Love Portal
8 Capítulo 8 - Return to me, my love.
Notas iniciais
O título saiu assim basicamente porque eu tava com "Mama" na cabeça '-'
Boa leitura :)
— Ela vai tentar matar a gente o tempo todo, não vai? — Frank perguntou, claramente retórico, quando saíamos do elevador. — Quer dizer, não vai querer que passemos.
Suspirei. Eu queria tanto poder falar com ele. Se bem que, pensando bem, eu não sei o que falaria. Talvez eu acabasse quieto de qualquer jeito.
GLaDOS não disse nada enquanto passamos por esse teste. Era fácil, Frank teria entendido rapidamente se eu já não soubesse e fizesse tudo primeiro, para depois ele me imitar. Achei que tudo daria certo nessa câmara — até que chegou o final.
Era bem simples o que deveria ter acontecido. Um cubo cairia daqueles aparelhos-que-soltam-cubos, nós o colocaríamos no botão para abrir a porta e pronto. Só que o cubo não caiu.
— Como você espera que a gente termine se não fizer sua parte? — Frank falou, alto e acusatório.
— Vocês não precisam da minha parte — GLaDOS retrucou. — Vocês têm um ao outro.
Eu e Frank nos entreolhamos, com certeza pensando a mesma coisa: “Temos um ao outro?”. Sorrimos, desdenhosos, até que percebemos que o teor possivelmente romântico da frase não deveria ter existido. Quem pensou no romantismo fomos só nós.
Desviamos o olhar e nos concentramos no teste de novo. Não tinha jeito de sair se o botão não fosse pressionado. Mas como fazer isso sem nenhum cubo?
Repetimos todo o percurso, da entrada até a saída, procurando algo que pudesse ser colocado no botão, mas não havia nada. Nem mesmo nossas armas eram pesadas o bastante para mantê-lo pressionado.
Frank se recostou em uma parede e bufou.
— Estou de saco cheio disso.
Lancei-lhe um olhar que deveria dizer “eu também”, e acho que ele entendeu.
— Talvez a gente possa ficar aqui pra sempre. Quer dizer, sei que vamos morrer de fome e tudo, mas e daí?
Dei uma risadinha.
— Já que não se importa em ficar aí para sempre — GLaDOS se intrometeu. —, você já deveria ter entendido qual a solução desse teste, Frank Iero.
Ele abriu a boca para responder, mas então pareceu se dar conta de algo. Olhou para o botão, para a porta e então, lentamente, para mim. Ele ponderou por alguns segundos e, subitamente, foi até o botão, parando sobre ele.
— Resolvido — ele anunciou, com um sorriso nada convincente.
Eu ainda não estava entendendo. Certo, ele abriu a porta, mas se ele saísse de lá a porta fecharia de novo. Balancei a cabeça negativamente, com a testa franzida.
— Vai, Gerard — ele afirmou, categórico. — A porta está aberta.
Eu o fitei por um segundo antes de compreender. Então balancei a cabeça com mais veemência. Não, não. Sem chance.
— Ou você fica, ou eu — ele continuou. — Então que seja eu.
Fui para o lado dele e pisei no botão. Fiz um gesto para que ele fosse para a saída.
— Não. Você vai, Gerard. Eu não vou conseguir te deixar aqui.
Joguei os braços para cima, exasperado. Ele acha que eu conseguiria fazer isso com ele? Idiota.
— Você vai sobreviver — ele sorriu de novo, um pouco irônico, talvez.
Revirei os olhos e o empurrei um pouco para o lado. A porta continuava aberta nos esperando, mas nem eu nem ele nos movemos. Estávamos dividindo o espaço sobre o botão... e estávamos bem próximos. Mas eu não daria o braço a torcer. Ele realmente achou que eu iria deixá-lo para trás assim, sem mais nem menos?
Bem... é o que eu deveria ter feito. Minha vida deveria vir em primeiro lugar...
Mas eu não estou com ânimo para discutir com minha consciência. Eu não sairia dali e pronto.
