Love as Sakura | 爱如樱

15 第13章 Impaciente


— Shuo Gang, o que está fazendo?! Solte-o agora!

— Por que está tão ansiosa? Ele parou diante dela bloqueando sua passagem. — Ele não passa de um escravo mortal. Qualquer um pode matá-lo, por que se importa tanto?

— Como se atreve a tocar em um dos meus homens?!

O Tapa que seguiu essas palavras foi tão forte que Yan Da se desequilibrou, a boca enchendo de sangue.

— Como ousa? — Bradou Shuo Gang. — Ele é apenas um escravo e você me desrespeita por causa dele?! Ainda me considera seu irmão?

Yan Da engoliu bravamente cada lágrima que fazia esforço para cair e lançou seu olhar mais duro na direção do irmão mais velho.

— Acontece que ele não é um escravo pra mim! Ele é meu...

— Seu o quê? — Shuo Gang aproximou o rosto dela ameaçadoramente. — O que ele é pra você?

Ela sabia que, caso dissesse a verdade, Yun Fei apenas se tornaria um alvo do cruel irmão, Shuo Gang saberia onde podia feri-la e usaria de todos os meios para matar Yun Fei apenas para atingi-la e ganhar mais poder ao lado do pai.

— Meu amigo.

Shuo Gang deu uma risada de escárnio.

— Amigo? Há! Não seja ridícula, nós da tribo do fogo não temos amigo. Ou são nossos aliados ou são inimigos. Os súditos do fogo, além de obediência total ao rei, não podem ter sentimentos por mais nada. Principalmente você como princesa do fogo que deve obediência unicamente ao rei, não deve se apegar a mais ninguém, incluindo ele!

As mãos de Yan Da fecharam-se em punho apertando com tanta força que, não fossem as luvas, as unhas teriam ferido suas palmas.

— Se ainda me vê como sua irmã, solte-o. — Falou entredentes.

— E se eu não soltar? — Ele sorriu deliciando-se com a angústia dela.

— Então não me culpe pelas minhas ações!

Rapidamente ela o atacou, Shuo Gang era rápido e desviava de seus golpes com agilidade, por vezes zombando dela, mas Yan Da compensava suas deficiências com inteligência e soube esperar o momento certo para, usando seu chicote, derrubar o irmão em um golpe poderoso e triunfal. Vendo que ela vencera e sabendo que iria até o fim, Shuo Gang tentou fazê-la parar, o príncipe do fogo não era inteligente, mas tinha certa astúcia e seu instinto de autopreservação equiparava-se à sua covardia.

— Você venceu, ele é seu prêmio, pode levar.

— Se você tocar em um fio de cabelo dele outra vez, não me culpe por ignorar nosso laços fraternais. — Ameaçou com tanta convicção que uma nuvem de apreensão passou pelos olhos âmbar de Shuo Gang.

Yan Da sentiu o rosto doer onde levara o golpe como uma ferida fantasma de um membro há muito amputado, mas cuja dor remanescia na mente por tempo indefinido. Olhando toda aquela cena ela não sabia o que pensar, mesmo a mulher nas imagens tendo seu rosto, ela não se reconhecia ali. Tampouco sabia porque ver o rosto de Shi tão machucado daquela forma lhe afetava tanto.

— Tsc, tsc... — A mulher caminhava pelo salão com uma expressão de decepção, seus movimentos eram graciosos. — Você enfrentou seu irmão pela primeira vez, esgotou metade da sua alma para curar as feridas dele, mas o que ele fez depois? Traiu você. Da forma mais vil.

— Pare! — Pediu Yan Da incapaz de suportar as sensações aterradoras que lhe engoliam. — Eu não quero ver mais nada!

— Ora, não seja tão impaciente, minha querida.

— Não quero lembrar! — O medo sobrepujou qualquer resquício de coragem e curiosidade que ela tivesse antes. — Não quero.

— Ying Kong Shi usou você, o tempo todo, até o seu fim. — Continuou a mulher. — Dói saber disso, não é?

— Não sou eu!

— Claro que é você. — Ela sorriu. — Princesa Yan Da da tribo do fogo, décima primeira e única filha de Huo Yi, apaixonada pelo assassino do seu pai e inimigo do seu clã!

