Love Story
3 Capítulo 2 - Close
Gerard não conseguiu prender o sorriso assim que se lembrou da cara horrorizada de sua mãe ao ver o enorme cachorro caramelo na porta da casa dos Way. Primeiro ela achou que era algum terrível engano, mas quando soube que a Golden chamada Cindy era o bichinho de estimação de Frank, quase teve um infarto. A empregada trouxe, no mínimo, três copos de água com açúcar e mesmo assim Donna ainda não conseguia recuperar o ritmo normal de sua respiração. Ela tinha pavor de pêlos e achava que a casa viraria de cabeça para baixo com um animal a solta ali.
E viraria mesmo.
Após o enterro, haviam ido para casa deixar a pequena mala de Frank que estava ainda mais abalado do que a primeira vez em que Gerard o vira no velório. Estava triste, abatido e quase não tocara em sua comida na hora do almoço. No período da tarde, o menor apenas ficara sentado no quintal fazendo companhia a seu bichinho de estimação perdido em pensamentos. Por mais que Gerard e Michael quisessem se aproximar, sabiam que tinham que respeitar o silêncio e o recolhimento do garoto. Afinal deveria ser difícil perder os pais em um acidente e ser o único a sobreviver.
Por mais que tivesse tido pouco contato com Linda e Frank Iero, ver seus caixões sendo engolidos pelo amontoado de terra batida tinha o deixado agoniado e se questionando seriamente se deveria ter presenciado a cena. Se aquela imagem triste ficara presa em sua mente pelo resto do dia e o tocado tão fundo, não queria nem pensar no que Frank sentia no momento. Suspirou, balançando levemente a cabeça. Entendia a dor que o garoto sentia porque tinha aprendido a duras penas a seguir em frente e, estranhamente, sentia vontade de ajudá-lo a superar de forma mais amena.
Fechou os olhos por um breve momento, a brisa leve da noite batendo contra seu rosto; o cheiro do asfalto recém molhado pela chuva e o barulho das risadas do irmão mais novo deixando-o muito mais tranqüilo. Donald percebendo o quão profundamente triste Frank estava havia pedido para que ele e Michael levassem-no para dar uma volta com Cindy pelo parque próximo da onde moravam. Queria que o garoto mais novo esquecesse um pouco da tragédia e soubesse que teria uma nova família agora.
Quando novamente abriu os olhos riu de leve ao ver Michael correndo como um louco com Cindy um pouco mais a frente. Na verdade, correndo não, sendo arrastado por ela. Ele ria alto e parecia se divertir bastante com os latidos e as abanadas simpáticas de rabo que ela dava para ele cada vez que fazia uma gracinha com a inseparável bolinha vermelha na boca. Olhou de esguelha para Frank a seu lado e pela primeira vez o viu sorrir, mesmo que fosse um sorriso minúsculo e fraco. Ali, mesmo na penumbra, a única luz da rua provida dos postes de iluminação, Gerard conseguiu notar o quão avermelhados eram aqueles lábios. E não tinha reparado, no velório, que ele tinha dois [i]piercings[/i], um no nariz e um na boca.
- Doeu para fazer? – Gerard perguntou, um tanto quanto horrorizado em pensar no tamanho da agulha necessária para fazer aqueles furos. Era estranho começar a primeira conversa com alguém perguntando se doeu fazer um [i]piercing[/i], mas era melhor do que nada, precisava animá-lo.
- No nariz dói mais do que na boca. – Frank respondeu com a voz rouca. Gerard sentiu um arrepio passar por seu corpo e instintivamente abraçou o corpo achando que ficaria gripado. – A cicatrização dói um pouco, mas eu gosto.
- Morro de medo de agulhas. – Gerard fez uma careta, continuando a andar e, aproveitando que Michael e Cindy estavam correndo em círculos, aproximou-se dos balanços livres para poder se sentar. – Nunca faria um.
Frank balançou a cabeça negativamente, um sorriso fraco ainda povoando seus lábios rosados.
- Eu ainda pretendo fechar o braço com tatuagens. – Com a careta aterrorizada de Gerard, Frank aumentou o sorriso, sentando-se no balanço para apoiar a mão boa na corrente lateral. – Não é tão doído assim, Gerard.
