Era madrugada quando senti um par de pequenas mãos me empurrando para me fazer acordar. Abri os olhos, liguei a luminária no criado ao lado e me deparei com uma pequena figura ruiva e com os cabelos bagunçados ajoelhada na cama ao meu lado. Uma das mãozinhas em mim e a outra segurando um ursinho de pelúcia.

– Aidan? O que está fazendo acordado?

– Tive um pesadelo. – ele respondeu. – Posso dormir aqui?

– Claro, querido. Venha aqui.

Ele chegou para o lado e eu levantei as cobertas para que ele pudesse se aconchegar junto a mim. Olhei para o outro lado da cama que estava vazio e revirei os olhos. Eu já devia imaginar. Desliguei a luminária e ajeitei meu travesseiro. Aidan estava bem encostado em mim, os braços apertando fortemente o ursinho. Sorri, dei um beijo em sua testa e fechei os olhos novamente.

Poucos minutos se passaram quando senti Aidan me cutucando de novo.

– O que foi, querido? – perguntei ligando a luminária.

– Não consigo dormir.

– Hum. Que tal isso: nós vamos até a cozinha e eu preparo para você um delicioso chocolate quente. Sei uma receita especial com um ingrediente secreto que vai ajudar você a dormir e esquecer o pesadelo. Tudo bem?

Ele balançou a cabeça concordando.

– Então vamos.

Desci da cama e calcei meus chinelos, depois ajudei Aidan a calçar suas pantufas do Scooby-Doo. Segurei sua mão e fomos em direção à cozinha. Quando chegamos não parei, continuei até a sala. Sabia o que iria encontrar, mas não podia evitar. Sherlock estava deitado no sofá quase da mesma posição em que estava da última vez em que eu o havia visto. A diferença era que suas mãos não estavam mais juntas debaixo de seu queixo. O cansaço o venceu e ele acabou adormecendo. Era de se esperar. Havia muito nossas vidas já não eram as mesmas.

– Eu tentei chamar ele, mas ele não quis acordar. – Aidan disse olhando para Sherlock.

– É – eu disse sorrindo. – quando ele dorme é difícil acordá-lo.

Voltamos para a cozinha, acomodei Aidan em uma das cadeiras e comecei a preparar a bebida. Ainda estava muito quieto e ainda parecia assustado com o pesadelo.

– Sobre o que era seu pesadelo, Aidan? – perguntei. Ele hesitou um momento, mas logo respondeu.

– Eu estava no parque brincando com o papai. Aí ele jogou a bola muito longe. Eu corri para pegar e quando eu voltei o papai não estava mais lá. E tinha muita gente. Eu procurei, mas não consegui achar ele. Eu fiquei com muito medo.

– Oh, querido. Sim, esse é um pesadelo terrível. Eu também tinha um pesadelo assim quando tinha a sua idade.

– Eu não quero me perder do papai. – ele se agarrou mais ao ursinho.

– Claro que não. Foi só um pesadelo, querido. Seu pai nunca vai deixar você se perder. Nem sua mãe, nem seu tio Sherlock, nem eu, tudo bem?

Ele assentiu timidamente.

– Aqui. – eu disse entregando-lhe a caneca. – Cuidado que está bem quente.

– Obrigado, tio John. – ele disse deixando o ursinho de lado e pegando a caneca. Sentei-me na cadeira em frente a que ele estava e observei enquanto ele soprava o líquido quente.

– Tio, qual é o ingrediente secreto que vai me ajudar a dormir?

– Ah, eu não posso contar. Se eu falar não vai funcionar.

– Vai ter um gosto diferente?

– Não. Esse ingrediente não tem gosto. Pode beber que vai ter o mesmo gosto de chocolate comum.

Ele pareceu meio desconfiado, mas bebeu mesmo assim.

– Está bom? – perguntei.

– Arrã.

De repente um barulho alto veio da rua. O alarme de algum carro disparando. Não! Não, não, não! Logo em seguida um choro veio do andar de cima. Suspirei. Ai, ai! Levantei-me para ir até a sala e Aidan também já ia se levantando para me seguir.

– Tudo bem, querido. Pode ficar aqui e terminar seu chocolate. Eu já volto, vou só acordar seu tio.

Fui até a sala bem depressa, o choro não parava. Sentei na beirada do sofá e o chamei.

– Sherlock? Sherlock, acorde. – nada. Tudo bem então, Bela Adormecida. Inclinei-me para frente e o beijei. Levou pouco tempo para que ele acordasse e passasse seus braços em volta de mim. Gentilmente me livrei de seu abraço.

– Sherlock, preciso que você vá pegar a Luna. Estou com Aidan na cozinha, ele teve um pesadelo.

Ele ainda estava meio sonolento, mas assentiu.

– Tudo bem. Já estou indo.

Levantei-me para voltar para a cozinha enquanto Sherlock fazia seu caminho até o andar de cima. Não foi fácil decidir deixar que Luna dormisse sozinha naquele quarto. Mesmo com a babá eletrônica instalada eu não me sentia muito bem com ela tão longe de nós. Mas enfim Sherlock conseguiu me convencer, afinal ela não poderia dormir no nosso quarto para sempre. Infelizmente.

Sentei-me novamente na mesma cadeira esperando Aidan terminar seu chocolate. Logo o choro no andar de cima cessou.

– Tio, a Luna também tem pesadelos? – ele me perguntou, curioso.

– Eu não sei, querido. Talvez tenha, mas ela não sabe falar ainda para dizer se tem.

– Ah! – ele respondeu de repente perdido em pensamentos.

