Love They Say

3 Capítulo 3


[ Nove meses depois ]

Toudou ficou doente.

O que começou com um espirro em uma manhã transformou-se em uma febre alta no final da semana, que só abaixou depois de algumas horas no pronto socorro do hospital. Xarope... ok, antibiótico... ok... tudo parece estar aqui. A pequenina lista em sua mão continha itens diferentes do habitual. A sexta-feira era o dia dedicado a compras, visto que ambos não tinham aula no período da tarde. Havia revezamento para tal tarefa e, embora não fosse o seu dia de sair à caça de ingredientes, Makishima aceitou sem pestanejar.

O barulho que seus tênis faziam ao pisar sobre a calçada chamou sua atenção. Ele deixara a loja de conveniência após a breve passagem pela farmácia e carregava em sua mão esquerda as provisões para o final de semana. Frio... teremos um inverno bem rigoroso... A fumaça que saia por seus lábios era quase tão gelada quanto a temperatura ambiente, ainda que estivesse bem agasalhado dentro de seu sobretudo negro e enrolado no cachecol roxo.

Aquele caminho tornou-se familiar em poucas semanas e não seria exagero dizer que depois de quatro meses Makishima sentia como se houvesse passado toda a sua vida naquele lugar. A loja de conveniência, o Café, a doceria no final da rua e a feirinha a dois quarteirões dali... o local era tranquilo e próximo da universidade, o suficiente para que ele pudesse pedalar todas as manhãs. Em matéria de vizinhança não havia motivos para reclamações com exceção, talvez, dos conhecidos rostos que se mudaram para o mesmo prédio, mas em andares diferentes.

O rapaz de cabelos esverdeados não tinha motivos para sentir-se infeliz e isso o preocupava. Há um ano, quando decidiu levar aquela sugestão a sério, ele tinha certeza de que se arrependeria. Sua vida inteira foi passada na gigantesca casa de seus pais, tendo empregados que atendiam a todas as suas necessidades e sem precisar se preocupar com nada além dos estudos e o clube de ciclismo. Na universidade, porém, não havia empregadas ou cozinheiros e os afazeres domésticos precisavam ser feitos por eles, da louça à limpeza do banheiro.

A surpresa, no entanto, não veio com a realização de que ele realmente conseguia se virar sozinho e não era um completo inútil. Em sua mente era difícil acreditar que morar com Toudou pudesse ser uma tarefa fácil. Eu estava medo. Desde o começo eu temia que essa mudança pudesse ser o fim do que tínhamos. Para sua surpresa, viver debaixo do mesmo teto mostrou-se muito mais simples do que o esperado.

Apesar da personalidade excêntrica, o moreno sabia realizar as tarefas domésticas além de ser um excelente cozinheiro. Foi ele quem o ensinou como separar as roupas antes de colocá-las na máquina de lavar e acertar o ponto do arroz. O começo foi penoso, com jantares ruins ou queimados, contudo, foi uma questão de tempo até que Makishima aprendesse. E, o que ele achou que seria o fim, na verdade, mostrou-se apenas o começo.

Eles não faziam o mesmo curso na universidade, portanto viam-se raramente no campus e os encontros aconteciam geralmente quando retornavam. Ele sempre me recepciona com um beijo na bochecha, como uma dessas esposas dedicadas. É idiota, mas eu gosto disso. Ambos se tornaram mais próximos e não seria preciso dizer que havia uma gigantesca diferença entre o sexo esporádico duas ou três vezes ao mês para as noites extasiantes que compartilhavam quase diariamente.

A cumplicidade e a amizade tornaram-se mais forte e nos momentos em que estavam vestidos não existia nada que Makishima gostasse mais do que ouvi-lo falar. Toudou possuía um magnético ar que o deixava simplesmente irresistível. Parte dele entendia a fixação que algumas pessoas tinham por seu amante, pois ele não era somente belo, mas educado e atencioso, o tipo que conquistava uma legião de fãs. E ele é bem popular na universidade. Sempre que o vejo é cercado por garotas. Algumas coisas nunca mudam, hm?

Makishima suspirou antes de tirar a chave do bolso de trás de sua calça. A porta foi aberta devagar e ele adentrou fazendo o mínimo de barulho possível. As cortinas da varanda da sala estavam abertas e o cômodo recebia a claridade do dia. O restante do local, entretanto, estava parcialmente escuro. As sacolas foram deixadas sobre a pia da cozinha e o próximo passo foi encher a banheira. A espuma subiu até a borda e o agradável cheiro de menta alastrou-se pelo banheiro. Certo, agora é hora de acordar o doente.