A mente de Yan Da estava um caos, ela sentia uma pressão tão grande sobre todo seu corpo que um fio de sangue escorreu pelo seu nariz. Atordoada, ela começou a correr para longe da mulher, do castelo, da verdade. Era doloroso demais, ela não queria suportar aquilo. A voz da mulher continuava ecoando por todo lugar, mas Yan Da se recusava a ouvir, conforme corria tinha a impressão que as portas do castelo ficavam mais distantes, a sensação era enlouquecedora. Eu preciso acordar! Tenho que acordar! É só um sonho, Yan Da, só um sonho! Ficava repetindo para si mesma, incapaz de encontrar uma âncora na qual sustentar seus pensamentos.

Yan Da só tinha a si mesma.

Então veio um som de algum lugar. Era como um gotejar, alto, seguido do som de um apito ao fundo. Algo lhe dizia que, se seguisse o som, conseguiria sair daquele lugar.

※ ※ ※

— Saiam todos daqui! Todos! — Ordenou Huang Tuo.

Os batimentos de Yan Da continuavam caindo, ele fechou as cortinas do vidro e trancou a porta do quarto, fazendo um movimento rápido com os braços usou seus poderes de cura para reverter o fluxo de energia no corpo da princesa. Entretanto, percebeu o problema: a mente de Yan Da não estava ali. Rapidamente, ele puxou um cubo de dentro do jaleco e usou energia para fazê-lo pairar um pouco acima da sua mão.

— Xing Jiu, preciso de você, Kuài!*

Do lado de fora Shi espancava a porta querendo saber o que estava acontecendo, uma mistura de impaciência e terror começavam a dominar o médico, cada segundo era precioso e, se Xing Jiu não se apressasse ele não conseguiria salvar Yan Da. Os gritos de Shi o estavam desconcentrando de modo que ele foi até a porta para tranquiliza-lo e, sem abrir, falou com ele.

— Shi, está me ouvindo?

— O que está havendo? Por que não me deixa entrar? Eu preciso vê-la.

— Você confia em mim?

— Sim.

— Então fique calmo, eu vou fazer o que for preciso para manter Yan Da viva, eu te prometo.

O outro pareceu aquiescer, pois não respondeu, Huang Tuo voltou até Yan Da e tentou equilibrar o corpo dela, mas sem a consciência seu trabalho era praticamente em vão. Através de um portal, Xing Jiu surgiu dentro do quarto usando as roupas do reino do gelo e o cajado das estrelas. Seus longos cabelos brancos brilhavam na luz pálida do quarto. Ele não fez perguntas, se Huang Tuo o chamara ele sabia que o problema estaria no inconsciente da princesa e, sem perder tempo, usou o cajado para sondar os sonhos dela.

— Onde ela está? — Indagou o médico.

— Impossível... — Murmurou o astrólogo. — Depressa, avise sua majestade.

Usando seus poderes, Xing Jiu entrou no inconsciente de Yan Da, ele pairou sobre a tempestade de neve do lado de fora da montanha Huan Xue, pulou para dentro da réplica da Cidade Ren, as ruas estavam desertas, mas a réplica da mente de Yan Da era perfeita, sem qualquer mínima falha. Ele sabia quão perigoso era aquilo e, além de Xing Gui, só havia uma pessoa que poderia prender e manipular o inconsciente de alguém daquela maneira. O coração de Xing Jiu acelerou quando ele correu na direção do castelo tentando localizar Yan Da.

Do lado de fora, Huang Tuo tentava manter Yan Da estável enquanto o astrólogo estava na mente dela, podia distinguir os passos de Shi do lado de fora e não era difícil imaginar o jovem príncipe andando de um lado para outro, em parte, pensou ele, aquilo era bom. Quanto antes o laço entre ele e a jovem princesa se formasse, mais cedo todas as coisas — e todos eles — poderiam ser livres.

Uma corrente de ar frio anunciou a chegada de Ka Suo, usando um portal, o rei da tribo do gelo apareceu no quarto e viu a cena desenrolando-se na sua frente, Huang Tuo respirou aliviado, o corpo de Yan Da estava estável, mas ela precisava recuperar a consciência depressa ou seria incapaz de encontrar o caminho de volta.

— O que está acontecendo? — Perguntou Ka Suo em voz baixa.

— Não sei, meu rei, mas, a julgar pela expressão de Xing Jiu quando sondou a mente da princesa, não deve ser algo bom.

