Love Story
201 Ishmael 2.0
Notas iniciais
Já pela manhã do dia seguinte, Sara acordou primeiro e ficou velando o sono de Gil por alguns instantes.
Finalmente o mar estava calmo, a maré tinha baixado, as tempestades não deixariam a viagem turbulenta. Águas calmas, corações curados.
Deu um beijo na testa dele e se levantou. Vestiu-se apenas com a camisa dele que estava no chão, prendeu o cabelo e saiu da cabine.
O dia estava meio nublado, o vento estava um pouco gelado — afinal era outono —, mas não importava. Nada tirava a felicidade de seu peito. Nada, exceto um e-mail sobre sua mãe.
Assim que olhou seu celular, Sara sentiu o coração doer.
A instituição que cuidava de sua mãe havia lhe comunicado que Laura foi socorrida na madrugada daquele dia. Não por ter tido uma recaída com bebida, mas por ter abusado dos remédios. Laura quase teve uma overdose, o que deixou Sara mais preocupada do que se fosse álcool. Era a primeira vez que aquilo acontecia, e só o que se passava na cabeça da ex perita era que a mãe tentou se matar.
Como voltaria agora?
Foi pra Vegas e esqueceu completamente de ir vê-la, contar tudo o que estava acontecendo. Tinha prometido que manteriam contato e novamente estava longe. Já não dava mais pra voltar, estava no meio do pacífico.
Sara se sentiu muito mal e escreveu um e-mail enorme de resposta, pedindo por favor que mostrassem pra ela, pois no e-mail ela explicou tudo o que aconteceu desde a última vez que se viram.
Sara pediu que ela tivesse paciência, que por favor não tentasse se machucar e garantiu que ela não estava mais infeliz como Laura tinha certeza que estava. Gil tinha voltado pra ela e com isso ela encontrou seu caminho de felicidade de novo. Prometeu que iria visitá-la assim que voltasse à Vegas e que a manteria informada por e-mail, pois Julian garantiu que leria todos pra ela.
Quando Grissom acordou, Sara não estava com ele. Ficou um pouquinho ali se acostumando com a ideia de levantar e quando o fez, vestiu um short e saiu da cabine. Como não achou sua camisa, imaginou que Sara estivesse com ela.
A viu encostada no fundo do barco, com os braços apoiados no ferro, de costas pra ele. Era a visão perfeita pra um homem apaixonado como ele.
Chegou de fininho e a abraçou por trás beijando sua nuca depois de pronunciar um "bom dia".
Só quando ela respondeu fungando depois foi que ele percebeu que ela chorava.
— Honey...- ele a virou pra ele da forma mais delicada possível e secou seu rosto perguntando o que houve.
— Minha mãe.- foi só o que ela conseguiu dizer antes de mais um soluço vir.
Gil a abraçou e mesmo sem saber o que aconteceu, deu todo o apoio que ela estava precisando. Fez ela se acalmar e quando ela parou de chorar, sentou com ela no chão, com as costas encostadas no fundo do Ishmael, olhando pra escadinha que dava pra cima onde ficava a direção. Foi então que Sara conseguiu explicar tudo pra ele.
Com a mão acariciando seu rosto vermelho pelo choro, Gil perguntou se ela queria dar meia volta, mas ela negou alegando que ia demorar muito pra voltar, que sua mãe ia entender o porquê de ela não estar lá.
Mesmo sem ter culpa, Grissom sentiu um pouco dela, pois nem sequer perguntou da sogra, e se tivesse feito isso, Sara teria lembrado.
— E a sua mãe?- Sara perguntou fungando mais uma vez. — Ela está bem?
— Está sim. Eu tenho trocado e-mails com ela com frequência, eu só... não contei da nossa separação. Sempre que ela perguntava de você, eu falava que estava bem e quando ela queria fazer chamada de vídeo, eu inventava uma desculpa ou aparecia sozinho dizendo que você estava ocupada ou com vergonha de aparecer.
Sara ficou surpresa com ele ter mentido sobre o divórcio, mas ficou feliz por não ter que dar explicações.