Frank estava com os braços cruzados, o ombro tocando o meu, parecendo decidido a também não se mexer. Nossas armas estavam penduradas em nossas mãos, esquecidas. Permanecemos assim por alguns minutos, sem trocar palavra.
— É realmente emocionante — a voz de GLaDOS nos sobressaltou. — que vocês estejam dispostos a passar o resto de suas vidas no mesmo lugar só para continuarem juntos.
Senti meu rosto esquentar e me recusei a olhar para Frank.
— Nós... só... — Frank começou, baixo, mas logo aumentou o tom. — Nós temos corações, só isso. Não conseguimos deixar um amigo pra trás. É isso o que humanos fazem.
Seguiu-se um momento de silêncio. Talvez Frank tenha ferido os sentimentos — sentimentos? — da robô, falando em um tom de superioridade que até me surpreendeu. Mas eu não estava nem aí com isso. Amigo? Ele me considerava um amigo?
— Tem certeza? — ela perguntou, em um falso tom animado como era de costume. — Segundo meus dados, humanos matam, roubam, estupram, mentem... e olhem só! Comem uns aos outros quando a fome é muito grande. Talvez seja interessante ver esse... hmm.... espetáculo da natureza. Não pode demorar tanto assim para que vocês fiquem com fome, não é? E de qualquer jeito, eu tenho todo o tempo do mundo.
Finalmente olhei para Frank, assustado. Ela não estava brincando. Ela talvez fosse realmente paciente o bastante para esperar até que ficássemos loucos lá dentro. Mas é exatamente por isso que eu não poderia deixar Frank lá! Não, de jeito nenhum.
— Sabe... — Frank murmurou, olhando para mim. Deus, estávamos perto demais. Não precisávamos estar ainda os dois sobre o botão, mas eu poderia muito bem fingir que não pensara nisso. — Ela está certa, nós vamos acabar morrendo se ficarmos aqui. Ok, talvez se não ficarmos também, mas pelo menos poderíamos dizer que tentamos, né?
Assenti, devagar, esforçando-me para me concentrar apenas no que ele dizia.
— Então, Gerard... Saí daqui e vai pra merda daquela porta logo.
Bufei e fiquei o mais imóvel possível. Nem eu sabia que podia ser tão teimoso, mas eu era. Neguei, com um pequeno sorriso de escárnio, e Frank suspirou irritado.
— Que droga, Gerard! Eu já disse que vou ficar, por que você não pode fazer o que eu quero uma vez na vida e...?
Ele parou. Eu franzi o cenho, confuso, e ele pareceu um pouco desnorteado.
— E-eu... desculpa — ele sussurrou, finalmente se afastando, para meu desagrado. — Não sei da onde isso veio...
— Eu sei — GLaDOS anunciou. — E ficarei feliz em contar para aquele que terminar o teste, como prometido.
Ignorei-a. Ainda pensava no pequeno surto de Frank. Aquilo soava como uma briga repetida, algo que já fora dito inúmeras vezes antes. Tive uma sensação desagradável ao pensar de novo em nossa relação passada. Era claro que nos conhecíamos, mas de que forma? Talvez não tenha sido como amigos. Talvez tivéssemos nos magoado. Talvez ele tenha sido um inimigo. E se ele se lembrasse de repente? Não, não... só o pensamento de tê-lo me odiando me deu calafrios. Minha única companhia verdadeira nesse lugar...
Mas, apesar disso, eu ainda queria descobrir o que nós fomos. E seja lá o que tenha sido, deveríamos superar e continuar focados no presente. Eu só esperava que Frank pensasse do mesmo jeito.
Através de portais, fui para frente da porta de saída. Frank já estava sobre o botão, um pouco distante. Ele parecia ansioso, esperando que eu passasse logo pela porta. Eu tinha certeza que ele a fecharia assim que eu fizesse isso, para não me dar tempo de mudar de ideia. Eu não tinha nenhuma intenção de seguir seu plano; mas uma rápida olhada para o outro lado da porta me fez perceber algo, e eu me senti incrivelmente burro por um momento.