Ka Suo sentiu todos os músculos do seu rosto retesarem, reunindo uma grande quantidade de energia nas palmas das mãos ele tocou as costas do astrólogo para intensificar seu poder e conseguir entrar no inconsciente de Yan Da através dele. Huang Tuo via o rosto franzido do astrólogo e a camada de suor que se formava em sua testa, mesmo com a ajuda de Ka Suo, trazer Yan Da de volta não seria uma batalha fácil.

※ ※ ※

— Você não pode fugir de si mesma. — A mulher avançava na sua direção enquanto Yan Da continuava correndo.

Ela sentia suas forças diminuírem e seu coração desistindo lentamente, a mulher se aproximava cada vez mais ameaçadora, a mente de Yan Da dava voltas, as imagens desconexas oprimindo-a e ela não conseguia escapar. Seu grito ecoou pelas paredes de gelo enquanto a mulher sorria, o rosto de Ying Kong Shi dominava cada pensamento seu e ela lutava contra as memórias.

Nesse momento, Ka Suo surgiu acompanhado de outro homem, alguém a quem Yan Da nunca vira. O segundo homem, usando roupas estranhas, segurava um longo cajado e com um movimento ajudou a mente dela a limpar-se.

gōngzhǔ, consegue levantar? — O estranho perguntou e Yan Da franziu o cenho ao ouvi-lo chama-la de "alteza".

— Ora, Ka Suo, estou realmente admirada que tenha conseguido chegar até aqui. — A mulher falou em tom zombeteiro.

— Você não vai conseguir o que quer, não dessa vez.

— Que poder você tem para me deter? — Ela ergueu o queixo de forma arrogante e Ka Suo apenas sorriu. — Você não passa de um boneco nas minhas mãos.

— Lian Ji, seus dias de controladora de marionetes acabaram. — Retrucou Ka Suo. — Esse não é mais o seu jogo e a única arma que você poderia usar contra mim está nas minhas mãos.

— Quando isso tudo acabar veremos quem rirá por último.

— Essa é apenas uma advertência. — O tom de Ka Suo soou cortante. — Não vou ser tolerante com você se tocar Shi ou a princesa uma segunda vez.

Uma luz forte forçou Yan Da a fechar os olhos, a planície gelada e tempestuosa voltou a cercá-la e o frio severo a chicoteou com violência. Olhando para os lados ela queria perguntar a Ka Suo quem era aquele homem que a segurava, mantendo-a de pé porque ela já não tinha mais qualquer energia para nada. Eles começaram a andar, mas quanto mais tentavam avançar, mais voltavam para a entrada da Cidade Ren.

— Não adianta... estamos no inconsciente da princesa. — Disse o homem. — Apenas ela pode alterar o rumo e achar uma porta.

— Meng xiaojie, precisamos da sua ajuda para sair daqui. — Disse Ka Suo voltando-se para ela. — Precisa se concentrar e encontrar a porta.

— Que porta? — Murmurou Yan Da, trêmula e confusa.

— A porta que a levará de volta pra casa. — Explicou Ka Suo. — Nós podemos entrar, mas só podemos sair se a senhorita permitir isso.

— Eu não entendo...

Sua visão ficou turva e ela pendeu sendo segurada com mais firmeza pelo homem que a ajudava. Por mais que tentasse, todo aquele pesadelo parecia sem sentido, mas Yan Da desejava desesperadamente sair dali, estava assustada. A mulher de antes, a quem Ka Suo chamara de Lian Ji, apareceu novamente, graciosa em meio à tempestade cruel, os flocos de neve cortante não pareciam tocá-la e era como se mesmo o vento não a tocasse já que suas roupas estavam paradas.

— Gōngzhǔ, se não conseguir encontrar a porta, ficaremos presos aqui dentro e corremos o risco que Lian Ji destrua sua consciência. Ficará perdida no vazio para sempre. — Murmurou o homem para ela.

Yan Da não entendeu. Ka Suo materializou uma espada de lâmina azul na mão deixando-a chocada, o objeto simplesmente apareceu ali pela vontade do irmão de Shi, não estivesse tão atordoada e sem energia ela teria se permitido indagações e perplexidade. A mulher sorriu, erguendo uma mão em um gesto simples ela manipulou todo o vento na direção de Ka Suo e os fractais gelados de repente eram como adagas afiadas voando mortais pelo ar. Ka Suo, entretanto, defendeu-se bem construindo uma espécie de escudo em volta de si enquanto avançava na direção a mulher.

