendo difícil — suportar aquela provação.

— A senhorita parece surpresa. — Observou ele.

— Um pouco, na verdade...

— O horário de visitas vai terminar em breve, mas o senhor Ying gostaria de visita-la, posso dar permissão para que ele entre?

Ela hesitou. Não sabia como encarar Ying Kong Shi, algo dentro de si sentia um pavor enorme de ficar perto dele, mas diante de tudo aquilo era-lhe impossível negar a visita de modo que anuiu fazendo Huang Tuo sorrir largamente. Demorou alguns minutos para que a porta se abrisse novamente e Shi entrasse no quarto um pouco acanhado vestindo as mesmas roupas antibacterianas que Chao Ya e Pian Feng, mesmo com o coração quase saltando do peito, Yan Da se manteve impassível.

Shi não podia se sentir mais tolo. Olhando para ela, mesmo naquela situação delicada, conseguia ficar surpreso com a forma que Yan Da conseguia ser linda em qualquer situação. Olhou para a mão dela com o cateter e lembrou de Huang Tuo lhe contando sobre sua fobia de agulhas, o coração do príncipe do gelo inquietou-se, havia tantas coisas que queria dizer a ela, mas todas as palavras pareciam inadequadas ou incompletas. Não deixe que ela se estresse ou se esforce demais, Huang Tuo lhe aconselhara antes de provoca-lo com deixe os beijos para depois. Ah, ele definitivamente ainda mataria aquele médico atrevido.

— Meng xiaojie, fico muito feliz em vê-la bem.

Ali estava. Yan Da sentiu a inquietação se arrastando pelas suas veias como gelo, sempre que estava perto de Ying Kong Shi ela tinha aquela sensação ruim, uma espécie de medo e mágoa tornando-lhe apreensiva e hesitante. Ainda assim tinha alguma coisa que a atraía na direção dele, mesmo com a inquietação impaciente e a sensação de Shi como um fantasma assombrando seus sonhos e seu coração, ela não podia conter a vontade de vê-lo.

— Obrigada, Ying xiansheng... — Esboçou um sorriso constrangido. — Também gostaria de lhe agradecer por toda a ajuda, devo minha vida ao senhor.

— De forma alguma, jamais permitiria que a senhorita se machucasse. — Ele sorriu. — Gostaria de ter lhe trazido flores, mas é proibido na CTI, espero que me permita visita-la novamente quando for transferida para um quarto comum.

Ela desviou o olhar amaldiçoando-se por corar. Pigarreando, ela tentou disfarçar o nervosismo ignorando o fato de Shi estar ciente de cada mínimo detalhe sobre ela. Sem encontrar palavras para responder, ela apenas anuiu e os dois caíram em um silêncio incômodo que durou alguns minutos preciosos do tempo de visita. Shi não sabia como reagir diante dela, embora desejasse perguntar muitas coisas e dizer outras tantas, sentia que enquanto não quebrasse a resistência que Yan Da sempre demonstrava na presença dele lhe seria impossível qualquer outra sondagem.

De sua parte, mesmo que estivesse certo que não a amava — ainda — era inegável que sentia-se atraído por ela de uma forma muito intensa. Podia mentir para si mesmo afirmando ser era apenas por causa dos pesadelos, mas no íntimo do seu ser, ele sabia que havia uma espécie de ligação não compreendida entre eles que o compelia na direção dela, ele desejava conhecer cada camada do seu coração e preencher cada espaço vazio na vida dela com a sua presença. Se aquilo não era amor era algo perto disso.

— Posso lhe fazer uma pergunta, Ying xiansheng? — Indagou ela surpreendendo-o.

— Ficarei feliz se puder respondê-la.

— Já nos encontramos antes?

Shi franziu o cenho diante da pergunta. Não entendeu bem o que ela queria dizer com aquilo e, no íntimo do seu pensamento, pensou que a resposta para o questionamento era "sim", ainda que sentisse não dever responder aquilo.

— Creio que nos encontramos quando eu quase a atropelei uma semana atrás. — Respondeu desconfortável.

— Não, não é isso que quero dizer. — Meneou a cabeça. — Me refiro a muito antes. Sempre tenho a sensação que o conheço de algum lugar, mas não consigo me lembrar onde ou quando.