— Foi difícil esconder dela como eu estava, porque... ela estava vendo.
— Eu não consegui esconder da minha mãe.- Sara sorriu triste. — Ela soube assim que olhou pra mim.
Gil beijou a lateral de sua testa e a abraçou pelos ombros trazendo-a para mais perto de si.
— Ela vai ficar bem.
Sara fechou os olhos com força e se aconchegou mais nos braços dele. Ficaram em silêncio por um tempo até Gil quebrá-lo.
— Falei com o Ruben. Ele disse que tem um barco ótimo pra gente.
— Ruben é seu amigo do Peru?
— Ele mesmo. Disse que troca pelo Ishmael e mais alguns trocados. O barco é grande demais pra um lobo solitário, ele disse.- sorriu para que ela fizesse o mesmo, e conseguiu.
— Tenho uma boa quantia na poupança. A gente pode negociar.
— Podemos reformar com o que sobrar. Alguma notícia sobre a casa?
— Não. O corretor ficou de ligar se algo surgisse.
Grissom assentiu e fez carinho em seu cabelo. Ficou olhando pra ela por alguns segundos.
— Está se sentindo melhor?- Sara sorriu com o canto da boca e assentiu. — Tem certeza?
Ela não disse nada, só se aproximou para beijá-lo.
Gil correspondeu sorrindo e quando se separaram, não tinha como abandonar o sorriso ao ouvi-la dizer "eu te amo".
Sabia que aquele "eu te amo" significava que ela sempre ficaria melhor com ele ali perto dela.
~ ♥ ~
Chegaram no Peru no fim do dia. Ruben avisou que só conseguiria ir até eles pela manhã, então como estavam sem sono, Gil resolveu ir até o bar que frequentava quando dava uma pausa nas escavações. Apresentou Sara para seus colegas e passaram a madrugada contando histórias, não só de mar, como das escavações que faziam.
Algumas daquelas histórias Sara já tinha escutado de Grissom, outras eram inéditas e bem divertidas, algumas até sinistras. Alberto jurava que tinha visto o Kraken, e Josiah disse que já foi queimado por águas vivas dezessete vezes ao longo da vida. Inclusive, Sara deu muita risada quando um deles disse que mesmo assim Josiah não tinha aprendido a ficar longe delas.
Depois de muito conversar e rir, lá pelas 3 da manhã, o dono fechou o estabelecimento e quem estava lá foi embora.
— Gostei deles.- comentou Sara ao voltarem pro Ishmael.
— São umas figuras né?
— Disseram que eu sou mais legal que você.- fez cara de convencida.
— Ah, só porque é mulher bonita.
Sara riu e então se prepararam pra dormir. Gil garantiu que era seguro ficar ali no porto à noite, mas que por garantia ia trancar a porta da cabine para que ela se sentisse mais segura.
Infelizmente, Sara não conseguiu dormir direito, pois acabou sonhando com sua mãe e o sonho foi muito ruim. Fazia um tempo que não tinha pesadelos, e com o e-mail que recebeu, era compreensível pensar no pior, e inevitável também.
Sara acordou ofegante, mas não gritou, nem se movimentou muito no colchão. Por conta disso Gil não acordou, não deu pra perceber que Sara estava tendo um pesadelo, como sempre aconteceu de ele acordar antes dela ou com ela.
Sara não queria acordá-lo, mas precisava tanto do abraço dele, do conforto que ele lhe dava. Não resistiu às lágrimas, mas foram poucas, e o chacoalhou de leve para que ele acordasse.
— Gil?
Sonolento, Grissom despertou meio perdido, mas logo percebeu seus olhos marejados.
— Sara? Está tudo bem?
— Desculpa… eu não queria te acordar, eu só… precisava…
— Tudo bem…- ele se sentou e a embalou em seus braços, mesmo sem entender o motivo do quase choro. Só depois que começou a raciocinar foi que supôs ter sido um pesadelo com a mãe dela.
A acalmou novamente e ficou acordado com ela conversando e dando suporte, tentando distraí-la. Foi pensando em distração que lembrou das palavras cruzadas. Ficaram fazendo até Sara pegar no sono de novo.
