Love You, Miss You, Mean It
23 S2E23: Crash My Party
— Olha só quem tá aqui… — disse uma voz familiar atrás dele.
Malik encostou o capacete contra o ombro de Ethan, rindo com o peito arfando de cansaço.
— Ela tava gritando mais alto que metade da torcida. Tô quase surdo.
Ethan não respondeu. Só continuou olhando. Malik acompanhou seu olhar até encontrar Hannah na arquibancada.
— Ah, então é ela. A famosa da exposição de arte.
Ele ergueu a mão, acenou para Hannah com um sorriso debochado e gritou:
— Ei! Prometo que devolvo ele limpinho, tá? Só um banho rápido!
Hannah riu e balançou a cabeça, ainda com os olhos marejados.
Malik puxou Ethan pela ombreira.
— “Vambora, astro. Vestiário te chama.”
(...)
O barulho dos chuveiros, dos risos, das batidas de costas e gritos de comemoração preenchia o ambiente. Mas Ethan parecia em outro lugar. Sentado num banco, ainda de uniforme, olhava para o celular com a tela desbloqueada. A notificação estava lá, como uma âncora suave puxando-o de volta ao que importava.
“Te amo. Sinto sua falta. É sério.”
Ele fechou os olhos por um segundo, deixando a respiração desacelerar.
— Tudo certo, QB? — Malik surgiu de novo, agora só de toalha, o cabelo pingando.
Ethan assentiu. — Como nunca.
Foi quando um dos assessores do time entrou no vestiário, com uma prancheta debaixo do braço e cara de quem queria estar em outro planeta.
— Carter?
Ethan ergueu a cabeça.
— Como posso dizer isso... Tem… uma garota. Lá fora.
O assessor suspirou, como se aquilo fosse comum.
— Camiseta laranja. Número 84. Tá dizendo que não sai dali enquanto não te ver. E, sinceramente, já ameaçou uns três seguranças com uma câmera fotográfica. Tá complicado, então vai ser problema seu.
Malik caiu na risada. — Cara. Ela é mesmo tudo isso?
Ethan se levantou devagar, com um sorriso discreto no rosto.
— Ela é mais. Um furacão de um metro e sessenta e três.
Por um instante, ele se lembrou do dia em que o empresário dos Raiders foi até ele após o jogo, fazer a proposta de contrato. Mesmas luzes azuis sobre os ombros. Mesmo coração acelerado. Mesma pergunta atravessando a mente:
“Será que ela vai estar lá fora esperando por mim?”
Dessa vez, a resposta era sim.
O corredor que levava da saída do vestiário à zona de imprensa estava abafado, cheio de vozes, passos apressados e o som dos alto-falantes do estádio ainda ecoando anúncios da vitória. Ethan atravessava tudo aquilo como se estivesse submerso, como se o barulho ao redor fosse apenas um zumbido distante. O corpo doía. Cada costela parecia reclamar da última pancada no terceiro quarto. Mas nada disso importava. Ele sabia que ela estava ali.
E então viu.
Parada ao lado de uma das grades de contenção, cercada por dois seguranças e uma assessora tentando argumentar com gestos educados. Hannah. O cabelo bagunçado pelo vento e pela correria, a maquiagem ainda borrada da emoção do jogo, e a velha camiseta número 84 tão larga no corpo que mais parecia um pedido de desculpas e um abraço ao mesmo tempo. Os olhos varriam a entrada do túnel, ansiosos, até que finalmente o encontraram.
Hannah deu um passo à frente, quase tropeçando de empolgação.
Ethan sorriu, ainda a alguns metros de distância, enquanto as vozes ao redor dele pareciam sumir completamente. Ele notou o jeito como ela mordeu o lábio inferior ao vê-lo, como se quisesse conter o sorriso — e falhasse completamente. Um dos técnicos do time, encostado perto da porta, cutucou o assessor dos Raiders com o cotovelo:
— É ela?
— A própria. A tal “menina da camiseta laranja”. Fez mais estrago que uma torcida organizada.
— E tá de olho só nele… — murmurou o técnico, sorrindo com aprovação. — Garoto esperto.
Ethan se aproximou, sentindo o corpo latejar, mas com um brilho nos olhos que não vinha da vitória em campo. Parou diante dela, a meio passo de distância. Hannah ergueu as sobrancelhas, como se estivesse prestes a dizer algo engraçado, mas então a emoção venceu.
— Você tá todo quebrado — ela murmurou, passando os olhos rapidamente pelos hematomas no braço, o curativo improvisado na costela, os resquícios de sangue no canto do lábio.
— Mas ganhei — ele respondeu, baixinho. — E você veio. Então ganhei duas vezes.
Ela não respondeu. Só estendeu a mão, como se tocá-lo fosse a única coisa que a impediria de desabar de novo. Ethan segurou seus dedos com delicadeza e, por um segundo, ficou tudo em silêncio. Os dois parados ali, rodeados por gente demais, câmeras, barulho — e ainda assim sozinhos.
— Isso aqui vai sair em todo lugar amanhã — sussurrou ela, meio rindo, meio chorando. — As fotos, a camiseta, a briga com o segurança…
— Ótimo — ele respondeu. — Que vejam. Tô cansado de comemorar com gente que não significa nada.
Ela apertou os lábios, tentando conter o impacto daquelas palavras.
— Vai sair pra algum lugar depois? — ela perguntou, em tom leve.
Ethan fez que não com a cabeça.
— Tava pensando em fugir com uma fotógrafa barraqueira que invadiu o estádio. Levar ela pro meu apartamento. Deitar no sofá. Comemorar direito. Você conhece alguém assim?
Ela sorriu. E foi um sorriso inteiro, como os de antigamente. Aquele que fazia o peito dele doer mais do que qualquer pancada em campo.