A saliva desceu amarga pela garganta de Shi. Era como se sua consciência se aproximasse de algo perigoso, sentiu a pele eriçar e sua cabeça ficar dormente por um momento, ele tinha a mesma sensação desde que a vira pela primeira vez, mas nunca teve coragem bastante para verbaliza-la. Em algum ponto, Shi sentia uma espécie de vergonha, como se carregasse nos ombros uma pesada culpa, mas era incapaz de encontrar a razão daquele sentimento.

— Tenho certeza de que nunca a vi antes do acidente, xiaojie. — Disse ele sem conseguir controlar a voz na sua mente que gritava afirmando que ele mentia. — Acredite quando digo que me lembraria.

Yan Da fixou o olhar nele, os olhos de Shi eram de um castanho claro muito bonito, mas ela podia jurar que, sob a pálida luz vespertina vinda das janelas, eles tinham um brilho azul. Antes que pudesse retrucar a afirmação, uma enfermeira veio anunciar o fim do horário de visitas e reforçar os remédios da paciente cujas dores voltavam a incomodar com mais força. Parte de Shi queria ficar — e parte de Yan Da queria pedir o mesmo —, mas ele se viu caminhando até a porta e, dando uma última olhada na direção dela, deixou o quarto com a incômoda sensação de que algo ruim estava por vir.

※ ※ ※

Ka Suo largou os documentos sobre a mesa sem conseguir se concentrar. Estava preocupado com Shi e com o rumo que a situação estava tomando em relação a Yan Da. Ele estava perdendo algum detalhe. Dias atrás, Pian Feng telefonara contando sobre a visita à princesa do fogo.

— Meu rei, em minha visita à princesa ela relatou que não foi capaz de distinguir o rosto da pessoa que tentou feri-la, mas afirmou que era uma mulher.

— Acha que pode ser Lian Ji?

— É minha suspeita maior, mas não posso afirmar. Sua alteza não deu qualquer descrição que me levasse a alguma pista.

Suspirando, ele levantou e foi até a janela atrás da sua mesa. A visão da cidade era tão nublada quanto seus pensamentos conturbados. Pegou o paletó e saiu do escritório sem avisar a ninguém. Já fazia uma semana desde a tentativa de assassinato de Yan Da e ainda não haviam progredido em nada para rastrear Lian Ji ou descobrir a pessoa que dirigia o carro preto que tirara a princesa da estrada. Em contrapartida, também não havia ocorrido nenhum novo atentado contra Yan Da.

Shi tirara a semana de folga para poder assistir a princesa desde que ela fora transferida para um quarto comum e podia receber visitas com maior frequência. Ele disputava o tempo com Chao Ya e Pian Feng de quem tinha se tornado próximo graças ao evento — algo que Ka Suo considerava muito positivo uma vez que permitia aos dois manter os olhos vigilantes nele —, ainda que seu progresso com relação a Yan Da não tivesse sido muito significativo.

Ele dirigiu durante alguns minutos e, ao parar no sinal vermelho da avenida principal, deu seta para esquerda. O coração do monarca estava ansioso, apesar de Xing Jiu não ter sido enfático sobre um prazo, ele tinha em mente que o tempo do preço do sacrifício estava correndo para todos eles, era sua última chance de salvar Shi e seus leais súditos. Os dedos apertaram o volante com mais força, ele deu a partida quando o sinal abriu e seguiu seu caminho.

Minutos mais tarde, Ka Suo estacionou em frente ao shopping e vários funcionários vieram recebe-lo à porta, cumprimentando-o formalmente. Como era seu costume, ele foi simpático com seus funcionários e elogiou o bom trabalho que faziam. Ele pegou a escada rolante para o segundo piso e passeou discretamente pelos corredores movimentados. Aproximando-se da loja procurada, sentou em um dos inúmeros bancos espalhados pelo prédio e pôs-se a observá-la.

Os cabelos de Li Luo estavam um pouco mais curtos do que quando a conheceu, mas continuavam com o mesmo aspecto azulado de que ele se lembrava. À primeira vista, julgava-se que os fios eram de um preto intenso, só olhando com muita atenção notava-se o tom azul escuro. Ela sorria graciosamente enquanto acompanhava uma cliente, Ka Suo conseguia lembrar com nitidez o som aveludado da sua voz, o toque da sua mão um pouco áspera por manejar a espada e outras armas, a maciez dos seus lábios. Sempre que se sentia desamparado e com medo, ele apenas ia até ali e a observava, muitas vezes por horas a fio. Ela nunca o notava.

