POV Hermione

Ao entrar no shopping, em véspera da véspera do Natal tive certeza de que tinha perdido a razão. Não havia espaço por onde andar, as pessoas pareciam brotar de todos os lugares. Sacolas, gritaria, conversas, risadas, tumulto, crianças, choro. Uma verdadeira algazarra e comecei a me perguntar por que diabos eu vim ao cinema HOJE.

Tentei perambular por entre as pessoas, consegui alcançar a escada rolante e enquanto subia comecei a pensar em qual lugar encontraria Gina.

Eu e minha amiga, Gina, decidimos matar a saudade e nada melhor do que um cinema. Éramos muito amigas na escola, desde “pequenas”. Depois que ela mudou de colégio, ficamos um tanto separadas. Mas nada que a tecnologia não consiga apartar.

Eu sabia que o cinema não tinha muitas opções, mas sinceramente: quais as opções de lazer, sem serem pontos turísticos, e não tão caros que não fosse o cinema? Em cartaz estava o remake de Grease, e me animei em chamar minha amiga. Duas adolescentes que mal saem de casa. Perfeitamente plausível. Ah, qual é? Esse filme é a nossa cara!

Cheguei ao andar de cima, em que por um acaso se encontrava o cinema, e fiquei parada em frente a uma loja. Tirei o celular da bolsa e mandei uma mensagem à ela:

De: Hermione
Para: Gina
“Cadê você? Já cheguei. Estou em frente a...”

Olhei para cima. Sorri.

“Forever 21, vou comprar nossos ingressos porque a fila provavelmente está enorme. Aqui parece um formigueiro! Hahaha. Não demore!”

Andei até o cinema, e a fila não parecia tão grande. Ótimo. Mas a julgar pela data, provavelmente a maioria dos filmes estaria com a sessão lotada até a noite. E não é um bom sinal.

Entrei na fila e comecei a reparar ao redor. Haviam muitos casais, famílias, e algumas meninas de uns 12 anos. Olhei pra trás na esperança de ver minha amiga ruiva e de repente tinha alguém atrás de mim.

Aqueles olhos muito cinzas me fitaram. Quase perdi o fôlego ao perceber quem estava atrás de mim. O instante não durou muito, mas o suficiente para minha mente gravar com nitidez cada detalhe que observei.

Era um garoto atrás de mim. Alto, devia ter mais ou menos 1,80. Não é exatamente forte mas seu corpo tem alguns músculos, na medida certa. O cabelo era de um tom loiro, muito claro, quase branco, liso. O rosto era angular, os lábios não muito cheios pareciam tentadores, o nariz perfeito parecia esculpido. A pele clara contrastando com a sobrancelha profundamente escura e perfeitamente delineada. E seus olhos completavam o quadro, com uma tempestade cinza e penetrante.

Vestia uma camiseta preta e uma calça jeans, apenas. O rosto era inexpressivo mas parecia haver um traço de curiosidade por trás dos olhos tentadores. Ele me avaliava também. O que não parecia justo, visto que ele parecia ter saído de um desfile da Giogio Armani. O cara é um deus!

O contato entre nossos olhos me pareceu longo e lento, mas eu sabia que foi breve. Me senti desconcertada e virei pra frente de novo sentindo minhas bochechas formigarem. Minhas mãos começaram a suar, e me senti nervosa de repente.

Onde está Ginevra mesmo?

POV Draco

Enquanto andava até a fila do cinema, começava a me arrepender. Começava a suspeitar que os filmes estariam esgotados e eu teria de matar tempo até voltar para casa. Só vim ao shopping, mesmo sabendo que estaria um caos, porque não aguentava o clima de tensão que estava em minha casa. Meus pais estavam insuportáveis com aquela briga que deixou o clima sufocante até mesmo para meu irmão de sete anos que preferiu ir pra casa de nossos avós. O cinema, portanto, foi a melhor distração em que eu pensei.

Entrei na fila atrás de uma garota, e comecei a decidir o que faria se minha sessão tivesse esgotada, quando a menina se virou.

Os olhos cor de mel se chocaram com os meus e me vi preso, não conseguia desviar. Quando enfim a prisão de seu olhar dourado me soltou para me analisar, decidi fazer o mesmo.

A garota era magra, mas possuía belas curvas. O quadril não era largo, mas era de um tamanho que harmonizava com seu corpo. O busto era avantajado, as pernas eram muito bonitas, as coxas redondas, e sua estatura era mediana. Ela usava um vestido de mangas, e uma grossa meia calça preta. A pele era branca, como se fosse feita de sorvete de creme. Senti vontade de comer doce instantaneamente.

