Love as Sakura | 爱如樱
10 第10章 Fogo e Gelo
Cega por lágrimas inexplicáveis e tremendo até os ossos, Yan Da conseguiu alcançar seu carro no estacionamento e entrou colocando a trava nas portas como se ali dentro estivesse protegida. Segurou o volante com as duas mãos forçando-se a respirar normalmente, mas não importava o quanto enviasse mensagens mentais para se acalmar, as lágrimas não paravam de cair.
Não havia qualquer explicação racional para o que acabara de acontecer. Yan Da tinha pesadelos desde criança com um homem de cabelos prateados em algum lugar que, a princípio, ela achava que era o Canadá ou o Pólo Norte, embora nunca tivesse estado em nenhum deles. Contudo, conforme crescia, o lugar ia tomando formas mais nítidas, e ela começou a acreditar que havia inventado aquilo em seu subconsciente. Mesmo seu coração procurando de forma incansável por aquele estranho, nunca lhe passou pela cabeça que ele pudesse ser Ying Kong Shi!
Porém, o momento em que ele lhe tocou e sua mente pareceu ter sido absorvida por aquele sonho lúcido — mesmo que ela desejasse dizer a si mesma que havia imaginado coisas —, foi muito real e alguma parte de si sabia que ele também havia visto o que ela viu. Mas como? E, mais importante, por quê? Ela encostou a cabeça nas mãos cujos nós já estavam brancos de tão forte que ela apertava o volante. "Não entre em pânico" disse a si mesma "você sabe o que acontece quando entra em pânico".
Peng Peng.
O nome ecoou na mente de Yan Da como uma ameaça. Um prenúncio do que viria a seguir. A respiração dela ficou mais pesada, difícil, dolorosa, o mundo à sua volta começou a escurecer, ela foi aos poucos tragada pelo passado. Podia ouvir o som das vozes abafadas, a goteira insistente no canto do teto mofado, o chão poeirento e a escuridão constante. O choro baixo de Peng Peng era um lamento que ricocheteava nas paredes do seu cérebro e os pulsos em carne viva insistiam em se mover inquietos na busca pela liberdade.
— Yan Da!
Toc toc.
O som do toque no vidro arrancou um grito de Yan Da. Ela levantou a cabeça com o coração disparado e fitou um irritado Shuo Gang do lado de fora da janela batendo no vidro — pela sua expressão já fazia algum tempo. Forçando-se a recobrar a calma, e limpando rapidamente as lágrimas, ela baixou um pouco o vidro do passageiro, apenas o bastante para poder ouvi-lo e evitar que ele enfiasse o braço para dentro e tentasse destravar a porta.
— O que você quer?
— Isso é jeito de falar com seu irmão mais velho? — Provocou ele com um sorriso falso.
— Se não disser nada nos próximos dois minutos eu vou dar a partida e, com sorte, arrancar seus dedos ao subir o vidro. — Ameaçou.
— É melhor você se comportar, Yan Da...
— Ou o quê? — Interrompeu ela ao ver o rosto dele se tornar ameaçador. — O que você vai fazer? Me bater? Me matar? Ou vai...
— Gòu le!* — Gritou ele. — Não se atreva a falar sobre isso outra vez.
Yan Da esboçou uma risada de escárnio.
— Acha que pode me ameaçar? — Zombou. — Eu não tenho medo de você, Shuo Gang, não tem mais nada que você possa tirar de mim! Agora sou eu que posso te destruir. Se Hu Bing ou nosso pai descobrir o que você fez, mesmo você não vai escapar.
— E por que você ainda não contou nada? — Estreitou os olhos. — Você podia ter me entregado quando descobriu. É porque você não tem provas.
— Pague pra ver, gege. — Ela sorriu. — Você estará atrás das grades antes que consiga dizer 'advogado'. Agora, o que você quer?
— Nosso pai não ficou feliz por você ter desligado na cara dele. — Avisou com um sorriso satisfeito. — Então me mandou vir averiguar em que passos andam os planos.
— Você quer dizer seu plano idiota. — Corrigiu ela. — Algo assim só podia ter vindo de você.
