O cheiro de terra molhada foi a primeira coisa que Hannah notou quando desceu do carro. O ar do Tennessee tinha uma densidade diferente, como se carregasse histórias antigas em suspensão. Ethan desligou o motor e olhou em direção à casa, os olhos semicerrados diante do pôr do sol que tingia o céu com tons de vermelho, laranja e um toque rosado. O tipo de cor que ela adorava fotografar — mas, naquele dia, preferiu apenas sentir.

— Você acha que fizemos a escolha certa? — ela perguntou, encostada na porta do carro.

— Não sei — ele disse, com aquele meio sorriso que ela conhecia bem. — Mas é a nossa escolha.

A mudança foi rápida. A transferência de Ethan para os Titans aconteceu num estalo, como se a vida tivesse finalmente decidido facilitar as coisas. Hannah, com sua exposição ganhando espaço e propostas, optou por montar um pequeno estúdio na cidade vizinha. Nada grandioso, só luz natural, paredes brancas e espaço suficiente pra deixar a criatividade correr solta, mas ainda preferia os dias em que apenas clicava o céu pela varanda ou registrava Ethan dormindo com o cachorro que adotaram. (“Ele se chama Dock”, ela tinha dito. “Porque a gente sempre volta pra ele.”).

O reencontro com as famílias veio semanas depois, no primeiro domingo morando juntos. O pai de Ethan fez piada com a nova calçada (“só pra dizer que ajudou”), e a mãe de Hannah levou um cobertor bordado com o nome dos dois, dizendo que era “pra noites de outono em que as palavras faltassem” (o que o irmão de Ethan discretamente classificou como brega). Lauren e Maddison apareceram com vinho e histórias demais pra pouco tempo, apesar de garantirem serem as fãs número dois e três de Ethan, já que nunca teriam a repercussão nacional que Hannah teve.

Numa dessas noites que passavam devagar, em que o silêncio da varanda era melhor que qualquer música, com os pés descalços e um drink na mão, Ethan encostou no batente de madeira enquanto Hannah tentava plantar uma última flor no quintal e disse:

— Hey, baby... e se a gente tivesse um barco?

— Um barco?

— Um daqueles com nome pintado atrás. Um nome seu. Tipo... Hannah Rose ou sei lá... Sugar Breeze. Sabe, pros dias de verão.

Ela riu, jogando o cabelo pro lado. — Só se eu puder escolher a cor da tinta.

Ele levantou a caneca em um brinde silencioso.

(...)

Dois anos depois, o céu estava limpo, o gramado bem aparado e a varanda já meio desbotada pelo sol. Ethan lia um jornal local com os pés apoiados no corrimão, enquanto Hannah organizava algumas fotografias para uma nova mostra que abriria em Nashville. O cheiro de café e pão de milho saía pela janela aberta da cozinha.

— Você viu isso? — ele perguntou, batendo no jornal. — Tão fazendo uma matéria sobre atletas que voltaram pras cidades natais. Parece que querem me incluir.

— Desde que usem a foto certa — ela disse, rindo. — Nada daquela fase do bigode, por favor.

Ele levantou os olhos por cima do jornal e sorriu. Ainda usava a mesma camisa cinza surrada que ela dizia odiar — e que ele jurava que era de estimação. O cabelo dela estava mais curto, os ombros dele um pouco mais largos, mas o olhar… ainda era o mesmo do garoto e da garota da faculdade que ficaram presos no laboratório, com medo de admitir que estavam apaixonados.

— Sabe de uma coisa? — ela disse, sentando ao lado dele com uma caneca de chá. — Às vezes penso em tudo que deu errado pra gente... e agradeço por cada detalhe.

Ele virou o rosto em sua direção.

— Porque nos trouxe até aqui?

— Porque nos fez saber o valor de chegar até aqui.

Ele sorriu, mas antes que ele pudesse dizer algo, ela continuou.

— Sabe aquele barco que você falou?

— Aquele que você nunca deixou eu comprar?

— Esse mesmo — ela sorriu. — Achei um à venda. Pequeno, bonito. Tinta descascando, mas com potencial. Tá ancorado num lago não muito longe daqui.

— E quer que a gente compre e dê um nome pra ele?

Ela assentiu, com um brilho nos olhos.

— Você ainda acha que meu nome ia ficar bonito ali atrás?

Ethan largou o jornal e se virou por completo, os olhos cravados nos dela.

— Eu acho que seu nome merece estar em tudo que eu chamar de lar.

Silêncio. Um silêncio cheio de verão, de lembranças e de promessas cumpridas. O tipo de silêncio que não pesa, só repousa.

(...)

No jardim, Ethan prendia o barco à caminhonete, enquanto Hannah prendia o cinto em duas crianças, acomodando o velho Dock entre as duas. As letras garrafais na parte de trás do barco, pintadas em azul sobre a superfície branca, diziam “Hannah C.”. Ela posicionou Ethan ao lado da porta aberta, com as crianças e o cachorro e tirou um novo retrato, depois uma selfie para as mídias sociais.

Lá dentro, uma camiseta alaranjada com o número 84 descansava dobrada em cima da cômoda. Ao lado, uma câmera analógica antiga e um anel do Super Bowl, fazendo peso sobre várias cartas.

E lá fora, após a partida da família em férias, no balanço da varanda, a vida seguia. Do jeito dela. Mas agora, finalmente, em paz.

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