— Conheço sim. Mas ela não tá muito bem vestida — disse, puxando a camiseta larga para o lado. — Vai ter que me emprestar alguma coisa.
— Rouba o que quiser — ele disse. — Até meu sobrenome, se quiser.
Hannah soltou uma risada abafada, e então se jogou em seus braços com o cuidado de quem sabe onde dói. Ethan a envolveu como se nunca mais quisesse soltar, erguendo seu rosto para um beijo. E, por um instante, tudo ao redor pareceu em suspenso — as luzes, as vozes, os olhares. Tudo parado, só para dar espaço ao reencontro deles.
Do lado de fora, Malik passou de relance, observando a cena com um sorriso de canto de boca.
— Nunca vi um quarterback tão feliz por sair mancando — comentou aos risos, com um repórter que tentava entrevistar outro jogador.
(...)
O apartamento de Ethan estava mergulhado em uma penumbra tranquila quando eles entraram, só iluminado pelas luzes suaves que Hannah havia deixado acesas antes de sair para o estádio. A bagunça habitual tinha desaparecido — tênis alinhados junto à porta, a manta preferida dobrada no sofá, velas discretas acesas no canto da sala, como se o espaço tivesse sido preparado para acolhê-los de volta.
Ela já conhecia os cantos novamente. Já havia dormido ali nas noites anteriores, ocupado o silêncio com sua respiração, deixado pequenos rastros — um elástico de cabelo no banheiro, um livro aberto na mesinha de cabeceira, uma taça de vinho esquecida com batom na borda.
— Você andou mexendo na minha toca — ele comentou, com um meio sorriso cansado, os olhos passeando pelo ambiente familiar, agora com um toque dela.
— Alguém precisava fazer a curadoria do caos — respondeu, encostando-se à parede, observando-o com atenção. — E te esperar com vinho e cheesecake.
Ele soltou uma risada baixa, entregando as chaves no balcão. A jaqueta caiu no chão, e nenhum dos dois se incomodou em pegá-la.
— Banho? — ela sugeriu, apontando com o queixo para o corredor.
— Só se for com supervisão — ele murmurou, a voz ainda rouca da partida.
No banheiro, ela abriu o armário que já conhecia, pegou toalhas limpas e a caixa de primeiros socorros. Ethan se despia devagar, os movimentos carregados de exaustão. Os hematomas surgiam um a um: nos ombros, nas costelas, na perna. Hannah se ajoelhou à sua frente com a expressão concentrada, limpa, de quem já esperava por aquilo.
— Ainda péssimo nisso — murmurou, franzindo a testa quanto analisava o curativo improvisado.
— Achei que dava pro gasto — ele disse, sem muita convicção.
Ela limpou o machucado com cuidado, passou um novo adesivo e assoprou onde doía, como fazia anos atrás, sem pensar.
— Agora sim — sussurrou, quase como se o declarasse inteiro de novo.
— Lembro quando você fazia isso na faculdade — ele comentou. — Só que com a lanterna do celular e um kit de primeiros socorros vencido.
— Você ainda era só promissor naquela época — ela sorriu, abrindo a torneira do chuveiro. — Agora é um furacão em horário nobre.
No chuveiro, o vapor encheu o banheiro de silêncio. Ethan entrou debaixo da água quente e deixou que ela o acompanhasse, os dois dividindo o pequeno espaço com familiaridade. Ela passou os dedos devagar por entre os fios molhados do cabelo dele, e ele apoiou a testa no ombro dela, os olhos fechados, e deixou que a água levasse o peso das pancadas e do mundo. Hannah passou os dedos entre os fios do cabelo dele devagar, como se contasse os dias que estiveram longe.
Quando saíram, ela já sabia qual camiseta roubar. Puxou da gaveta a preferida dele — velha, macia, com a estampa da University of Tennessee já desbotada. Ele nem reclamou. Só a observou vestindo, um meio sorriso nos lábios e o olhar cheio.
Na cozinha, tudo estava como ela havia deixado. O vinho tinto já aberto, os dois copos separados. Sobre a bancada, fatias de pão rústico, queijo curado (o mesmo que ele comprava sempre que voltava ao Tennessee, apesar de até hoje não saber o nome), e duas generosas porções de cheesecake com framboesa.
— Você fez isso tudo mesmo? — ele perguntou, surpreso apesar de tudo.
— Fiz antes do jogo. Achei que você ia querer comemorar em silêncio. E comigo — respondeu, com um brilho nos olhos — Eu conheço seu gosto melhor que os médicos do time.
Sentaram-se no sofá, as pernas entrelaçadas como se aquele gesto tivesse sido ensaiado mil vezes. Ethan pegou uma fatia de queijo, mordeu devagar e olhou para ela.
— Isso aqui tá melhor do que qualquer comemoração no vestiário. Ou do que ganhar o jogo.
— Eu sei — ela respondeu, encostando a cabeça no ombro dele. — Por isso deixei pronto.
Ele ergueu a taça, convidando-a com um gesto simples.
— Um brinde, então.
— A quê? — ela perguntou, ajeitando a camiseta dele sobre o joelho.
— A você aqui. A isso.
— E à fotógrafa barraqueira que salvou a noite — ela completou, rindo.
As taças se tocaram num leve tilintar. O vinho tingiu os lábios dela, e Ethan se inclinou para roubar o gosto. O beijo veio calmo, cheio de memórias e promessas antigas. Depois, ficaram ali, comendo aos poucos, dividindo cada pedaço como se o tempo tivesse sido gentil.
Lá fora, a cidade ainda rugia — mas dentro daquele apartamento, só existia o som da respiração dos dois, o riso sussurrado e o estalar do vinho sendo servido de novo.
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