Love Story
4 Capítulo 3 - Reality
Frank encarou o teto da sala por incontáveis horas, que pareciam se arrastar cada vez mais demoradas como se os segundos equivalessem a dias inteiros. Havia pouca iluminação, pois todos estavam dormindo, mas mesmo assim não conseguia relaxar para finalmente entrar no mundo dos sonhos. Por mais que estivesse ansioso para dormir e descobrir que tudo isso não passava de um pesadelo fantasioso, Frank não conseguia sequer manter os olhos fechados. Era difícil encarar a escuridão e temer que as imagens voltassem com força total à sua mente. Fora pavoroso demais presenciar uma cena como aquela e sabia que se lembrasse seria muito pior.
Suspirou profundamente, mudando a posição em que estava deitado no sofá. Sentia falta de sua cama, por mais que o sofá fosse extremamente macio e confortável; faltava o calor acolhedor que só sentimos quando estamos em nossa própria casa. Por mais infantil que parecesse, Frank sentiria falta de esconder a cabeça em seu travesseiro e sentir o cheiro adocicado do amaciante que sua mãe usava para lavar roupas. Era incrível como ela conseguia fazer com que toda sua roupa de cama cheirasse a floral por mais que se passassem vários dias. Mas o cheiro era a menor das coisas que sentiria falta. A saudade de como ela sempre beijava sua bochecha lhe dizendo boa noite todas as noites e como sempre o cobria de madrugada, sufocava-o cada vez mais a cada minuto que se passava.
Escondeu o rosto contra a grande almofada que usava de travesseiro, tentando abafar o soluço alto que ameaçava escapar de sua garganta; grossas lágrimas escorrendo furiosamente por seu rosto. Queria seus pais de volta. Queria ter falado tanta coisa que, quando estavam vivos soavam tão estúpidas e insignificantes, mas que agora tinham o maior sentido do mundo. Sabia que Linda adoraria saber que ele só enrolava deitado entre os lençóis justamente para sentir o cheiro por mais tempo e sabia, também, que Frank ficaria orgulhoso de saber que mesmo que o filho não se interessasse por beisebol, assistia-o só para poder curtir a presença do pai.
Fungou; a dor dilacerante da perda em seu coração deixando-o ainda mais triste. Nunca mais sentiria o abraço dos dois, veria o sorriso acolhedor, nem as broncas desnecessárias sobre como ele sempre andava descalço pela casa. Sentia-se completamente sozinho, triste e sem as duas pessoas com quem sabia que podia contar para qualquer coisa. Por que isso tinha que ter acontecido justo com ele?! Aliás, por que só ele havia sobrevivido? Não seria mais justo ter ido junto com os pais?
Frank ouviu passos na escada e se encolheu mais contra a coberta macia, puxando-a para cobrir metade de seu rosto, mantendo só os olhos descobertos. Não queria que ninguém o visse naquele estado, principalmente Donald que estava tentando de todas as formas fazê-lo se sentir confortável e feliz. Fungou novamente, seu nariz entupido fazendo sua respiração parecer ruidosa; resmungou mentalmente, esperava que a pessoa que estivesse descendo não reparasse nisso.
Os passos cessaram. Frank esperou alguns minutos, em que novamente a casa foi entregue ao silêncio, para achar seguro liberar o soluço que estava sufocando-o preso em sua garganta, mas percebeu que foi uma má idéia assim que os passos novamente se fizeram presentes, vindo em sua direção.
- Frank? – chamou a voz de Gerard em um sussurro quase inaudível. O menor se encolheu, tentando limpar rapidamente as lágrimas com as costas da mão enquanto via a silhueta de Gerard se mover para mais perto. – Você está chorando?
Ele não respondeu, permanecendo calado e escondido entre o cobertor. Não queria demonstrar tanto sua fraqueza para uma pessoa que havia conhecido há apenas um dia e que Gerard o visse como um garoto frágil que não sabia lidar com a própria dor. O silêncio seria a melhor forma de fazê-lo se afastar.
- Certo. Eu estou na varanda. Não sei se você sabe como chegar ali, mas é pela porta dos fundos da cozinha. Se você quiser conversar ou apenas precisar de uma companhia silenciosa eu estarei lá.