Em parte, Shi tinha razão, ele era covarde por não se aproximar dela, mas havia outras questões em pauta. Se — e mesmo que ele quisesse se manter otimista, sempre havia a possibilidade de dar errado — eles conseguissem com que Shi e Yan Da superassem suas diferenças e recomeçassem suas vidas como deveria ter sido quatro mil anos no passado, ele queria que Li Luo tivesse a chance de uma vida com liberdade, sem amarras e sem ele para lhe causar problemas. Ainda que desejasse estar ao lado dela, não desejava que ela o amasse por estar presa a um destino que não escolheu, a partir do momento que o sacrifício fosse pago e ela fosse livre, ele tomaria coragem de enfrentar os pais, o mundo se preciso fosse, para conquistá-la.

Mas ainda não era hora.

Sentindo suas energias renovadas com a mera visão dela, Ka Suo esboçou um sorriso triste e levantou-se para ir embora. Ele ainda não sabia por quanto tempo mais o peso da coroa de gelo pressionaria sua cabeça. Apesar de saber que o destino dos seus amigos seria a liberdade, ele não tinha certeza quanto ao seu próprio destino, a única liberdade que Ka Suo comprou foi a do seu irmão, em nenhum momento ele tratou ou pensou em si mesmo. Não que se considerasse sem importância, mas era seu dever dar a seu irmão mais novo — a quem falhou em proteger como deveria — a chance de felicidade. Ao contrário dele, Shi nunca foi amado pelos pais, morreu sem saber a verdade sobre si mesmo e sua origem — o que era uma dádiva considerando sua "criadora" —, causara indiretamente a morte da única mulher que conseguira tocar seu coração. Em nome dele, Shi abdicou da liberdade, do amor e da vida. Mas tudo que Ka Suo fez por ele foi viver melancólico, impotente e incapaz de salvar as pessoas que lhe eram caras.

Muitas vezes, quando pensava nisso, não conseguia se arrepender do preço que pagara pelo sacrifício. Se conseguisse dar a Shi e Yan Da a liberdade que lhes era justa, ele teria feito a mesma escolha independente do peso que ela tivesse em seu coração.

De volta ao seu carro, ele se preparava para dar a partida quando alguém bateu no vidro do passageiro. Era Xing Jiu, já trajando roupas modernas e com o cabelo cortado. Ka Suo abriu a porta para que o astrólogo, o único amigo em quem depositara cegamente toda a sua confiança, ao contrário dos demais, a quem Ka Suo via e respeitava como leais súditos, Xing Jiu era seu braço direito, seu irmão jurado, seu amigo.

Wáng. — Ele cumprimentou Ka Suo.

— Como me encontrou aqui? — Quis saber o rei com um sorriso constrangido.

— Segui sua estrela, meu rei. Há algo lhe inquietando?

— Temo que não consigamos superar o tempo para o preço do sacrifício. — Desabafou Ka Suo. — Yan Da gōngzhǔ parece não ter espaço no seu coração para Shi.

— Meu rei, peço que não inquiete seu coração. — Tranquilizou Xing Jiu. — O tempo é suficiente para o que precisamos. Também tive esse medo a respeito de sua alteza, mas Huang Tuo está certo, Yan Da gōngzhǔsempre foi diferente da sua família, ela encontrará em seu coração um caminho para perdoar o segundo príncipe.

Ka Suo anuiu pensando que Huang Tuo estava certo. Naquela época de caos, Yan Da foi contra sua família para salvar Lan Shang e Li Luo, sacrificara metade da sua alma por Shi, mesmo depois de saber quem ele era, permaneceu ao lado dele. Sua morte foi injusta e cruel. Antes de prosseguir a conversa, ele deixou o shopping e dirigiu para um lugar mais tranquilo onde poderia conversar com Xing Jiu sem preocupações. Ele parou no estacionamento interno do prédio de Shi, pretendia passar um tempo com o irmão, estava preocupado que Lian Ji tentasse algo contra ele.

— Eu trouxe as pedras do sonho, meu rei. — Xing Jiu abriu para ele duas caixinhas de veludo. — Para a princesa, criei um colar cuja corrente também é encantada, a pedra lilás vai proteger os sonhos dela.