Já pelas oito da manhã Ruben chegou acordando todo mundo batendo tampa de panela. Ele tinha essa mania de acordar os amigos.
Grissom fez careta ao acordar e Sara sorriu já imaginando quem era.
Assim que saíram, a recepção foi calorosa.
— Ah, Gilbert! ¡Buenos días! Por fin conoceré a tu esposa!
— E vender um barco pra ela.
Ele riu com a resposta e foi cumprimentar Sara.
— Es un placer conocerla, Sra. Grissom.
Sara não teve dificuldades pra entender o espanhol dele e ia dizer que não precisava de formalidades e que ele podia lhe chamar apenas de Sara, mas ela gostava muito do som que "Sra. Grissom" tinha. Agora sim ela tinha o nome dele no seu. Betty que lute!
— O prazer é meu, Ruben.
Mesmo sabendo que ela entendeu, Ruben falou a língua deles.
— Fiquei sabendo que temos negócios a tratar. Gil sempre larga tudo na sua mão?
Sara riu.
— Acho que eu que dou as ordens por aqui, não é?!
Grissom semicerrou os olhos para os dois, mas sorriu depois.
Sara gostou muito do barco de Ruben. Não era nem um pouco luxuoso como os de O Turista, mas também não era uma banheira como aquele de Anaconda 2, que ela assistiu com Rayle um tempo atrás.
Era bem jeitosinho e conservado, e realmente grande pra uma pessoa só. Mas era muito confortável pra duas e o ideal pra três. Dois pequenos quartinhos, uma pequena cozinha que parece que foi onde Ruben mais investiu dinheiro, pois parecia um apartamento fofo sobre as águas. A parte de fora tinha uma cobertura pros dias de chuva. Ruben mesmo que equipou o barco com isso. A parte que pilotava o barco ficava num pequeno andar de cima, como o de Grissom, mas era uma cabine fechada, não aberta como o deles.
Também havia um pequeno compartimento embaixo do piso, como um porão, mas cabia pouquíssima coisa dentro, era onde ele guardava caixas e bóias.
Sara adorou e assim que fecharam negócio, eles tiraram seus pertences e trocaram de barco. Grissom e Sara deixariam o novo barco do jeitinho deles antes de viajarem pelo mundo.
Com tudo pronto, os dois saíram do barco e olharam pra ele de fora.
— Aí está!- ela sorriu. — Ishmael 2.0.
Grissom sorriu mais ainda com isso e a abraçou pela cintura tirando-a do chão.
Seu novo lar estava pronto! Só precisava de mais algumas decorações, mas por hora estava perfeito.
— Pronta pra primeira aventura? Ainda temos que punir os responsáveis por transportar barbatanas de tubarão.
— Era o que estava fazendo quando te prenderam em San Diego, não era?
— Sim. Eu invadi um barco desses.
Sara riu.
— Vamos fazer buracos nos barcos deles se não conseguirmos levá-los à justiça?
— Espero que sim.
Riram com isso.
— Estou prontíssima.
— Bem vinda à bordo, Sra. Grissom.
Sara sorriu feliz da vida e se jogou em seus braços lhe dando um beijo apaixonado.
~ ♥ ~
Semanas se passaram e finalmente Greg mandou mensagem para Sara dizendo que pediu Morgan em namoro.
Demorou um pouquinho, pois queria fazer algo especial e ter certeza que os dois davam certo juntos. O que Morgan sentia por ele era recíproco e quando ambos disseram "eu te amo" pela primeira vez, naquele momento mágico ele teve certeza de que estar junto dela era a coisa mais certa que faria.
Sara era pura alegria, deu os parabéns aos dois e desejou toda felicidade.
Greg disse que só não ficou tão nervoso ao falar com Ecklie, pois graças a chegada de Morgan, ele melhorou muito o mal humor e seu temperamento babaca. Sara super concordou com isso. Ecklie era um novo homem. Greg deu sorte de pegar essa fase dele como sogro.