Frank fitou a silhueta de Gerard novamente seguir para longe e permaneceu na mesma posição no sofá. Ele era um garoto diferente, já que não conhecia adolescentes daquela idade que eram tão preocupados em relação às pessoas que faziam parte de suas próprias vidas. Não o conhecia bem, mas sua primeira impressão fora de que Gerard tinha um coração enorme. Talvez fosse bom pelo menos ter alguma companhia naquela casa tão grande. Levantou-se, mais uma vez limpando as lágrimas que haviam caído por suas bochechas, e sentiu o chão gelado de pedra contra a sola de seus pés quentes; não se importou, não tinha mais ninguém ali para gritar com ele dizendo que pegaria um resfriado.
Era linda a paisagem na varanda da casa naquele horário da madrugada. Os Way moravam em um bairro de classe média-alta em Jersey, então as casas grandes e com belos jardins pareciam uma obra de arte em conjunto com a fraca luminosidade provida dos postes de luz. Os pequenos pontinhos brilhantes no céu preto como piche, a leve brisa da noite e o som longínquo de um grilo perdido em algum gramado lhe dava uma sensação de paz tão gostosa que era difícil não se sentir confortável ali.
Gerard estava displicentemente sentado em um dos bancos brancos que ficavam posicionados na parte coberta da varanda. Estava curvado sobre os joelhos, um dos cotovelos apoiados na coxa para que sua mão desse suporte à cabeça encostada. Entre o dedo indicador e o médio da mão livre, do outro braço, segurava o cigarro que liberava uma fumaça levemente prateada na escuridão. O rosto estava virado para a rua sem movimento, os olhos esverdeados perdidos em pensamentos. Os cabelos negros balançavam levemente a cada brisa mais forte, mas ele não parecia se incomodar com os fios esporádicos que caiam atrapalhando sua visão, não deveria estar realmente enxergando o que via.
Frank abraçou o próprio corpo, dando um sorriso fraco ao ver a camiseta puída e com alguns furos do Iron Maiden que ele vestia como pijama, conseguia ver nitidamente Gerard cantando Fear Of The Dark a plenos pulmões em seu quarto; ele realmente tinha a aparência de quem fazia parte de uma banda de rock.
- Está pensando no que, Bruce? – Frank disse. Não sabia ao certo o que dizer, mas queria pelo menos ter uma conversa amena para afastar as lembranças ruins. – Em algum hit para o próximo verão?
Ele virou o rosto, um sorriso torto aparecendo em seus lábios finos. Tragou o cigarro longamente, a fumaça novamente se perdendo no ar.
- Quem me dera, garoto do Beastie Boys, quem me dera.
Frank arqueou as sobrancelhas, parecendo extremamente surpreso.
- Como você sabe que eu gosto dos Beastie Boys?
- E você precisa dizer? – Gerard zombou, rindo um pouco. – Está escrito em sua testa.
O menor encarou-o. Um sorriso fraco, porém verdadeiro, despontando em seus lábios avermelhados. Pelos próximos minutos eles permaneceram em silêncio, apenas observando a rua sem movimento. Apesar de não se falarem, Frank concluiu que era um silêncio confortável.
- Michael pareceu maravilhado em dividir o quarto com você quando suas coisas chegarem. Confesso que fiquei até com um pouco de ciúmes, ele teria um ataque se fosse comigo.
Frank balançou os ombros de forma relaxada; o mesmo sorriso ainda povoando seus lábios rosados. Encostou as costas contra a pilastra, a cabeça levemente inclinada para que ele conseguisse ver o céu.
- Me desculpe se sou mais carismático que você.
- E é mesmo, não posso deixar de concordar. – Houve uma nova pausa, onde Gerard apagou o cigarro, apoiando as costas de forma desleixada contra o banco. – Devo admitir também que vou ter muito mais trabalho com dois irmãos mais novos.
Frank franziu a sobrancelha, por mais estranho que parecesse, não conseguia encaixar ‘Gerard’ e ‘irmão’ em uma mesma frase. Amigo sim, primo, mas irmão? Não. Era estranho, não soava natural. Gerard também pareceu perceber isso, mas achou que era apenas uma falta de costume chamar Frank, quem conhecia a apenas um dia, de irmão.
- Você costuma ficar acordado á essa hora? – o menor perguntou, pela primeira vez virando o rosto para encará-lo.
- Sim, tenho sérios problemas para dormir. – Gerard coçou os olhos, olhando para Frank de volta. Sorriu um pouco, matreiro. – Talvez seja por isso que tiro várias sonecas durante a aula.