O quarto estava um pouco claro. Ele deixara propositalmente uma fresta da janela aberta, embora a parte de vidro ainda permanecesse fechada. Havia duas camas de solteiro, todavia, apenas uma delas era usada; a outra servia de fachada para as visitas dos amigos. A grande escrivaninha próxima à janela era compartilhada, e o guarda-roupa ao canto provavelmente seria a única peça na casa que denunciaria aquela relação, pois cada um possuía um lado, mesmo que as roupas muitas vezes se misturassem, como eles mesmos.

O moreno dormia na cama da esquerda com um grosso edredom até a altura de seu queixo. Os cabelos haviam crescido um pouco e ele não usava mais as tiaras com tanta frequência. Makishima ajoelhou-se na beirada da cama, deixando que seus longos dedos afastassem uma mecha escura para que pudesse ver aquele belo rosto. Não havia sinais de que sua companhia acordaria então ele se permitiu alguns segundos de admiração, tocando a face e contornando as bochechas com as pontas dos dedos.

Ao contrário dos longos minutos que ele passava admirando-o durante as manhãs, o rapaz de cabelos esverdeados não pôde desfrutar de seu momento como queria. A água da banheira acabaria esfriando e todo o seu trabalho seria em vão. Com baixos sussurros ele se pôs a chamar pelo doente, beliscando gentilmente a bochecha para motivá-lo a acordar. Toudou gemeu baixo, abrindo e fechando os olhos preguiçosos várias vezes antes de fixá-los. O sorriso que se formou em seus lábios foi cansado, mas genuíno, e o coração de Makishima chegou a pular uma batida.

"Hey, Maki-chan..."

"Como você se sente?"

"Melhor..." A voz soou rouca e baixa.

"Eu preparei o seu banho. E terminarei de fazer o almoço."

"D-Desculpe, Maki-chan..." Ele pareceu chateado. "Hoje era meu dia..."

"Não se preocupe com isso agora." Makishima apertou o nariz à sua frente e ficou em pé. "Eu vou ajudá-lo a chegar ao banheiro."

O moreno não era o pior dos pacientes, pelo menos naquele estágio. Quando a gripe começou, ele fez o possível para omiti-la e o rapaz de cabelos esverdeados só descobriu a gravidade da situação quando ele quase desmaiou no intervalo entre as aulas, sendo levado às pressas para a enfermaria da universidade. Arakita-san foi quem me avisou. Ele praticamente invadiu minha aula e me arrastou para fora.

Toudou, porém, negou até o último instante que estivesse realmente mal e naquele dia eles tiveram a primeira briga desde que se mudaram. Nós chegamos em casa e eu me prontifiquei a preparar o jantar, e ele recusou por pura teimosa. Eu perdi a paciência ao vê-lo se sacrificando tanto e incapaz de confiar em mim para ajudá-lo.

Há muito tempo Makishima não elevava a voz como naquele fim de tarde. O moreno permaneceu quieto, olhando-o com os belos olhos azuis arregalados, que se tornaram marejados de lágrimas quando o discurso terminou. Toudou desculpou-se e disse que não queria ser um peso, já que aquela era a vida perfeita que eles mereciam. A resposta foi um suspiro acompanhado de um abraço. Ele não conseguia ficar realmente bravo, ainda mais quando o idiota agia tão docemente ao colocá-lo sempre como sua principal prioridade.

Toudou levantou-se devagar, coçando os olhos e bocejando. Makishima ia atrás, garantindo que ele não caísse ou tropeçasse. Ele é tão dócil quando está doente. O banheiro ficava ao fim do corredor e ele manteve-se do lado de fora. Ambos não eram estrangeiros ao corpo um do outro, no entanto, todo relacionamento exigia certos níveis de privacidade e, verdade fosse dita, até ele sentia-se um pouco envergonhado ao desnudar-se quando o intuito não era sexual.