A briga começou, os dois pareciam personagens de um jogo de RPG de alta definição, olhando em volta, Yan Da buscou a tal porta como se ela fosse algo simples no meio daquele nada gelado e desconhecido. O homem começou a se afastar com ela temendo a batalha que acontecia — e que Ka Suo parecia não levar vantagem ou desvantagem sobre Lian Ji — disse a si mesma para procurar aquela porta, fosse ela o que fosse.

Yan Da pensou em Chao Ya e Pian Feng no seu apartamento, na sensação calmante de uma xícara de chá diante da janela da sua sala, mas quanto mais a planície se alargava, mais cansada e sem força ela se sentia. O homem olhou em volta e, usando seu cajado, criou algo como uma redoma em torno deles, ajudou-a a sentar sobre o tapete de neve e segurou seu pulso. Ela não fazia ideia do que ele estava fazendo quando direcionou dois dedos a poucos centímetros do seu braço e um fio arroxeado começou a penetrar sua pele, era quente e se espalhava pelo seu corpo como um cobertor de lã num dia muito frio.

Conforme seu corpo ia sendo energizado, a mente de Yan Da se tornava um pouco mais lúcida, a imagem de Shi surgiu como um insight para ela e, ao visualizá-lo com nitidez, a porta apareceu. O homem ao seu lado sorriu, erguendo-a com delicadeza ele gritou o nome de Ka Suo e este virou-se na direção deles, Lian Ji tentou ataca-lo uma última vez, mas num piscar de olhos o irmão de Shi materializou-se ao lado deles e os três atravessaram aquela porta côncava no meio de um deserto de neve.

Aos poucos, Yan Da foi se tornando consciente da realidade à sua volta, Huang Tuo passou de uma imagem embaçada para forma nítida diante dos seus olhos.

E estava sozinho.

Ela queria perguntar onde estavam Ka Suo e o outro homem, o que tudo aquilo significava ou o que tinha acontecido, mas antes que sua boca pudesse esboçar qualquer palavra, ela sentiu algo picar seu braço e caiu novamente em um vácuo, dessa vez sem sonhos.

Huang Tuo suspirou aliviado e agradeceu a Ka Suo e Xing Jiu.

— Hmm, se você não pretende chamar atenção eu aconselho que repagine seu figurino, Xing Jiu. — Sorriu. — Você está velho demais para fazer cosplay do senhor dos anéis.

— Temos assuntos mais sérios que as minhas roupas. — Suspirou. — Wáng, se Lian Ji conseguiu manipular os pensamentos da princesa ela pode tentar o mesmo com o jovem príncipe.

— Precisamos encontrar uma maneira de deter o avanço dela e descobrir onde ela está se escondendo.

— Eu vou forjar uma pedra dos sonhos para a princesa, o mais rápido que conseguir, pensarei em algo para Shi wángzǐ.*

— Encontrarei uma maneira de eles usarem.

— E quanto as memórias da princesa? — Quis saber Huang Tuo.

— Eu as apagarei antes de ir. — Disse Xing Jiu. — Mas vou precisar de tempo, é um processo muito complicado e perigoso, se eu mexer no fio errado ela pode esquecer quem é.

— Cuidarei do jovem príncipe. — Anuiu Huang Tuo.

Ao ver que tudo estava certo, Ka Suo abriu um portal e foi embora deixando os dois subordinados sozinhos. Xing Jiu exibia uma expressão preocupada enquanto encarava Yan Da sedada sobre a cama, do lado de fora os passos de Shi haviam parado — o que era, ao mesmo tempo, preocupante e bom. Antes que ele fizesse menção de dizer alguma coisa, o astrólogo adiantou suas preocupações.

— Não acredito que Lian Ji conseguiu passar pelo sacrifício. — Havia uma angústia intensa nos olhos claros de Xing Jiu. — Tenho certeza que não falhei em nada, zěnme kě ne?*

Compassivo, o médico colocou uma mão no ombro do amigo e sorriu.

— Ei, a culpa não é sua. Estamos falando de Lian Ji, afinal, naquela época nem mesmo o rei, com os poderes do segundo príncipe, conseguiu derrota-la, ela criou uma ilusão para aprisionar todos nós, claro que ela não ia deixar seu jogo se perder assim tão fácil.

— Mesmo que você esteja certo, sem a lótus invisível ela poderia ser capaz disso? — Ele se virou para Huang Tuo. — Pensei que esse era o maior trunfo dela.