Ka Suo olhou a joia com admiração. A corrente prateada era fina e discreta, a pedra lilás estava inserida dentro de um coração em chamas forjado em prata pura. Combinava com Yan Da, tinha a força e a delicadeza do seu coração. Na outra caixinha havia outra corrente, esta masculina, um pouco mais grossa com elos que guardavam pequenas pedrinhas azuis, tão pequenas que passavam despercebidas na joia. Lembravam a discrição, a força e a realeza no sangue de Shi.

— Este é para èr diànxià*. Discreto e eficaz.

— Obrigado, Xing Jiu.Chao Ya cuidará de fazer com que a princesa o use sempre. Quanto a Shi, eu me encarrego disso.

— Mas ainda estou preocupado com Lian Ji. — O astrólogo ficou pensativo. — Como é possível que não haja qualquer sinal dela?

— Pian Feng me disse que a princesa identificou seu agressor como uma mulher, mas não pôde ver muitos detalhes... se Lian Ji não usou força mágica para ataca-la é possível que não tenhamos conseguido rastreá-la no momento que atacou a princesa.

— Ainda assim, meu rei, a presença de todos os imortais emite uma frequência mágica que pode ser lida nas estrelas, uma imortal poderosa como Lian Ji não teria como suprimir todo aquele poder a menos que...

— Estivesse usando uma pele humana. — Completou Ka Suo sentindo um calafrio.

Méi cuò!* Isso explicaria como ela conseguiu passar pelo sacrifício sem que eu sentisse sua presença.

— Se isso for verdade a busca se torna praticamente impossível. — O monarca bateu no volante, frustrado. — Estamos na terra dos mortais, como vamos conseguir encontrá-la?

— Podemos descartar as pessoas que sabemos ser imortais, precisamos então ficar atentos aqueles que nos rodeiam e são mortais. Em algum momento, essa pessoa fará um movimento em falso e descobriremos quem é.

— Há alguma chance de ela possuir um imortal?

— Nunca ouvi falar em tal coisa, mas não é impossível. — Xing Jiu ficou pensativo por um momento. — O hospedeiro teria de permitir isso, também explicaria porque não consigo ler o poder dela nas estrelas, se ela estivesse usando a frequência do hospedeiro para camuflar a sua faria sentido.

Ka Suo passou as mãos pelo rosto, sua frustração só aumentava. Começou a revisitar o confronto com Lian Ji na mente de Yan Da, ele tinha de ter visto algum detalhe útil, qualquer um, que indicasse sua presença no mundo mortal. Mas não havia o menor vestígio, ela aparecera lá com a mesma aparência que tinha na última vez que ele a vira na montanha Huan Xue.

— Shi e Yan Da não estão a salvo, desse jeito qualquer um, mesmo um de nós, pode ser uma ameaça.

※ ※ ※

Chao Ya terminou de descascar a maçã e começou a picá-la em um bowl enquanto Yan Da cochilava na cama. O progresso de recuperação da amiga caminhava muito bem, mas a preocupação crescia a cada minuto de sono dela. Xing Jiu ocasionalmente aparecia para monitorá-los enquanto a pedra dos sonhos não era forjada e refinada. Estava prestes a acordar a princesa para comer alguma coisa quando a porta do quarto abriu e Ying Kong Shi apareceu sorridente.

Nǐ láile.* — Ela sorriu vendo que ele trazia, como sempre, um enorme buquê de flores. — Chegou cedo hoje.

— Como ela está?

— Muito bem. O doutor Huang disse que a incisão cicatrizou quase completamente por fora e as costelas estão em progresso. Daqui a algumas semanas ela receberá alta.

— Você já comeu?

— Ainda não. Vou aproveitar que você chegou e passar no apartamento para tomar um banho e pegar algumas coisas que ela precisa.

— Não se preocupe, cuidarei dela.

— Eu sei que vai. — Chao Ya lhe ofereceu um sorrisinho malicioso.

Ela está convivendo muito com Huang Tuo. Pensou Shi quando ela pegou a bolsa e deixou o quarto. Quem os visse naquela convivência pacífica não imaginaria que, algumas semanas atrás, eles praticamente disputavam para permanecer ao lado de Yan Da. Mas Shi acabou vencendo em parte por causa da agenda social de Chao Ya.