O rosto tinha formato de coração, com leves pintas que a deixavam muito charmosa. A boca pequena, o nariz pequeno e os olhos brilhantes.

O cabelo era castanho, de cachos cheios, parando no meio de suas costas. O olhar era curioso, e inocente. Me vi preso em sua figura delicada e muito atraente.

Ela virou-se para frente de novo e pude perceber que ficara nervosa. Eu havia ficado um pouco constrangido com toda a atenção que recebi de seu olhar avaliativo, mas senti falta dos mesmo olhos que me analisaram.

POV Hermione

Pouco depois Gina apareceu de algum lugar, me deu um beijo estalado na bochecha e sussurrou desculpas apressadamente. Ergui a sobrancelha pra ela.

— O que foi? – sorriu – eu me atrasei porque meu irmão parou em um banco antes de me trazer.

— Tudo bem, que bom que veio! Vai ser Grease, não é? – perguntei

— Claro! – respondeu empolgada. Ri – Então, — abaixou o tom de voz – E esse deus grego ai trás? Ele não tira os olhos de você.

Senti minhas bochechas formigarem novamente.

— Para de encarar! Eu percebi que ele é excepcionalmente bonito, mas ele deve estar me encarando porque quando ele chegou eu dei uma baita analisada nele. Podemos deixar isso de lado? Tô morrendo de vergonha! – Respondi tão baixo que ela teve que chegar mais perto.

Ela riu

— Ta bem então, deixemos de lado.

Começamos a conversar amenidades, e embora tentasse me distrair de quem estava atrás de mim, meu corpo ficava cada vez mais consciente de sua presença. Que desconcertante.

Chegou nossa vez de sermos atendidas e dei adeus mentalmente ao garoto que estava atrás de mim.

Embora eu soubesse qual filme iríamos ver com certeza, decidi averiguar as outras sessões

— Estão todas lotadas. Teríamos vagas para para o Hobbit 3 às 22:00. – ponderei pela primeira vez. Eu estava louca para ver o filme, no entanto Gina não iria me acompanhar. Primeiro porque ela não gostava, e segundo porque eu duvidava de que ela iria ficar até esse horário.

— Não, deixa, obrigada. Queremos Grease, legendado. A próxima sessão, das 16:30 – respondi olhando para minha amiga. Retiramos nosso dinheiro, e entregamos para a atendente. Ela mexeu um pouco no computador, e nos mostrou a tela.

— Escolham seus assentos.

Não acreditei no que vi, haviam apenas quatro cadeiras disponíveis na sala inteira e ficavam exatamente no meio. Escolhemos duas, e pegamos nossos ingressos. Ao sair do atendimento, passamos pelo garoto misterioso. E novamente nossos olhares se chocaram. E minhas bochechas formigaram. De novo.

POV Draco

Escutei que ela havia perguntado sobre as outras sessões, e confirmei minhas suspeitas: estavam todas lotadas. De repente me peguei interessado em saber o que ela iria assistir.

Ela pareceu pensar sobre O Hobbit mas decidiu assistir Grease. Assim que ela e sua amiga saíram, caí na besteira de olhar pros seus olhos de novo. Aquela prisão de novo. Seus olhos eram atraentes demais, como se fossem uma armadilha. Percebi que suas bochechas se tingiram levemente de um vermelho adorável.

Desviei o olhar e segui para o balcão, também havia me sentido envergonhado.

— Quero uma entrada pra próxima sessão de Grease.

POV Hermione

Saímos, e fomos para outro balcão comprar o nosso lanche. Deixei que Gina escolhesse, e me distraí pensando no que o belo garoto havia decidido assistir.

— Aqui seu chá de limão... – Gina tentava se equilibrar com as coisas – Nosso chocolate, meu suco de uva... Uh – Tentei ajudá-la, com vontade de rir – Meu pão de queijo... Aqui, a sua pipoca! – Terminou de me entregar com um sorriso grande no rosto, sorri de volta.

— Ok, vamos para a fila de espera. Toma um pouco da pipoca, sinto que a qualquer minuto ela vai pular de meu braço do tanto que está cheia – ofereci à ela que aceitou de bom grado.

— Vou entrar com você para colocar minhas coisas lá mas saio rapidão, estou tão apertada! – Franziu os lábios. Assenti com a cabeça.

Entramos dentro da sala e tentei não procurar o garoto com os olhos, nos dirigimos até nossos lugares e assim que Gina colocou seu lanche na poltrona saiu apressada esbarrando em todos. Será que ela volta até o filme começar?

Me sentei em minha poltrona e assim que me ajeitei olhei para o lado. Pisquei atônita.