Era muito fofo observá-lo pensando. Ele ficava sério e concentrado, como se seu cérebro estivesse trabalhando em algo muito complexo e digno de todo seu esforço. Mal podia esperar para que nossa Luna chegasse a essa idade.

Aidan terminou de beber e me devolveu a caneca.

– Você quer voltar para a cama lá em cima ou prefere dormir comigo? – perguntei a ele.

– O chocolate vai afastar os pesadelos?

– Sim, querido, vai.

– Então eu vou voltar lá para cima.

– Tudo bem, então.

Ajudei-o a descer da cadeira e segurei sua mão para me dirigir ao andar de cima, para o quarto de Luna, que há muitos anos foi meu. Não era um cômodo grande, mas era o suficiente para caber um pequeno guardarroupa, um berço, uma cama e a poltrona em que Sherlock se sentava com Luna nos braços. A decoração também não era grandiosa. As paredes eram de um azul bem claro. Em uma delas, um pouco acima do berço, havia um adesivo de uma meia lua dormindo, usando um daqueles gorrinhos que têm um pompom na ponta. Em volta dela brilhavam algumas estrelas. Era simples, mas era o suficiente.

Uma luz fraca vinha da luminária em uma tomada próxima. Sherlock se balançava para frente e para trás na poltrona e conversava com o bebê baixinho. Quando viu que nos aproximávamos ele levou o dedo indicador aos lábios, pedindo que não fizéssemos barulho. Levei Aidan até a cama que ficava ao lado do berço de Luna e o acomodei nas cobertas. Dei um beijo em sua testa e sussurrei:

– Boa noite, Aidan.

– Boa noite, tio John.

– Você vem para a cama? – perguntei a Sherlock. Ele assentiu e fez um gesto indicando que eu fosse e que ele logo me seguiria.

De volta à cama meus pensamentos viajaram enquanto eu esperava por Sherlock. Às vezes isso acontecia. Eu me pegava lembrando como chegamos aqui. Parecia uma outra vida. Só havia cinco anos, mas parecia muito mais tempo desde que Sherlock e eu estávamos juntos como um casal. Desde o começo eu sempre tive a certeza de que meu lugar era ao lado de dele e que nós ficaríamos sempre juntos, que envelheceríamos juntos. O que eu não imaginava é que um dia formaríamos uma família. Sherlock definitivamente não fazia o tipo paternal e eu também não estava lá muito próximo disso. Mas quatro anos sendo tio Sherlock e tio John foram uma enorme mudança. Eu e Sherlock sempre fomos muito próximos de Greg e Molly e isso não mudou quando Aidan nasceu. Foi um pouco estranho no começo, nós não estávamos acostumados com bebês por perto. Mas aos poucos nos acostumamos e quatro anos depois lá estávamos com nossa Luna. Ao contrário do que eu pensava cinco anos atrás, Sherlock é um ótimo pai e acho que posso dizer que eu também estou indo bem. Luna foi a melhor coisa que poderia ter acontecido em nossas vidas.

Sherlock chegou ao quarto e meus pensamentos se perderam.

– Isso foi rápido. – eu disse.

– Ela só se assustou com o barulho daquele carro idiota. Não foi difícil fazê-la dormir novamente. – ele respondeu vindo para a cama e se deitando.

– Acho que nós deveríamos viajar no próximo final de semana. Molly e Greg podem devolver o favor e tomar conta de Luna.

– Deixar Luna? Está maluco?

– Nós precisamos de um tempo nosso Sherlock.

– Eu sei, é só que... Não sei se consigo ficar longe dela por tanto tempo.

– Também não sou muito fã da ideia, mas nós precisamos disso. E é você quem vive dizendo que temos que deixá-la crescer.

– Deixá-la crescer é bem diferente de abandoná-la por todo um final de semana.

– Como você é dramático! Nós não vamos abandoná-la.

– Eu sei, eu sei. Tudo bem. Vamos planejar uma viagem, mas só se não houver algum caso interessante em andamento.

– Feito! – eu respondi sorrindo e depois dando-lhe um beijo. Eu teria que pedir para Greg não passar nenhum caso para Sherlock no próximo final de semana, só para garantir.

– Eu acho que não vou conseguir dormir novamente. – ele disse passando os braços em volta de mim e chegando mais perto. Suas mãos passeavam em minhas costas, por baixo da camisa enquanto ele me beijava.

– Sherlock, as crianças...

– Estão dormindo. E eu tranquei a porta caso Aidan venha por causa de outro pesadelo. Você só tem que tentar não fazer muito barulho. – agora ele beijava meu pescoço e uma de suas mãos já estava no cós de meus pijamas.

– Isso é um pouco complicado, mas acho que posso tentar.

– Resposta certa.

Seu rosto parou bem próximo do meu enquanto ele me observava. Ele acariciou meu rosto e disse com um sorriso:

– Eu te amo, John.

– Também amo você, Sherlock.

~ THE END ~

Notas finais
And that's it! Agora acabou mesmo! =/ Me diverti muito escrevendo esta fic. Não ficou enooorme, mas foi a maior que escrevi até agora. Eu gostaria de agradecer a todos que acompanharam, leram e comentaram. É muito bom saber que vocês gostaram da história. Um abraço especial para as fangirls que surtaram comigo (claro que eu também tenho surtos que fangirl mesmo com minha própria fic. Johnlock sempre me faz surtar, haha!) Agradeço também à minha irmã, Mariana Souto, pelas ilustrações e pela betagem. Thanks, sis! ♥ E fiquem de olhou que logo tem mais Johnlock por aqui! ;) Até mais!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!