Graças a ela, conseguira descobrir muitas coisas a respeito de Yan Da e, mesmo sabendo que a cantora tinha muito mais cartas na manga, Chao Ya nunca lhe dizia nada muito íntimo da amiga, tampouco Shi se atreveu a perguntar sobre Peng Peng ainda que quisesse muito saber o que acontecera. Indagando a Chao Ya, certo dia, sobre a fobia de agulhas de Yan Da ele recebeu uma pequena dica.

— Ah, isso... é um assunto delicado. — Revelara a cantora. — Faz mais ou menos seis anos que começou. Xiao Yan já passou por muita coisa, ela é uma verdadeira guerreira.

Ao contrário de Chao Ya, Pian Feng se mostrava um pouco preocupado com a aproximação de Shi. Era como se ele não confiasse que Shi seria capaz de cuidar bem de sua amiga, em parte, Shi se sentia feliz por saber que mesmo sem o apoio da família, Yan Da tinha amigos leais que cuidavam dela com dedicação. A própria Yan Da ainda se mostrava pouco confortável na presença dele e não falava muito, mas Shi não estava disposto a desistir. Todos os dias ele chegava com flores que perfumavam o quarto com seu cheiro delicado e doce, também levava livros que Yan Da poderia gostar e mesmo sendo lacônica ela sempre agradecia.

Ele sentou na poltrona ao lado da cama observando-a dormir. Os traços delicados de seu rosto, os lábios rosados e os belos olhos com cílios alongados. Os cabelos que emolduravam seu rosto. Ele sempre precisava se conter para não tocá-la, mas surpreendia-se com o quanto uma mulher podia ser linda em qualquer situação. Entretanto, a resistência ainda estava lá, mantendo-a inalcançável para ele. Yan Da abriu os olhos, sonolenta, e fitou a silhueta embaçada de Shi até que ele se materializasse de forma nítida. Ainda que ele fosse visita-la todos os dias, ela não podia conter a surpresa sempre que o encontrava.

Nǐ xǐngle. — Shi sorriu. — Está com fome?

— Água.

Shi se apressou em servir água num copo e colocar um canudo para facilitar o consumo sem que ela precisasse levantar muito o tronco.

— Chao xiaojie preparou essa maçã para você. — Colocou o bowl na mesinha móvel e arrastou-a até a cama.

Jiějie zài na'r?

— Oh, ela foi até seu apartamento tomar um banho, comer algo e pegar algumas coisas, deve voltar em algumas horas. — Explicou. — Me deixe saber se puder ajudá-la com alguma coisa.

Yan Da fitou o bowl com frutas por um longo tempo. Shi deu-lhe espaço indo trocar as flores no enorme vaso sobre uma mesa próxima à janela, ela olhou para a mão onde o cateter foi substituído por uma agulha comum, Huang Tuo dissera, quando ela foi transferida para um quarto comum, que havia medicações que ela não podia tomar diretamente e o soro ajudava a distribuir melhor pelo corpo, por isso ela ainda não podia tirar o odioso objeto da sua mão. Enviou mensagens mentais para manter a calma, em geral evitava olhar para a mão ou fazer qualquer movimento com ela temendo sentir o aço frio sob sua pele.

Shi largou as flores tão logo ouviu a respiração irregular atrás de si. Identificou quase imediatamente os sintomas do pânico de Yan Da, mesmo não tendo presenciado nenhum dos ataques, Huang Tuo o havia alertado dos principais sinais e ao vê-la olhando a mão com a agulha presa com esparadrapo ele imaginou que era o gatilho. Ela respirava pesadamente e, desviando o olhar da mão, esforçou-se para esconder os olhos cheios de lágrimas. Cauteloso, ele aproximou-se da cama.

— Meng xiaojie, algum problema? Está sentindo dor?

— Pode me ajudar com meu cabelo? — Yan Da tentou mudar o foco dele, e de si mesma, para outra direção. — Ele está me atrapalhando comer.

Ele percebeu a mentira, é claro, mas respeitou a vontade dela em não falar o que sentia. Confiava que, caso ela sentisse dor, pediria ajuda. Meio sem jeito, Shi pegou um elástico de cabelo sobre uma mesinha que havia ao lado da cama e hesitou por um momento.

— Ahn... como quer prender?