Frank balançou a cabeça negativamente, não conseguindo não aumentar o sorriso que ainda exibia enquanto revirava os olhos. O sol começava a timidamente aparecer por entre as casas, o que significava que ele sentiria um sono irremediável o dia todo por não ter conseguido dormir durante a noite. E diferente de Gerard, era aplicado demais nos estudos para dormir durante a aula, ainda mais em uma escola nova.
- Acho que deveríamos entrar, Donna ficaria louca se nos visse de pijamas aqui fora.
x-x
Frank encarou a própria imagem no espelho e sentiu-se corar. Donna havia lhe avisado que pelo menos por hoje deveria usar o uniforme emprestado de um dos Way para que pudesse ir ao Colégio. Uma das regras inquebráveis era o uso do uniforme. A diretora sequer o aceitaria ali se chegasse de jeans e camiseta, então era melhor não começar com o pé esquerdo em sua primeira visita à Instituição. Eles comprariam o uniforme de seu tamanho certo no final da tarde, mas agora deveria se contentar com o uniforme de Michael.
O uniforme de Gerard ficara terrivelmente largo por ele ser muito mais alto e largo. Não que Gerard fosse gordo, mas as coxas bem torneadas do maior faziam com que Frank parecesse um rapper com suas calças e apesar de Michael também ser bastante alto era muito mais magrelo; o mais perto de seu tamanho que conseguira chegar tirando o fato de que a calça tinha ficado extremamente agarrada em suas coxas. Respirou fundo, arrumando o cabelo pela décima vez só naqueles cinco minutos em que havia parado na frente do espelho. Sabia que se fosse um desastre hoje, seria pelo nos próximos três anos de sua vida no ensino médio.
Michael entrou no quarto, soltando um pequeno ‘wow’ assim que o viu, fazendo Frank sentir-se corar com mais intensidade.
- Você está parecendo um astro punk assim, Frankie! – ele exclamou enquanto observava suas calças extremamente agarradas nas coxas do menor. Aproximou-se para arrumar sua gravata; Frank não tinha a menor noção de como fazer o nó de uma forma no mínimo decente. – As garotas vão cair em cima de você lá!
Garotas, Frank resmungou mentalmente. Será que os caras dessa cidade só pensam nisso?
- Vamos, então. Papai está nos esperando no carro. Gerard já foi porque a imbecil da namorada dele já ligou umas quinze vezes para lembrá-lo de que ele está atrasado para buscá-la. – Michael revirou os olhos, parecendo odiar a garota.
- Ela é tão chata assim? – Frank perguntou enquanto pegava o blazer azul marinho sobre a cama, colocando-o por cima da camisa branca.
- Chata? Chata seria algo educado de se dizer. Você irá conhecê-la, depois me diga o que acha.
Os dois desceram juntos a escada, acenando rapidamente para Donna assim que passaram pela cozinha em direção à garagem, onde Donald estava tranquilamente sentado dentro de sua picape, lendo o jornal da manhã. Quando os dois se aproximaram, o homem dobrou o jornal cuidadosamente colocando-o dentro de sua pasta.
- Bom dia, garotos. – disse animado enquanto ligava o carro, seguindo pela avenida.
Frank encostou a cabeça no vidro, mal prestando atenção nas noticias que o animado homem da BBC dizia durante o caminho. Pelo que sabia o Colégio não era tão longe assim da casa, mas Donald não deixava que Michael fosse sozinho a escola, já que Gerard sempre saia mais cedo de carro para buscar a namorada. Talvez pudesse convencê-lo a permitir já que agora poderia fazer companhia ao outro, seria muito mais relaxante curtir a paisagem do caminho indo a pé.
Assim que avistou o prédio da escola sentiu seu estômago revirar. Era uma típica escola particular, onde havia cheerleaders e os valentões do time de futebol para importuná-lo. Tinha certeza que nem se fosse a pessoa mais simpática do universo conseguiria cair na graça deles, então o melhor que poderia fazer era tentar ser o mais invisível possível.
Desceu do carro, evitando olhar para os lados e sentiu o aperto de Michael em seu ombro antes dele sair correndo em direção a algumas pessoas que o esperavam. Suspirou resignado, sentindo falta da pequena escola pública em que estudava em Chicago e de Bob, seu melhor amigo. Se o loiro estivesse ali com certeza estaria mais confiante em saber que teria alguém para apoiá-lo quando fosse motivo de alguma brincadeirinha inoportuna.
