Love Story

2 Capítulo 1 - Untouchable


Gerard permaneceu na mesma posição ao acordar. Não abriu os olhos imediatamente, pois seu corpo ainda estava muito preguiçoso para se mover ou para processar alguma informação mais complicada. Ficou ali, quieto, prestando atenção nos baixos ruídos que sua respiração fazia no silencio do quarto em conjunto com alguns passarinhos escandalosos na rua. Incrível como era sempre de Sábado e como sua janela era irresistivelmente atraente para que eles testassem qual piado era o mais irritante.

Rosnou contra o travesseiro e desistiu de tentar relaxar após longos minutos; sabia que eles não parariam tão cedo com a cantoria. Desde pequeno havia se conformado que era inútil sonhar em dormir até o meio dia em um Sábado, se não fossem os passarinhos seria Michael ou algum passeio entediante até ao Clube com a família. Ergueu o tronco, virando o rosto amassado e ainda com resquícios de sono para ver as horas: 8:00 AM.

- Você só pode estar brincando. – disse rouco ao jogar a cabeça contra o travesseiro de forma mal humorada.

Um estilingue não deve ser caro, pensou ao observar as roupas dentro do armário. Não que fosse realmente assassinar uma dúzia de passarinhos, mas assustá-los seria uma boa. Conforme pensava planos malignos de espantar pássaros que não respeitavam o sono alheio, pegou distraído a camisa pólo preta que estava jogada no fundo do armário. Se Donna visse a bagunça que se instalava ali era capaz de fazê-lo ficar surdo com os gritos, mas daria um jeito para que a empregada arrumasse ali discretamente sem que ela percebesse.

- Papai está como um louco lá embaixo. – Michael riu assim que viu Gerard se assustando com a sua repentina aparição; o mais velho fechando as portas do armário com um estrondo. – Relaxa, Ger, não vou contar para a mamãe que seu armário está uma bagunça.

- A mãe deve estar ainda mais atacada que o normal então. – respondeu após alguns segundos enquanto pulava algumas vezes em um pé só, tentando desenroscar a calça jeans que havia prendido em seu pé. – Ela odeia quando nós estamos muito agitados.

- É verdade, mas o pai não vê o Tio Frank há muito tempo, era óbvio que ele ficaria assim. A mãe deveria ficar feliz, não deveria?

- Como se ela gostasse deles, não é?

Os irmãos se entreolharam trocando um sorriso culpado cúmplice. Os dois haviam assistido a varias tentativas frustradas da família Iero tentando visitá-los e Donna recusando-as quando Donald não estava presente. Mas hoje, por algum milagre, Donald havia conseguido que seu melhor amigo e a esposa viessem com o filho passar o fim de semana em sua casa. Fazia anos que eles não se viam e tudo que Gerard sabia sobre eles eram as historias mirabolantes, as quais seu pai e o Sr. Iero eram melhores amigos no colegial. Não havia tido muito contato com eles além disso, Donna não havia permitido. Só se lembrava de apenas uma visita, mas era muito pequeno e o filho do casal era apenas um bebê.

- Tudo o que ela consegue dizer é o quão deselegante é o filho ter o nome igual ao do pai com um Júnior no final.

Gerard revirou os olhos, abotoando o cinto rapidamente. Donna se tornava um tanto quanto insuportável quando o assunto se tornava postura ou elegância, ela se achava demasiadamente entendedora do assunto e vivia comentando as ‘gafes’ das pessoas. Gerard não conseguia ver qual era o problema, afinal, de ter o nome igual ao de seu pai. Tudo bem que seria zoado no colégio caso seu nome fosse Donald, mas nada tão absurdo assim, só alguns apelidos envolvendo o Pato Donald.