— Para cima, um coque. — Disse Yan Da. — Sinto muito pedir isso, mas não consigo mexer a mão direita com muita liberdade.

— Não se preocupe com isso, talvez não faça direito porque, bem, nunca prendi o cabelo de ninguém antes. — Ele deu uma risada nervosa. — Mas farei o melhor que puder. Se a senhorita me orientar, talvez me saia melhor.

Yan Da agradeceu mentalmente por isso. Enquanto ela o orientava, sua atenção era movida para as mãos de Shi movendo-se delicadas no seu cabelo. De início ele parecia temer que qualquer gesto a ferisse, mas logo sentiu-se a vontade com os fios, movendo-os cuidadosamente e prendendo-os com o elástico de acordo com que ela dizia. O resultado, para uma primeira vez lidando com a atividade, ficou muito decente. Com a tarefa concluída, ele serviu para ela um pouco de chá vendo que a expressão de Yan Da mostrava melhoras.

— Obrigada. — Disse ela.

— É um prazer. — Sorriu. — Fico feliz que tenha me pedido isso.

— O senhor é atencioso assim com todas as funcionárias? — Alfinetou. — Não me admira que todas elas suspirem quando o senhor aparece.

Shi fez uma careta.

— Acredito que o modo como elas me idealizam é bem melhor do que como sou de verdade. — Deu uma leve risada. — Mas não, eu sou educado com todos os funcionários da ZhangYing, mantê-los motivados e felizes é o segredo para o crescimento positivo da empresa, mas não sou tão atencioso quanto a senhorita sugere.

— Ah, então estou recebendo tratamento diferenciado? — Ela ergueu uma sobrancelha. — Pode me dizer a razão?

Ele sentiu o rosto inteiro ficar muito quente, não sabia como poderia dizer a resposta de uma maneira que não soasse negativa, afinal, ele queria se aproximar de Yan Da, desejava conhecê-la melhor e até mesmo se tornar amigo dela. Mas todos os meios que encontrava de responder a pergunta dela soavam como se ele a estivesse perseguindo. Porém, foi impedido de responder graças a Huang Tuo que entrou no quarto com um sorriso carismático iluminando seu rosto bonito.

O médico cumprimentou alegremente Yan Da fazendo as rotineiras perguntas sobre como ela se sentia e se havia tido algum problema enquanto ele esteve fora. Voltando-se finalmente para Shi, seu sorriso brilhante se tornou travesso ao ver o rosto do outro corado.

— Eh, Ying gōngzǐ*, por que está vermelho, tem febre? — Provocou.

— Oh, Ying xiansheng estava prestes a me dizer por que estou recebendo um tratamento especial em relação aos outros funcionários da sua empresa. — Ajudou Yan Da notando o clima conspiratório do médico.

— É mesmo? — O sorriso de Huang Tuo alargou-se. — Agora fiquei muito curioso para saber a resposta dessa pergunta.

— Huang yīshēng, acredito que o senhor tem uma emergência para atender.

Méiyǒu a*. Tudo tranquilo hoje.

— Está prestes a ficar agitado, então! — O tom de Shi era grave.

— Aya, veja isso, Meng xiaojie, ele está matando uma galinha na frente de um macaco!* — Huang Tuo agia como inocente. — Tão assustador, não sei o que as mulheres veem nele.

Yan Da deu uma leve risada e sentiu uma fisgada que a fez gemer. Huang Tuo adiantou-se para ajudá-la a se acomodar melhor na cama e Shi ficou em alerta, preocupado que ela tivesse se ferido.

Hǎole hǎole*, sinto muito, não devia tê-la feito se agitar muito. — Desculpou-se com um sorriso constrangido. — Vou lhe dar um anestésico para aliviar o incômodo.

—Tudo bem — Yan Da sorriu —, não foi nada demais. É bom poder rir.

— Ah, sim, rir é sem dúvida o melhor remédio! — O médico deu uma risadinha. — Mas no momento suas costelas não estão cooperando para isso, a senhorita está indo muito bem, prometo que a farei rir muito mais quando estiver recuperada. Certo, Ying gōngzǐ?