- É sim. – o outro retrucou, sentindo um nó no estomago só de pensar nas agulhas. Resolveu mudar o rumo da conversa, pois estava ficando seriamente enjoado. Voltou a olhar para os lábios do menor, parecendo inconformado por serem tão avermelhados. – Eu vou te fazer uma pergunta um tanto quanto estranha, mas... O que você passa nos lábios?
Frank pareceu surpreso por um tempo, olhando Gerard com os olhos levemente arregalados.
- Er, não passo nada. Por quê?
Gerard pareceu um pouco sem graça e se inclinou sobre o balanço livre, apoiando as mãos sobre as coxas.
– Desculpe, é que seus lábios são realmente rosados. Nunca tinha visto igual.
Os dois ficaram em silêncio, Frank sentindo as bochechas corarem fortemente, agradecendo aos céus pelas luzes da rua estarem fracas, de modo que Gerard não veria a vermelhidão se espalhando por seu rosto. Impressão sua ou ele estava reparando em seus lábios?
Michael veio correndo em direção aos dois, Cindy em seu encalço, e assim que estava próximo o suficiente apoiou as mãos nos joelhos com a respiração acelerada. Gerard o fitou preocupado, esquecendo momentaneamente seu constrangimento, inclinando a cabeça de leve para poder conseguir olhar o rosto do mais novo.
- Você está bem, Mikes? Trouxe a bombinha?
- Trouxe sim, Ger. – Michael ergueu o rosto, dando um pequeno sorriso de agradecimento pela preocupação do irmão. – Não fica preocupado, adoro correr ao ar livre, me sinto muito melhor para respirar.
- Tome cuidado, magrelo, não quero levar ninguém ao hospital hoje.
O mais novo deu outro sorriso, voltando a correr novamente. Gerard virou o rosto para Frank e este parecia novamente perdido em seus pensamentos tristes. Xingou-se mentalmente, não deveria ter falado sobre hospitais perto dele, até porque o menor deveria ter ficado a noite toda em um, esperando a liberação dos corpos dos pais. Suspirou, realmente deveria ter mais tato em situações como essa.
Entreabriu os lábios novamente para tentar puxar algum assunto, mas Frank falou primeiro.
- Eu sempre quis ter um irmão assim, deve ser legal ter alguém para conversar com você o tempo todo. Mas antes eu não me preocupava muito com isso, pois... Eu tinha meus pais. – Ele parou abruptamente de falar, os olhos amendoados enchendo-se de lágrimas. – Desculpe-me.
- Não precisa se desculpar por nada, Frank. – Gerard respondeu prontamente, olhando-o mesmo que o menor não o encarasse de volta. Olhava para o chão tentando esconder o rosto, mas Gerard conseguiu ver a lágrima solitária rolar pelas bochechas amorenadas, fazendo-o ganhar coragem para falar. Não conseguia ver alguém tão triste sem fazer nada. – Quando meu pai lhe disse que você era muito bem-vindo, ele estava realmente falando a verdade. Sei que não seremos como sua família, mas eu e Michael nos esforçaremos para que você se sinta parte de uma de novo.
Frank ergueu o rosto, rapidamente virando-o para Gerard, os dois se encararam; o mais velho notando que os olhos esverdeados finalmente estavam ganhando algum brilho. O pequeno sorriu, mesmo que lágrimas ainda rolassem por seu rosto não se importava mais se Gerard as visse, e tentou se levantar para abraçá-lo, mas o aparelho no bolso do outro o assustou um pouco assim que começou a tocar.
Gerard se levantou, atendendo o celular ao dar as costas à figura do menor.
- Oi, Liz. – disse um tanto quanto surpreso. – Desculpa não poder ter ido te ver hoje, aconteceram uns imprevistos em casa.
Frank desviou o olhar para a paisagem da praça, não queria parecer inconveniente ouvindo a conversa de Gerard. Suspirou, novamente se perdendo nos próprios pensamentos. Por mais que soubesse que não podia ficar se martirizando pela morte dos pais, não conseguia parar de se sentir culpado por estar vivo e eles não. Sem falar a saudade absurda que sentia dos dois no momento. Sabia que Linda e Frank ficariam decepcionados se ficasse choramingando pelos cantos o tempo todo, mas era difícil continuar vivendo sabendo que nunca mais os veria, pois não havia como mudar o que tinha acontecido.
Inclinou a cabeça para trás, olhando o céu escuro com pequenos pontinhos brilhantes. Queria que eles soubessem, aonde quer que estivessem, que ele os amava. E que faria tudo diferente se pudesse trazê-los de volta.