Bocejou enquanto descia as escadas com o irmão mais novo ao lado, as mãos bagunçando o cabelo inconscientemente. Esperava que o filho do casal de amigos de seu pai fosse, no mínimo, alguém que não falasse muito, pois odiava pessoas efusivas por motivo algum e agüentar alguém tagarelando o fim de semana inteiro seria uma desgraça. Não conseguiu prender um sorriso assim que viu seu pai, sempre tão sério, sentado como uma criança ao lado do telefone, encarando-o como se esperasse que eles saíssem dali a qualquer momento.

- Bom dia, meu filho. – disse Donna se aproximando lentamente. Ela fez uma careta de reprovação assim que viu Gerard, arrumando os fios negros revoltos de forma elegante. – Pelo amor de Deus, Gerard, aonde você pensou que ia com esse cabelo todo bagunçado, a algum albergue?

Gerard fechou a cara, encarando-a de forma carrancuda. Afastou as mãos da mulher a sua frente e acenou de forma rápida ao pai que correspondeu com um aceno de cabeça.

- Gerard, eu estou falando com você, preste atenção. E afinal de contas quando é que você vai cortar esse cabelo? Está grande demais, isto não é cabelo para alguém de sua classe, querido.

- Eu vou ver se vou essa semana, mãe. – ele retrucou sem emoção sentando-se na poltrona; o lugar mais longe de Donna na sala. — Eu me esqueci de cortar. Só isso.

Michael sentou-se ao lado do irmão, dando palmadinhas amigáveis na coxa do mesmo. Ele sempre fazia isso quando queria que Gerard ficasse calmo, o que não adiantava muito.

- Eles não deveriam ter chegado ontem à tarde, pai? – questionou o mais novo arrumando os óculos de aro grosso que tinham ido parar na ponta do nariz.

- Sim. Tentei falar com Frank no celular, mas ele não atende, assim como em casa. – Donald fez uma expressão pensativa, balançando as pernas em sinal de ansiedade. – Acho que devem ter feito uma pausa na viagem, afinal, ela é muito longa.

- Uma falta de respeito não avisar ao anfitrião que chegarão atrasados. – ponderou Donna de forma desgostosa, olhando-se no espelho central da sala para se certificar que o penteado em seu cabelo loiro armado não havia saído do lugar. – Ainda acho que foi uma péssima idéia.

Donald responderia à esposa pela décima vez só naquela manhã, mas o toque do telefone o interrompeu, fazendo-o esperar que ele tocasse mais uma vez para que pudesse atender.

- Alô?

Gerard arqueou a sobrancelha assim que notou a expressão de seu pai se modificando enquanto ele ouvia, em silencio, alguém do outro lado da linha falar. Ele parecia ter desanimado visivelmente e os olhos verdes, que ele havia herdado por tabela, pareciam estar ficando mais molhados a cada palavra. Seu pai choraria apenas por que eles não poderiam vir?

- Entendo. – Donald falou após muito tempo, sua voz parecia falha. – Eu aceito com certeza o contrato. Frank e eu éramos muito amigos... – ele emudeceu, parecendo ter perdido o dom da fala, mas logo se recompôs com um pigarro. – Você pode-me dizer onde está ocorrendo o...?

Alguns minutos depois Donald voltou a colocar o telefone no gancho, encarando-o por longos e silenciosos minutos antes de conseguir voltar a falar.

- Os Iero sofreram um acidente de carro, Frank e Linda morreram.

Donna não fez expressão alguma, continuando a se olhar no espelho de forma minuciosa. Virou-se após algum tempo para o filho mais novo, fazendo seus saltos ecoarem contra o chão de pedra conforme andava em direção à escadaria que dava acesso aos quartos.

- Estou indo buscar meu xale preto. Michael, por favor, troque esta camisa, você tem que parecer triste, lembre-se disso.

Gerard arregalou um pouco os olhos parecendo mortificado com as palavras da mãe, mas já tinha aprendido a não questionar a falta de sentimentos dela. Donna sempre fora assim, a conclusão que havia tirado em relação à isso, convivendo com ela há dezoito anos, era de que ela não compreendia a força das palavras que usava. Levantou-se, não sabendo ao certo como agir, e tocou o ombro do pai de forma incerta, apertando-o de leve.