Aqueles olhos acinzentados estavam ali sorrindo pra mim.

Não pude acreditar no que meus olhos estavam vendo, era mesmo ele? Ali parado me olhando? Em uma sala de cinema pra assistir Grease? Quase sorri com o pensamento de que poderia ser por minha causa, mas me desiludi. Ah, por favor? Somos estranhos um para o outro. Qual o sentido?

Virei-me para frente e esperei minha amiga chegar.

Percebi que ele fizera o mesmo, e ainda sim meu corpo reagia à sua presença. Poderia algo ser mais ridículo do que reagir a um estranho? Tudo bem, vamos colocar em pauta que o estranho parece ter saído direto do Olimpo.

Depois de dez torturantes minutos Gina reaparece da multidão, e o filme finalmente começa. Antes que eu pudesse falar algo, minha amiga se deu conta da gloriosa presença ao meu lado direito e me lançou um sorriso malicioso. Ignorei.

Peguei meus óculos e coloquei. Eu não enxergo um palmo diante do nariz, e se eu quisesse ler aquelas letrinhas minúsculas no canto da tela eu teria que usá-los. Vem cá, o bonitão tinha que estar do meu lado em uma hora dessas? Tsc.

POV Draco

Achei muito engraçada a reação dela ao me ver. Ela tinha ficado estática, como se eu fosse um louco. Bem, e eu era, afinal eu estava na mesma sala de cinema que a menina sem nem saber do que o filme falava. Mas provavelmente era bem conhecido, porque a sala estava lotada. O que importa era que esse filme era um musical. Tudo bem, eu sei do filme o que li na minúscula sinopse do cinema.

Percebi que ela ficara tensa quando as luzes se apagaram, e admito que também fiquei. Assim que a sala ficou escura e o filme se iniciou, senti uma corrente elétrica percorrendo todo o meu corpo e parecia ser mais forte no ponto em que nossos braços quase se tocavam. Era estática pura. Pude até sentir meus pêlos se arrepiando e me perguntei se com ela era assim também.

Não precisei olhar duas vezes para o lado para saber que ela também se sentia afetada, seu braço estava tão eriçado quanto o meu. Quase sorri com a visão, começava a ter certeza de que a atração era mútua.

[https://www.youtube.com/watch?v=4MFx8ySwOVI] Escutem por favor, eu sei que não tem nada a ver com o filme em questão mas dá todo um clima :D

Em certo momento do filme coloquei meu braço no apoio da poltrona, mas que ficava junto com a sua. Estava começando a sentir sono. O filme até que era legal, mas não fazia meu gênero. Bem, eu podia aguentar uma sessão, não é? Me recostei confortavelmente na cadeira.

O que era aquele filme afinal? Por que o mocinho fazia aquelas coisas? Eu não era fã de clichês, isso me incomoda um pouco. Por que o cara tem que esconder o que sente e ficar naquela fachada de cafajeste? Elas gostam. Errado. Nenhuma garota gosta de ser idiota. E eu não precisaria esconder de ninguém o que sentiria. Não me envergonharia de ter uma namorada, principalmente se fosse a morena ao meu lado.

POV Hermione

Me senti cansada de repente, estávamos na parte em que Sandy cantava aquela música apaixonada enquanto estava magoada com Danny. Cena bonitinha, eu adorava a mensagem da música e não me importaria de ser devota à alguém por quem estivesse apaixonada. Não pensem mal, não sou capacho. Sou apenas... cuidadosa. E como seria bom se o meu alguém fosse o loiro ao meu lado...

Coloquei meu braço no encosto da poltrona do lado do rapaz, e senti um choque. Eu tinha encostado em sua mão. Olhei para ele constrangida, fiz menção de soltá-la mas ele a segurou. Fiquei imóvel, a respiração entrecortada e a eletricidade fluindo.

Os olhos tempestuosos estavam me analisando de novo, e pareciam pedir mudamente para que eu não retirasse meu braço. Ainda imóvel relaxei meus músculos e deixei que minha mão descansasse sob a sua. A estática se intensificou. Mas em nenhum momento quebramos o contato visual, eu estava completamente hipnotizada por seu olhar profundo.

E então ele fez menção de soltar, mas o segurei. Ele não iria ficar desconfortável por culpa minha. Dessa vez tentei descarregar o poder dos meus olhos em uma súplica para que ele não retirasse o seu braço.

Fizemos um acordo mudo de que iríamos manter assim. Minha mão sobre a dele. AI MEU DEUS. Meus dedos estavam formigando e sua mão começara a ficar quente.

Vai ser um longo filme!

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.