As roupas foram oferecidas por uma mão e o rapaz de cabelos esverdeados as segurou, avisando que retornaria em alguns minutos e que ele não deveria dormir na banheira por ser perigoso. As peças foram levadas até a pequenina lavanderia e colocadas no cesto de roupa suja. Eu cuidarei delas amanhã pela manhã. O próximo passo foi abrir as janelas do quarto para que o ar ventilasse e trocar a roupa de cama. As antigas também foram para o cesto e ele andou de um lado para o outro do apartamento, atarefado e pensando em qual seria seu próximo passo. Nesse meio tempo, contudo, encontrava algum segundo para aproximar-se da porta do banheiro e garantir que o doente da casa continuasse acordado.

O almoço de Toudou seria um arroz especial, feito com os ingredientes que o médico receitara. Makishima comeria mais tarde, apesar de sua opção não ser assim tão diferente. O arroz cozinhava na panela enquanto ele cortava os legumes. Seus olhos estiveram o tempo todo no relógio, cronometrando o tempo exato para que tudo saísse perfeito. Havia algo extremamente gratificante em cuidar de alguém que não poupava esforços para fazê-lo feliz.

O preparo da refeição terminou quando o moreno apareceu na cozinha vestindo um pijama com desenhos de ursinhos. A visão não o surpreendeu, visto que fora um presente dele mesmo. Makishima pediu que o amante esperasse na sala, porém, ele recusou-se e fez questão de ajudá-lo com a arrumação da mesinha de centro. O que levaria de três a quatro viagens para ser terminado levou somente uma com a ajuda, e os dois sentaram-se frente a frente. O céu ainda estava claro do lado de fora e a vista da porta de vidro da varanda era parcialmente embaçada pelo frio.

"Está delicioso, Maki-chan!"

"Não tem gosto de nada, idiota." Ele riu, apoiando o queixo no alto dos joelhos, que estavam juntos e abraçados, admirando-o comer.

"É verdade! Está delicioso!"

Não houve muita conversa durante a refeição, prova de que Toudou não estava recuperado. Makishima apreciava aquele súbito silêncio, embora sentisse falta do falatório gratuito e os exageros narcisistas. Eu nunca achei que sentiria saudades de todo aquele blablabla. O apartamento parecia estranhamente solitário, sem a vivacidade e energia do amante, como se uma peça importante estivesse faltando.

O moreno foi escoltado novamente até o banheiro, escovando os dentes enquanto o rapaz de cabelos esverdeados fechava a janela do quarto e garantia que não houvesse nenhuma corrente maléfica de vento. Os olhos azuis estavam cansados quando entraram no quarto e ele só pôde deitar-se depois de tomar uma fileira de comprimidos.

"Você está ocupado, Maki-chan?"

"Não..."

Makishima caminhou até o interruptor, apagando a luz e retornando para a cama. O quarto estava escuro mesmo recebendo a luz da cozinha através da porta recostada. Toudou acomodou-se no canto da cama, rindo baixo e alegre quando o amante deitou-se na beirada e apressando-se em afundar o rosto em seu peitoral. Eu geralmente durmo no canto. É estranho estar nessa posição. Aquela proximidade o fez sorrir, sentindo-se aquecido por ter aquela pessoa ao seu lado.

O moreno caiu no sono em poucos segundos, provavelmente exausto até mesmo para aproveitar aquele momento. Eu tenho certeza de que ele usou todas as forças que tinha para ir até a sala. Até hoje as refeições foram feitas na cama. Nos últimos três dias, Makishima ia para as aulas, mas retornava logo em seguida e isso porque Toudou o proibiu de faltar. O restante de seu tempo era passado entre enfermeiro e estudante, todavia, sua mente esteve o tempo todo longe, imaginando quando aquele resfriado iria realmente ir embora.

Os vizinhos do primeiro andar não apareceram nesse meio tempo, mas Shinkai perguntava diariamente sobre a saúde do antigo colega de clube. O animado apartamento pareceu ter perdido suas cores e parte de Makishima também sentia aqueles efeitos. Não havia gargalhadas altas ou observações narcisistas e idiotas; as piadas exageradas e o senso de superioridade deram lugar a comentários esporádicos e "sims" e "nãos" que eram acompanhados no máximo por um meio sorriso, cujo esforço estava estampado nos olhos azuis. Espero que você se recupere logo... ele apertou aquele em seus braços com um pouco mais de força, a vida não é a mesma sem você.

Continua...

Notas finais
O último capítulo será postado, excepcionalmente, no dia 27/07/2014.