Uma melodia dava-se início no quarto ao lado e, bem, embora amasse música, aquela não era lá a minha favorita — não só por tê-la ouvido por oito meses sempre nessa mesma hora, como também, por ser a interrupção de qualquer tipo de descanso que podia ter. Quando dava-se o final dela, era a pior parte. Passos cansados e pesados ecoavam pela casa, e em seguida, o ranger da porta velha, na verdade, toda aquela casa era e, em seguida, luzes do corredor que se acendiam, uma a uma.

Geralmente, não trancava minha porta por "N" motivos. Um deles era a recorrente briga de minha mãe em avisar-me que a casa era dela quando estava nervosa, ou que podia me machucar e, com a porta trancada, ficar sem ajuda, morrendo. É, ela conseguia me assustar com algumas histórias dela e, bem, exatamente por isso, ficava fácil a ela, me acordar aquela hora. Seis da manhã. — Acorda, tá na hora da escola — Com metade do rosto para dentro do quarto e uma voz tão sonolenta quanto a face clareada pelas lâmpadas amareladas, tentou me acordar.

Sim, eu já estava acordado. Na verdade, nem ao menos havia conseguido dormir, mas era parte do meu charme fazer aquele tipo de coisa. Eu não queria ir para a escola, e fingir que estava cansado, já havia virado rotina. Ela aproximou-se vagarosamente, bufando com certa violência. — Eu te ouvi andando, sei que você tava acordado, vai logo — E então, puxou a pequena manta que eu usava para fora da cama. Por um momento, imaginei que, talvez, ela estivesse jogando verde. Eu não havia feito barulho algum anteriormente, mas...

— Eu só fui ao banheiro — Resmunguei, ainda com os olhos fechados. Estava com uma camisa velha, do mickey — sério, eu não havia crescido nada desde meus quatorze anos de idade e, bem, muita coisa velha me servia ainda e, eu usava como pijama — e enquanto, a parte de baixo, uma bermuda azulada.

— Ahã, sei — Suspirou minha mãe. Seus cabelos brancos já haviam começado a nascer. Talvez devido a todas as preocupações? Mesmo tão jovem, ela estava bem acabada. — Vou fazer seu café e ir trabalhar — Comentou-a, bocejando metade da frase, enquanto simplesmente acenderia a luz bem no meu olho. Uma mania que havia adquirido, aparentemente, ela achava que aquilo me ajudava a acordar direito.

Estralei a língua, enquanto levantava-me ainda com preguiça da cama. Tampava com a mão os olhos, enquanto apertava o interruptor. Abri parte da janela, simplesmente abrindo a cortina. Mal o sol havia nascido e já precisava acordar. Aquela rotina era bem ruim, para falar a verdade. Coloquei meu óculos, para que, simplesmente, tira-se-o em seguida e fosse limpa-lo com um pequeno pano próximo a minha cama. Ele estava sujo, e bem, era agoniante ter um grande dedo na frente do seu olho.

— Assim está bom — Sussurrei, enquanto bocejava.

Fui em direção à sala. Com os pés descalços, passei pela cozinha e, como já era de praxe, minha mãe olhou-me de cima a baixo, balançando a cabeça e já esbravejando, comentou sobre a falta de um chinelo — Coloca um chinelo, você vai ficar doente desse jeito — E embora, aquilo não servisse de nada, apenas segui em frente. No sofá, jogado, estava o uniforme que usava dia-após-dia. Estava amassado, sim, desbotado? muito, mas não podia escolher melhor e, de qualquer jeito, era só mais uma quarta-feira.

Na parede, próximo a TV, estava um grande relógio de plástico. Observei enquanto vestia-me o horário. Era a primeira vez no mês que conseguia não me atrasar para a aula, quer dizer, isto deveria ser recompensado, certo? De qualquer jeito, era um grande avanço, embora fosse engraçado aquilo. Tive que me sentar para conseguir colocar a calça azulada do uniforme e, quando finalmente acordei, apenas ajeitei mais uma vez o óculos, empurrando-o. Miopia é um negócio difícil de se lidar geralmente. Após colocar uma meia, decidi então seguir em direção a cozinha. Bocejei uma última vez, enquanto finalmente pude me sentar numa das cadeiras, a mais próxima da parede, simplesmente para que pudesse ficar apoiado.