A parede! A parede ali, logo antes do elevador, era própria para portais. Frank poderia sair também, não precisava ficar preso lá dentro para sempre.
Sorrindo, atravessei a porta e a ouvi se fechando atrás de mim. Perguntei-me o que Frank estaria achando de eu tê-lo “realmente abandonado”, e decidi que não queria que isso durasse. Criei um portal ao meu lado e saí na câmara de teste novamente, caminhando até chegar no ponto onde Frank estava e de onde eu acabara de sair.
Frank estava olhando para a porta por onde eu acabara de passar. Sua expressão acabou comigo. Estava desolado. Não com raiva ou arrependimento; era só tristeza, uma tristeza profunda de quem acaba de perceber que algo ruim e inevitável acabou de acontecer.
Eu não podia gritar, mas acenei com os braços para ele me ver logo. Não tive como não sorrir quando ele o fez; seu rosto se iluminou instantaneamente. Só agora eu percebi como, naquele momento de tristeza, ele parecera velho, pois agora estava com toda sua vitalidade juvenil restaurada.
— Gerard! Você... Ah, entendi, tem como jogar portais lá dentro!
Assenti, feliz, e esperei que ele chegasse até mim para voltarmos para a saída, acabando em frente ao elevador.
— Nossa, eu achei que nunca mais ia te... — ele hesitou por um segundo e acrescentou rapidamente: — Que nunca mais ia sair de lá!
Continuei sorrindo, orgulhoso de mim mesmo e um pouco curioso sobre o que Frank teria falado.
— Muito bem — GLaDOS disse, apesar de não estar parecendo satisfeita com nossa vitória. — Ao mostrarem que a lógica pode se sobrepôr a sentimentos afetivos, vocês me dão uma nova fé na humanidade.
Ela parou por alguns instantes.
— Isso foi uma piada. Haha. — eu e Frank reviramos os olhos. — Por favor entrem no elevador.
Entramos, ainda empolgados com nosso sucesso. A porta se fechou.
— Vamos agora treinar outra área de seus pequenos cérebros antes do próximo teste. O lobo temporal.
Pequenos? Filha da...
— É onde fica a memória, certo? — Frank perguntou, sem qualquer timidez.
— Exato. Eu estava bem indecisa sobre qual de vocês deveria falar primeiro. Então decidi que não importa, já que os dois vão morrer de qualquer jeito.
— Nós não... — Frank tentou começar, mas GLaDOS o cortou.
— Eu estava brincando. Achei que humor fosse algo propriamente humano. Sério, você deveriam sorrir mais. Até porque, um dia nós vamos olhar para tudo isso e rir, e rir, e rir.
Wow. Que animação, hein, GLaDOS?
Frank abriu a boca, mas eu o empurrei de leve e o lancei um olhar severo. Eu não queria que GLaDOS continuasse com uma discussão estúpida e potencialmente infinita.
— Até lá — ela prosseguiu. —, temos mais o que discutir. Como por exemplo as suas ambições musicais. As quais, aliás, vocês nunca mais conseguirão alcançar, é claro. Afinal, fazer testes é muito mais divertido do que produzir barulhos ensurdecedores com aqueles instrumentos de cordas ridículos que vocês veneram...
— Que ambições? — Frank interrompeu, para meu alívio.
— As suas. Consta aqui que vocês, junto com mais dois de sua espécie, formavam um grupo musical. Ou tentavam formar. Vieram até a Aperture Science pela promessa de sessenta dólares para cada um ao fim dos testes. Imagino que usariam o dinheiro em sua música.
Eu cutuquei Frank. Ele olhou para mim e leu meus lábios quando eu perguntava “quem?”.
— Quem mais estava na banda com a gente? — ele perguntou, entendendo exatamente o que eu queria dizer. Isso era muito legal, devo admitir.
A voz de GLaDOS tomou aquele tom de texto decorado.
— Raymond Toro Ortiz. Michael James Way.
Frank arregalou os olhos.