— Jiu xiong*, ela criou a lótus invisível, não podemos mesurar até onde vai o poder dela. Mas nós podemos mesurar nossas chances de vencer agora e estou confiante que ela vai perder.

— Não sei... há tanto ressentimento no coração da princesa quanto há culpa do na segunda alteza.

— Yan Da gōngzhǔsempre foi diferente dos demais da sua família, há bondade no coração dela, estou certo que ela encontrará dentro de si o caminho para perdoar a segunda alteza outra vez.

Xing Jiu assentiu e olhou o amigo com gratidão. Dando alguns tapinhas carinhosos no ombro do astrólogo, Huang Tuo deixou o quarto para acalmar Ying Kong Shi, encontrou o jovem príncipe do império da neve vencido pelo cansaço, adormecido numa das cadeiras do corredor. Ele sorriu, ao seu próprio modo, Shi também havia lutado sua batalha. Ele sentou na cadeira ao lado e sacudiu levemente o ombro do adormecido para acordá-lo sem que este se assustasse. Shi abriu os olhos e encarou o sorriso de Huang Tuo, por um momento mínimo ele havia esquecido o que estava acontecendo, mas num átimo de tempo tudo veio à sua mente e ele segurou os braços do médico tomado pela ansiedade.

— Yan Da...

— Ei, fique tranquilo. Ela está estável. — Acalmou-o. — Dei um sedativo e ela provavelmente não vai acordar até amanhã após o meio dia.

— O que aconteceu, por que você fechou tudo?

— Ora, Ying Kong Shi, há alguns procedimentos médicos que devem preservar o paciente. Nem tudo pode ser feito de forma escancarada.

— Obrigado, Huang Tuo.

— Não me agradeça pelo meu trabalho. — Sorriu o médico. — Você pode voltar no horário de visitas para acordá-la com um beijo casto de amor verdadeiro.

Shi suspirou, aliviado pela primeira vez com a brincadeira de Huang Tuo, se o médico estava relaxado àquele ponto significava que Yan Da estava mesmo bem dentro do possível. Após ser persuadido por Huang Tuo, ele acabou aceitando ir para casa tentar descansar um pouco, também sabia que se Ka Suo acordasse e não o encontrasse ficaria preocupado. Ele olhou uma última vez o vidro coberto por uma cortina do quarto de Yan Da e seguiu pelo corredor.

※ ※ ※

Tudo parecia um pesadelo. Yan Da sentiu-se enjoada e estranha conforme as sensações ambientes iam clareando na sua mente. O bip constante, o odor forte de éter e água sanitária, o frio do ar-condicionado fazendo os pelos do seu braço arrepiar. Ela abriu os olhos, meio grogue, lembrando vagamente do "acidente", da sensação confortante e dolorosa do abraço de alguém que chamava repetidamente seu nome, pensara que havia sido Peng Peng, mas era impossível...

Peng Peng estava morto.

Ela abriu os olhos e o teto branco entrou em foco, estava começando a ficar com medo de dormir se toda vez que o fizesse acordasse em um hospital. Hospitais significavam agulhas e ela sabia que, em algum lugar do seu corpo, deveria haver uma. Conforme o pânico ia se instaurando dentro de si, uma voz conhecida e zombeteira chamou sua atenção.

— Sempre causando confusão por onde passa. Você é incapaz de fazer algo certo?

Shuo Gang.

— Parabéns, está na primeira página com aquele bastardinho do Ying Kong Shi. — Seu tom era venenoso e um sorriso arrogante arqueava-se diabólico no seu rosto enquanto erguia o jornal para ela. — Diz aqui que ele é o grande salvador da sua concorrente.

A foto no jornal mostrava Shi segurando-a nos braços enquanto o carro dela estava em chamas alguns metros atrás deles. Havia um sem número de pessoas ao redor deles e a manchete não podia ser mais sensacionalista: Amor Proibido? Jovem herdeiro da ZhangYing salva filha do concorrente de sua empresa.

— Desde o início eu devia saber que isso seria demais pra você. — Continuou Shuo Gang. — Olha o seu estado, não podia ser mais ridículo!

— Isso foi obra sua, não é? — Acusou Yan Da, ela sentiu a dor queimando no local das costelas quebradas quando falou.