— Pode pegar, tenho que me arrumar — Disse minha mãe, seguindo agora, em direção à seu quarto. No fogão, estava a assadeira retangular, com pães cortados em quatro pedaços, finos e com manteiga. Torrada, simplesmente para economizar um pouco, geralmente com pães velhos, re-utilizando-os, e, acredite, é ótimo. Com uma caneca branca, com café até a metade, peguei dois pedaços, comendo-os lentamente. — E a senhora, não vai comer? — Com o pão ainda na boca, perguntei a ela. Demorou para que a resposta viesse, tempo o suficiente para que pudesse tomar o café por inteiro e, colocar a caneca na pia.

— Não posso, preciso chegar mais cedo hoje, hora extra — Disse ela, chegando bem próximo e dando um beijo em minha testa. Seus cabelos, louros, estavam em menor quantidade. Ela havia cortado? — Até mais, bebê — Com um sorriso, ela pegou então saiu pela porta da frente. Tossi, enquanto dava passos em direção ao banheiro. Talvez estivesse realmente ficando um pouco gripado e, sim, era melhor parar de andar descalço por aí.

Quando finalmente estivesse pronto e, no horário certo, pegaria minha bolsa, tendo que fazer todo o caminho contrário, até meu quarto. Precisei também, pegar a chave, acima da escrivaninha e, então, sai, trancando a casa pelo lado de fora, suspirando... não queria ir mesmo para a aula.

[...]

Havia poucas pessoas que podia chamar de amigos, e muito menos que podia confiar. A maioria, geralmente, tratava-me de forma indiferente, outros, de maneira ruim, de qualquer jeito, não tinha muito oque fazer. Aquilo era a adolescência que todos falavam e era tão chato quanto havia lido. Sentei-me em minha cadeira enumerada. Os professores haviam feito aquela esquematização para que, alguns dos alunos não tivessem contato direto com seus amigos, evitando a conversa demasiada e, que, podia atrapalhar durante a aula. Inteligente, mas não ajudava muito quando não havia nenhum responsável no lugar. Na verdade, só desorganizava mais ainda. Acima de minha mesa, sentado, estava Lucas.

Lucas era apaixonado por Jéssica, uma garota baixa, esguia e de longos cabelos e, que, coincidentemente, sentava-se a minha frente. Não tinha muita amizade com a garota, na verdade, mal tinha ouvido sua voz desde o início do ano e, geralmente, seu amado vinha próximo à ela, oque gerou certa... Amizade? Talvez pena, e isto, fizera com que, fosse uma das poucas pessoas que falava. Quer dizer, era engraçado vê-lo falar com o vento, mas mais engraçado ainda, saber que a paixão era reciproca — Jéssica geralmente ficava com ciúmes quando Lucas sentava-se com outra garota. Eu queria muito avisa-lo, mas parecia bom deixar aquela comédia romântica continuar, pelo menos, até o fim do ano.

— Lucas, deixa ela em paz, cara — Brinquei, enquanto empurrava-o levemente de minha mesa, posicionando minha bolsa acima desta e, bloqueando, qualquer possível assento ao rapaz. — E o professor já vai chegar, não quer tomar outra advertência, né? — Continuei, enquanto observava o olhar cabisbaixo de Jéssica. Ela parecia estar diferente, algo havia acontecido, talvez. Lucas parecia não ter entendido muito bem a brincadeira.

— Ela tá em paz, só tô falando que amo ela — Falou em alto e bom tom. Ah, que bonitinho, não?

— E ela, te ama? — Perguntei, retoricamente, apenas para deixa-lo envergonhado e, como tal, talvez tirar alguma risada da garota a frente. Oque não funcionou muito bem.

— Tá tudo bem se ela não amar, eu só preciso deixar claro isso — Continuou.