Mais uma novidade era que Rebecca estava deixando Sara atualizada sobre a mãe. A pequena skatista disse que Rayle estava toda apaixonadinha trocando mensagens com Nick. A fotógrafa dizia que não estava, que eles só estavam se conhecendo e que viraram amigos, só isso. Mas sempre que Becca a pegava desprevenida no celular, Rayle estava sorrindo pro nada e com os olhinhos cintilantes pro aparelho.
Quando Nick convidou Rayle pra sair pela primeira vez, Rebecca disse que a mãe parecia uma adolescente nervosa com o primeiro encontro. No segundo "encontro", Nick quis que Rebecca também fosse para os três se divertirem juntos, e também se tornou amigo da menina.
Sara ficou muito feliz por Nick, seu irmãozinho, fazer parte da vida de sua Rayle, pois ele sim era um homem de verdade, que a respeitava, a admirava, a valorizava e que cuidava não só dela, como da filha dela também, de um jeito que Renê jamais faria. Rebecca o adorava, e Rayle ficava feliz com isso. Mesmo sem querer ter pressa, foi inevitável não quererem se envolver romanticamente e passarem de amigos pra namorados.
Rayle tinha certos traumas, traumas esses que Sara tinha conhecimento e entendia. Rayle era apaixonada e Renê usou isso. Mas Nick garantiu que não era como ele e, Sara e Gil só reforçaram isso. Não podiam evitar o sorriso e a felicidade quando ele prometeu que ia fazê-la feliz.
Tudo enfim corria bem. Gil e Sara estavam amando a vida juntos em alto mar. Se divertiam conhecendo lugares e salvando o máximo de seres marinhos que conseguiam dos seres humanos ruins, pensando até em fazer parte do GreenPeace. Não havia melhor dupla, no mar e fora dele, do que essa.
~ ♥ ~
Sara acordou sozinha no meio da noite na cabine do casal/quarto. Estava de costas pro lado onde o marido dormia e quando se virou para olhar pra ele, não o encontrou lá.
Franziu o cenho, não só pela falta dele como pelo sono também.
— Gil?- chamou em um tom normal de voz e não ouviu resposta, só ouvia o barulho do mar quebrando as ondas e o vento que cantava.
Espreguiçou-se e se levantou pegando seu robe em cima de um banquinho de veludo que colocaram lá. O vestiu e enquanto amarrava seu laço na cintura, caminhava pra fora do quarto. Logo que saiu pro lado de fora, o viu no fundo do barco debruçado na beira, apreciando a vista do mar e da lua que refletia sua luz nele.
Ela chegou de fininho com um sorriso no canto dos lábios e o abraçou por trás.
Ele quase se assustou, mas sorriu ao ouvir um "oi!" sendo pronunciado por aquela linda voz que o encantava.
— Oi…- ele respondeu sorrindo o mesmo cumprimento.
— O que faz aqui fora?
— Só apreciando a vista.- ele se virou pra ela que enlaçou seu pescoço com os braços finos e macios.
— Senti sua falta na cama.- comentou com o rosto bem pertinho do dele, sendo capaz de sentir sua respiração.
— Não consegui dormir.- ele respondeu suavemente rodeando sua cintura com um de seus braços fortes, e com o outro ele direcionou a mão decorada com um arco grosso e dourado para o rosto dela, acariciando sua bochecha rosada pelo frio daquela noite. — Não quis te acordar.
Sara sorriu com o canto dos lábios mais uma vez e com a mesma mão que também continha uma jóia dourada, acariciou a nuca do marido sentindo a maciez de seus cabelos quase completamente brancos com vários fios ainda loiro escuros, e já na hora de cortar.
Fecharam os olhos com aqueles carinhos e aproximaram seus lábios um do outro para um beijo lento e cheio de paixão.
Podiam ficar ali pra sempre, daquele jeitinho, no meio do oceano, nos braços um do outro. E pra sempre ficariam.
“É tão singular
A habilidade que eu tenho em montar
Um arsenal de clichês pra te encantar
[...] Eu te enlaço e não me permito soltar
Pro nosso nós não deixar de ser assim
Tão singular" — Anavitória
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