- Me desculpe, Frank, minha namorada estava um pouco histérica porque eu a deixei me esperando hoje.
Frank virou a cabeça rapidamente, encarando Gerard com a sobrancelha arqueada. Sentiu-se confuso, esquecendo momentaneamente a tristeza que o assombrava. Gerard tinha uma namorada?
- Você tem uma namorada? – disse sem perceber o que pensava. Mas assim que o fez, esperou que a pergunta não tivesse soado tão surpresa quanto ele estava.
- Sim. – Gerard parecia não ter percebido e sorriu um pouco, balançando-se de leve. – O nome dela é Eliza, nós namoramos há três anos. Você também tem uma?
- Não. – Frank mordeu a parte interna da boca, um tanto quanto pensativo sobre se deveria falar que não era bem de garotas que ele gostava. – As garotas da minha cidade não eram muito legais.
Decidiu que não, ainda não sabia qual era a opinião de Gerard sobre o assunto e não queria, no momento, encarar outro problema, não suportaria.
- Entendo. – Gerard respondeu com uma risada. Frank sorriu, porque ela era muito diferente das convencionais, lhe lembrava levemente a do Pateta. – As daqui são mais acessíveis, se você me entende.
Frank segurou a cara de nojo que faria, caso algum conhecido lhe dissesse isso, e fingiu um sorriso, mostrando os dentes.
- Que bom né. – respondeu querendo mudar o rumo da conversa, a última coisa que queria era ouvir sobre as garotas fáceis de Jersey.
Michael voltou a correr na direção dos dois, mas parou na metade do caminho, pois tropeçou em uma das pedras o que fez com que ele caísse contra o chão. Gerard levantou-se rapidamente com a expressão preocupada, mas assim que ouviu a risada do irmão porque Cindy lambia-lhe o rosto, respirou mais aliviado. Deu uma leve corrida até onde o irmão estava ajudando-o a se levantar. Em seguida afagou carinhosamente as orelhas da Golden, que latiu receptiva ao carinho.
Essa Cindy é uma dada mesmo, pensou Frank, estreitando os olhos, mas ele sorria. Ela parecia extremamente à vontade com os irmãos Way, como se os conhecesse há tempos. Balançou-se um pouco, até iria lá com eles se não estivesse tão cansado, mas sentia-se confortável apenas observando, era muito mais bonito olhar a cena de longe.
Os dois sorriam, se divertindo, e Frank novamente mordeu a parte interna da boca ao observar Gerard, já que não tinha tido muito tempo para fazer isso no final das contas. Ele não era muito alto, mas considerando a própria falta de altura, era muito maior que ele. Tinha costas largas, era extremamente pálido e belos olhos verdes. Os cabelos negros estavam um tanto quanto compridos e caiam graciosamente sobre os olhos dele. Frank ergueu a sobrancelha, apertando com mais força a corrente que segurava, Gerard era muito bonito. Mas não conseguia entender como namorava há três anos uma garota, será que tinha tido uma impressão errada sobre ele?
Balançou os ombros. Não iria ficar se questionando sobre a sexualidade de uma pessoa que havia acabado de conhecer. Tudo o que queria, e precisava, era descansar. Se dormisse talvez ao acordar visse que toda essa situação maluca e triste não passava de um sonho. Mas temia que tudo continuasse na mesma. E sabia que essa era a dura realidade.
Quando os dois voltaram, suados e felizes, Frank observou Cindy pular em seus joelhos, lambendo-lhe a bochecha. Sorriu de leve.
- Lembrou de mim só agora né, mocinha? – disse fingindo-se magoado, a Golden latindo em protesto. – Tudo bem, tudo bem. Eles estão inteiros, podem correr com você, fofinha, eu sei que eu serei sempre o seu preferido.
Os Way reviraram os olhos, Michael segurando a coleira de Cindy para que pudesse voltar para casa. Frank levantou-se, voltando a caminhar lado a lado com Gerard na rua, olhou-o de esguelha.
Por mais que tivesse conhecido Gerard aquele dia, tinha alguma coisa nele que lhe dava uma sensação estranha. Não sabia ao certo o que era, mas tinha certeza de que era bom. Sentia-se muito mais tranqüilo quando estava a seu lado, mesmo que em silêncio.
Olhou novamente para o céu estrelado. Não acreditava em destino, mas algo lhe dizia que toda aquela situação não havia acontecido por acaso.
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