Andou com Donald para a entrada oposta ao que os alunos iam, a da diretoria. Subiram as escadarias de pedra e adentraram no grande saguão. Tudo ali era enorme e só fazia com que o estômago de Frank desse mais e mais voltas desconfortáveis. Enquanto Donald entrava na sala da Diretora Minerva, o que fez com que Frank arregalasse os olhos e momentaneamente se sentisse dentro de um dos livros de Harry Potter, o menor sentou-se nos bancos de madeira que ficavam no corredor ao lado da porta. Ali estava bem silencioso, já que o sinal havia batido há dez minutos e todos já deveriam estar em suas salas.
Ótimo, resmungou Frank em pensamento, desabotoando o blazer azul marinho, pois sentia calor. Colocou-o de lado, arregaçando as mangas da camisa branca até os cotovelos. Chegaria atrasado à sua primeira aula em uma escola enorme e nova, chamar mais atenção que isso seria impossível. Só se ele resolvesse contar a seus novos colegas, quando o fizessem falar uma pequena biografia sobre si mesmo em frente a uma sala lotada de adolescentes loucos para iniciar o bulling, que era gay.
Virou o rosto rapidamente para o início do corredor assim que ouviu uma risada alta e escandalosa. Vinha de um garoto um pouco mais alto que ele que vestia uma bermuda bege e meias brancas até as canelas. O blazer azul marinho estava aberto, a gravata desfeita e os cabelos negros um tanto quanto ondulados caiam pelos ombros curvados; ele parecia se divertir com a expressão aborrecida da Inspetora que o arrastava pelo braço.
- Você se acha muito engraçado não é, Senhor McCracken? – ela dizia enfurecida, virando o rosto para trás. – Senhor Molko e Senhor Good! Voltem aqui agora!
Logo apareceram mais dois garotos, um pequeno e esguio extremamente pálido e andrógeno que usava a gravata amarrada no pescoço e um alto, forte e com uma expressão mal humorada, mesmo que sorrisse.
Assim que eles chegaram próximos a Frank, encararam-no fixamente. O menor sentindo-se levemente amedrontado com o súbito olhar de três pessoas desconhecidas.
- Posso saber o que o senhor faz ai parado a esta hora? – disse a Inspetora irritada para Frank. Este arregalou os olhos encarando-a surpreso.
- Er, estou esperando que a diretora converse com meu tutor para que ela me autorize a assistir às aulas, sou novo por aqui.
Ela pareceu considerar a idéia e fez com que os três garotos se sentassem nos bancos restantes no corredor.
- Sei, vou averiguar isso e saibam que se saírem daí estarão seriamente encrencados, senhores.
Houve uma pausa em que ela saiu marchando pelo corredor, os três ainda encarando-o.
- Quer dizer então que você é novo? – disse o menor dos três, um sorriso encantador povoando seus lábios bem feitos. – Bem vindo a este inferno, cherie.
- Obrigado. – respondeu Frank sem graça.
- Meu nome é Brian Molko. Estes são meus amigos Robert McCracken e Matthew Good.
- Prazer em conhecê-los, meu nome é Frank Iero. – o menor sorriu, sendo correspondido pelos outros três.
Não houve muito tempo para que conversassem já que segundos depois Donald saiu pela porta da sala da diretora, sorrindo para Frank.
- Você está liberado, Frankie. Já pode assistir às aulas. Espero que se enturme logo aqui. – Apertou o ombro do menor rapidamente, desviando o olhar para o Pager que não parava de apitar. — Não posso ficar mais senão perco minha reunião, tenha um bom dia!
Frank não conseguiu respondê-lo já que Donald, apressado, já havia saído pelo saguão. Então ficou ali, parado e sem realmente saber o que fazer.
- Se você quiser esperar nossa bronca podemos lhe mostrar o colégio. – disse Robert, parecendo ler seus pensamentos. Sorriu; os olhos azuis brilhando com a possibilidade de mostrar o colégio a um aluno com possível potencial para ajudar ele, Brian, Matthew e Alicia a tornar a vida dos Inspetores ainda mais corrida. – Será um prazer incluí-lo em nosso grupo excluído.
O menor sorriu, um pouco mais aliviado por saber que não era o único estranho por ali.
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