- Eu sinto muito, pai. – sussurrou sem graça ao receber um inesperado abraço do pai, que não era de demonstrar muito que sentia nem ter algum contato físico com os filhos.

- Obrigado, filho, obrigado.

x-x

Gerard não teve coragem o suficiente para chegar perto dos dois caixões lacrados. Odiava velórios e, mesmo que não gostasse de admitir, tinha pavor da morte. Não queria estar ali porque tudo naquele lugar frio e sem cor alguma exalava flores artificiais mofadas e agonia, mas sabia que era importante para seu pai sua presença. Então tentava ao máximo não demonstrar o quão incomodado estava com aquela situação toda, o que estava sendo definitivamente difícil.

Michael estava a seu lado quieto e segurando a mão de Donna que limpava de hora em hora as lágrimas solitárias que rolavam por seu rosto maquiado. Como podia ser tão fingida, afinal? Nem gostar deles ela gostava. Mesmo que não os conhecesse bem, sabia que eles eram um casal incrível e doía ver as pessoas, parentes e amigos, ali chorando. Tornava-se até palpável, a cada segundo que se passava, o quanto era horrível saber que nunca mais poderia ver aquelas duas pessoas sorrindo ou continuando a criar o filho que tinha apenas quinze anos.

Era exatamente isso que assustava Gerard. Saber que algum dia não mais acordaria ou sentiria o vento batendo contra o rosto era assustador. Para aonde ele iria? Será que seria tudo escuro? Alguém viria em seu velório além de sua família? Haveria algo além disso?

Suspirou, apoiando a cabeça nas mãos; os cotovelos machucando levemente suas coxas pela pressão. Apertou os fios embrenhados nos dedos e fechou os olhos. Era melhor não pensar naquilo, afinal garotos de dezoito anos não deveriam se preocupar com esse tipo de coisa. O acidente havia sido apenas uma fatalidade, não era como se ele fosse morrer a qualquer segundo. Pelo menos aparentemente não estava sentindo nada de anormal em seu corpo e esperava que o pai tivesse feito a revisão do carro.

Balançou a cabeça negativamente para afastar os pensamentos. Conhecendo como conhecia seu psicológico, se continuasse a filosofar sobre a morte de repente apareceria um milhão de sintomas imaginários fazendo-o entrar em pânico achando que tinha uma doença terminal.

Ergueu o queixo lentamente, fitando o pai ao lado do caixão de Frank para tentar mudar o foco de sua mente. Ele ainda falava algumas palavras enquanto deixava que as lágrimas sofridas rolassem por seu rosto arredondado; a mão firmemente apoiada sobre a madeira polida do caixão. Era muito difícil para Donald aceitar que o melhor amigo havia morrido. Várias vezes, na ida para o velório, tinha dito que se não tivesse insistido na viagem talvez eles não estivessem mortos, mas Gerard sabia que havia coisas que não podiam ser evitadas. E, ao contrário de Donna, entendia como era difícil perder alguém tão importante.

Da última vez que havia vindo em um velório, seu coração tinha se resumido a um amontoado de pedaços. Desde aquele dia Gerard se perguntava se valia à pena deixar-se envolver tão profundamente com as pessoas, afinal algum dia todos nós iremos partir e abandonar uns aos outros. Tudo não passava apenas de um circulo vicioso de perdas sem sentido. Perdas que faziam as pessoas nunca mais serem as mesmas. E tinha plena consciência disso, sentia um pedaço faltando todos os dias.

Fechou os olhos por alguns segundos, tentando controlar a tristeza que insistia em fazê-lo acessar as piores lembranças que tinha. Não era o momento para lembrar-se de sua própria dor, deveria permanecer forte para passar segurança ao pai.