— Aqui. — Ele jogou um envelope pela fresta do vidro. — Seu passaporte para uma nova vida.
Yan Da puxou para fora a pequena massa de papéis apenas para ver sua demissão pronta para ser assinada e o contrato de trabalho cancelado. Havia ainda um telefone descartável, alguns pen drivers e uma conta de e-mail.
— Ora, onde estão os documentos falsos? — Zombou ela.
— Lembre-se do seu dever para com a nossa família.
— Deveria ser eu a dizer isso, Shuo Gang — ergueu uma sobrancelha —, é você que vai acabar jogando nosso sobrenome na lama, não eu.
Antes que ele pudesse contestar, Yan Da fechou o vidro e deu a partida no carro saindo de perto dele e do miasma que emanava de sua personalidade deturpada e cruel.
— wu chi kuang tu!* — Reclamou ela enquanto via a silhueta do irmão desaparecer no retrovisor.
※ ※ ※
Ka Suo franziu o cenho quando entrou em sua sala e se deparou com a indesejada visita. Precisou fazer um grande esforço para não suspirar e ser indelicado, mas sua cabeça estava muito cheia — e sendo bem franco consigo mesmo — não estava pronto para lidar com aquilo naquele instante.
— Ka Suo! — A figura ergueu-se sorridente.
— O que está fazendo aqui?
— Vim te ver. Soube que havia voltado, não consegui falar com você durante o tempo que esteve fora.
— Não é uma boa hora, tenho uma reunião em poucos minutos, por favor, volte.
Lan Shang encolheu-se diante da súbita frieza dele, as palavras doeram ainda mais do que quando Ying Kong Shi a expulsara de seu apartamento. Seus olhos encheram de lágrimas, mas ela se recusou a deixá-las cair.
— Durante todo esse tempo a única coisa que eu te pedi foi para ficar ao seu lado. — Disse ela. — Mas você só pode manter ela no seu coração, não é? Mesmo agora quando tê-la pode arriscar tudo que você sacrificou.
— Já chega, isso não tem nada a ver com você.
— Tem tudo a ver comigo! — Gritou. — Sempre teve. Eu amei você desde o primeiro momento em que te vi, mas alguma vez você considerou meus sentimentos? Veja para onde me trouxe, veja em que situação me colocou!
— Eu já não me casei com você?! — Ka Suo lançou-lhe um olhar gelado que a fez recuar. — E o que você fez em troca? Me enganou! Mentiu pra mim! Todo tempo você sabia que Li Luo era minha esposa e mesmo assim usou o corpo dela sem nunca me dizer a verdade!
— Pode me culpar por isso?! Por desejar um pouco do seu afeto e atenção? — A voz tremulava e as lágrimas que combatia com tanto afinco escorreram por seu rosto.
— Você realmente se valoriza tão pouco a ponto de usar tal subterfúgio?
As palavras foram como uma bofetada violenta em seu rosto. Lan Shang encheu-se de frustração, ódio e mágoa pegando a bolsa e deixando a sala sem olhar para trás. Ka Suo caiu na cadeira e passou as mãos pelos cabelos respirando fundo, havia chegado tão longe, não podia permitir que tudo ruísse por causa dos sentimentos cegos de uma garota mimada. Pegou o celular e pressionou o número 4.
— Wáng.
— Mantenha vigia em Lan Shang.
— Cumprirei suas ordens, meu rei. Liao Jian está a caminho.
— Obrigado. Contate Huang Tuo, preciso dele também.
— Shì.
Após um breve agradecimento, ele desligou a chamada. Soltando uma lufada de ar ele afastou as memórias de um passado que desejava mais que tudo esquecer e, levantando, trancou a porta de seu escritório. Apertou um botão para fechar as cortinas de todas as janelas e abriu um pequeno compartimento na parede atrás de sua cadeira, uma pequena tela holográfica apareceu e o rosto jovial de Xin Jiu saudou-o:
— Meu rei, o que posso fazer por você?
— Chegou a hora de nos reunirmos. — Anunciou Ka Suo. — Preciso saber onde você escondeu a Lótus.