Shi estreitou o olhar para Huang Tuo que apenas riu. Yan Da observava a interação dos dois com uma mistura de interesse e diversão. Não era a primeira vez que via os dois agindo de forma tão próxima e imaginava que eram amigos de longa data, graças ao médico ela pôde ver um lado de Shi que imaginava nem todo mundo conhecia. Além disso, ela mesma começava a ver Huang Tuo como um amigo, era difícil não se apegar ao carismático e divertido médico, com a proximidade deles e de Chao Ya e Pian Feng, Yan Da não se sentia mais tão sozinha.

— Ela vai ficar um pouco sonolenta, é normal. — Disse o médico para Shi. — Não deixe que se esforce muito, hǎo ma?

Zhīdàole*. — Shi fez uma carranca.

— Não morra de amor ainda, a UTI cardiológica está cheia. — Atiçou.

— Huang Tuo! — Shi advertiu.

Rindo, o médico deixou o quarto onde um Shi muito vermelho ficara sob o escrutínio afiado de Yan Da, que se esforçava muito para não rir. Ele voltou a sentar na poltrona ao lado da cama e colocou o copo com água ao alcance dela quando pediu, por um momento, nenhum dos dois disse nada, mas conforme o analgésico ia fazendo efeito, Yan Da não queria desperdiçar mais qualquer oportunidade de ficar com ele.

— Vocês parecem se conhecer a muito tempo.

— Ah, Huang Tuo é amigo do meu irmão desde o ensino médio, eu o conheci nessa época então, podemos dizer que quase crescemos juntos. — Explicou.

— Deve ser bom ter amigos antigos assim...

— A senhorita não tinha ninguém para irritá-la na escola? — Sondou Shi tentando não parecer ansioso.

— Oh, eu sempre me defendi muito bem. — Sorriu. — E também havia... Suànle*.

A expressão de Yan Da, de repente, tornou-se triste. Shi se deu conta de ter chegado perto de saber mais sobre Peng Peng, ao mesmo tempo percebeu o quanto o assunto doía nela, pensou se não era cruel instiga-la a continuar falando, mas diante do conselho de Huang Tuo, ele não queria que ela se agitasse e acabasse sentindo dor novamente.

— Meng xiaojie, só quero que saiba que, qualquer coisa que queira ou precise falar, pode confiar em mim.

— Ainda não tenho tanta certeza se posso. — Ela lhe brindou com um sorriso travesso, bocejando em seguida. — Mas então, vai me dizer por que estou tendo tratamento especial?

Ela fechou os olhos sentindo o torpor ganhar espaço, seu corpo inteiro ia relaxando sob efeito dos remédios aplicados por Huang Tuo, Yan Da sempre agradecia a inconsciência. Dormir lhe mantinha longe de uma realidade que ainda era difícil de lidar e de entender. Mas antes de ser arrastada para o mundo dos sonhos, pôde ouvir com nitidez a resposta de Ying Kong Shi.

— Por que você é especial. — Respondeu ele, baixinho. — E importante pra mim. Não precisa mais ficar sozinha.

Yan Da não sabia a razão, mas seus lábios se arquearam em um sorriso involuntário e antes que percebesse, ela adormeceu.

Quando se certificou que ela havia dormido, Ying Kong Shi ergueu a mão e acariciou o delicado rosto dela, seu coração batia depressa e, de repente, foi acometido por uma espécie de desespero profundo de nunca mais sair do lado dela, queria proteger Yan Da, não importava de que ou de quem. Ele lutaria para continuar ao lado dela e não permitiria que ninguém mais a machucasse de novo. Uma parte dele não entendia a razão dessa urgência crescendo dentro de si, mas essa parte era subjugada pela certeza de que precisava dela. Ele a salvaria.

Da família.

Do mundo.

De si mesmo.

Notas:

* Dāngrán a [当然啊] — Claro.

*Èr diànxià [二殿下] — segunda alteza.

*Méi cuò [没错] — sim; exatamente; está certo; isso mesmo.

*Nǐ láile [你来了] — Você veio.

*Gōngzǐ [公子] — Pode ser traduzido como "jovem mestre", esse honorífico indica que a pessoa que fala é hierarquicamente inferior à outra. Huang Tuo utiliza como forma de respeito, apesar de ser irônico.

*Méiyǒu a [没有啊] — Não; Não tem; Não há.

*Matar uma galinha na frente de um macaco — Ameaçar.

*Hǎo le [好了] — Okay.

*Zhīdàole [知道了] — Entendi.

*Suànle [算了] — Esquece.