Virou o rosto procurando algo que o tirasse da frente daquele poço sem fundo de desesperança e encontrou assim que a imagem de um garoto no início do corredor de paredes e azulejos brancos chamou sua atenção. Ele tinha um dos braços engessado, pontos fechando o profundo corte na bochecha direita, alguns arranhões espalhados pelo braço descoberto e uma mancha arroxeada no pescoço. Sua cabeça estava baixa; a franja comprida castanha escura ocultando um de seus olhos. Seu braço bom abraçava o corpo pequeno como se ele próprio tentasse se consolar.

Quando ele finalmente ergueu o rosto, seus olhares se encontraram. Gerard viu dor ali, muita dor. Ele parecia extremamente perdido e demonstrava que mesmo que estivesse inteiro haviam tirado um enorme pedaço de seu coração. Compartilhava a mesma dor que o maior, mesmo que por motivos diferentes. Aquele deveria ser Frank Jr, o filho de Linda e Frank.

Gerard mordeu o lábio inferior, sentindo uma intensa vontade de abraçá-lo mesmo que não o conhecesse. Seria uma atitude estranha e sabia que não podia simplesmente se aproximar dizendo que era o filho do melhor amigo de seu pai falecido. Tinha o visto apenas uma vez quando ele era um bebê e talvez o menor não quisesse aproximações. O que foi rapidamente confirmado assim que uma das senhoras chorosas tentou abraçá-lo e foi delicadamente afastada. Frank não queria que ninguém o tocasse.

O pequeno se aproximou dos caixões, trocando um olhar rápido com Donald. Sorriu fracamente, seus lábios rosados tremendo de leve, enquanto acariciava o vidro de cada um dos caixões; parecia perdido nas lembranças que tinha. Tentava se controlar para não chorar, mas a imagem dos pais mortos foi mais forte que seu autocontrole. Finalmente permitiu que sofridas lágrimas rolassem de seus profundos olhos esverdeados; as mãos tremulando. Sua baixa estatura e a forma com que se mostrava triste, mas ao mesmo tempo apático com a situação, fazia Gerard se sentir agoniado e com vontade de protegê-lo do mundo.

Mas se repreendeu rapidamente. Sequer o conhecia, como poderia simplesmente querer protegê-lo? Estava muito tocado com a situação pela qual o menor se encontrava, mas era exagero pensar daquela forma. E assim que notou que uma das senhoras contava piadas para tentar alegrar as irmãs, chegou à conclusão que definitivamente velórios não faziam bem às pessoas. Franziu a testa, fitando Michael em seguida. Este o olhou de volta, dando um pequeno sorriso. Tinha inveja de como ele parecia sempre tão calmo em relação a tudo. Se fosse assim talvez não precisasse gastar tanto dinheiro em cigarros.

Depois de algum tempo Donald tocou levemente o ombro de Frank, trocando algumas palavras com ele antes dos dois se voltarem para os Way, se aproximando.

- Frankie ficará conosco agora. – Donald disse; tentou parecer animado, mas falhou. – Quando estávamos no colegial, Frank e eu fizemos um pacto de que caso acontecesse algo conosco o outro deveria cuidar de sua família. – Houve uma pausa em que Donald fungou profundamente, limpando as lagrimas com as costas da mão. – Eu nunca pensei que isto seria necessário algum dia, mas faço questão de cumprir já que aconteceu. Você é muito bem-vindo, Frankie.

Frank balançou a cabeça positivamente, ainda mudo, e cumprimentou a todos com um fraco aceno, olhando novamente nos olhos do mais velho.

Gerard não sabia ao certo o quê, mas tinha certeza de que alguma coisa mudaria depois daquele dia. Temia desvendar o que se escondia por trás daqueles tristes olhos esverdeados, talvez não estivesse preparado para isso.

Notas finais
Poxa, fiquei muito feliz em ver comentários no Prólogo. DE VERDADE. Para quem já leu: obrigada por estar lendo de novo. E para queme stá começando agora: espero que gostem do fundo do meu coração. E me façam felizes, deixem seus comentários e. Nhac ♥