— Meu rei, as estrelas estão se alinhando e o destino do jovem príncipe está em curso. — Disse Xin Jiu. — Sua vontade segue satisfeita, o que teme?
— Ela está aqui. — A expressão séria de Xin Jiu tornou-se uma carranca de preocupação quando ouviu as palavras de Ka Suo. — Estamos monitorando os passos dela, mas não sabemos quem a está ajudando.
— Bù kěnéng!*. Ela não devia ter conseguido passar. — Ele ficou pensativo por um momento. — A menos que...
— Xin Jiu, encontre Huang Tuo, irei até vocês em breve. — Ordenou Ka Suo. — Se as condições do sacrifício não forem cumpridas...
— Não se preocupe, meu rei, não permitirei que isso aconteça.
O holograma se desfez e Xin Jiu desapareceu.
※ ※ ※
Yan Da retocou a maquiagem dentro do carro e respirou diversas vezes antes de enfim se mexer para sair do veículo. Sentia-se péssima pelo que estava prestes a fazer, contudo, ao mesmo tempo, não podia agarrar a chance de descobrir o que estava por trás daquela sensação estranha e forte que sentia na presença de Ying Kong Shi.
Ela se apresentou na recepção e entregou seus documentos a uma secretária chamada Chao Mei, o saguão da ZhangYing estava lotado de candidatos que iam sendo separados em grupos por área de atuação. Ela foi colocada em um grupo de mais ou menos vinte pessoas e instruída a aguardar, posicionando-se ao lado de duas jovens que aparentavam ter acabado de sair da faculdade.
— Eu soube que o próprio Ying Kong Shi vai nos entrevistar. — Sussurrou uma das jovens, animada.
— Sério? — A outra arregalou os olhos. — Será que ele é tão lindo quanto nas fotos?
— Eu já vi o irmão dele, Ka Suo, e ele é muito bonito pessoalmente. Se Ying xiansheng for tão lindo pessoalmente eu definitivamente preciso trabalhar aqui.
Yan Da esforçou-se para não revirar os olhos e começou a pensar a respeito da conversa que ouvira. Parte dela queria admitir que Shi era muito mais bonito do que qualquer foto que já haviam tirado dele, mas a outra parte — e essa a dominava — era subjugada pelo seu orgulho e pela sensação de medo e mágoa que a consumiam quando estava diante dele. Algo no brilho dos olhos de Shi a atraía e repelia ao mesmo tempo. Por isso, distraída, ela não percebeu quando ele chegou e começou a observá-la a certa distância.
A primeira coisa que passou pela cabeça de Shi foi o que Yan Da fazia ali. Ele descobrira que ela era diretora executiva na Huo Yi Enterprises — além de fazer o trabalho do inútil irmão que era braço direito do pai. A segunda coisa foi a forma como ela saíra mais cedo no elevador e ele se sentira compelido a ir atrás dela, parecia o destino colocando-a em seu caminho outra vez. Contudo, diante da situação, decidiu ser cauteloso e reprimir o impulso de ir até ela.
— Chao Mei, leve aquela candidata primeiro. — Apontou discretamente para Yan Da.
— Como desejar, senhor.
Ele fez um breve aceno de cabeça para as jovens candidatas — que se esforçavam bravamente para manter a pose profissional e não dar gritos eufóricos diante da atestação de sua beleza — e entrou em sua sala. Levou poucos minutos para que a secretária retornasse acompanhada de uma desconfortável Yan Da que avaliava a decoração da sala com um interesse intenso evitando o olhar de Shi, que sorriu diante da constatação.
— Meng xiaojie, que prazer revê-la.
— A franqueza me impede de retribuir o elogio. — Rebateu Yan Da e Shi deu uma leve risada.
— Estou realmente curioso com a sua presença aqui. — Disse ele apontando um sofá para que ela se sentasse. — A senhorita não precisa de um emprego, não é?
Yan Da sentou na ponta do sofá, o mais distante possível dele que estava em uma poltrona. Embora a parte auto protetiva de si mesma esperasse com receio outro sonho lúcido ou reação à presença dele, tudo que chegara foi o nervosismo do momento e a insistente sensação de mágoa e peso que ela sentia quando estava perto dele.