— Acho que já tá claro até de mais — E então, antes que pudesse terminar a frase, João, o professor de filosofia, abriu a porta. Parte dos alunos calaram-se, enquanto outros, voltaram ao seu lugar e, um deles, era Lucas. Geralmente, João era daquele jeito. Quieto, direto e, acredite ou não, um dos melhores professor que podia-se ter. Ele não brigava, não discutia, apenas explicava a lição quando tivesse silêncio o suficiente e, por isto, parte dos alunos, gostavam dele. Com um apagador, ele limpou as lições do outro dia e, então, começou a aula.

As aulas seguiam cronogramas normais, escolhidos anteriormente. No dia em questão, uma quarta, seria a primeira aula de filosofia, depois, duas de matemática, e então o recreio, para que, em seguida, tivesse português e geografia. Odiava aula de Geografia, por que, eu era péssimo. Não conseguia me lembrar nem a capital do meu estado, as vezes, nem quais estados eram vizinhos ao meu, mas o professor era um cara bacana, então, sempre me ajudava em dobro. E então, as horas seguiram como o esperado, a terceira aula. O professor havia saído para buscar as avaliações do dia anterior. E, bem, eu estava esperançoso quanto a minha nota. Precisava de, ao menos, um cinco na matéria em questão, e havia estudado o suficiente. Bastava então, a espera.

No entanto, algo acabou por interromper a sensação. Um toque em meu ombro levou-me a virar o rosto. Marcos sentava-se atrás de mim e, bem, não era muito confiável conversar com ele — já havia feito muita merda por ali, mas por educação, simplesmente dei ouvidos inicialmente ao que este, tinha a dizer.

— Ei, uma amiga minha quer conhecer você — Ele aproximou-se para que pudesse sussurrar próximo o suficiente e, bem, aquilo levou-me a ficar um pouco corado. Sim, eu tinha dezesseis anos, a maioria das pessoas naquela idade, já haviam ficado, ou beijado, mas não eu. Quer dizer, eu nem pensava em namorar ou nada do tipo. Quem dirá, ficar. E, a pergunta principal era, por que essa garota queria ficar comigo? — Hã? C-como assim? — Gaguejei, enquanto engoli seco. Ele parecia se segurar para não rir, oque foi suficiente para acordar-me da inicial vergonha. Obviamente era algum tipo de brincadeira. — Ela estuda na mesma sala que a minha irmã e disse pra ela que queria falar com você — Explicou. Estava mais cético, então apenas mantive-me com os olhos centrados e sem mais gesticular ou mostrar alguma face engraçada.

— Ela falou que quer te ver no recreio, lá na sala dela. 1-B. — Comentou ele, ainda com a história. A escola em questão, separava as salas a partir das letras inicias do alfabeto, indo até a letra C, isto por que, era uma escola publica e tinha muitos alunos. Estava no meu terceiro ano do ensino médio, na sala C. Mais um aninho só e nunca mais precisaria e nem botaria meus pés nesse lugar. De qualquer jeito, embora fosse uma boa história para pegar idiota, se recusasse, ele ia acabar espalhando para todo mundo informações idiotas, como "ah, ele é gay" ou "ele nunca beijou" e isso dificultaria ainda mais minha presença na sala de aula.

Ao menos por enquanto, não queria aquilo. E tinha uma ideia de como desmascarar a mentira. — E como é o nome dela? — Perguntei, com um sorriso curto no rosto. Ele era burro e, geralmente, ia acabar falando um nome inexistente e, ai, eu iria pega-lo em sua própria mentira! — Sophia — Sem nem ao menos gaguejar, ou pensar, ele citou o nome da garota. Meu plano havia falhado. Espera... Será que realmente uma garota queria ficar comigo mesmo? — Eu vou levar você até lá, tá? — Continuou Marcos, enquanto finalmente, o professor voltaria com as avaliações. Virei-me para frente, encarando um vazio.

O merda. Tinha entrado numa enrascada bem, bem chata.

A nota que havia tirado foi um sete, mais que o suficiente. Deveria estar feliz, de fato, mas não era oque o momento provocava. Se fosse uma brincadeira, ia acabar sendo chacota da minha sala e ainda, de outras salas. Mas e, se tivesse mesmo uma garota gostando de mim, como ia falar com ela ou para ela que não quero nenhum tipo de relacionamento? Eu já havia lido o suficiente livros naquela temática. Não queria ser mais um clichê. Pedi tanto para aquela aula não passar, simplesmente para pensar numa resposta boa o suficiente, mas então, o tempo mostrou-se tão inimigo quanto aquele borbulinho no estômago e, o som do alarme, tocou.

