Love and Honor
1 Capítulo único
Notas iniciais
Pela milésima vez naquele dia, um suspiro abandonou seus lábios, incomodado com uma leve dor nas costas procurou uma posição mais confortável na cadeira que estava sentado – posta estrategicamente ao lado de uma enorme janela do gabinete de seu noivo. Seus olhos fitavam o pôr do sol mas não o via realmente, pois sua mente estava muito longe dali.
Era um rapaz tão belo… No entanto, aquele olhar perdido que mantinha o fazia parecer um boneco de porcelana sem vida.
De frente para si estava uma mesinha com chá, bolos e uma garotinha emburrada. Os cabelos curtos e olhos igualmente castanhos, a pele morena e o vestido rodado que a davam uma imagem tão fofa não combinavam em nada com a expressão zangada no rosto.
Mas claro que ela tinha motivos para estar assim, afinal, um de seus pais estava num reino distante já por várias semanas e seu outro pai mal percebia sua presença, só ficava olhando para o nada e suspirando. Se estivesse trabalhando ela entenderia, mas não, seu pai Wolfram ficava a maior parte do tempo apenas trancado no quarto ou sozinho em qualquer cômodo do castelo. Justamente por isso estava ali, não querendo o deixar tão solitário decidiu que se ficasse um pouco mais perto dele talvez as coisas seriam melhores e seu querido pai voltaria a sorrir, porém, sua ideia parecia ter o efeito oposto.
Quando finalmente a paciência de Greta se esvaiu ela saiu correndo do recinto e isso deu a liberdade que Wolfram queria para começar a chorar. Chorar escondido estava se tornando algo cada vez mais comum nos últimos tempos.
Sabia que estava sendo um péssimo pai para Greta naquele momento, mas não podia evitar, se sentia tão cansado... E pensar que estava assim porque não passava de um tolo apaixonado por quem talvez nunca correspondesse seus sentimentos e isso acabava consigo lentamente. Conviver diariamente com o homem que tanto amava e que o tratava de qualquer forma, mas sem nunca toca-lo, fez com que o loiro passasse a tentar ficar o mais distante possível.
Amar Yuuri era tão difícil, anos de noivado acidental e o único a nutrir algum sentimento que não fosse amizade era ele. O loiro se permitia iludir com abraços, com singelas palavras, pequenos gestos e sorrisos gentis, sabia perfeitamente que aquilo não era o que parecia ou o que fazia parecer em sua mente. Eram apenas atos fraternais por parte do moreno e ele não escondia isso.
Que não o amava com paixão, que não o queria tão perto de forma mais intima, sempre sendo sincero e cuidadoso com cada palavra.
Por isso e tantas outras coisas Wolfram o julgava especial, mesmo quando Yuuri dizia que não era boa ideia se casarem, quando se desvencilhava de contato e até fugia, ele se importava o bastante para sentir medo de magoar o loiro – mesmo que fosse impossível disso não acontecer.
Mas não podia evitar de se sentir cada vez mais solitário, via diversos acontecimentos que eram felizes a sua volta passarem apenas como uma peça de teatro enquanto ficava nos bastidores. Dor. Era isso que aquele amor lhe causava? Não queria aquilo.
Já não tinha mais esperanças de levar aquilo adiante.
— Aquele fracote... – sorriu com pesar, sentia tanta saudade e tristeza ao menos tempo. Jogou a cabeça para trás e fechou os olhos verdes, suspirou mais uma vez e começou a esfregar a barra da camisa nos olhos para secar as lágrimas que por horas não paravam de escorrer.
Cheio de pensamentos, começou a se perguntar se realmente era o único a sofrer, pois Yuuri nunca o atormentava, já Wolfram constantemente tinha crises de ciúmes e consequentemente o privava de conhecer alguém que o moreno poderia amar de verdade e se casar, nunca havia percebido que talvez estivesse pondo o moreno numa prisão, então, por fim decidiu que terminaria com tudo aquilo, queria Yuuri feliz e se não seria ele a fazê-lo seria melhor libertar seu amor. Não queria abandonar tudo, mas não via mais escolha.