— Não vim aqui apenas olhar para o senhor se é o que está pensando. — Retrucou. — Disse que poderia procura-lo se precisasse de alguma coisa, bem, estou precisando trabalhar.
— Mas a senhorita não trabalha na empresa da sua família? — Ele parecia realmente confuso.
— Pedi demissão. — Deu de ombros. — Não há crescimento profissional quando de trabalha para parentes.
— Posso perguntar o que aconteceu?
— Não. Minhas competências profissionais nada têm a ver com meus problemas familiares, Ying xiansheng. Isso não vem ao caso aqui.
Shi sorriu outra vez pegando o currículo dela sobre a mesa e analisando com minúcia, Yan Da era formada em administração, pós-graduada em gestão empresarial, tinha cursos adicionais de marketing aplicado, integração digital, desenvolvimento pessoal, além de vários cursos de idiomas. Falava com fluência inglês, japonês, coreano, taiwanês e francês. Sabia o básico de tailandês, filipino e hindi tendo, graças a essa habilidade, conquistado um espaço considerável para a empresa de sua família no mercado asiático.
— Uau! — Disse ele enquanto analisava as páginas. — Por que se inscreveu para uma vaga tão abaixo do seu nível profissional?
— Realmente não me importo com isso, meus boletos não vão parar de chegar só porque estou num cargo menor.
— A senhorita é bem incisiva. — Sorriu. — Gosto disso. Contudo, estaria errado em aceita-la na empresa apenas para cobrir meus erros e sujeitá-la a um cargo muito abaixo das suas qualidades, então que tal um acordo?
— Que tipo de acordo?
— A senhorita esquece a seleção e eu lhe concedo uma posição na diretoria executiva, meu irmão está mesmo precisando de alguma ajuda. — Ofereceu. — Isso faria um melhor uso dos seus conhecimentos, quitaria minha dívida com a senhorita e lhe daria um cargo à sua altura. Além de não tirar a chance de um novo profissional entrando no mercado chinês. Todos saem ganhando.
Yan Da considerou a proposta, era razoável e, por estar ao lado de Ka Suo, poderia ter acesso mais facilitado a trâmites internos. Assim, anuiu para Shi.
— Concordo. É justo.
— Bem vinda à ZhangYing.
Ele lhe estendeu a mão com um cativante sorriso iluminando seu rosto. Yan Da hesitou antes de finalmente segurá-la e, nesse instante, sem que qualquer um dos dois esperasse, outro pesadelo lúcido sugou os dois da realidade.
A cela era tão rústica quanto tudo mais na tribo do guardião do leste. As paredes de grossas toras de madeira, o interior de terra batida coberto com palha e, no centro, Yan Da, encostada em um grosso tronco, repousava fraca demais para se mexer. Shi encontrou-a dormindo e, ainda confuso, aproximou-se da cela guardada por dois homens altos portando lanças. Como se pressentisse sua presença, Yan Da abriu os olhos e um sorriso fraco iluminou seu rosto, feliz por vê-lo recuperado. Ela se ergueu tentando não demonstrar fraqueza, mas Shi percebeu a fragilidade da sua aura.
— Yun Fei, você está bem? — Quis saber ela.
— Estou bem, mas parece que vossa alteza não. — Ele a analisou com ar sério.
— Húshuō*. — Protestou ela dando de ombros. — Só esgotei um pouco a minha alma, algumas horas de sono e colocarei esta cela abaixo.
Shi quase sorriu, sabia que ela era orgulhosa demais para admitir qualquer tipo de fraqueza. Em contrapartida, seu coraçaõ aqueceu-se, ele lembrava das horas que passara sendo torturado por Shuo Gang, se ela havia esgotado sua alma para salvá-lo...
— Alteza, como pode desperdiçar seu poder com um simples escravo? — Indagou ele, mais para confirmar suas suspeitas que qualquer outro interesse. — Não tinha que desgastar sua alma para me salvar.
— Fèihuà!* — Brigou ela. — Você não é meu escravo, um escravo se arriscaria para me livrar daquele casamento forçado?