Levantei-me. Talvez Marcos tivesse esquecido e eu poderia seguir minha rotina, mas não. Ele apertou levemente meu ombro, sendo o suficiente para me segurar. — Vamos? — Marcos era maior do que eu, e possuía quase nenhum cabelo, além de um pouco moreno. Como deveria ser a irmã dele? E, na verdade, como deveria ser Sophia? Estava um pouco travado, mas o acompanhei, lado a lado, em direção as salas dos primeiros anistas. Era um pouco longe, praticamente do outro lado da escola. Naquele momento, estava com medo. Medo de ser assaltado, medo de ser trancado em alguma sala, medo de acabar apanhando e medo de que aquilo fosse real.

Até que, finalmente, cheguei a sala em questão. A porta estava fechada, era possível ouvir alguns risos. Marcos tomou a dianteira, batendo na porta de madeira, três vezes. Os risos cessaram e, a porta se abriu. Haviam três garotas. Dentre elas, uma tímida — atrás das outras duas — , de cabelos negros e longos, e baixa. Não tinha visto ela antes, oque era estranho. Marcos empurrou-me, e então, a porta atrás de mim, fechou-se. Meu coração estava acelerado, não conseguia fazer nada além de olhar para baixo e colocar a mão no bolso, até que, uma delas, começou a falar.

— É ele, não é, Sophia? —

A mesma garota, então, puxou a de cabelos longos a frente. Ela estava com um batom forte, vermelho, que chamou-me atenção. E, amigos, era ela bonita, tão bonita quanto um sonho, no entanto, pelos próximos segundos, a cena manteve-se daquele mesmo jeito. Tanto eu, quanto ela, parados, um a frente do outro. Fui empurrado por uma quarta garota, a que abriu a porta, para próximo de Sophia, oque fizera-me toca-la. Ela estava vermelha, tão vermelha quanto um tomate e, olhe, sua pele era bem branca, dando certo contraste.

— Fala alguma coisa pra ela — A quarta garota parecia querer que eu tivesse a iniciativa.

Mas sério, estava tão apavorado quanto a garota. Sei, pode parecer ridículo, mas não sabia nem mesmo como prosseguir a partir dali, até que, ela afastou-se. Foi de, fato, impactante tudo aquilo. Eu tinha plena certeza que, iria acabar sendo beijado, ou algo do gênero, mas foi totalmente o contrário, ela simplesmente deu passos para trás, de certa forma, mostrando desinteresse quanto aquilo. O pensamento seguinte que tive, foi que, talvez, aquilo tivesse sido armação. Não, era isso. Marcos tinha feito aquilo só pra debochar e rir depois. Porque fui cair em algo tão idiota?

Virei-me, seguindo em direção a porta. A garota que estava próxima a ela, parecia não querer deixar-me sair. Ela era baixa, então simplesmente levei minha mão até a maçaneta, girando-a e puxando para que abrisse a porta. Não foi difícil, mesmo por que, a garota nem ao menos, tentou impedir, mas acabei sendo atingido de outra forma. Um soco diretamente no estômago. Cara, ela não deveria ter aquela força. Foi o suficiente para perder o ar, e ela voltou a me empurrar em direção a Sophia, que recuou mais uma vez.

Aquilo me irritou, devo admitir.

De qualquer forma, simplesmente voltei a ideia inicial e sai da sala, passando por ela. Do lado de fora, Marcos parecia esperar-me e, quando sai, abriu um sorriso. Geralmente, era totalmente contra violência, mas foi o mais perto que eu tive de socar alguém. — E ai?— Perguntou, aproximando-se. Sua voz irritava-me, sua aparência irritava-me, na verdade, pouca coisa naquele lugar parecia não me irritar naquele momento, oque me fizera simplesmente passar por ele. Tirando sua mão de meu ombro. — Vai se foder — Respondi-o a altura da brincadeira, simplesmente seguindo em direção a cantina.

Havia perdido meu tempo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.