— Acha mesmo? — Ele riu. — Se eu quisesse você morta, xiǎo mèi*, encontraria uma maneira mais divertida do que apenas bater no seu carro.

— Saia daqui, Shuo Gang! — Ela gemeu de dor ao se exaltar.

— Ou o quê? Vai me expulsar? — Ele riu. — Você mal consegue falar. De verdade, Yan Da, você é patética.

— Acredite em mim... — Ofegou. — Você não vai escapar ileso dessa vez!

O rosto de Shuo Gang se tornou sombrio, ele ergueu uma seringa diante do rosto dela e Yan Da sentiu todo seu corpo retesar aumentando ainda mais a dor nas costelas, respirar se tornou uma batalha que ela estava perdendo.

— Lembra disso? — Ele falou baixinho deslizando a agulha próximo ao rosto dela, lágrimas quentes desceram pelas têmporas de Yan Da. — Claro que lembra. Um passo em falso, Yan Da, e eu vou trazer de volta à realidade seu pior pesadelo.

— Meu pior pesadelo é ter que dividir o mundo com algo nojento como você.

Ela sentiu a pressão da ponta da agulha contra sua pele quando a porta se abriu e Shuo Gang apressou-se em colocar a seringa de volta no paletó.

— O que está fazendo aqui? — Huang Tuo segurava uma prancheta médica. — Não é horário de visitas ainda, Meng xiansheng, por favor, queira sair.

— Sinto muito, Huang yīshēng, eu só precisava ver a minha irmãzinha. Nosso pai está muito preocupado.

— Imagino que sim. — Huang Tuo esboçou um sorriso sarcástico. — Mas as visitas à senhorita Meng estão suspensas, não sei quem o deixou entrar aqui, mas a CTI é proibida fora do horário de visitas e sem os trajes adequados. Sendo assim...

Ele fez um gesto indicando a porta. Shuo Gang deu uma nova olhada para Yan Da, que virou o rosto, e deixou o quarto. Quando a porta fechou todo o nervosismo que ela estava reprimindo veio à tona, era uma mistura de raiva, frustração e impotência, no fundo, Yan Da sabia, havia medo também. Ela odiava Shuo Gang. Quanto mais chorava, mais a dor se espalhava por todo o seu tronco, ela sentia que havia levado uma surra enquanto estava desacordada.

— Meng xiaojie, por favor, a senhorita precisa ficar tranquila. — Pediu Huang Tuo diante da agitação de sua paciente. — A incisão da cirurgia é recente e pode abrir.

Não importava o quanto ela tentasse parar as lágrimas, elas simplesmente continuavam caindo, aliado a isso havia o pânico pela agulha em seu braço e a outra em seu dedo. Yan Da começava a entrar em uma situação fora de controle que pioraria se Huang Tuo não tivesse aplicado um sedativo ao seu soro que, lentamente, foi levando-a pelo torpor até o sono. Antes de dormir ela ainda ouviu as ordens incisivas do médico.

— Shuo Gang está proibido de ver a senhorita Meng! Não me interessa se é irmão dela, pai, marido, até segunda ordem ela só recebe visitas autorizadas por mim, fui claro?!

— Sim doutor.

— Movam ela para a CTI 7 e mandem esterilizar esse quarto.

※ ※ ※

Apesar de tudo à sua volta estar coberto de neve, Yan Da não sentia frio. Sob a frondosa cerejeira de cujos galhos as flores se desprendiam e volitavam no ar, ela aconchegou-se nos braços que a envolviam e sorriu feliz. A sua volta, o declive era preenchido por diferentes cores de flor de cerejeira que exalavam um aroma suave pintando a paisagem branca de diversos tons de rosa e lilás. Uma música suave de flauta de bambu flutuava no ar, as notas como fractais gelados levados pelo vento, era tão bonito que chegava a doer na alma.

O coração de Yan Da estava tranquilo. Não havia sol no céu anil sobre eles, mas ainda assim ela não se lembrava de já ter visto o firmamento em maior glória. Erguendo o rosto ela encarou a face pacífica e esculpida de Ying Kong Shi, ele lhe ofereceu um sorriso carinhoso, os longos cabelos brancos caindo como um véu por trás dos seus ombros, a coroa prateada com uma safira no meio destacava ainda mais seus olhos tão azuis quanto o céu acima deles, ele era tão lindo. Ela nunca se cansava de olhá-lo. Quando uma lágrima cristalina desceu pelo rosto dele, Yan Da ergueu sua mão para ampará-la com os dedos e a voz melódica e aveludada dele se dirigiu a ela.