Dessa vez, um sorriso se desenhou no sempre impassível rosto de Ying Kong Shi. Yan Da, mesmo sabendo que era errado, encheu seu coração de esperanças.
— Vossa alteza me disse que, uma vez que a livrasse do compromisso, me libertaria do fruto de fogo. — Lembrou ele.
O rosto de Yan Da entristeceu e todas as suas esperanças evanesceram.
— Yun Fei, como você pode ser tão insensível? — Suspirou ela. — Minha própria família está disposta a me sacrificar para conseguir o que quer, neste mundo, além de você e Peng Peng, estou sozinha. E Peng Peng está morto. Você é o único que se preocupa comigo. Meu único amigo.
Shi sentiu-se cruel pela primeira vez desde que começara a fingir-se de humano para enganar Yan Da. Do outro lado da cela, o modo como ela ficava adorável enquanto sorria cheia de ternura, fê-lo sentir-se o último dos ilusionistas de gelo. Tão desprezado quanto fora toda a sua vida pelos demais. Apenas Ka Suo lhe dedicara um afeto tão sincero quanto aquele que a inimiga de seu clã lhe oferecia agora. Yan Da o tratara com respeito, carinho e consideração, em troca ele mentira para ela.
— Vossa alteza, devo minha vida a você. Um dia, certamente retribuirei o favor.
Era a primeira vez que ele lhe era sincero. Yan Da deu uma risada animada, incapaz de acreditar que aquele mero mortal agia de forma tão arrogante.
— Você viverá tanto? — Provocou-o.
— Saberemos quando chegar o momento.
Ela sorriu, encantada. Aproximando-se mais das grades, mesmo com sua energia vital bem reduzida, ela o chamou mais para perto. Shi hesitou antes de se atender ao pedido e, tão logo ficou ao seu alcance, foi surpreendido com um golpe no abdômen que o fez perder o fôlego, Yan Da agarrou-o pela nuca e havia uma sensualidade tão latente em seu olhar que, pela primeira vez em sua vida, Ying Kong Shi se viu perdido entre o medo e a excitação. Ela usou os últimos resquícios de sua energia para sugar dele o fruto de fogo, cuspindo-o no chão de palha em seguida. Shi estava estarrecido com a surpresa.
— Você está livre agora. — Disse ela, soltando-o. — Vá para onde quiser.
Incapaz de se manter em pé, Yan Da cambaleou até onde estava sentada anteriormente e desabou.
Shi sentiu tamanha dor em seu peito que o ar pareceu ter sido arrancado de seus pulmões. Ele caiu de joelhos diante de uma atordoada Yan Da que, em pânico, abaixou-se diante dele tentando ajudá-lo, ela sequer percebeu as lágrimas quentes caindo pelo seu delicado rosto. Apertando a camisa sob o paletó, Shi lutava por oxigênio enquanto as imagens do sonho lúcido — ainda sem um significado claro — repetiam-se em looping na sua mente, a sensação era que sua cabeça estava se partindo.
— Ying xiansheng! — Chamou Yan Da. — Ying xiansheng, o que está havendo?
As portas do escritório se abriram e duas secretárias entraram atraídas pelos gritos de Yan Da, enquanto Shi lentamente era dominado pela agonia ela de igual modo sentia sua visão ficar turva, a sala desfocando gradualmente até se tornar um borrão indistinguível e, por fim, escurecer.
Shi ouvia as vozes ecoarem longe, incapaz de distinguir a realidade do sonho, assolado por uma dor pungente que lhe devorava o peito como se todo seu corpo estivesse em chamas. Uma camada fina de suor formou-se em seu rosto, a voz de Ka Suo, vinda de algum lugar da cacofonia ao seu redor, foi a última coisa que ele ouviu antes do mundo explodir e ele ser sugado pelas sombras.
Notas:
*Gòu le [够了] — Chega; já basta.
*wu chi kuang tu [无耻狂徒] — idiota; fanático desavergonhado
* bù kěnéng [不可能] — impossível
*Húshuō [胡说] — absurdo
*Fèihuà [废话] — Bobagem, besteira.
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