Perdeu a noção do tempo, retomando-a somente quando deu-se conta que já era noite. Ele então levantou-se da cadeira e arrumou os fios loiros com as mãos, estava decidido a mudar as coisas. Mas então, sua filha Greta entrou como um furacão na sala e franziu o cenho ficando bravo consigo mesmo por não ter dado atenção a ela antes, justamente por isso a pegou no colo e rodopiou no ar algumas vezes fazendo a menina rir.
Ali mesmo, naquele simples momento, qualquer tristeza foi deixada de lado ao se deixar levar pela risada gostosa de sua filha.
◘
Naquela madrugada resolveu sair daquele quarto, era incômodo ficar na cama sem ter o calor de Yuuri por perto. Já estava assim por várias noites na verdade, sua cabeça não parava, a ansiedade lhe torturava e mesmo que pegasse mais cobertores ainda sentia frio.
— “Talvez eu deva mudar para um quarto da ala leste do castelo...” — estava descalço, apenas de camisola e mesmo assim não se importava com o frio que estava sentindo. Estava deixando novamente que pensamentos deprimentes tomassem posse de sua mente. — “Melhor eu ficar uns tempos com meu irmão Gwendal assim que aquele fracote chegar.”
Aos poucos erguia uma muralha em volta de si, não queria se machucar mais com aquele amor unilateral. Queria voltar logo a se exercitar – havia parado com o medo de ficar feio para Yuuri, viajar e... Esquecer. Queria acabar com aquele compromisso o mais rápido possível, não se importava mais em perder sua honra e respeito, apenas desejava ser livre daqueles sentimentos.
— É tudo culpa sua Yuuri... – um sorriso forçado e dolorido, lágrimas que não caiam começavam a embaçar sua visão, ergueu a cabeça e fitou o céu estrelado – Que patético, parece que cheguei mesmo no fundo do poço.
— Wolfram?
No mesmo instante que aquela voz chegou até si sentiu o pulsação aumentar, ficou paralisado e demorou vários segundos até criar coragem de virar-se para o dono daquela voz. Já fazia um bom tempo que não o via, mas quando olhou para aqueles olhos negros sentiu um grande frio na barriga, era como se fosse a primeira vez.
— “Droga, ele é tão lindo... E infelizmente eu o amo.” — só podia ter esses pensamentos tristes, mas era ele ali... A quem disse que esqueceria, que deixaria de amar, para onde foi sua coragem para realizar o que tanto pensou? Se aquilo não fosse uma alucinação sua então era uma boa oportunidade
O rapaz com cabelos tão escuros quanto os olhos ficou estático, havia chegado a poucos minutos e estava muito cansado, tudo que queria era ver sua filha e depois poder contar a Wolfram detalhes de sua viagem com Konrad ao outro reino. Mas certamente não esperava vê-lo àquela hora no meio do jardim, muito menos esperava que o “chamasse”, que estivesse sem roupas adequadas para estar ali ou que estivesse pálido e chorando.
Sua reação foi automática, correu até o loiro e o abraçou com força, porém se desesperou quando o menor começou a soluçar alto e murmurar repetidas vezes “me deixe”, mas a cada vez que dizia isso se encolhia contra Yuuri e o puxava mais.
E quanto a Yuuri, este não entendia nada do que podia estar acontecendo.
— Yuuri!
— Sim? – falou bem baixinho enquanto começava a acariciar os cabelos macios de seu noivo, queria que ele parasse de chorar, mas o que podia fazer?
— Yuuri... – a voz desta vez ao chama-lo estava mais baixa e ainda embargada pelo choro. Porém afrouxou um pouco aquele abraço e encostou sua testa a de Yuuri, sendo ele ligeiramente mais alto ficou minimamente na ponta dos pés. Abriu os olhos, que mal havia percebido quando os fechou e encontrou duas esferas negras que revelavam doçura e preocupação.
Percebeu ali que podia aguentar mais pouco, podia suportar mais, podia tudo se pudesse ter mais olhares como aquele, não tinha mais vontade de se afastar, pois aquele que tanto amava estava o abraçando, ele estava ali e por enquanto isso bastava.
Sabia que não teria a certeza de nada, que estava mais uma vez se iludindo, mas um coração tão apaixonado ignoraria tudo aquilo até ser mais uma vez machucado.
— Eu estou aqui, Wolfram.
Fim.
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