— Yan Da... duìbùqǐ.*

Então ela sentiu. Era como se suas entranhas tivessem sido preenchidas com lava vulcânica, a dor espalhou-se pelo seu corpo como chamas lambendo a madeira de uma casa incendiada. Ela ofegou, a boca enchendo-se de um líquido ferroso e amargo, seus dedos se prenderam na roupa de Shi quando ela tentou se mover e não conseguiu, ele tocou o rosto dela e pediu perdão mais uma vez. Yan Da lutou para respirar, suas mãos trêmulas tatearam seu tórax e ela percebeu a ferida larga e aberta, o sangue quente que fluía como uma cascata.

Ela tentou dizer alguma coisa, mas ao invés de palavras apenas sangue escapou pela sua boca, Shi agarrou sua mão com força enquanto continuava murmurando pedidos incessantes de perdão. Ela não conseguia respirar, seus pulmões pareciam pesados e incapazes de cumprir sua função. O mundo foi apagando-se lentamente dos olhos de Yan Da, as cerejeiras tão belas se tornaram borrões impressionistas no quadro final pintado pela morte, algo lhe aqueceu e então ela se sentiu desintegrar, desaparecer em faíscas, levada pelo vento, tragada pelo buraco negro do nada.

Abriu os olhos puxando ar com força, o que só contribuiu para que suas costelas doessem ainda mais. O quarto estava à baixa luz e ela viu a presença de Huang Tuo ao seu lado ele se apressou em tranquiliza-la.

— Shh... está tudo bem, Meng xiaojie, está segura. — Ele tocou o braço dela levemente. — Não entre em pânico, certo?

Yan Da se esforçou para concordar, mas era uma batalha difícil, ela parecia ciente de cada pequena coisa no seu corpo, principalmente as agulhas. Enviou vários comandos mentais para si mesma ordenando que permanecesse tranquila, ninguém lhe machucaria de novo.

— Eu a troquei de quarto, ninguém mais pode entrar se eu não permitir, então não se preocupe, seu irmão não vai voltar. — Disse ele com um sorriso terno. — Os detetives querem fazer algumas perguntas, mas eu não vou permitir até que a senhorita se sinta melhor, está bem?

— Obrigada, Huang yīshēng.

— Quanto as agulhas, eu sei que é difícil, mas tente suportar um pouco mais, hǎobù hǎo?* Realmente não posso tirá-las agora. Pode fazer isso?

Ela anuiu.

— Muito bom. A senhorita está se saindo muito bem! — Huang Tuo lhe ofertou um sorriso cativante. — Eu vou lhe dar um anestésico para aliviar a dor e pedirei a uma enfermeira que traga seu almoço, tudo bem? Se precisar de qualquer coisa, o botãozinho de alerta está ao alcance da sua mão livre de agulhas, basta apertar que eu virei imediatamente.

Ele aplicou o anestésico no soro e deixou o quarto. Alguns minutos depois uma enfermeira entrou no quarto com uma bandeja e ajustou a cama para que Yan Da conseguisse comer.

— É seu horário de visitas, Meng xiaojie, a senhorita Chao será a primeira a entrar. Deseja recebe-la?

— Sim, por favor. — Yan Da sentiu seu coração aquecer, tudo havia acontecido tão depressa, mas pareciam fazer anos desde a última vez que vira Chao Ya.

A cantora vestia uma roupa especial completa quando entrou no quarto, os olhos cheios de lágrimas preocupadas quando se aproximou da cama e segurou a mão sem agulhas de Yan Da.

— Sabe como eu fiquei preocupada com você?! — Reclamou. — Tentei te ligar várias vezes, mas seu telefone caía na caixa postal, ficamos sabendo do acidente pelo jornal, mas não podíamos entrar pra te ver...

— Sinto muito...

— Por que está se desculpando, sua tola? — Chao Ya depositou um beijo na cabeça de Yan Da. — Faz parecer que bateu o carro de propósito. Como se sente?

— Estou bem. Só um pouco de dor, mas o remédio já começou a fazer efeito.

— O doutor Huang disse que você precisou de uma cirurgia de emergência por uma lesão no pulmão, o hospital tentou ligar para o seu pai, mas ninguém atendeu. Ying Kong Shi assinou o termo de responsabilidade.