— Eu... eu lembro deles... quer dizer, mais ou menos, eu... — ele olhou para mim, assustado, e eu assenti, triste, mostrando que eu também sentia o mesmo e o entendia.
— Eles não tiveram tanta sorte quanto vocês — GLaDOS continuou, inflexível. — Raymond Toro escorregou na câmara de teste 11. Aquela com todo aquele líquido que pode matar, vocês sabem. Michael aguentou por mais tempo, mas subestimou os andróides militares no teste 16. Tenho a impressão de que os achou muito fofos para serem perigosos.
Meu estômago embolou. Deixei a arma cair no chão e Frank olhou para mim.
— Tudo bem? Que foi... Gee...? — eu senti minha pressão cair e imaginei o quanto ficara pálido.
Michael... Mikey. Eu já imaginara o que aqueles carimbos de falha significavam, mas ouvir a informação de verdade... não, não...
— Gerard, o que foi? — Frank também abandonara sua arma e tinha as mãos em meus ombros, olhando nos meus olhos. — Você tá se sentindo mal, não é? Eu sinto também, é horrível, mas você tem que aguentar...
Pisquei algumas vezes para me livrar do atordoamento. Murmurei “irmão” e Frank leu meus lábios novamente. Franziu a testa por um instante e então estremeceu.
— Ah, não.. Mikey... Ray!
Ele se afastou, e dessa vez eu tive que segurá-lo. Mal percebi que o elevador começara a subir. Frank se apoiou na porta, o olhar perdido. Eu sabia o que estava acontecendo com ele; estava se lembrando, assim como eu. Coisas aleatórias vinham à minha mente. Uma criança de óculos em um quarto que eu reconheci ser meu, e eu brigando com ela, apesar de não estar realmente com raiva. Um jovem cabeludo com uma guitarra nas mãos, tocando alegremente junto à um outro garoto baixinho e tatuado. A criança, já crescida, usando meu violão para tocar as notas do baixo de uma música...
Levantei a mão e passei pelos cabelos de Frank, colocando alguns fios atrás de sua orelha e atraindo sua atenção para a realidade. Seus olhos marejaram subitamente, e eu empurrei sua cabeça para o meu ombro, sentindo suas lágrimas me molharem e as minhas pingarem em sua roupa.
O elevador parou, mas eu mal o senti. Estava embrenhado em duas coisas absolutamente diferentes, mas que me dominavam mutuamente. Uma dor insuportável... e uma felicidade pacífica. Aquele abraço estava acontecendo por um péssimo motivo. Mas estava acontecendo. Eu não podia entender porque era tão bom, e não estava dando a mínima.
Frank se afastou e limpou o rosto com as costas da mão. Eu penteei seus cabelos de novo, com os dedos, sentindo sua maciez apesar de estarem sujos. Sorri amigavelmente para ele e ele me retribuiu, sem dizer nada. Minhas mãos ainda estavam contornando seu rosto, e pela primeira vez eu percebi como era eu quem parecia estar no comando da situação. Eu que o estava “prendendo” contra o elevador, eu o mais alto, talvez o mais forte, e decididamente o mais incontrolável. Não poderia ser tão ruim se eu me inclinasse um pouco para frente e...
Merda.
Segurei Frank bem a tempo para que ele não caísse de bunda no chão. Porque, como eu tinha me esquecido, era GLaDOS quem estava no comando, não eu, e ela acabara de abrir a porta do elevador, sem aviso.
— Podem prosseguir com o teste — afirmou, sem qualquer alteração na voz, o que, de alguma forma, me irritou ainda mais.
Eu soltei Frank, que xingava baixo, e o deixei ir à minha frente, um sem olhar para o outro, as armas já em mãos. Já era a segunda vez que ficávamos envergonhados por um momento como aquele. E eu pressentia que não seria o último.
Mas vamos lá, então. Teste 13. Viva.
Notas finais
Ahn, eu sei que vocês estão me odiando pelo Mikey e o Ray -q Vou pensar em alguma fic futura em que um deles seja o principal, pra compensar, tá? -q
Beijo -q
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