— Ying Kong Shi? — Yan Da estava surpresa.

— Não sei que feitiço você jogou naquele pedaço de mal caminho, mas ele passou a noite quase toda ali fora. — Sorriu travessa dando um gritinho baixo. — Ele está muito na sua!

— Não diga absurdos, jiě.* Você parece uma coluna sensacionalista de fofoca.

— Aya, Yan mèi,* por que razão ele faria tudo isso? Você não viu a cara dele como eu, então não sabe, mas ele parece alguém cuja esposa acaba de sofrer um acidente.

Yan Da ergueu a cabeça da sua comida para a amiga e franziu o cenho entre a incredulidade e o tom cômico daquela situação, embora Chao Ya não parecesse estar, de nenhum modo, fazendo piada.

— Chao Ya xiaojie, ouça suas próprias palavras. Nǐ fēngle ma?!*

— Xiao Yan, você bateu a cabeça com tanta força que sua percepção ficou danificada? Ele está aí fora só esperando para te ver, abra seus olhos e observe. Nenhum homem se devota assim a uma mulher sem qualquer interesse.

Yan Da meneou a cabeça, incapaz de acreditar em tamanho absurdo, e voltou a comer. Apesar do anestésico ministrado por Huang Tuo diminuir a dor, ela ainda sentia muito incômodo ao respirar e falar. Uma enfermeira anunciou o fim da visita de Chao Ya e Pian Feng entrou em seguida, usava os mesmos tipos de traje que sua agenciada e seu rosto torcido pela preocupação tocou o coração de Yan Da, era a primeira vez em muito tempo que ela se sentia tão cercada de carinho.

— Sua pequena pestinha, ainda vai fazer parar o único coração que eu tenho! — Ele segurou o rosto dela com as mãos enluvadas e escrutinou-a de modo analítico. — Deixe-me ver você, pelos céus, como isso foi acontecer com a minha fadinha?

— Estou bem, Pian Feng, não se preocupe. — Ela tentou acalmá-lo.

—Não se atreva a me dizer isso! Como pode estar bem com todos esses eletrodos, tubos e máquinas? O doutor Huang disse que você quase morreu ontem. Da'er, o que na terra aconteceu com você?

— Antes de mais nada, Pian ge , respire fundo. — Ela sorriu. — Fui eu que quase morri ontem, mas você vai morrer a qualquer momento se continuar assim.

Pian Feng sentou em uma cadeira ao lado da cama fazendo uma carranca, mas seus olhos estavam brilhando pelas lágrimas. Olhando para ele, Yan Da pensou que, mesmo não tendo o apoio da sua família, seus amigos substituíam essa família, ela se sentiu amada.

— Não sei direito como explicar o que aconteceu porque eu estava um pouco alterada na hora... havia tido um encontro com Shuo Gang e não estava muito em mim quando dirigi.

— O que Shuo Gang ainda quer com você? — Ele fez uma careta. — Já não fez o suficiente naquela época?

— Shh! — Brigou ela. — Ele nunca vai me deixar ir, você sabe. Por sorte, Ying xiansheng me ajudou. Eu não percebi que fui seguida até o carro tentar me tirar da pista.

— Você conseguiu ver alguma pista de quem estava dirigindo?

— Não muita coisa, quando bateu em mim pela segunda vez consegui olhar pelo retrovisor. Só tenho certeza de uma coisa: era uma mulher.

A expressão de Pian Feng escureceu e todo seu corpo retesou.Yan Da, contudo, não notou a mudança no amigo, estava concentrada na desconcertante sensação de ter esquecido alguma coisa, sobretudo no aperto estranho em seu coração, como um fantasma incógnito assombrando uma porta secreta da sua alma.

Notas:

*Kuài [快] — Rápido; depressa; veloz;

*Wángzǐ [王子] —príncipe.

*Zěnme kě ne? [怎么可呢?] — Como é possível?

*Xiōng [兄] — Irmão sem relação sanguínea.

*Xiǎo mèi [小妹] — Irmãzinha.

*Duìbùqǐ [对不起] — Desculpe; sinto muito; me perdoe.

*Hǎobù hǎo [好不好?] — Certo?; Okay?; Tudo bem?

*Jiě [姐] — Irmã mais velha

*Mèi [妹] — irmã mais nova

*Nǐ fēngle ma? [你疯了吗?] — Está maluca?; Enlouqueceu?